Kadamon, A Travessia
15 Canto 15
Um dia acabara de se transformar em outro. Kyrion estava sentado na cama, pensativo. A apresentação fora combinada para a próxima noite, depois do jantar, em um refeitório pouco utilizado e que fora reservado por Atticus e Aciru.
Por muito tempo o mendeva refletira sobre o que poderia fazer para deixar sua participação mais interessante na apresentação. Sua voz era muito inferior ao som produzido pelo instrumento; cobrir-lhe com algo, na melhor das hipóteses, mediano, era não só desnecessário como criminoso. Após essa constatação, ficou decepcionado, como também surpreso por sua autocensura beirar a crueldade.
Depois de profunda meditação ocorreu-lhe uma ideia, talvez sua salvadora. Mas já vinha tentando pô-la em prática há mais de meia hora, sem sucesso. Começava a frustrar-se, repensando várias vezes o que poderia estar fazendo errado.
Algo estava faltando? Talvez mais intensidade. Algo sobrava? Seu acanhamento e crítica. Tentou se livrar o melhor que pôde de seus empecilhos, e buscou na memória as canções que seriam tocadas por Nokto na noite seguinte.
Repassou-as várias vezes, e conseguia cantá-las com facilidade; nada, porém, lhe ajudava no plano. Tentou alternar tons, fazê-las mais vibrantes, ver até onde podia estender ou intensificar a voz – estava profundamente grato pelas espessas paredes de pedra, ou muitos companheiros compartilhariam sua insônia. No fim, conseguiu alguns arranjos, mas nada mais.
Emburrado, decidiu tomar uma ducha quente antes de continuar, para relaxar e assim foi-se, cantarolando. Uma das canções, sua preferida do repertório, ficou em sua cabeça.
A meio caminho, sobreveio o estalo. Ele realmente gostava daquela canção, ainda que fosse uma das mais simples. Talvez com aquela funcionasse.
Alteou o tom ligeiramente, não como quem canta para uma plateia, mas como quem canta para um companheiro, uma criança, um amante. Alguém especial.
Fechou os olhos e deixou a canção se desenrolar, lembrando-a perfeitamente. Quase podia ouvir Nokto bailando os dedos velozes nas cordas de seu estimado Bastian, e ouvir o som preenchendo o ambiente, penetrando o espírito e alimentando a alma. Sem se dar conta, seus pés ensaiaram passos desastrados e livres, pelo simples prazer de sentir a música em todo o corpo, e não só os ouvidos.
A canção terminou como era de se esperar, e Kyrion se sentia bem. Conseguiu fazê-la acontecer livre de nervosismo, e viu-a crescer até envolvê-lo totalmente, um episódio certamente menor e mais suave do quando tocava Bastian por sua vez. O instrumento era muito melhor dotado para gerar este resultado e encantamento. Ainda assim...
Sua atenção fora atraída para o alto pé da cama, ornado de colunas nas duas quinas, onde pousava não somente uma – o que já seria notável – mas duas mariposas. Em Kadamon havia mariposas formidáveis, de asas sempre escuras, muitas vezes pontilhadas de branco como um céu estrelado.
Mas aquelas não eram assim. Eram azul celeste. Eram borboletas, não mariposas. Kyrion olhou para o relógio, e viu que os ponteiros marcavam a madrugada.
Só por segurança, olhou as janelas. Estavam fechadas, barrando a friagem úmida e vaporosa que assolava a torre nas últimas semanas.
Sorriu consigo mesmo, e continuou finalmente seu trajeto até o banheiro. Talvez sua ideia fosse dar certo, afinal.
***
Kyrion entrou no refeitório, certo do que encontraria. As mesas foram arrastadas para um canto, ficando somente uma e dois dos longos bancos. Estes serviriam para os poucos espectadores da apresentação, enquanto a mesa, maciça, pesada e não muito alta, seria o tablado para os dois músicos. Sobre ela, apenas um banquinho, separado para Nokto enquanto este tocasse; o mendeva deixara claro que preferia ficar de pé.
Obviamente o bibliotecário já estava lá, conversando com a pequena Aciru e com os dois cozinheiros que lhes eram íntimos. A única surpresa consistia nos bonitos arranjos de flores coloridas colocados habilmente na borda da mesa, brindando ao mesmo tempo os olhos e inundando o ambiente em um suave aroma. Aquilo, além de uma bela gentileza aos músicos, deveria, ao mesmo tempo, ser do agrado do encarregado de jardinagem, que ainda não chegara.
Nokto e Aciru notaram sua chegada ao mesmo tempo, e embora ainda conversassem, levantaram os rostos e lhe lançaram sorrisos, que pousaram mornos e reconfortantes em seu coração.
“O Senhor Arborie disse que virá em breve. Estava para terminar uma pequena tela que lhe foi encomendada, e logo depois tomaria um banho. Deve chegar acompanhado de Atticus, que fora visitá-lo para tomar chá.” Nokto disse, enquanto apertava a mão do mendeva.
“Sim, sim, sempre o chá. Um dia ele se afogará por dentro de tanto chá que toma.” Aciru disse, torcendo o canto da boca.
À menção do nome do encarregado, Kyrion sentiu seu estômago dar outra familiar apertada. “Acho que será bom conhecê-lo esta noite. Encerrará esse mito todo que o cerca.” Disse, suspirando.
“Ah, com certeza esse mito que você diz Atticus não merece. Mas mesmo conhecendo-o, vai ver que ele se cercará de outros mitos, e estes sim, têm fundamento.” Aciru interpelou o mendeva. Quando este abriu a boca para perguntar o que a pequena queria dizer com isso, ela o interrompeu “Por falar nele, acaba de chegar, junto ao senhor Arborie. E trouxe companhia, ao que vejo.”
Kyrion fechou a boca e torceu o pescoço com um movimento tão brusco que o fez estalar. Com efeito, o senhor Arborie vinha acompanhado de outros três homens e uma dama. Estava vestido discretamente, mas ainda assim com certa elegância, destoando dos demais, e de seu próprio hábito. Envergava um bonito casaco cinza chumbo e sapatos que brilhavam de tão engraxados.
Aqueles que o acompanhavam não estavam tão esmerados na aparência. À frente, vinha um rapaz de aparência jovem, da mesma espécie que Nokto, porém mais robusto, de olhos escuros e sua curta cauda oscilando enquanto andava. Logo atrás mais dois homens conversando, sendo o da esquerda um humano de idade madura, cabelos castanhos e pele morena, e o outro de uma espécie que Kyrion desconhecia; era da mesma altura que seu companheiro, coberto com uma pelagem – não, de uma plumagem— muito curta, cor de ferrugem, com partes ligeiramente mais escuras, pelo menos onde se podia ver e as roupas de inverno não escondiam. Nos ombros, plumas maiores se erguiam, ligeiramente arrepiadas enquanto ele caminhava; Mas afora as penas, nada mais nele lembraria uma ave, pois não tinha asas, mas braços comuns de mãos descobertas e de mesma cor, com unhas escuras, e de sua face não saía um bico, mas um rosto só parcialmente coberto pela plumagem. Esta começava na testa onde em muitos outros começa o cabelo. Seus olhos eram amarelos e encontraram os de Kyrion por alguns instantes, enquanto se aproximava, mantendo a atenção no que o companheiro ao seu lado dizia.
Todo este exame fora na verdade bastante rápido. Havia ainda uma estranha acompanhando o grupo, vindo atrás, somente um pouco afastada do senhor Arborie, e parecendo ouvir o que ele dizia. Era um bocado baixa, e deveria alcançar Nokto no peito, e Kyrion quase no estômago, mas tinha feições delicadas e olhos vivos, por baixo de uma franja repicada de seu cabelo meio ruivo. Pequenas orelhas se projetavam do cabelo curto, próximas a dois pequenos cornos de marfim; no fim das confortáveis calças de lã, Kyrion pode vislumbrar pequenos cascos fendidos, denunciando o parentesco com os sátiros ou faunos.
O grupo aproximava-se lentamente, E Kyrion teve tempo de passear os olhos por todos durante alguns segundos. Nenhum deles tinha qualquer traço que declarasse o encarregado de Jardinagem, o que o fez concluir que ele deveria ser jovem, ou indiferente à pompa de sua posição, senão as duas coisas, como seus amigos eram.
“Quem é Atticus? Não me parece o primeiro, então seria o homem maduro, ou o emplumado que conversa com ele?” a pergunta foi dirigida a Nokto, que acabara de pousar Bastian no banco, para se ver desembaraçado e cumprimentar os recém-chegados quando estivessem mais próximos.
“De fato, não é o primeiro, que conheço como sendo um moço que aqui está há poucos meses, de nome Rektahr. Acho que trabalha como secretário em algum setor. O humano atrás dele costuma comunicar ordens entre os andares medianos e superiores da torre, e o mestiço de roca que conversa com ele – pois assim se chama a espécie de quem ele é parente – é o gentil jardineiro que preparou esses arranjos de nosso palco, mas ignoro seu nome. De forma que nenhum dos dois é Atticus.”
Kyrion se viu desconcertado “Mas então, como... a moça?” ele se viu gaguejando, enquanto o grupo se tornava perigosamente próximo.
“Claro que não! Não nos referimos a Atticus mil vezes no masculino? A jovem deve ser alguma secretária dele, pois ele precisa de várias” interveio Aciru. “Atticus é aquele que está conversando com o senhor pintor.”
Franzindo o cenho, o mendeva olhou novamente para o senhor Arborie, que olhava para baixo e acenava com a cabeça, concordando com o que ouvia. De fato, ele não falava com a moça, que parecia agora muito distante dele, e não o encarava nos olhos, mas para algum ponto entre eles, coberto pelos dois homens da frente. Agora que estavam próximos o bastante, Kyrion viu que aquele com quem o pintor conversava estava efetivamente entre ele próprio e a senhorita.
“Sentimos pelo atraso, mas fui buscar pessoalmente o quadro que encomendei com Affonse em seu atelier. Ele pinta camélias divinamente” Uma mão diminuta ajeitou a gola do casaco, protegendo o pescoço de seu dono do frio “Depois, aguardamos que fizesse sua toalete, e partimos.” Concluiu a voz grave e baixa do senhor Atticus.
***
A primeira coisa em que Kyrion pensou ao pousar os olhos em Atticus foi: Ele é menor que Aciru.
De fato, perto do mendeva, ele parecia mínimo, enrolado em um casaco cáqui de tamanho infantil, mas cujos bolsos pareciam absolutamente desproporcionais, e que só ressaltavam seu aspecto roliço. Coberto por pelos, seu corpo, e mesmo seu rosto, eram malhados de negro e um branco escurecido, quase tordilho. Suas mãos e pés eram tão diminutos que pareciam os de um recém-nascido. Suas feições eram brutas, a mandíbula prognata e as sobrancelhas espessas, emoldurados por uma estranha e irregular juba negra à guisa de cabelos.
Apesar das proporções similares, Atticus carecia totalmente da delicadeza e leveza felina de Aciru, estando mais próximo de um canino atarracado e compacto. Mas se a natureza não fora generosa ao lhe doar formosura, não foi tão econômica ao lhe oferecer imponência e inteligência, facilmente visível nos olhos castanhos vivos brilhando no fundo do rosto, na expressão completamente confortável a despeito do atraso, mostrando que estava acostumado a fazer o que quer. Ou mesmo na voz grave e segura, saindo da boca larga, desproporcional ao dono, que ecoava a segurança de quem sempre era atendido nas ordens que dava.
Todo esse era o conjunto que compunha o encarregado Atticus, finalmente revelado ao Kyrion. Mesmo ocupando um espaço tão modesto em seu campo de visão, o figurão merecia sempre um estudo intenso e prolongado de quem o via pela primeira vez, e era com frequência um estudo pouco prazeroso. O mendeva tentou estudá-lo somente o tempo possível, sem parecer indelicado. Talvez um pouco mais.
“Não se preocupe, Atticus. Não estipulamos sequer um horário rigoroso para apresentar. Estamos todos à vontade.” Disse Nokto, que acabava de cumprimentar o humano com um aperto de mão. Este agora se dirigiu ao Kyrion, que a apertou também, enquanto notava com o canto do olho o gesto que Nokto fizera para saudar Atticus: pusera a mão na altura da barriga e fez uma ligeira mesura, retribuída com uma mesura ainda menor por parte do encarregado da jardinagem. Kyrion deduziu que era muito desagradável para este espichar-se até alcançar a mão de quem o cumprimentava, e era provavelmente ofensivo abaixar-se nos joelhos ao lhe dirigir a palavra, como se faz com uma criança.
Agora já ciente do que precisava fazer, Kyrion estava pronto quando Atticus lhe dirigiu a palavra. “Finalmente tenho o prazer de conhecê-lo, Kyrion dos mendevas. Temia que um ano inteiro se passasse antes que eu pudesse saudá-lo.” Disse a voz grave e cerimoniosa, acompanhada pela curta mesura.
“Estou encantado em conhecê-lo pessoalmente, senhor Atticus, e sinto igualmente que tanto tenha tardado.” Respondeu o mendeva, fazendo por sua vez a mesura. “Mas compreendo que é muito ocupado, e temi pedir uma visita a Nokto ou Aciru e acabar somente por importuná-lo.”
“Seria de fato uma viagem bastante longa, para correr o risco de não me encontrar lá embaixo. Mas ao menos nos encontramos em uma circunstância auspiciosa, já que nos brindará com a música, junto a Nokto. Já tive o prazer de ouvir este promissor musicista.”
“Não tenho nada de tão belo a oferecer, como Nokto com sua música ou mesmo o senhor e sua equipe e seu formidável trabalho com as plantas e flores de Kadamon.” ao dizer isso, Kyrion incluiu com um gesto o meio-roca, que sorriu grato pelo elogio. Atticus foi menos efusivo, inclinando a cabeça com um gesto de aceitação.
“Mas conheço o nível de exigência de Nokto, especialmente quando se trata de música, seu maior... interesse.” Mesmo Atticus achava impossível dizer que Nokto tinha qualquer ‘paixão’. “Se sua música o desagradasse, estou certo de que o saberia no mesmo instante.”
“Na verdade fico bastante satisfeito por ser acompanhado pelo Kyrion.” Nokto deu um de seus preguiçosos sorrisos, pegando Bastian e subindo ao palco improvisado com um único salto. Kyrion espantou-se com a explosão de energia que o bibliotecário mostrara, mas seguiu seu exemplo, alcançando-a com os pés no primeiro salto.
Todos se ajeitaram nos dois bancos dispostos e aguardaram. Aciru e Atticus obviamente estavam no primeiro. “Vejo que o Kyrion não traz nenhum instrumento.”
“Não, é verdade. Ele vai cantar.” Respondeu Aciru, simplesmente. Atticus apenas levantou uma sobrancelha, mas nada comentou.
Um rápido dedilhar em Bastian, enquanto Kyrion se posicionava à direita do músico. Com uma troca de olhares, a canção começou. As luzes, já amenas, tornaram-se ainda mais difusas, exceto a que se posicionava sobre o palco.
***
A primeira canção era uma balada, que os dois amigos nunca decidiram perfeitamente o que representava. Tinha um ar frívolo e aventuresco, como as histórias de heróis invencíveis que encantam os jovens, ou as jornadas para terras longínquas onde tudo é surpresa e nada é segredo.
De repente, uma nota teve por companheira a voz suave e divertida, mesmo sem formar palavras. Não era perfeita, mas parecia velha companheira, marcada com gestos suaves das mãos. Talvez por efeito da luz, as mãos do mendeva pareciam brilhar ligeiramente...
A música alcançou uma parte empolgada, semelhante a uma cavalgada poética, e das mãos derramou-se luz; luz que caiu em partículas que aterrissaram nas flores e cobriram-lhes de um orvalho milagroso. O ar preencheu-se de borboletas, mariposas e vaga-lumes, dançando erráticos e cintilantes contra a penumbra por alguns minutos.
Depois se foram, fragmentando-se em pó brilhante, como se atingidos por uma lufada de vento que não se ouve e não se sente.
A partir das flores do palco, outras dezenas pareciam florescer da própria madeira, descendo pelo suporte da mesa e desabrochando lentamente no chão de pedra e ardósia, como se fosse um rico solo. Chegaram por fim aos pés dos bancos e os ornaram com delicadeza e requinte, fazendo bela companhia aos espectadores. A diminuta mão de Aciru tentou fechar-se sobre uma margarida ao seu lado, e sorriu quando seus dedos atravessaram sem nada sentir das pétalas douradas. No entanto, a flor continuou lá, até o fim da música, quando o cantor dos prodígios elevou ambos os braços e as fez retornar ao pó de onde vieram.
***
A segunda canção teve um começo ameno e contido, como uma dúvida, ou como um temor. As notas pareciam terminar num suspiro, e a voz que a acompanhava estava macia. O prodígio do mendeva dessa vez elevava-se lentamente do meio do palco, assumindo uma forma mutante, mais ou menos definida.
Algo semelhante a um corpo formou-se, instável, como se feito da fumaça de um incenso. Braços etéreos se abriram, e pernas de ar se moveram, num lento dançar, que estava e não estava ali.
Um ser que não é muito, que é meio imaginário,
Meio oco, ou meio sonho, mas que é todo mistério.
Esta coisa, que é bênção, é também o meu martírio;
Pois se em meio às coisas vãs, sou visível, sou notório,
Frente aos bálsamos da vida, sou vazio, sou espúrio.
Deste trono que me deram, nunca usei, nunca fui páreo.
Do nublado dia pego o lado fosco, o ar cinéreo,
Nas palavras teço os tons do filho do círculo empíreo,
Das estátuas esculpi meu próprio encarar marmóreo,
Mal da noite me esquivando até o amanhecer purpúreo.
Neste eterno flutuar está meu labor diário,
Sendo intenso ou sendo imenso, num conflito pouco sério.
Deslindado em pouco caso, sou ocaso, sou delírio;
Quase nunca sou desejo, sou um tédio predatório,
Meu nome nunca é gritado, mas surrado num murmúrio.
A forma bailou essas palavras, sua própria existência dependendo delas. Embora não tivesse feições claras, dois pontos de luz indicavam seus olhos sem pálpebras e sem repouso; encarando a plateia, foram essas luzes as últimas a desaparecer, quando o corpo evaporou-se até sumir ao final da última nota.
***
Um allegro que fez as luzes se desprenderem das paredes e do teto, para dançar entre os presentes; uma valsa de beija-flores, seu voos dardejantes no ritmo artificial, porém estranhamente belo do dedilhar em Bastian; uma chuva prateada e que parecia quase morna, sem sequer molhar, mas que lavava a alma da mesma forma que as notas límpidas; sons de um desejo errático e opressor, avolumado em tons graves e densos, na voz rouca e sussurrante, no movimentar das sombras que habitam os cantos, cuja existência só a esguelha testemunha.
A noite passou rapidamente, ignorada por todos os participantes; as despedidas dos músicos, como sua abertura, era um último convite à imaginação...
Fui tolo, envolvido em ilusão.
Tentei erguer no céu o meu castelo.
Resplandeceria este, de tão belo,
Fartando-lhe de luz qualquer visão.
Encheu-me o peito de alegre afeição.
De pronto a tal projeto me proponho.
Tracei o plano exato de meu sonho,
Dispus toda matéria minha em mão;
Das nuvens passageiras fiz meu chão.
Translúcidas paredes de cristal;
Torre imponente e imaterial,
De ar e éter fora o meu salão.
Ergui-o sempre em cândida emoção.
Que fosse ele ao amor como um farol.
E era tão alvo e tênue, que o Sol
Invadia-lhe com a luz cada vão.
Tão logo terminei a criação
O vento, no castelo, foi soprar;
Dançando fora o sonho pelo ar,
E nunca mais dele eu soube então.
***
As palmas foram as mais entusiásticas. Os rapazes da cozinha faziam suas mãos ecoarem o espanto que refletiam em seus olhos; Aciru, de pé no banco, assoviava, e parecia ter nos olhos um brilho diferente e mais úmido; Atticus, ainda um pouco mais contido, aplaudia sem estardalhaço, mas com sinceridade, enquanto a dama que o acompanhara, vítima de sua sensibilidade, tinha as palmas abafadas pelo lenço que tentava, em vão, livrar seu rosto das lágrimas.
Kyrion e Nokto agradeceram, curvando-se muitas vezes, presos ao palco pelas pelo aplauso duradouro. O mendeva não esperara tamanha comoção, mas sentia-se grato, feliz por uma missão bem cumprida. Notou em Nokto um sorriso um pouco mais amplo que o seu habitual, pois nem seu temperamento estoico era tão imune à alegria geral. Passado o tempo que consideraram educado, os dois desceram do palco, recebendo cumprimentos de sua pequena plateia, enquanto o eco terminava sua última nota de aplauso.
“Bravo! Bravíssimo! Nunca ouvi em Kadamon recital semelhante, e acho que em nenhuma vida que minha memória alcance.” O humano cumprimentava Nokto e apertava-lhe a mão, enquanto Aciru, sem dizer qualquer palavra, alcançou num salto o pescoço de Kyrion, e enterrou seu rosto no pescoço do mendeva. Sorrindo, este envolveu a pequena num abraço, sustentando-a delicadamente. Sentiu na pele o ligeiro calor úmido, mas guardou silêncio desta pequena homenagem. Seria somente seu o lisonjeiro segredo de ter feito a orgulhosa Aciru chorar, mesmo um pouquinho.
Discretamente seca no pelo macio do mendeva, Aciru desceu, sorrindo-lhe, e foi falar a Nokto. Atticus aproximou-se do mendeva. “Tenho que parabenizá-lo, Kyrion, pela belíssima apresentação. Estou agradavelmente surpreso. Espero ser comunicado de qualquer outro espetáculo.” Fez novamente seu cumprimento com a cabeça, o que Kyrion retribuiu. “Fico muito satisfeito de sua apreciação e gentileza, senhor Atticus. Espero que tenhamos o prazer de sua presença novamente.”
Depois da resposta, Atticus já se preparava para partir, sem dúvida para cumprir mais algumas obrigações até o nascer do dia. A moça que o acompanhava ficou embaraçada, incerta de segui-lo ou apresentar seus cumprimentos. Pegou as mãos de Kyrion com força. “Perdão pela... pressa. Parabéns!... Foi lindo, tão lindo! Nossa... ah... tenho que ir!” dizia entre soluços, antes de correr para alcançar Atticus, várias vezes se virando para pedir mais desculpas e gritar novas congratulações.
O humano e o jovem robusto chamado Rektahr apresentaram seus últimos cumprimentos e também partiram. Os cozinheiros, dando mil vivas, despediram-se dizendo que pretendiam dormir ainda um tanto antes de preparar o café da manhã, deixando apenas o senhor Arborie e o jovem meio-roca junto ao trio de amigos.
“Meu jovem Nokto, acho que tocou melhor esta noite do que costuma fazer em meu atelier, o que já é notável.” O senhor Arborie tinha um sorriso quase triunfante nas feições enrugadas “Um palco lhe faz muito bem. E o senhor, jovem Kyrion, pintou no ar o que jamais sonhei por em uma tela. Mas saiba que estou muito tentado a fazê-lo!”
Kyrion sentiu sua mão ser sacudida pelas mãos delicadas e firmes do pintor, enquanto Nokto se adiantava “Seria um quadro muito interessante...”
O pintor parecia cansado, ainda que extasiado pela apresentação. “Sinto não poder ficar mais tempo, mas se no passado me veria tentado a pintar dez quadros antes de minha alegria minguar, hoje o travesseiro me chama, e a alegria repousa em minha mesa de cabeceira, até que o velho esteja pronto para servir de veículo novamente. Pequeno Dion, poderia me fazer companhia?”
O mendeva olhou para o Roca, e notou pela primeira vez que seu rosto estava molhado de pranto, e que não tinha a menor intenção de ocultá-las, fosse por essa educação estranha que proíbe a todos de ofertar suas lágrimas, fosse por essa culpa cruel que coíbe os sensíveis e os rebaixa a fracos. Saindo de certo devaneio, o jovem, moveu afirmativamente a cabeça para o senhor Arborie, que já preparava para partir.
Moveu seus olhos para encontrar os de Nokto e Kyrion, e sorriu. Seu sorriso expandiu-se muito além dos lábios, iluminando seu rosto inteiro, alegrando seus olhos, afofando as plumas que adornavam sua fronte; esse sorriso cresceu muito além daquele que sorria, tocando os outros em sua admiração, traduzindo sua alegria em gratidão e euforia. Ninguém passou ileso àquele gesto que disse tanto, em tão pouco tempo, e em tão suave silêncio, exceto o idoso pintor que, já de costas, seguia o caminho para seu atelier. Logo foi seguido pelo Roca, que se precipitou em sua direção, cessando tão subitamente sua magia quanto começou.
Kyrion estava meio alheio, pois levou algum tempo para sentir a pequena mão de Aciru puxando-lhe a camisa.
“Venha, saia desse torpor. Não se permita mergulhar demais no canto de um Roca, Kyrion.” A pequena insistiu com mais ênfase, até arrancar o amigo completamente da distração.
“Ah... canto, você disse?” Kyrion se concentrou outra vez, deixando para mais tarde se gostara ou não da sensação que aquele estranho sorriso deixara impresso em seu espírito.
“Sim. Um canto sem voz, mas um poderoso encantamento, que é herança da parte Roca de sua família” Nokto ajeitou os óculos, para dissimular o efeito que restara e que não queria abandonar seu rosto.
“Você parece fazer questão de salientar que ele é apenas meio—Roca, Nokto.” Aciru ergueu uma sobrancelha. De todos, era a menos afetada pelo suposto encantamento.
“Gosto apenas de deixar claro o que as coisas são, sem generalizações.” Nokto deu de ombros. “De toda forma, se fosse um Roca completo, os efeitos poderiam ser mais devastadores. Acredito até que ele nem tenha pleno controle dessa habilidade, ou não a teria desperdiçado num gesto tão fortuito.”
Aciru não parecia de todo convencida, mais pela primeira afirmação que pela segunda. Optou por mudar de assunto, voltando-se novamente para Kyrion. “Você não deve ter me ouvido quando convidei vocês dois a passarem o restante da noite no meu quarto. Quero saber melhor como organizaram essas apresentações, e como você, mocinho, conseguiu criar essas imagens sem Bastian dessa vez. Talvez, depois disso, possa deixá-los dormir.”
A pequena puxou os dois pelas mãos, resolvida a tomar a decisão por eles, certa de não ser frustrada no pedido. O trio formou uma curiosa silhueta contra a luz do refeitório, como a daquelas famílias cujos filhos pequenos gostam de levar os pais para passear.
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