Júpiter e Vênus

3 Me faça dar o fora daqui


PEDRO

Quando acordei pela manhã e vi meu reflexo no espelho, tive a certeza de que havia me metido em encrenca. Mas eu nem lembrava-me exatamente do que raios eu fiz. Se eu cheguei vivo em casa, claro, foi por causa de Gabriel. O garoto certinho e sonso, que sempre me salvava de tudo. Parecia que eu era uma donzela esperando o princípe. Ele ainda havia deixado um Engov no chão do quarto. Era irritante a forma como Gabriel queria cuidar de mim. Eu podia muito bem fazer isso pela minha própria pessoa.

Para a minha grande alegria, o gatinho borralheiro tinha se mandado. E eu tinha uma casa enorme – nos padrões universitários – para fazer o que eu quisesse. Não demorei para arquitetar meus planos diabólicos. Liguei para todas as gatinhas da Engenharia. Não eram muitas, curso de exatas infelizmente só tem homem. Ainda assim, falei com umas quinze garotas. Pena que só uma estava disponível: a Jéssica. Jéssica era o estereótipo de mulher bonita: cabelos escuros lisos e bem compridos, olhos claros, corpo completamente delineado e nos padrões.

Como a morena morava no prédio ao lado, demorou apenas poucos minutos para que chegasse ao meu apartamento. Abri a porta e apreciei a gostosidade na minha frente: ela vestia um shortinho curtíssimo e top branco. Exalava um perfume legal que eu obviamente não conhecia. Ao ver os meus machucados da véspera, a menina exclamou um “minha nossa!”, mas não perguntou nada.

Acabamos nos pegando quase que imediatamente. Isso era bom, eu não gostava de enrolar. Depois de muito sexo, a sala, os quartos – isso mesmo, contando com o de Gabriel – a cozinha e todo o resto estavam cheirando a coisas proibidas para menores. Me joguei no sofá enquanto apreciava a visão de Jéssica nua indo na cozinha fazer alguma coisa pra gente comer. Então meu Iphone tocou. Suspirei zangado, quem seria o filho da puta que estava atormentando meu sossego? Atendi sem nem olhar.

— Que porra, oi. — falei num tom de resmungo.

— Pedro? — a voz de minha mãe falhou.

— Ah, desculpa. — sentei, endireitando meu corpo. — E aí, a senhora tá bem? Tudo nos conforme...

— Tá sim, meu filho. — ela sorriu. — Eu te liguei mais cedo, estava dormindo?

— Foi, me acabei de estudar ontem. Muito puxado a faculdade. — estudando Botecologia, oras!

— Teu pai disse que vai aí no mês que vem. Tá doido pra te ver. — puta que pariu.

— Tá bem, mãe! Agora eu vou estudar um pouco de Cálculo, depois a gente conversa.

— Okay, tchau! Se cuida, viu? O Gabriel tá aí?

— Ele saiu, não sei pra onde. Tchau! — desliguei rapidamente. Que diabos meu pai queria indo me ver? Balancei a cabeça. Isso definitivamente não era legal. Seu Gutenberg não era gente muito boa. Ele me mataria se soubesse o que aprontei em menos de um mês de aula. Dona Juliana que era mais indulgente comigo. Sempre encobria tudo o que eu fazia.

O cheiro de macarrão inundava o ar. Fui até a cozinha. Jéssica tinha se enrolado numa toalha vermelha e terminava de pôr a comida na mesa. Se a garota não fosse tão vadia, eu casaria com ela. Ela dormia com todos os professores por nota! Aqueles velhos nojentos... Fiz careta ao recordar das fofocas da federal.

— Eu ouvi a conversa com tua mãe. Estudando Cálculo, né? — ela riu.

— Olha a minha cara de estudioso. — disse em tom de ironia. —Só passei em Engenharia Civil porque o Enem é a provinha mais fácil do mundo.

— Pra você né. Que estudou em escola particular com mensalidades absurdas durante a vida inteira. Eu me matei com uns cinco anos de cursinho. — Jéssica puxou uma cadeira e sentou-se. — Vem comer. Aposto que se eu não viesse aqui, iria ficar com fome o dia todo. O Gabriel é tua babá.

— Que merda. — bufei. — Quero saber de Gabriel não.

Sentei na sua frente. Peguei o prato de macarronada e comecei a comer velozmente. Nem me importei de mastigar. Odiava que falassem do Gabriel daquele jeito. Já não bastava ter que dividir MINHA casa com aquele pobretão.

— Sabe de uma coisa? Vocês se conhecem há muito tempo. Aposto que tudo isso daí é tensão sexual. — Jéssica disse maliciosamente.

— Quê? — quase quebrei a mesa ao ouvir isso. — Tá me chamando de viado?

— Tô. — ela deu a língua. — Nunca pegou homem não?

— Claro que não! — gritei. — Eu sou muito macho e você acabou de provar isso.

A garota levantou a sobrancelha com um sorriso maroto estampado no rosto.

— Não sei pra que tanta zanga então... Eu sei que tu é macho, seu otário. Agora termina isso daí pra gente repetir a dose.

[...]

Jéssica só foi embora quando anoiteceu. No mesmo instante que ela saiu, Gabriel chegou. Deitei no sofá, ignorando sua irritante presença. Eu assistiria alguma coisa se o controle remoto não estivesse tão longe. Ouvi o som de pratos vindo da cozinha. Após uns cinco minutos, o gato borralheiro veio me fazer companhia com um sanduíche nas mãos.

— Não fez pra mim? — perguntei.

— Claro que não. — ele deu de ombros. — Tem pão, queijo e tudo mais lá dentro. Te vira.

Gabriel ligou a TV e começou a passar os canais aleatoriamente. Até que parou num filme. Era Velozes e Furiosos e eu me amarrava demais na série. Sentei, já animado. Contudo, o filho da puta tirou dali e pôs no National Geographic.

— Volta. — pedi.

— Não! — ele riu. — Não.

— Por favor. — insisti.

— Me convença.

— Vai te fuder, Gabriel. Eu pego a droga desse controle se eu quiser.

— Com você? — Gabriel soltou uma gargalhada. — Tente.

Sem pensar duas vezes, pulei em cima de seu colo, tentando tomar o objeto, mas não consegui. Gabriel era muito rápido. Puxei seus braços, mas ele mudava de canal a cada segundo, zombando de minha cara. De repente, um som de gemidos surgiu e voltei meus olhos para a televisão. Quase morri do coração ao ver dois homens transando. O garoto deu um sorriso estranhamente malicioso e enfiou o controle no cós da cueca.

— Seu viado, tira isso. — grunhi, saindo de cima de Gabriel.

— Não...

— Não sou obrigado. — resmunguei e fui para a cozinha. Para minha surpresa, havia um sanduíche com um copo de suco de laranja em cima da mesa. Meti tudo de uma vez na minha boca sem nem me sentar. Eu estava muito nervoso. Só por causa de um pornô gay? Enfiei minha cabeça na porta. Na TV, as cenas de gemidos foram substituídas por tiros e muito sangue. Gabriel estava deitado no chão e havia tirado a camisa. Ele tinha um corpo legal, bem legal. Se eu fosse uma mulher, até pegaria o rapaz. Arregalei os olhos ao ver a loucura que eu tinha pensado. Eu precisava dormir, devia estar cansado.

[...]

— Pedro, acorda. Você tem prova de Física hoje. — uma mão grossa bateu em meu rosto. Sentindo-me totalmente grogue, abri os olhos. Gabriel estava sentado na minha cama, sem camisa. Esfreguei minha cara e me aconcheguei ao travesseiro.

— Eu tenho prova? — perguntei meio atordoado.

— Acho que sim, pelo menos, foi o que Caio disse. Ele ligou agorinha.

— Mas que dia é hoje?

— Dia 5? Segunda?

— Puta que pariu, eu tenho prova! — larguei o lençol no colo de Gabriel e fui tirando o short no caminho para o banheiro. Eu não tinha nada embaixo, só lembrei disso quando me vi nu. Por algum motivo desconhecido, fiquei envergonhado. Olhei para trás, Gabriel continuava na cama, me observando de um jeito esquisito. Engoli em seco e catei a toalha no cabide. Cobri meu corpo em questão de segundos.

— E tu? Cuida de xispar daqui. — resmunguei.

Ele riu e saiu devagarinho. Só pude respirar aliviado quando fiquei sozinho.

[...]

Obviamente, eu não tinha estudado nada. Ainda bem que eu manjava das colas. Como o professor não elaborava as questões, somente retirava tudo do livro do Halliday, tudo ficava mais fácil. Era só jogar o começo da pergunta na internet que meu 10 já estava garantido. Pra que saber aquela disciplina? Eu iria ser um engenheiro e não um professor de Física, poupe-me.

Sentei na fileira do canto e sem pressa, copiei as respostas do celular. Ri dos meus pobres colegas de turma matando-se. Quem não cola, pode até sair da escola, mas não sai da faculdade. Depois de umas três horas, pouco tempo antes do prazo final, entreguei minha prova e saí dali tranquilo. Encontrei Caio no corredor, sentado relaxadamente numa cadeira de plástico verde. Os cabelos castanhos dele estavam escondidos por um boné cinza.

— E aí, mano.

— E aí.

Ele levantou-se e começamos a descer as escadas.

— Só na cola?

— Claro. — respondi sorrindo. — E tu, só estudando?

— Claro. Não tenho papai fazendeiro.

— O meu te adota, te preocupa não. — bati no seu ombro.

— Idiota. — ele retribuiu o gesto. — Fez o que ontem?

— Tracei uma gata. A Jéssica. — pisquei um olho, bem malicioso.

— Veterana... O bicho manja.

— Claro.

— E esse machucado todo?

— Sei lá, eu tava bêbado. Lembro não.

[...]

Depois da faculdade, Caio e eu partimos para o bar de Seu Zé, que ficava por ali perto. A maioria de nossos colegas tinha feito o mesmo que a gente. Para relaxar depois uma prova puta, nada melhor do que álcool. Se bem que eu beberia de qualquer jeito mesmo. Sentamos numa mesa e pedimos logo uma garrafa bem gostosa de cerveja. Deixei que meu amigo começasse, eu era bondoso em alguns momentos.

Quando nossos espíritos já estavam um pouco alegres, Gabriel apareceu. Franzi o cenho, o garoto era um exemplo de pessoa, eu nunca o tinha visto triscar numa latinha. O que diabos ele fazia num bar? Levantei a mão e o chamei para sentar-se conosco. Ele pareceu meio hesitante, mas cedeu.

— E aí, Caio.

— Oi. — o outro respondeu.

— Como foi a prova, Pedro? — Gabriel perguntou com certa ironia.

— Muito bem. Vou tirar 10 porque eu sou o nerd dessa porra. — Caio riu, mas o gato borralheiro continuou sério.

— Sei.

— E o que tu veio fazer aqui? — questionei curioso.

— Não é da tua conta.

— Ah, admite que tá doido pra beber uma. — empurrei meu copo cheio para o garoto. Ele empurrou de volta pra mim.

— Deixa de ser besta. — Caio resmungou. — Todo mundo faz isso.

Gabriel suspirou entediado.

— Eu não sou todo mundo. — e levantou-se.

Como havia muita gente no bar, rapidamente o rapaz desapareceu de minhas vistas. Dei de ombros e continuei bebendo. Uns dois caras de Engenharia Química vieram juntar-se a nós. Logo, Gabriel não fez a mínima falta.

Após um tempo relativamente longo, meus companheiros acabaram indo embora. Eu fiquei sozinho, com a conta. Não me importei com isso, eu tinha dinheiro mais do que suficiente. Paguei tudo e comecei a sair. Mas assim que cheguei na porta, vi Gabriel aos beijos com uma garota loira, debaixo do poste. Desci as escadinhas que me separavam da rua. Sem pensar direito, gritei:

— Gato borralheiro, tu pega mulher? Por um momento, pensei que tu fosse gay!

Os dois pararam tudo o que estavam fazendo e voltaram a atenção para mim. Animado, continuei:

— Olha que ela é até bonita... Mas deve ser pobre que nem tu, né? Gente pobre só anda com ralé.

A cara de Gabriel foi ficando vermelha...

— Vai pra casa, Pedro.

— Eu tou bebo! Eu não posso dirigir! Preciso de alguém pra me levar e esse alguém é você.

Algumas pessoas foram se juntando ao redor da recente confusão. Não consegui identificar rostos, o álcool enebriava meu cérebro.

— Pedro, dê o fora daqui. — Gabriel soltou o corpo da menina e aproximou-se de mim. Pela primeira vez em toda minha vida, vi que seus olhos estavam realmente zangados. Sua boca estava contorcida, como se estivesse prestes a soltar todos os xingamentos inventados pelo homem. Ele era uns dez centímetros mais alto que eu, instantaneamente, senti medo. Mas já estava feito e eu tive que continuar:

— Não dou. — disse sorrindo. — Me faça dar o fora daqui.

Antes que eu me preparasse, um forte soco atingiu me atingiu em cheio.