Kadamon, A Travessia
14 Canto 14
Dessa vez sentia nos ossos que tinha pouco tempo. Mesmo as imagens pareciam menos nítidas, como se a realidade esfiapasse nas extremidades, ou estivesse prestes a se esgarçar. Aquele local era antigo, e só podia ser visitado por quem estivesse na vibração adequada. Precisava ser breve.
O interior era totalmente branco, como o era o exterior, as construções alvas na ladeira pálida e gasta. Quase nada havia ali: uma mesa de madeira pintada de branco com uma única cadeira, uma jarra de porcelana nela apoiada, uma prateleira na parede com três livros sem título e um relógio de parede com pêndulo.
A luz era fraca, entrando pelos vidros da janela fechada e sendo filtrada pelas cortinas puxadas. Mas a treva nada podia fazer ali, sendo o ambiente claro e sem nenhum segredo... Que lhe fosse precioso.
Sentindo um ligeiro peso, notou que trazia na mão um ramalhete de flores. Eram elas todas alvas, mas de espécies diferentes, indo de uma grandiosa flor semelhante a um girassol descolorido, a uma pequena e singela tulipa. Eram sete, frescas e recém-colhidas.
Não sabia o que fazer ali. Temia sair novamente e perder a oportunidade que agora tinha, podendo só retornar dali a meses. No fundo, sentia que se saísse, simplesmente acordaria. Ou talvez nada encontrasse, ficando inerte no vazio até que a manhã lhe invadisse o quarto, pois o exterior não existia agora. Era assim a natureza daquele mundo de sonhos, que aos poucos lhe revelava os mistérios.
Adiantou-se para a mesa, a fim de depositar as flores e inspecionar os livros, que talvez lhe dessem algum esclarecimento. Ao se aproximar, notou que a jarra estava cheia de água fresca a límpida. Ondulava fracamente, ao sabor de alguma vibração que ele não sentia.
Num ímpeto de simpatia, colocou as flores na jarra e viu se acomodarem num belo arranjo, seus tamanhos e formas diferentes fazendo com que todas ficassem visíveis naturalmente, seus detalhes enriquecendo e contrastando com as vizinhas, formando assim um belo conjunto. Pensou o quanto seria bom se os indivíduos assim se comportassem.
Sentou-se na cadeira a fim de contemplá-las, e apenas isso. Bastava. O breu o envolveu e o sonho acabou.
***
O inverno em Kadamon continuava bastante frio, mas não desagradável para seus habitantes. O frio chegava repleto de convites para conversas agradáveis em frente à lareira, caldos quentes e encorpados nos refeitórios, bebidas doces e aquecidas.
Kyrion vira mais algumas vezes o cantar das fanfuille, cada vez com o mesmo encantamento da primeira. O bailar colorido de suas pétalas era formidável especialmente para as crianças, e seu riso era tão agradável quanto as plantas em si.
Também se apresentara duas vezes, uma narrando a beleza de tempestades em terras luxuriosas e verdejantes, outra cantado as belezas cristalinas do próprio inverno. Os espectadores foram igualmente receptivos às terras férteis e úmidas, e à esterilidade sonolenta e poética das terras geladas.
Muitas vezes conversara com Aciru e Nokto, e nenhuma vez eles traíram os segredos que pareciam ter combinado entre si. Sua presença, no entanto, não era menos agradável. Seu amigo dourado há muito tempo não vinha, de forma que não tinha surpresas, e sua vida acomodou-se no ritmo daquela nova estação.
Um dia, porém, ocorreu-lhe de tentar algo novo, inspirado nas palavras de seu amigo alvorecer ausente. Perguntou por um dia em que Nokto iria ao atelier do Senhor Arborie para praticar, indagando se poderia acompanhá-lo. Assim, uma tarde ficou desta forma combinada.
“Boa tarde, Senhor Arborie.” Kyrion entrara no atelier, e sentira o ar morno e delicioso ali dentro, com seu perene cheiro de tinta agora misturado ao aroma de café.
“Muito boa, jovem senhor. Pendure seu casaco ao lado da escada e sirva-se de café. Peço desculpas por não servi-lo eu mesmo, mas sua xícara ficaria lastimável.” O idoso pintor saíra de trás de uma tela particularmente grande, estando ele mesmo particularmente coberto de tinta e com um sorriso particularmente amplo.
“Não se preocupe, senhor Arborie. Já é muito gentil.” O mendeva tirara o casaco e desenrolara o cachecol, pendurando-os em um ganho na lateral da escada. Uma pequena mesa encostada à parede tinha um bule fumegante e aromático, uma xícara limpa e outra parcialmente cheia de café, totalmente borrada com dezenas de camadas de tintas coloridas. Era até pitoresca, a peça de louça que o pintor elegera para si como sua antiga companheira, deixando as demais impecáveis para suas raras visitas.
“O jovem Nokto subiu agora mesmo, não tocou nem uma nota.” O pintor indicou a escada com o cabo do pincel.
Murmurando mais um agradecimento pelo café, Kyrion subiu as escadas com sua xícara e entrou no quarto, alcançando o músico quando ele sentava-se para afinar Bastian. Kyrion sabia que o amigo fazia tal prática apenas como pretexto para acalentar e manusear o instrumento, já que este nunca precisara ser afinado desde que o ouvira pela primeira vez.
“Tenho uma nova peça para lhe mostrar.” Nokto disse sem nem mesmo erguer seu olhar das cordas. Mesmo o pousar de uma pluma não poderia lhe escapar. “É incomumente romântica para meu estilo, mas me agradou o espírito.”
“Perfeito. Mostre-me. Depois pedirei que a toque um pouco mais lentamente.” Kyrion disse, acomodando-se no sofá defronte, com a xícara entre as mãos para aquecer os dedos. Nokto fez uma expressão curiosa, mas começou a tocar.
***
Era, como Nokto dissera, uma peça romântica. Tinha um principiar dócil e leviano, como o encontro a amigável e despreocupado de dois jovens, desconhecendo o fato que se tornariam amantes. Essa pureza era agradável aos ouvidos e à alma, como uma paisagem de primavera. Muito aos poucos, notas mais profundas emprestavam um tom diferente à melodia, tingindo-a com os primeiros matizes do amor.
A canção desenrolou-se alegre, quando a visão de amor tornara-se transparente e o brilho desse sentimento rutilou nos corações arrebatados. Trechos mais dançantes eram a felicidade incontida do casal; trechos mais lentos eram os poentes bucólicos contemplados a dois; trechos amenos e sibilantes eram as confissões sussurradas entre lábios que sorriam, e ouvidos que recebiam.
Mas algo nessa esplêndida construção começara a desmoronar, e o amor viu-se frente a frente com uma separação inesperada. Oh! O desespero de um adeus! As súplicas de fidelidade! As lágrimas de inconformismo! As promessas de retorno!
Os dedos de Nokto teciam agora a figura cabisbaixa do amante que ficara, só, desamparado. Qual deles? Impossível dizer. Só se dizia da imensidão de sua dor e do vazio que trazia consigo.
O músico balançou essa tristeza nos braços, embalando essa solidão por um tempo em notas sofridas, tenazes, depois amenas. Mas era piedoso; fez um pouco de esperança nascer desse caos e atenuar essa fissura, notas amorosas escrevendo seu sonho de estabilidade e harmonia vindouras.
De súbito, sons curiosos, diferentes. Céus! Algo inquietava. Algo remexia aquelas brasas, reacendendo um fogo temeroso e palpitante. Surpresa! A esperança engordava. A canção alteava. Era? Era sim! O amor voltava!
Ah, o reencontro. Eram notas sublimes, do grave profundo ao agudo estalante, como uma onda quebrando, avassaladora. Toda a tristeza partira, acuada e encurralada por este sol radioso que é a paixão. O retorno era ainda mais doce que o encontro primeiro, pois se este último desconhecia o penar pela falta do amado, o segundo sofrera os algures de quem sabia ser, somente, uma metade.
E assim terminava a peça, na alegria cândida dos dois amantes, cujas promessas estavam tecidas na boa-vontade do porvir.
***
A atmosfera sempre tinha uma nova densidade quando Nokto silenciava o instrumento; desta vez o ar parecia mais suave, rarefeito. Suspirar parecia mais efetivo do que respirar.
“É uma peça... formidável.” Kyrion conseguiu dizer “Você daria um ótimo romântico se assim quisesse. Acho que nenhum coração escaparia ileso a isso.”
Nokto deu seu meio-sorriso, talvez ligeiramente constrangido pelos cumprimentos. “Obrigado, Kyrion. Não é mesmo minha área mais familiar...” Nokto interrompeu-se ao ouvir um ruído vindo do andar de baixo. O senhor Arborie expressava sua aprovação com palmas entusiásticas. Era possível imaginar as gotículas de tinta de suas mãos se projetando nos lugares mais fantásticos do atelier.
“Não pareço ser o único que duvida um pouco do que disse agora, Nokto.” O mendeva provocou, sorrindo.
O bibliotecário deu de ombros, incerto do que dizer. Mudou de assunto. “Disse agora pouco que gostaria de ouvir a peça duas vezes, a segunda um pouco mais lenta. Por quê?”
“Ah, sim.” Depois de ser envolvido na música, Kyrion se esquecera completamente do que pretendia fazer. “Toque novamente, por favor. Não tão lentamente, talvez.”
Nokto pousou as mãos nas cordas de Bastian e recomeçou a melodia. Esse novo ritmo empreendia uma característica ainda mais terna ao tema. Kyrion aguardou, escutando atentamente; haveria um momento que seria oportuno.
‘Nós temos um amigo cuja especialidade é a composição de canções. Nós muitas vezes cantamos o que ele compunha. ’
As palavras do dourado que o motivaram ainda estavam claras em sua mente.
Sentiu-se tomar fôlego suavemente, e fechar os olhos, num gesto natural.
‘ Você, em particular, ajudava-o grandemente. ’
Sua voz saiu sem palavras, mas sem hesitação. Acompanhava facilmente as notas, quase por instinto. Não era prodigiosa, mas macia, fresca.
A canção seguiu seu trajeto, agora com o mendeva para acompanhá-la. Não tinha mais o tom somente de seu criador, mas a de seu companheiro igualmente.
Nokto foi imperceptivelmente retornando ao ritmo original, quando sentiu que o outro poderia acompanhá-lo. E ele mesmo redescobriu um prazer que lhe parecia perdido; recomeçar a compor já era por si só um reencontro sem preço consigo mesmo. Mas fazê-lo acompanhado tinha outro sabor.
***
Amor, rivalidade, tragédia, infância, festa, mágoa, suspense, pompa, união. Tudo foi tema para o músico e seu dedicado aprendiz, este se valendo de sua voz, aquele de seu dedilhar habilidoso. E ambos, de espíritos muito ricos e criativos, incapazes de caberem somente em seus corpos, vindo a se ramificar, florescer e frutificar em uma infinidade de obras.
Sonhos. Saudade. Doçura. Estes temas foram os mais prósperos, e de uma execução irrepreensível.
Tão logo se sentiu apto, Kyrion aceitou a ideia de cantar para uma plateia. O senhor Arborie parecia dividido entre o encantamento envolvente típico de uma apresentação pública, e o ciúme de perder as apresentações particulares que tinha sobre seu pequeno atelier. No fim, incentivou a proposta.
A princípio, apenas Aciru, alguns funcionários da biblioteca, dois cozinheiros que se tornaram amigos dos músicos e o próprio pintor assistiriam ao ensaio. Mas a pequena amiga perguntou se poderia trazer um convidado.
Isso muito espantou os dois, especialmente o mendeva, que não imaginava quem poderia ser. A pequena, não muito afeita ao suspense, disse de imediato que era apenas um amigo, amante da música, e digno de opinar no primeiro ensaio público dos dois, por ter uma visão notável, grande cultura e especial sensibilidade: o Senhor Atticus, encarregado chefe dos jardineiros.
Kyrion se afligiu um tanto, pois não sabia se seu parco e frágil cantar seria capaz de agradar ao figurão. Nokto, por sua vez, parecia relaxado (não que sua fisionomia traísse antes qualquer tensão. Apenas seus olhos poderiam fazê-lo), e insistiu para que o encarregado viesse. Percebendo o colega acanhado, foi enfático: “Veja-o como amigo de Aciru, e apreciador da música. Não vai julgá-lo ou ofendê-lo, pois o conheço bem.”
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