Kyrion seguia por um corredor familiar, mas que por muito tempo não percorrera. Tinha as mãos vazias, depois de deixada a tela na oficina do simpático Figas. A escolha de moldura fora rápida: uma bonita moldura azul, perpassada por um entalhe pérola ondulante, como folhas sopradas ao vento. Combinava perfeitamente com o quadro e com o tema natural da pintura. Mas por mais feliz que estivesse com sua escolha, não era no quadro que Kyrion pensava agora.

Seus passos retraçaram o trajeto que lhe fora por muito tempo um temor, uma ansiedade, uma esperança e uma obsessão. Por incrível que fosse, nunca encontrava alguém mais naquela parte da torre, e sempre se via só diante daquela porta. Entrou silencioso, e a fechou.

O quarto estava escuro, iluminado apenas por uma difusa claridade que vinha pela janela, provavelmente de algum pátio ou refeitório em outro setor da torre. Mas os bons olhos do mendeva logo foram saudados pelos véus, pelo tapete macio, e pelo espelho.

“Há muito não o via velho amigo. Será que me permitirá ver algo mais, de fato?”

***

Antes que a dúvida criasse raízes mais profundas, direcionou-se ante o espelho, fechou os olhos, e virou-se.

Tentou reunir na mente tudo o que fizera até então, pois este era seu plano. Da última vez, vira o vulto cinzento quando se sentiu vivo o bastante por ser alvo do afeto da pequena Aciru. E recebera uma ideia para resolver sua própria questão, a imagem intocável que queria erradicar do coração dos habitantes em Kadamon. Seguira este plano e fora bem sucedido. Esperava agora um novo conselho.

Era agora alvo de admiração de muitos, e da profunda afeição de alguns. Não somente da pequena, como agora do bibliotecário que lhe abrira uma parte tão significativa de seu próprio coração, e do pintor, que lhe presenteara sem qualquer razão aparente para o gesto. Além disso, era agora músico, alguém que alimentava a inspiração e instilava sonhos nos demais habitantes, desbravando mundos místicos e belezas inenarráveis, totalmente inalcançáveis de outra forma para aqueles seres.

Ele alcançara ali uma razão, ainda que temporária. Recebia e retribuía gratidão.

Era caminho para a beleza da arte. Criara para si uma identidade.

E havia ainda o misterioso e gratificante laço que tinha com seu amigo, o mendeva dourado do alvorecer.

Mas ansiava por mais, agora que completara esse passo. Descobriria seu elemento e sua verdadeira função em Kadamon. Para isso teria que adquirir o conhecimento necessário para compreender e completar essa missão. Contava com o espelho para isso. Contava com mais uma resposta, mesmo que isso lhe guiasse a uma nova pergunta.

Quando tudo isso estava claro, queimando sua consciência com uma certeza feroz, abriu os olhos.

Temeu mexer-se e perder para sempre a oportunidade. Talvez tivesse poucos segundos.

Olhos brilhantes e desiguais o estudavam com a mesma intensidade.

***

Duas presas salientes. Dois tons de cinza. Mesma altura. Magro. Forte.

Duas mãos grandes. Chifres?

Cauda. Garras.

Dois olhos profundos. De duas cores diferentes. Quase dois segundos.

***

Tão logo suas certezas foram substituídas pela surpresa, a imagem se fora. Tivera dela um rápido vislumbre, mas sua análise era muito superficial. O que não compreendia, é a razão de aquele espelho não querer refleti-lo, preferindo ficar vazio...

... Ou refletir outro alguém.

E havendo um outro, por que ele? Estaria ele vendo-o também? Seu olhar era inquisidor e levemente surpreso, só que mais sério. Ou estaria imaginando coisas? Mal tivera chance de vê-lo.

Esperou alguns minutos, mas nenhuma outra imagem surgiu na superfície à sua frente, além do quarto desabitado, com seus véus balançando suavemente, quase irônicos. Mesmo tentando reacender a certeza que tivera poucos antes, pensamentos turbulentos e invasores turvavam sua concentração como pedras arremessadas em um lago, privando-o de toda a paz e da convicção poderosa que sentira pouco antes.

Saiu frustrado. Por ironia, seu único consolo era a esperança de que aquele outro ser cinzento teria sua paz perturbada aquela noite também.

***

“Aciru, consegui lembrar agora de uma pergunta que me passou pela mente várias vezes, mas sempre me esqueço de fazer. Acabo dando com ela sozinho na minha cama à noite, quando tomo banho, ou mesmo quando acabo de me despedir de você.” Kyrion tomava seu creme de café lentamente. O copo de Aciru já estava vazio na bancada de seu quarto, enquanto a pequena recostava-se, de olhos fechados, na fofa poltrona que havia entre as grandes janelas.

“Pois então me entregue essa desaforada pergunta, que teima em sumir quando teme ser respondida, e retorna para importuná-lo em horas fatídicas, Phiyo.” Aciru fez um gesto com a mão indicando que ele continuasse, mas não abriu os olhos. Metida em espessas roupas de frio e afundada na grande poltrona, parecia ainda menor, quase uma boneca. Kyrion pensou por um momento quanto horror causaria se dividisse com ela essa observação.

“Todos os habitantes de Kadamon chegam aqui vindos de outro lugar? Ou há alguns indivíduos que nasceram aqui?”

A pequena suspirou e soltou um grunhido, algo que Kyrion interpretou como decepção pela pergunta simplória que atrapalhava sua aparente meditação.

“Claro que há aqueles que nascem em Kadamon. Centenas e centenas de seres convivem juntos, às vezes por anos, conhecendo-se e esbarrando-se por toda parte. É natural que muitos se apaixonem e queiram viver juntos. Ou ao menos queiram viver uma aventura juntos.” A pequena levantou uma sobrancelha que, mesmo de olhos fechados, deu a suas feições um ar superior pelas pobres e infantis criaturas do mundo “Quando sua carga genética é compatível e um dos envolvidos pode conceber um filho, pronto!, aí está seu pequeno Kadamonino.”

Kyrion assentiu. “É, é bem simples. Só queria ter certeza.”

Finalmente a pequena achou que a situação era digna de fazê-la abrir os olhos. “Na verdade, não é tão simples assim. Veja, aqui é um mundo intermediário, de transição, como sabe. Muitas coisas são exatamente como nos mundos mais simples, densos: é um mundo material, o tempo passa, os seres envelhecem, morrem e procriam exatamente como nesses lugares. Essa é uma das razões para que todos os seres de Kadamon sejam minimamente semelhantes entre si. É preciso que sejam compatíveis para garantir relações seguras e viáveis em todos os sentidos, da melhor maneira que puderem.”

Ajeitou o pequeno corpo na poltrona e continuou. “Seres de tamanhos muito diferentes ou mesmo... compostos de coisas muito diferentes, como fogo puro, luz, radioatividade, elétrons mionsônicos, polênios ardofíticos, artisfolédios...” a pequena foi enumerando uma infinidade de nomes que Kyrion não tinha a mais pálida ideia do que significariam. Se tentasse pronunciá-los provavelmente acabaria mordendo a própria língua até furar “...ou seja, se dois seres não podem se tocar ou mesmo coexistir sem que um mate o outro por acidente, então sequer ficam na mesma torre. Considerando todos os planos, existem inúmeras maneiras de os seres se manifestarem.”

“Mas o que isso tem exatamente a ver com os... Kadamoninos?” Kyrion perguntou.

“Calma, estou chegando lá. Com o tempo, os seres que vinham para as torres passaram a ser divididos não somente pela possibilidade de coexistir de forma saudável e pacífica, mas também pelas relações que poderiam criar entre si. Aí estão amizade, trabalho, amor e família. Eles têm entre si semelhanças o bastante para poder se aproximar por afinidade, para ter confiança no outro, mesmo que ele venha de um plano ou universo completamente distante e inatingível.”

“Esse ponto é bastante claro. Considerando a população de Kadamon, se alguém ficasse totalmente restrito ao seu próprio povo, acabaria terrivelmente solitário.” Kyrion pensou em voz alta.

“Acredite, há gente assim. Desconfiados ou egocêntricos demais para se dar ao luxo de interagir socialmente com os bizarros alienígenas, mesmo que eles pareçam 90% com eles próprios.” A pequena girou os olhos “Muitos mundos evoluíram de forma semelhante e produziram seres inteligentes parecidos. É por isso que muitos geram crianças e constituem família. É aí que chegamos ao problema dos Kadamoninos.”

“Por que diz ‘problema’?” o mendeva perguntou, preocupado. Já conhecia a amiga bem o bastante para saber que ela não se referiria a um povo com uma atitude preconceituosa.

“Os pais desses indivíduos um dia irão embora, seja através da morte física, seja simplesmente partindo. Esta é a verdade fundamental dos mundos de transição, e é aqui que o que expliquei no começo retorna à questão, e o ciclo se fecha.” Apesar da entonação pesada e ligeiramente funesta, Aciru parecia satisfeita consigo mesma por poder concluir sua explanação. “Ninguém permanece em Kadamon eternamente. Um dia retorna-se a um plano diferente, plano de criação, ou qualquer plano menos denso, normalmente através da morte física. A alternativa é retornar ao plano de nascimento original, e ao povo de onde este indivíduo partiu. Mas um Kadamonino, quase sempre fruto de dois povos totalmente distintos, vindos de mundos intocáveis, nunca poderá ir para um mundo ou outro de seus pais. Ele não será parte daquela natureza, nem de natureza alguma. Terá de ficar aqui até morrer. E mesmo enquanto espírito, será diferente da maioria. Somente se desfazendo completamente de sua identidade poderá voltar à neutralidade das almas livres desses planos.”

Uma vez encerrada a rápida palestra, a pequena fechou novamente os olhos, sem se dar ao trabalho de explicar o que dissera por último em seus pormenores. Às vezes tomava esta atitude, de forma a forçar seus ouvintes a pensar por si mesmos em lugar de ter todas as respostas. Ou talvez simplesmente gostasse dessa aura misteriosa que as pessoas sábias conseguem manter com seus muitos segredos.

Qualquer que tenha sido a razão para seu silêncio, Kyrion entendeu o encerramento da questão por ora. Ficou repassando a ideia na cabeça... Seria mesmo tão ruim ficar preso a Kadamon até morrer? Não era isso mesmo o que passavam todos os seres nos planos encarnados, presos àqueles mundos até seu momento de passagem?