Júpiter e Vênus
2 Taça de Altruísmo
Notas iniciais
"I hate everything about you
Why do I love you?"
GABRIEL
— Briga, briga, briga. — várias vozes gritavam em uníssono.
Ergui a sobrancelha e caminhei até o lugar exato do tumulto. Muitos corpos exalando álcool juntavam-se ao redor de dois homens. Levantei a cabeça, a fim de ver melhor. Não podia ser. Era Pedro. O playboy estava levando uma boa surra de um cara grande e notavelmente mais forte. Cruzei os braços, pensando no que fazer. Eu podia deixá-lo apanhar. Mas estaria ignorando o pedido de sua mãe: "Cuida bem do meu filho, ele não tem muito juízo". Suspirei. Eu tinha que intervir.
Com certa dificuldade, passei por toda a plateia eufórica e consegui chegar ao centro. Nesse exato momento, Pedro caiu no chão, enquanto que seu oponente continuava dando-lhe chutes no rosto. Sua pele branca estava completamente suja de sangue. Me adiantei e agarrei o mauricinho pelas costas, puxando-lhe para longe.
— Ah, você é covarde assim? — o grandão zombou. — Precisa da ajuda do namoradinho?
A multidão começou a vaiar. Pedro soltou uns grunhidos ininteligíveis.
— Não sei o que ele te fez. — disse calmamente. — Mas eu acho que já pagou, não? Não precisa matá-lo, por mais imprestável que seja.
Os olhares curiosos me seguiram enquanto eu arrastava Pedro para fora da boate, até a garagem. A lua, em conjunto com as estrelas, fazia um maravilhoso espetáculo naquela noite. Pena que eu não podia admirar aquela beleza natural. Logo avistei o SUV prateado e joguei o rapaz no banco do carona.
— Precisa ficar me defendendo como se eu fosse uma criança? — Pedro resmungou. Observei-o por uns instantes e notei que um inchaço já marcava o olho esquerdo. A camisa que um dia foi branca estava parcialmente rasgada. Sua boca deixava transparecer um corte longo e fino.
— Se você age como tal, acho que sim. — fechei a porta e entrei no carro pelo outro lado.
— O filho da empregada sabe dirigir? — ele deu um sorriso maldoso. — Não sabia.
— Vai te fuder, loiro azedo. — revirei os olhos e liguei o motor.
Um silêncio encheu o ar depois de poucos instantes. Olhei para o lado, Pedro já dormia feito um anjo. Uma baba nojenta escorria de seus lábios finos. Suspirei meio chateado. Ainda nem fazia um mês que as aulas haviam começado e ele já tinha se envolvido na terceira briga pelas noites afora. Percebi que eu teria certo trabalho durante minha vida universitária. Era chato cuidar do cara como se ele fosse um bebê.
Ao chegarmos em casa, bati no seu rosto, tentando acordá-lo. Não consegui, claro. O álcool tinha afetado seriamente seu corpo. Mordi o lábio ao imaginar minha ilustre pessoa carregando aqueles 77 kg até o quarto. Fiquei com preguiça só de pensar. Durante cinco minutos, refleti e refleti, decidindo se eu deixava o filho da puta (ops, dona Juliana era um anjo) no carro ou se o levava para dentro.
Claro que eu escolhi levá-lo. Eu era a bondade encarnada. Com cuidado, tirei o playboy dali. Assim que cheguei ao quarto de Pedro, senti meus braços a ponto de desfalecer, quase mortos. Coloquei-o na cama, sem mais nem menos. Pensei em tirar sua roupa suja de sangue e passar um gelo no seu olho. Mas minha taça de altruísmo já tinha se enchido naquele dia, então... Não.
[...]
O domingo amanheceu alegre. Encostei meu corpo na janela da sala. Alguns pássaros cantavam uma bela melodia matinal. A luz do sol invadia sutilmente o espaço entre as mangueiras lá fora. Puxei o LG branco do bolso de minha bermuda e chequei a hora. Era pouco mais de sete da manhã. Pelos meus padrões diários, eu tinha acordado tarde.
Voltei meu olhar para a porta verde do quarto de Pedro. Era óbvio que ele ainda dormia. Comprimi os lábios ao pensar no quanto ele estava machucado. Para com isso, senhor Gabriel. Pedro Bozza não é digno de nenhuma pena. Balancei a cabeça. Minha mãe sempre reclamou do meu coração mole. Ela costumava dizer que tanta cera dentro do peito fazia mal. Talvez ela estivesse certa.
Devagar, sem fazer barulho, fui até a cozinha. Lá, catei na geladeira um pedaço de gelo, um copo de água e mais um Engov no armário. Eu havia sido declarado trouxa há muitos séculos, não tinha jeito. Coloquei tudo numa bandeja de plástico e me dirigi ao quarto do playboy.
Pedro dormia como uma criança. O fios lisos do cabelo loiro estavam completamente arrepiados e um sorriso bobo exibia-se nos lábios finos. Por mais que eu fosse homem, eu tinha que admitir que o rapaz era bonito. Claro que eu nunca iria falar isso em voz alta. Sentei na beira da cama, ao seu lado, e pus a bandeja no chão. Tirei a camisa de meu corpo e nela, envolvi o gelo.
Enquanto eu passava aquilo no olho esquerdo de Pedro, o Iphone dele tocou. Estava no bolso de sua calça jeans. Escorri minha mão para suas coxas e tirei o celular dali. Era sua mãe. Desliguei bruscamente sem nem pensar direito. Não queria que ele acordasse e me visse. Finalmente, quando achei que o gelo já era suficiente, levantei da cama e saí.
[...]
Depois de tomar um banho demorado e caprichar na arrumação, corri para a frente do espelho. Meus cabelos negros estavam elegantemente arrumados, enquanto que a camisa verde que vesti destacava meus maravilhosos olhos. Dei um sorriso Colgate já me imaginando na selfies com a galera. Tá, eu era idiota algumas vezes. Peguei minha mochila vermelha e a pus nas minhas costas. Antes que eu pudesse abrir a porta, a porta foi aberta pra mim. Claro, isso acontece com pessoas fabulosas como eu. Tá, eu era idiota sempre.
Na verdade, foi Pedro quem apareceu com a cara de mau humor matutino. Seus olhos castanhos estavam quase fechados, a criatura provavelmente tinha acabado de acordar. Com a falta de camisa, pude notar que os machucados da véspera tinham atingido muito mais que braços e rosto. Parecia ter tomado banho, já que a pele estava limpa de sangue.
— Aonde você vai, gato borralheiro?
Ah sim, o maldito apelido que o loiro azedo me deu ainda muito cedo. Pedro achava que eu, pelo fato de ser filho da empregada, era por conseguinte O Empregado. Isso irritava bastante, mas com o tempo, acabei segurando minha raiva. E eu tinha um apelido para revidar.
— Num churrasco com a turma, acha que pode se cuidar sozinho, princesinha?
Como imaginei, o playboy revirou as órbitas. Sorri, me sentindo vitorioso por dentro.
— Ah. — ele disse num tom entediado. — Vai lá com tua ralé. E eu nunca fico sozinho.
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