O vento estava fraco, mas parecia capaz de atravessar toda a roupa, arrepiando cada pelo no corpo de Kyrion. Para ele não era uma sensação tão ruim; na verdade, era interessante, já que não sentira esse frio em nenhum outro dia de sua estadia em Kadamon. Segundo Aciru, esse clima seria a perspectiva dos próximos dias ou mesmo semanas, antes que a primeira neve caísse.

“Não podem me dizer por que estamos subindo a um terraço?” a pergunta se dirigiu às duas figuras encapuzadas à sua frente; uma pequena, em azul celeste, duas orelhas pontudas fazendo uma forma curiosa no capuz e duas pernas agitadas terminando em botinhas brancas; a outra em um casacão marrom até os tornozelos, esguia, com passos mais calmos que acompanhavam bastante bem os da outra figura.

“Saberá muito em breve, Kyrion. Chegaremos lá em tempo, espero.” A resposta veio de Nokto, sua serenidade eterna fazendo um duo perfeito com a frieza do outono.

“Não tivemos ventos fortes esses dias, e me certifiquei com Atticus de que todas as fanfuille do terraço estavam prontas.” Disse Aciru, seus passinhos apressados em nada diminuindo seu fôlego.

“Posso ao menos saber o que são as ‘fanfuille’, ou quem é Atticus?” Kyrion perguntou, sem grandes esperanças.

“Sobre as fanfuille, não. É parte da surpresa. Sobre Atticus sim, ele é o... oras, não posso dizer sem que você adivinhe sobre as fanfuille. Bom, ele é o principal encarregado de um setor muito importante da vida em Kadamon. Um a que todos admiram, mas poucos davam a devida importância. Pelo menos até Atticus chegar.” Aciru disse, convicta. “Não deve conhecê-lo, Kyrion, porque ele costuma ficar nos andares mais inferiores da torre. Costuma mandar ordens de lá que são transmitidas por toda Kadamon até o topo, através dos demais encarregados.”

“Ele é então um dos chefes da torre?” Kyrion ficou surpreso por nunca ter ouvido falar de tal figurão.

“Surpreendentemente, sim.” Disse Nokto, um pouco pensativo. “Embora, por sua posição, não devesse ser. Ele não é de um setor administrativo ou de comando direto. Ele é simplesmente respeitado por sua sensatez e eficiência, e consultado com frequência sobre os mais diversos assuntos. Mas sua verdadeira alçada é bem mais específica.” Concluiu o bibliotecário, somando mais mistério do que elucidando os anteriores.

“Vocês estão muito bem relacionados entre os altos funcionários da torre.” Kyrion comentou, tentando não parecer irônico. Aciru e Nokto trocaram um olhar, enquanto seguiam o tortuoso caminho ao topo daquele setor de Kadamon.

“Relacionamo-nos com alguns chefes de setor por causa de nossas funções. Sou o encarregado chefe de todas as bibliotecas e encomendo pessoalmente um sem-número de volumes dos diferentes mundos para cá. Aciru é a cabeça do setor de recepção e encaminhamento de novatos da torre, além de dirigir excursões, trajetos e presidir algumas reuniões. Além disso, ela é uma veterana aqui.”

Kyrion pensou por um momento que tropeçara em uma massa particularmente densa e errada de ar.

“Por que nunca disseram isso antes? Como nunca contaram sobre suas posições de prestígio como funcionários da torre?” Kyrion perguntou, entre o curioso e o exasperado.

“Oras, você nunca perguntou diretamente. E de qualquer forma, qual a importância?” Aciru voltara-se para ele, enquanto Nokto ergueu os braços com as palmas viradas, como se recebesse uma acusação. “Aceitamos papéis que nos foram oferecidos, somente isso. É algo que nos dá certo trabalho extra, mas também satisfação, e a chance de conhecer muitos outros trabalhadores. E é um trabalho que precisa ser feito, não um trono, ou algo que o valha.”

“Você é um mendeva, Kyrion. É uma figura muito mais singular. Kadamon sempre teve bibliotecários chefe e presidentes de recepção, séculos e séculos a fio.” Nokto deu uma rápida olhada em Aciru antes de continuar. “Na verdade a mesma presidente de recepção por séculos a fio. Mas não teve a visita de um mendeva sequer por milênios.”

Kyrion ficou muito desconcertado por essas afirmações, e isso deve ter transparecido facilmente a seus amigos, porque Nokto disse “Vamos, não nos trate de forma diferenciada agora porque descobriu o nome que poderíamos ter escrito em um crachá.”

“Mas vocês fizeram tantas coisas... Aciru até mesmo penteou meu cabelos inúmeras vezes.”

A pequena ergueu uma sobrancelha “Sim, e pretendo fazer mais vezes. Não o fiz por ser isto ou aquilo em Kadamon. Fiz porque você era uma novidade boa demais para desperdiçar, e com um cabelo gostoso demais de mexer para passar batido.”

Sentindo-se vencido, o mendeva deixou os braços caírem do lado do corpo. “Tudo bem, é inútil discutir com vocês. Estamos em um acordo de simplesmente deixar de lado todas as deferências por posição, não é?” Estaria perfeito, não fosse por uma diminuta suspeita que visitava sua mente inquieta.

Aciru, perspicaz, talvez tenha lido na expressão do outro o que o atormentava. “Não, não foi através de nossa posição que tivemos livre acesso à sua presença da primeira vez, ainda que nosso primeiro contato tenha sido justamente na biblioteca que Nokto costuma trabalhar.” Aciru fazia referência ao episódio, agora longínquo, de quando ela lhe fez as primeiras perguntas sobre ser um mendeva, enquanto ainda se recuperava dos ferimentos que trazia na ocasião de sua chegada. “Sequer fui eu que o recebi quando chegou, porque você não veio a nós do modo como todos os outros costumam chegar, nos andares inferiores.”

“Sim, de fato, você simplesmente chegou voando e pousou.” Nokto interrompeu. “Num terraço semelhante a este que vamos visitar agora.” Aciru continuou.

“E se estamos juntos hoje, é porque somos amigos. Não porque somos a reunião de três pessoas importantes.” Nokto terminou, com um de seus meio-sorrisos.

“Agora deixemos isso de lado e vamos observar as fanfuille.” Aciru determinou, enfática.

Kyrion sorriu, grato, pela amizade que os dois ofereciam. Imaginou quantas coisas ainda acabaria por descobrir sobre eles. Mas deixou essas conjecturas em um canto para mais tarde, curioso que estava pelas tais “fanfuille”.

***

A escada que subiam fazia uma lenta volta em torno da grande torre circular, proporcionando uma vista dos arredores em todas as direções, o que era por si só uma experiência interessante. Apenas a friagem contínua poderia desestimular um observador um pouco mais sensível. O que não era problema para o Kyrion, envolvido em seu casaco e enfim com o capuz levantado. Relutara em levantá-lo porque amassava muito suas orelhas para trás, mas preferia-as amassadas agora a notar, somente lá em cima, que uma delas caíra congelada em algum andar inferior.

Por fim chegaram lá em cima, e não eram os únicos a ter aquela mesma ideia. Vários pequenos grupos estavam formados pelo terraço, ocupando todos os bancos e sentando em pequenas rodas no chão. Conversavam animados, olhando ao redor e fazendo muitas pausas súbitas, como se esperassem algo, antes de reatar as conversas. Kyrion viu que de fato havia muito o que ver ao redor.

Árvores de troncos tortuosos e retorcidos, com dezenas de orifícios, sustentavam em todos os seus galhos uma enormidade de flores coloridas. Elas formavam enormes buquês naturais e precipitavam-se em pencas, misturando-se umas às outras devido a pouca distância entre as árvores. Havia ao todo pelo menos duas dezenas dessas árvores, todas não muito grandes, em pequenos grupos de quatro.

A riqueza de cores era exuberante. Flores douradas, alaranjadas, vermelho flamejantes, rosa intenso e rosa pálido, ornadas de folhas muito verdes e brotinhos mais claros. Algumas caíram pelo chão, decorando-o mimosamente, e vários nos grupos as pegaram para tecer suas pequenas coroas ou para adornar os cabelos. Mas havia ainda muitas, muitas mais nas árvores.

“Elas são magníficas! Esse deve ser um dos jardins mais belos de Kadamon... mas como nunca as notei antes?”

Nokto também olhava ao redor, sua sensibilidade de artista tocada profundamente pela beleza desproporcional daquele espaço, fazendo seus olhos acenderem com aquele brilho que lhe era peculiar, embora sua expressão mostrasse que já vira aquele espetáculo outras vezes. “Essa é a primeira das muitas curiosidades das fanfuille: elas florescem no inverno e prosperam no frio, sendo o resto do ano apenas árvores delicadas, mas comuns de se ver.”

Kyrion deleitava-se na visão de todas aquelas tonalidades que se misturavam nas pencas de flores, enchendo de cor o terraço cinzento. Depois de contemplá-las por um longo tempo, sorrindo, voltou sua atenção aos grupos que ainda falavam, mas que suspendiam suas vozes por diversas vezes, como se captassem um ruído qualquer imperceptível. Depois, reatavam conversa, às vezes com expressões um pouco frustradas, como se esperassem um show que estivesse atrasado.

“Por que as pessoas fazem silêncio subitamente, sem razão aparente?” acabou perguntando aos dois que o acompanhavam.

“Aguardam o mesmo que nós, e acho melhor nos sentarmos também, já que não sabemos o quanto podemos esperar.” Aciru apoiou-se no chão e juntou suas diminutas pernas.

“O que estamos esperando exatamente?” Disse o Kyrion enquanto se sentava também, e enrolava a cauda em torno do corpo. A maravilhosa calça confeccionada em Kadamon tinha uma parte semelhante a das pernas para os que tinham, como ele, uma cauda longa; ainda assim o comprimento da sua superava em muito aquilo que os idealizadores da peça tinham em mente. Quase metade dela estava gelada de encontro ao seu corpo.

“Calma, você verá.” Nokto se sentou junto a eles, as pernas cruzadas.

Kyrion mais uma vez inspecionou o jardim e as árvores, procurando por algo que pudesse lhe ter escapado à primeira inspeção depois do deslumbramento com as cores. Não conseguiu ver nada que não tivesse visto da outra vez. Mesmo assim, fez a pergunta.

“Essas árvores têm vários furos no tronco. São naturais?”

Nokto assentiu. “Essa é a segunda curiosidade das fanfuille. Conforme crescem, a base de seu tronco se torna oca e cria inúmeros orifícios. Somente uma parte do tronco se mantém intacta, permitindo o circular da seiva. As cavidades formadas servem de abrigo para pequenos animais.”

“Exceto nessa época do ano.” Aciru frisou.

Kyrion franziu as sobrancelhas, em dúvida. Seus amigos responderam em uníssono.

“O vento.”

Como se tivessem um poder obscuro, suas vozes pareceram conjurar uma mudança repentina na direção do vento. Todos os grupos se silenciaram. Algumas pessoas, mais próximas aos troncos, chegaram suas cabeças às árvores e sorriram, fazendo sinais positivos.

O vento se intensificou até varrer com força o terraço, mas ninguém pareceu se preocupar. Muito ao contrário, alguns deram rápidos “vivas” e sorriam abertamente. Kyrion, no entanto, continuou mudo, mas seus olhos estavam enormes.

As fanfuille mostravam suas outras “curiosidades”, e de tudo o que imaginara que elas pudessem fazer, não foi aquilo que ele esperava. Pois elas começaram a cantar e dançar.

***

Primeiro foram sussurros brandos, roucos, por terem silenciado por um ano inteiro. Aos poucos mais vozes se uniram às primeiras corajosas, dando corpo ao coral. Graves, agudos, chiados, vibrantes, límpidos ou cortados, uma variedade de sons, todos ecoando por dentro dos troncos ocos das árvores floridas.

Ao sabor dos caprichos do vento, as árvores ressoavam como flautas enormes e mágicas, seus orifícios permitindo sons ricos e únicos. Unindo-se isso ao farfalhar suave de suas folhas, essas vozes sem corpo soavam espectrais e etéreas, mas não sepulcrais.

Tão envolvente como o ressoar de seus troncos era o bailar de suas flores. Milhares de pétalas, ou mesmo flores inteiras, desprenderam-se dos galhos com a agitação. Suas pétalas finíssimas e espiraladas faziam com que a flores girassem como uma hélice, permanecendo no ar muito tempo antes de tocar o chão. Centenas de pontos coloridos rodopiaram ao redor dos grupos maravilhados, colorindo o ar, o solo e suas roupas, e indo além, derramaram-se do alto do terraço, espalhando suas vivas bailarinas pelos andares mais abaixo.

Kyrion apenas sorria, encantado demais para dizer qualquer coisa. Viu todos os espectadores sendo aos poucos cobertos por aquelas flores aladas, enquanto o ar vibrava com o dançar suave das fanfuille floridas.

“Agora você conhece o maior espetáculo das fanfuille.” Nokto lhe dirigiu a palavra. Mesmo feliz e coberto de flores coloridas, conseguia manter certa gravidade em sua pessoa; com as flores e um olhar de serena contemplação em seus olhos verdes, parecia parte da natureza, como as dríades e outros elementais fantásticos, impressão ressaltada por suas roupas marrons como a casca das árvores.

“E agora também pode saber a função de Atticus, se ainda não a adivinhou. Ele é o maior encarregado do trabalho de jardinagem em Kadamon.” Aciru falou a Kyrion, enquanto reunia flores rosa pálido para espetar em suas tranças.

Alguns membros dos grupos se levantaram e puseram-se a dançar lentamente, mais ou menos no compasso incerto das flautas naturais. Especialmente os casais, que desfrutaram essa poética visão com rostos colados, ou abraços apertados e passos miúdos.

“Isso aqui é indescritivelmente lindo! Só há dessas árvores nesse terraço?” Kyrion encontrou novamente sua voz, mas ainda olhava ao redor como uma criança em uma feira de brinquedos exóticos.

“Não, não! Há outras mais em outros terraços. Muitas devem estar realizando um espetáculo similar neste momento. Outras ainda vão florir, de forma que poderemos assistir a essa maravilha ainda algumas vezes durante o inverno.” Aciru parecia satisfeita com o enorme número de flores em sua pequena cabeça, parecendo uma pequena versão falante das fanfuille. “É impossível acompanhar todas, já que o vento é imprevisível, mas posso me manter informada com Atticus sobre novas fanfuille que vão florescer.”

“Por favor, me avise sempre que souber!” Kyrion exultou com a possibilidade de desfrutar ainda outras vezes daquela dádiva do solo e do ar.

“O inverno é uma época de belas visões aqui em Kadamon, enquanto muitos mundos adormecem e parecem parar.” Nokto enunciou, poético. “Aqueles que suspendem seu suspiro e só reabrem os olhos na primavera não podem oferecer o que estas terras têm entre seus tesouros.”

“Nokto, não fale demais. Queremos ainda fazer outras surpr— ” Aciru começara a dizer antes que uma pétala amarela quase pousasse em sua boca.

Kyrion nem notara, permitindo-se o plácido sonhar do espírito e o frescor da mente que só a contemplação do belo é capaz de oferecer.