KOURIN

11 Muitas questões... Poucas respostas


Notas iniciais
Hoe! Como vão? Como prometido, postei dois capítulos essa semana para compensar o tempo de carnaval já que vou viajar e não entrarei na internet. O primeiro vocês, acredito eu, já leram e o segundo vem agora! Eu, particularmente, adorei escrevê-lo e nas notas finais digo os motivos. Agora sem mais delongas, capítulo 11! Espero que gostem!!

Todos permanecemos imóveis. Asuma e Haruka atrás de mim, eu no meio do caminho entre Kyo e Anne.

Os dois continuavam se encarando.

Bem lentamente, ele se levantou e foi caminhando até a mulher loira que ainda estava em perfeito silêncio. Seus olhos, pude reparar agora, eram verdes — intensamente verdes — e a íris oscilava entre nós e o garoto transvestido que a cada passo parecia menos com a pessoa que eu conheci dias atrás. Seus lábios rosados abriram suavemente, mas logo tornaram a fechar. Então vi seu corpo projetar-se para trás, encontrando com o carro de onde saíra.

Ela parecia... Encurralada.

– Mary Anne.

Ela desviou o olhar do rapaz que estava agora a um metro de distância. Vendo de onde eu estava, parecia que ambos tinham a mesma altura.

– Marya Anne Johnson, sou eu. — ele chamou novamente e finalmente ganhou sua atenção.

– E-eu não te conheço. — a voz que saiu daquela pequena boca em forma de coração era fina e melodiosa. Quase angelical.

– Sou eu. Hakeshi Kyo. — ele parecia um pouco inseguro agora — Não acredito que te encontrei...

– E-eu realmente tenho que ir. Sorry*! — então ela pôs a correr indo em direção a rua. O cabelo dourado acompanhou seus movimentos com graça e cada cacho pareceu sacudir em um momento diferente, resultando numa cena comum em comerciais de shampoo, mas incrível quando ao vivo.

O que vi depois disso pareceu acontecer em câmera lenta: Kyo gritou e disparou pronto para seguí-la, o que não chegou a acontecer pois Asuma se jogou com tudo para cima do irmão e o manteve imobilizado enquanto a mulher sumia no crepúsculo. Seus gritos pareciam de pura dor e mal pude acreditar quando ele por pouco não se libertou do rapaz que era, sem dúvidas, bem mais forte que ele.

Tudo voltou a passar no tempo real quando Haruka veio até mim e sacudiu meus ombros.

– Vou deixar as coisas ao seu comando por aqui. Tenho que levar Anne pra casa antes que ela se perca! — dito isso, me empurrou com mais força do que o necessário e entrou no carro.

– Não! Me solte! — os berros de Kyo eram desumanos. Olhei em sua direção novamente e vi que estava chorando.

O veículo deu a partida e eu extingui a pouca distância que me separava dos dois que ficaram. Ajoelhei e senti meu coração batendo fortemente.

– O que está acontecendo!? — perguntei.

O mais novo aproveitou aquele exato instante em que eu me tornei uma distração e acertou seu cotovelo no nariz de Asuma e então levantar com agilidade. Gritei quando vi o sangue escorrendo, mas Kyo nem olhou para trás e saiu de meu campo de visão.

Eu poderia tentar pará-lo, mas meu instinto protetor agiu mais rápido e tudo o que fiz foi segurar o corpo aparentemente desorientado do atingido.

Quando olhei para a rua novamente, ela estava deserta.

X

Sete horas. O céu já estava completamente negro — iluminado apenas por algumas poucas estrelas — e eu não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde a confusão fora de casa.

Estiquei as pernas que estavam dobradas e tentei escutar qualquer som do cômodo ao lado, mas não veio nada. A impressão era de que ele não emitia nenhum som fazia horas e por isso comecei a ficar preocupada.

Levantei de minha cama e caminhei cuidadosamente até o banheiro e então encostei a cabeça bem de leve na porta para mais uma tentativa de ouvir o que se passava.

Ah...– um gemido fraco — Droga...

Suspirei e bati duas vezes.

– Asuma... Tem certeza de que não quer ir ao hospital?

Eu estou bem. — respondeu.

Dei de ombros e sentei no chão, de costas para a porta.

– Sabe, minha mãe costumava dizer que os homens vivem menos que as mulheres por não gostarem de médicos.

Eu já disse que estou bem. Só preciso tentar mais uma vez. – sua voz soava ríspida e um pouco ofegante e depois de alguns segundos, ouvi um grito abafado que terminou em lamento.

De supetão, saiu de lá com um punhado de papel higiênico enfiado em uma das narinas. Seu rosto todo estava coberto em suor.

– Tentar o que? — perguntei tentando ignorar sua aparência. Devia estar doendo muito...

– Por no lugar. Aquele filho da puta quebrou meu nariz! — respondeu sem olhar diretamente para mim.

– Cara, vocês são irmãos.

– E..?

– Sendo assim, vocês tem a mesma mãe... Ah, esquece. — ele não parecia estar entendendo — Conseguiu?

– Aham. Agora é esperar desinchar. — foi andando em direção as escadas e eu o segui em silêncio.

Chegamos ao primeiro andar e ele se jogou na poltrona soltando o ar com dificuldade.

– Dói respirar? — perguntei me sentando encolhida no sofá.

– Estou evitando usar o nariz para essa tarefa. — assenti e abracei os joelhos — Baixinha?

– Hm?

– Obrigado por me guiar até o banheiro. Acho que não teria conseguido sozinho.

Fui pega desprevenida. É verdade que deixei Asuma me usar de apoio quando conseguiu levantar-se da rua, mas agi pela emoção.

– Qualquer um faria o mesmo. Queria que eu te largasse lá para sangrar até a morte?

Ele riu.

– Até a morte? Calma, eu só agradeci. Não precisa ficar na defensiva.

– Não estou na defensiva! — rebati e ele ignorou fechando os olhos e jogando a cabeça para trás. Ficamos sem falar por alguns segundos até ele voltar a olhar para mim.

– Acha que... Que ele foi atrás dela? — perguntei meio sem graça.

– Duvido muito que a tenha alcançado. Haruka saiu na frente e é provável que a tenha pego primeiro. Kyo-chan deve estar em casa. — e assim que acabou de falar, tornou a fechar os olhos.

Permaneci quieta. A verdade é que eu estava morrendo de curiosidade para saber o motivo daquilo tudo que aconteceu, mas não encontrava o melhor momento para questionar, então apenas esperei até que ele decidisse contar.

Eu esperava que isso fosse acontecer... E logo!

– Eu tenho que ir embora. — sussurrou. Acho que estava falando consigo mesmo.

– Consegue andar até sua casa?

– Acho que sim. O problema será explicar pro meu pai o sangue no uniforme e o nariz quebrado.

– Não vai contar a verdade?

Ele me olhou confuso.

– Claro que não. Vou dizer o que? Kyo me deu uma cotovelada porque eu estava impedindo-o de fazer burrada e seguir... — ele fez uma pausa — Aquela pessoa?

Aquela pessoa? Suspeito demais.

– Você sabe qual é o lance entre eles? — tentei.

– Sei.

– E vai me contar?

– Não.

– Por que?! — droga! Estava tão perto!

– Olha, Kourin-chan, eu gosto de você e responderia qualquer coisa a meu respeito. Mas isso é privacidade do meu irmão e você vai ter de ouvir essa história da boca dele.

– Desde quando você respeita a privacidade das pessoas?

– Ai. Isso doeu. — ele fez como se tivesse sido atingido no peito por uma arma invisível e eu sorri sem querer — É que... É muito complicado. Desculpe.

– Tudo bem. — respondi — Acho que não é da minha conta mesmo. É só que foi tudo tão... Estranho! Rápido demais e confuso demais.

– Acho que essas características resumem bem a história deles: Rápida e confusa.

– A história deles? Kyo já saiu com ela? — me animei novamente.

– É... Pode-se dizer que sim.

Meu corpo todo estava em estado de euforia, mas tentei parecer calma. Como Kyo, o cara que até hoje mesmo era gay, pôde estar em um relacionamento com Mary Anne, a bonequinha perfeita?

Bom, talvez esse tenha sido um romance anterior. Sim! Aposto que ele estava com ela quando descobriu suas... preferências. E talvez a menina tenha se magoado tanto com a perda do seu verdadeiro amor que agora mal consiga olhar em seus olhos. Tem que ser isso!

– ...A não ser que queira que eu durma com você.

– O quê!? — meu deus, de onde veio isso? Perdi uma parte muito grande da conversa!?

– Você está me ouvindo? — ele perguntou cruzando os braços.

– N-não, desculpe.

– Eu disse que tenho de ir agora ou terei de dormir na sua casa, sua avoada.

– Vá logo então. — levantei já me dirigindo a porta. — Até amanhã.

Ele já estava de sapatos, então apenas saiu da poltrona e se espreguiçou antes de passar por mim.

– Até amanhã. Deseje-me sorte com meu álibi.

– Não mesmo. Virem-se vocês. — sorri.

– Que menina mais bipolar... — assim que me deus as costas, entrei novamente. Não sei ao certo se ele estava brincando ou falando sério, mas sua opinião não me importava. Eu tinha coisas bem mais importantes para pensar: Kyo e Mary Anne.

Subi as escadas correndo e me joguei na cama para digitar ao celular pois Yu-chan precisava saber de uma história louca dessas. Assim que desbloqueei a tela, vi o ícone de nova mensagem.

– Yuka, Yuka... Sempre um passo à frente. — cliquei e esperei que abrisse a caixa de entrada e, quando vi o remetente, franzi o cenho. Não era ela. — De quem é esse número?

Abri a mensagem:

"Espero que não se importe, mas peguei o número de celular que estava na sua fixa de estudante. Kyo-chan também salvou para manter um melhor contato. Acho que vamos à sua casa hoje."

Náo acredito nisso...

Olhei a hora de entrega. 16 em ponto. Exatamente quando tocam os sinais indicando o fim do dia letivo. Tenho que checar meu celular mais vezes...

"Acabei de ler seu recado. Não me mande mensagens desnecessárias."

Enviei e respirei fundo. Por que respondi, aliás? Poderia ter apenas ignorado.

Voltei a pensar nos assuntos a tratar com Yu-chan, mas assim que cliquei para escrever uma nova mensagem, o aparelho vibrou em minhas mãos. Era uma resposta dele. Já?

"Ainda bem que o mundo não depende de você para estar informada em tempo real."

Que absurdo! Como eu iria adivinhar que uma mensagem dessas chegaria?

"Você não tem mais o que fazer?"

Mandei, mas essa seria a última. Dessa vez eu estava decidida a não responder a nenhuma outra mensagem e, como se lesse meus pensamentos, Asuma me ligou.

– O que foi?

Não vou ficar escrevendo enquanto ando pela rua escura.

– Mas eu não tenho nada para falar com você.

Por que atendeu então?

Droga.

– Não está preocupado com seu pai? — desviei o assunto. Que garoto insuportável!

Não, eu liguei para casa assim que saí daí e foi Kyo quem atendeu. Disse que o coroa está dormindo em frente a TV. Vou chegar de mansinho e me limpar antes de me deitar.

– Você falou com o Kyo? O que mais ele disse? Está triste?

Se quer saber dele, posso pedir para te telefonar quando eu chegar.

– Não precisa. Só queria saber se está tudo bem entre vocês.

Ah, claro. Por que não estaria? Ele quebrou meu nariz, ok. Mas é um cara sensato. Com certeza já refletiu sobre o que estava fazendo, vai me pedir desculpas e até agradecer por eu tê-lo impedido de ir.

Essa história ainda parecia muito crua para mim. Queria saber dos detalhes, de tudo! Será que Asuma estava preocupado com os sentimentos de Anne e por isso não permitiu que Kyo a machucasse mais? Mas ele parecia tão aliviado e feliz em vê-la... Como se tivesse sido ele o rejeitado da relação. Que porcaria! Nada fazia sentido!

– Bom para vocês. — declarei com sentimentos verdadeiros. Não queria que ficassem brigados ou coisa parecida. — Agora preciso ir. Tenho mensagens importantes a mandar.

Mais importantes do que eu?– sua voz parecia triste, mas tenho certeza de que era falso.

– Muito mais, acredite.

– É uma pena. — disse por fim — Até amanhã, Kourin-chan.

– Até amanhã, Asuma.

– Até amanhã. — ele repetiu e eu fiquei confusa.

– Até amanhã...

– Conhece "A culpa é das estrelas"?

– Já ouvi falar. — respondi meio sem vontade — Asuma, eu tenho um monte de coisas para fazer e temos aula logo cedo. Minha irmã vai me matar caso chegue em casa e eu não tenha nem jantado ainda.

– Boa sorte com seus afazeres então. — ele falou normalmente, mas por algum motivo senti um riso contido em sua voz quando repetiu pela milionésima vez — Até amanhã.

– Até amanhã! — gritei e desliguei. Qual era o problema dele!?

X

Nanami havia preparado um prato de macarrão e legumes para nossa janta e deixou num pote dentro da geladeira. Isso me lembrou a casa de meus pais pois nenhum deles possuía tempo disponível para coisas como cozinhar a refeição de cada dia, portanto mamãe dedicava seus domingos a noite para fazer uma enorme quantidade de comida e congelar. Durante a semana, eu e Nanami costumávamos apenas pegar o que desejávamos e esquentar no microondas.

Aqui era diferente: minha irmã fazia questão de pôr a mesa do café da manhã, arrumar meu almoço e de Haruka e cozinhar a janta uma hora antes de serví-la para nós três. Confesso que ter de lidar com comida de geladeira outra vez quase me fez perder o apetite.

Mesmo assim, sentei-me e comi uma quantidade bem razoável de legumes. Haruka parecia estar se deliciando e não disse uma palavra durante todo o tempo. Só quando não havia mais nenhum fio de macarrão em sua tigela, olhou para mim.

– Vai me dizer o que foi aquilo com seus amigos?

– Não sei ainda. Ninguém me conta nada. — reclamei apoiando a cabeça nas mãos.

– Só garanta para que não aconteça de novo. Anne é uma pessoa muito importante para mim e não quero que peça transferência ou demissão.

Importante? Ela não era uma nova gerente?

– Eu não posso controlar algo que não está ao meu alcance. — respondi — Eu juro que não sei de nada.

– Não mandei controlar. Mandei garantir. — ela levantou para lavar sua louça — Me dê sua tigela se não for mais comer.

Bufei e entreguei tudo a ela antes de subir para o banheiro. Escovei os dentes e tomei um banho para relaxar. Enquanto me ensaboava, ouvi Nanami passando pelos quartos anunciando sua chegada e não me dei ao trabalho de gritar algo de volta. Depois, arrumei a cama e coloquei o celular para carregar, mas não sem antes checar uma última vez minha caixa de entrada.

"Não há novas mensagens."

Eram onze horas da noite e eu enviei minha mensagem à Yuka logo depois da ligação com Asuma. Mesmo que ela tivesse ído dormir enquanto eu jantava, teria respondido pois, até o ano passado, era comum conversarmos durante a noite bem neste horário e por isso desenvolvemos o hábito de sempre olhar o celular antes de deitar.

Será que a escola está tão puxada a ponto dela chegar em casa e tombar nos lençóis? Ou então ele apenas pifou. Acontece muito com esses celulares modernos.

Verifiquei se o que eu disse fora realmente enviado e sim, foi.

– Que droga, Yu-chan... Preciso de você...

Levantei imediatamente e saí do quarto com cuidado para não acordar o casal no outro lado do corredor. Um copo de leite quente poderia me ajudar a apagar.

Fui até o andar de baixo pisando macio e estava prestes a entrar na cozinha quando ouvi algo. Recostei na parede da sala e esperei. Havia alguém lá dentro e parecia estar murmurando.

Sentindo um pouco de medo, fiz o mesmo que fizera na sala da direção escolar alguns dias atrás e espiei. O cômodo estava escuro, com as luzes apagadas, mas pude reconhecer Haruka que estava de costas para mim, debruçada num balcão. Acho que estava falando ao telefone.

Quem liga a uma hora dessas para a casa dos outros?

Fiz um enorme esforço para ouvir o que dizia, mas ela também parecia fazer um enorme esforço para não ser ouvida, então o que peguei foi apenas um trecho:

– ... Somente entre nós, Anne. — ela riu baixinho — Eu também. Boa noite.

Notas finais
*Sorry: em inglês, "desculpe" ou "perdão". Mary Anne Johnson, como seu nome deixa óbvio, não é japonesa e as vezes deixa escapar uma ou outra expressão em sua língua natal. Bem, como eu disse, adorei escrever o capítulo por dois motivos principais: um porque adoro o livro "A culpa é das estrelas". Não é meu favorito do JG, mas mesmo assim foi divertido usá-lo naquele diálogo entre Asuma e Kourin; e dois porque SOU MÁ MESMO E NÃO RESPONDO A PERGUNTA PRINCIPAL "quem diabos é essa Anne!!???" E AINDA APRESENTEI MAIS DOIS MISTÉRIOS: "por que Yuka não responde??" e "por que Haruka estava falando com Anne na calada da noite??" MUAHAHAHA Bom carnaval. Até a próxima, meus amores ;)