Kadamon, A Travessia
16 Canto 16
Aciru só deixara os dois músicos descansarem quando a manhã já estava quase pela metade. Terminada a conversa, que para Kyrion fora quase um interrogatório, declarou que sentia sono, deu um discreto bocejo e se retirou para o pequeno anexo em que ficava sua cama. Passou pelo arco que o separava do ambiente que fazia as honras de sala de visitas, afastando pouco as cortinas que garantiam sua privacidade. Pouco depois se lembrou de dizer que havia travesseiros e cobertas num grande armário de madeira, mas somente sua mão passou pelas cortinas, apontando enfaticamente o mencionado armário. No instante seguinte, toda ela sumiu.
Kyrion e Nokto se entreolharam, mas nada disseram enquanto se erguiam e pegavam o que precisavam para se acomodar nos sofás. Não se preocuparam muito, porque os sofás eram enormes e muito acolchoados, um total de quatro espalhados pela ampla sala, de forma que ficariam confortáveis. Kyrion mais uma vez pensou por que razão a amiga, mesmo apreciando o conforto, fazia questão de sofás tão grandes; somente naquela sala, duas dúzias de Acirus poderiam armar acampamento sem problemas.
“Já estive aqui muitas vezes, mas nunca vi a cama de Aciru.” Kyrion levou o cobertor dobrado e o travesseiro para o sofá que escolhera, um encostado à parede entre uma estante de livros e enfeites e um cabideiro repleto de chapéus e alguns cachecóis.
“Ela é bem reservada com sua alcova. Também só vi de relance.” Nokto recostara-se em seu travesseiro, apoiado no braço do sofá, um do par que ficava bem no centro da sala. Tirara o casaco, ficando somente com uma camisa justa de gola rolê sobre o corpo esguio. Puxou os cobertores até a cintura, e ajustou os braços atrás da cabeça. Kyrion esperou que ele dissesse mais alguma coisa, e Nokto logo continuou.
“Quase nada. Somente uma colcha bonita, rosa chá. Acho que só há a cama ali. Uma bem grande.”
Kyrion se contentou com a pouca informação que tinha. De toda forma Nokto não diria muita coisa sem Aciru presente, mesmo que ela estivesse a poucos metros e pudesse ouvi-los se elevasse um pouco a voz. O bibliotecário era de um decoro quase exaustivo, e a fofoca lhe parecia um crime. O mendeva fechou as últimas cortinas, grossas o bastante para encobrir a claridade das janelas, e se deitou, fixando o olhar no teto.
Alguns minutos se passaram sem que nenhum dos dois dissesse qualquer coisa. Concentrando-se bastante, Kyrion conseguia ouvir os rumores distantes da atividade matutina de Kadamon, entrando pela janela próxima ao seu sofá. Dificilmente conseguiria dormir muito, quando o dia estava já tão adiantado.
“Muito obrigado. Por ter-me acompanhado.” A voz de Nokto cortou o silêncio e quase sobressaltou Kyrion, que não esperava que ele falasse novamente. As palavras soaram francas, mas não tímidas.
“Eu é que agradeço. Suas composições são incríveis, e gostei muito de ter ajudado com as letras. As imagens são simplesmente... espontâneas. Elas simplesmente acompanham os sons.” O mendeva deu de ombros, ignorando que o outro não poderia vê-lo.
“Então nenhum de nós precisa agradecer. Foi um prazer.” O músico concluiu. Kyrion sabia que ele não iria além nos agradecimentos. Mas pode sentir a satisfação do amigo em poder compartilhar algo tão significativo com alguém, como era a música, em sua vida.
“Sim, foi um prazer.” Respondeu, para não se sentir constrangido com o silêncio. “Bem... boa soneca. Já que ‘boa noite’ não parece apropriado.”
Nokto riu pelo nariz, e apoiou os óculos na mesinha de centro. “Boa soneca.”
***
O delicado ranger da porta acordou Kyrion, que tinha dificuldade de ver o quarto, ainda imerso na penumbra das cortinas, e filtrado pelos cabelos prateados depositados nos olhos.
Virando-se no sofá, percebeu o vulto de Nokto, já vestido, apoiando uma grande bandeja com frutas, tramelas e pratos na mesa da sala, onde já aguardava uma jarra e três copos. O sofá onde ele dormira já estava arrumado, as almofadas recolocadas, e a roupa de cama desaparecera.
“Há quanto tempo está acordado?” a voz do mendeva saiu a contragosto, como se tivesse preguiça de se arremessar dos lábios.
“Há algum tempo” respondeu o bibliotecário, erguendo os olhos para fitar o amigo por dentro da armação de seus óculos. “Fui buscar alguma coisa para nós comermos no refeitório mais próximo, e optei por alguma coisa leve. Achei que não estariam com disposição para almoçar. Posso abrir as cortinas?”
Kyrion fez que sim com a cabeça, e levantou-se do sofá, dobrando a roupa de cama enquanto Nokto se adiantava para abrir todas as cortinas e janelas, deixando a luz e um vento fresco entrar. “Você é muito educado para dizer ‘Estou acordado há horas, preguiçoso’, mas se já está tudo arrumado e ainda providenciou comida..” Kyrion começou a dizer, em tom de piada.
Nokto deu um sorriso singelo “Há horas seria exagero dizer. Mas, de todo modo, durmo pouco.”
“Bem pouco... mas muito obrigado pela gentileza.” Kyrion se aproximou da mesa para pegar uma fruta, e viu que havia um grande prato com biscoitos, que foi igualmente atacado. “Aciru já acordou?”
“Eu a vi saindo da cama no exato instante em que saí pela primeira vez, para buscar o suco. Entrou no banheiro, e não saiu mais.” Nokto puxou uma cadeira e serviu- se da jarra, com um aromático refresco vermelho escuro, de frutas silvestres de mais de um mundo. Kyrion prestou atenção, e pode de fato ouvir o som de água correndo vindo da direção do banheiro.
Os dois amigos ficaram provando biscoitos e trocando banalidades enquanto esperavam por Aciru. Houve muito o que esperar. Decidiram, num acordo silencioso, economizar nos biscoitos e nas banalidades para quando ela saísse.
***
“Hoje está bem gelado” Kyrion esfregou os ombros. Depois do café, Nokto se despedira dizendo que tinha uma reunião com os fornecedores de livros de vários “planos”, o que quer que isso significasse; Aciru e o mendeva foram dar um passeio, e seguiam despreocupadamente o caminho que levava à praça defronte o atelier do Senhor Arborie.
“Sim. Mas não estamos no inverno ainda, não o verdadeiro inverno” Aciru disse simplesmente, sem nem voltar os olhos. Parecia entretida com pequenas plantas cinza- prateadas que nasciam num longo canteiro margeando o corredor.
“Difícil acreditar. Fica muito mais frio do que já está?” Kyrion ficou imaginando quantas camadas de roupa os habitantes precisariam usar para ter coragem de sair.
“Não, não muito mais que isso. Só que com neve”. Foi a simples resposta. “Imagino como a torre deve ficar com neve...”
“Os andares de cima ficam mais brancos e molhados.”
Aciru, estando de costas, não percebeu a careta em direção ao pompom de seu chapéu.
“Que dia começa oficialmente o inverno em Kadamon?”
“Em breve. Ano passado foi bem mais cedo. De fato, este ano está demorando.” Finalmente a inspeção às pequenas plantas terminara, e eles seguiram caminho.
“Quer dizer que a cada ano ocorre em um dia?”
“Sim, claro.”
“E o que determina esse dia?”
“Isso você vai descobrir quando o dia chegar.” Olhos brincalhões faiscaram sob a aba do chapéu.
“Mas como vou saber de fato, se não sei pelo que esperar, ou por onde procurar?” o mendeva ergueu uma sobrancelha.
“Existem muitas coisas que não precisam ser procuradas. Simplesmente não podem ser ignoradas. A menos que esteja trancado em uma masmorra.”
Aquela resposta, de alguma forma, bastou.
***
A tarde se estendia preguiçosa, espichando cada hora o máximo que lhe cabia. Um par de olhos semicerrados passeou por vários minutos, estudando a infinidade de janelas, varandas, telhados, arcos, colunas, plantas, reentrâncias, saliências e seres que uma única vidraça lhe permitia ver. Já fizera esse passeio outras vezes, e onde antes cabia deslumbramento e curiosidade, cabia agora uma familiaridade carinhosa e tranquila, como se o olhar pudesse acariciar tudo o que tocava.
Quando esses olhos pensaram mais seriamente em se fechar, foram surpreendidos por um movimento que vinha não de uma torre ou corredor, mas de um vão. Isso era estranho. Com mais atenção, os olhos captaram um flutuar branco e brando, em pequenos pontos.
Seria a primeira neve?
Um vento suave podia ser percebido pelo balançar das samambaias e vinhas enroladas nas colunas. Os pequenos pontos brancos dançavam no ar, como em um singelo bailar. Os olhos queriam sorrir, agradados por esse pequeno diferencial que tornava sua vista especial naquela tarde.
Os flocos aproximaram-se vagarosamente, e não caíam. Flutuavam irregularmente, e refletiam luz. Os olhos se ergueram, e notaram o céu sem nuvens. Sem nuvens que pudessem fazer nevar.
Seguindo os primeiros, novos pontinhos se aproximaram dançando, desta vez em um ponto mais alto, alguns andares acima. Não podia ser neve. Os olhos se encolheram, curiosos, cobertos por claras sobrancelhas.
Finalmente, alguns flocos passaram bem à altura dos olhos inquisidores. Não havia segredo. Eram borboletas. Brancas, mínimas, delicadas como se fossem pouco mais que o próprio ar.
Havia dezenas. Os olhos procuraram, arregalados, e facilmente encontraram outros grupos, rondando arcos, passando por baixo de passarelas, às vezes parando brevemente para cumprimentar uma flor solitária no frio. Outros passantes as notaram, e apontavam, sorriam, falavam com os outros. Curiosos chegavam, somando cada vez mais espectadores. Mas o número de borboletas crescia ainda mais bruscamente.
Quando elas se tornaram milhares, como uma chuva imensa que não tinha direção por onde cair, aqueles olhos saíram da janela, pois seu observador corria para falar com alguém. Com qualquer um.
***
Kyrion correu pelo corredor, e por onde olhasse, via a enorme nuvem de borboletas atravessando Kadamon, ao longo de muitos andares. Elas não entravam pelas janelas, e no máximo invadiam por poucos segundos os corredores, voltando sempre para fora e para o sentido que a grande massa parecia tomar. Elas tinham um objetivo, qualquer um, que escapava ao mendeva.
Também não se batiam, não se feriam, e no máximo roçavam levemente os observadores, como se conhecessem o caminho e estivessem cientes dos riscos.
Kyrion avançava em direção ao pequeno escritório de Aciru, mas hesitou no momento de cruzar uma ponte, atravessando a enorme massa. Parecia impossível atravessar sem atingi-las, pisá-las. Se elas não se chocavam com a estrutura, talvez pudessem desviar dele igualmente.
Kyrion tomou fôlego como se estivesse prestes a mergulhar numa cascata. Deu um passo, agitando os braços, tentando tornar-se bem visível para os minúsculos insetos. Estes imediatamente desviaram dele. Nem um mínimo roçar de uma asinha tocou-lhe o corpo.
“Você estava ridículo tentando chamar a atenção delas. Não vão parar por nada, até chegarem ao destino. Não se preocupe.”
Aciru estava já no meio da ponte, sua pequena silhueta quase coberta pelas borboletas que atravessavam o espaço vazio entre os dois. Kyrion temia responder e ter uma delas dentro da boca.
“Venha até mim.” A voz de Aciru soava calma, mas imperativa. Kyrion só notou que seu pé se movera quando quase perdeu o equilíbrio, hesitando com ele no ar.
“Ande. Venha normalmente. Confie nelas. A maioria já fez isto antes.”
Kyrion tocou o chão, depois deu outro passo. Como por mágica, a névoa de insetos abria-se para sua passagem. O turbilhão tornava-se menor, e a pequena ficava cada vez mais visível. Por fim alcançou-a, e aproximou-se, de forma que quase nenhuma borboleta passava entre eles.
“Como... como elas fazem isso?” Kyrion tinha dificuldade de focalizar somente o rosto de Aciru, havendo tanto movimento ao redor para distraí-lo, como uma chuva sufocante de confetes.
“Elas têm uma vida bastante longa. Para borboletas, quero dizer. Vivem alguns anos. E todo ano fazem essa viagem quando o tempo esfria muito, e há ameaça de neve. Elas podem cruzar grandes distâncias, mesmo com vento, mas são frágeis para o gelo.”
“Acho que elas se confundiriam com a neve...” Kyrion não sabia por que dissera isso em voz alta. Sacudiu a cabeça para se concentrar. “E para onde elas vão?”
“Para uma outra torre. Menor do que Kadamon. Ela existe exclusivamente para armazenar uma quantidade quase irreal de livros e, bem, de borboletas no inverno. Muitas mais vão para lá. Essa é apenas uma parte, que passa por aqui. É o maior grupo, mas não o único.” Aciru debruçou-se no parapeito, observando o voo através do precipício entre as torres.
Kyrion rodou os olhos, tentando conceber um local que servisse apenas para ler e abrigar borboletas. Ele tinha, tinha que visitar esse local.
“Por que não se abrigam em outras torres, da mesma forma?”
“Isso eu não sei. Pergunte ao Nokto, ele é mais acadêmico nesses assuntos. Pode ser instinto, para procriar. Podem simplesmente ensinar isso às mais novas, e nenhuma borboleta se questiona o motivo. Nenhuma pensa ‘Ah, seria mais prático parar por aqui, por que ir tão longe?’ Nenhuma insurgente. Ha, borboletas insurgentes...” Aciru parecia um pouco imersa em devaneios.
Kyrion debruçou-se igualmente no parapeito. Olhavam agora para a direção que as borboletas seguiam, voando pelo vão antes de desaparecer atrás de uma curva, dezenas de metros adiante.
“São todas brancas?” Perguntou, depois de alguns minutos de silêncio.
“Acho que sim. Essas que viajam, ao menos.”
“Há algo estranho... não só no número delas. Talvez na ordem com que se movimentam... Mesmo irregulares, elas parecem determinadas. Seguem essa direção mesmo...”
“Mesmo borboleteando.” Aciru completou. “É”
“Há outra coisa que talvez cause essa estranheza. É que algo tão numeroso e tão grande possa se movimentar em silêncio.”
O mendeva não notara isso antes. Mas era verdade; aquele turbilhão não produzia o menor ruído, farfalhar ou zumbido. Como tampouco lhes tocavam o corpo, se não fosse a visão, aquele espetáculo passaria despercebido.
“É difícil imaginar que algo tão magnífico, tão imenso... só seja percebido por um sentido. E que passaria inócuo a quem não tivesse a visão.”
Aciru suspirou, e por um instante, todo o peso de seus longos anos pareciam tomar forma e depositar em seus minúsculos ombros. “Muitas coisas, às vezes ainda maiores, passam despercebidas, porque alguém é cego para elas.”
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