Júpiter e Vênus
34 Princesinha
Notas iniciais
PEDRO
“Eu queria que fosse tu”
Eu não sabia definir a sensação que ardeu nas minhas veias após ouvir isso. Basicamente o gato borralheiro sujou o pau com um lixo qualquer e vem me dizer que queria que fosse eu. E sabe de uma coisa? Eu também quis que fosse eu, DEVIA SER EU, só eu podia provar aquele...
Aquele...
Aquele corpo.
Aquela boca.
Aquele pau.
AQUELA PORCARIA DE PAU QUE NEM PROVEI DIREITO.
Por um momento eu quase arregacei as pernas e falei: “quer o diabo do cu? Toma esse diabo de cu”. Mas Gabriel apenas me deu as costas e foi embora. ELE QUERIA PORRA NENHUMA. Tudo o que me restou foi o ódio por admitir tão claramente para mim que eu queria aquilo.
Filho da puta.
Me revirei na cama. Meu corpo praticamente me obrigou a dormir após o SER EXECRÁVEL DO GABRIEL sair. Fazia meia hora que havia acordado, talvez, NÃO TINHA MEU CELULAR PARA TER CERTEZA. Alguma dor da noite anterior ainda restava, mas logo passaria. E de qualquer modo, eu nem a sentia. A raiva machucava muito mais que a ressaca. Céus, COMO eu estava com raiva.
Eu precisava gritar. Apesar de ter gritado horrores no banho e enquanto atirava almofadas no ar, a necessidade continuava.
Como eu tinha chegado naquele ponto? Por que a vida, tão maldosa, não me ordenou em suas linhas só perder a dignidade ao me entregar para o diabo do Gabriel? Era o suficiente! Lidar com a universidade, com o traste do Marcelo e todo o resto era além do limite. Se houvesse mais alguma coisa depois daquilo tudo...
Afundei o rosto no travesseiro.
Subitamente o som da porta da sala se abrindo me fez parar. Então o parido de prostituta covarde tinha decidido parar de fugir? Me esforcei para ser rápido com colocar os pés no chão e me levantar. As palavras já estavam na minha boca. Entretanto, ele apareceu no quarto antes que eu saísse.
— Melhorou da ressaca? Quase morreu, Pedro.
Percebi automaticamente que seu perfume de revista da Avon estava misturado com algo diferente, algo mais caro. Marcelo. Fechei os punhos.
— EU TÔ BEM, SEU MERDA. — gritei. — Viu a porcaria do Marcelo na universidade? Sujou o pau de novo? Obviamente, né. RESOLVEU ALGUMA COISA DA MINHA VIDA? Claro que não. PORQUE NÃO DÁ.
Gabriel colocou a mochila no chão, olhos verdes aparentemente me ignorando. Já iria mandá-lo para puta que pariu. Porém, de repente ele se aproximou e me beijou, passando os braços ao redor do meu corpo, quase me derrubando e me impedindo de mover os lábios para xingá-lo o tanto que ele merecia.
Ele tá me beijando?
Ele tá me beijando?
Ele agarrou meus cabelos e beijou meu ombro e pescoço. Minha pele quis se entregar logo ao sentir seu calor novamente. Calor de pobre vagabundo que fez a questão de tornar cada um dos meus dias na Terra um inferno. Amoleci sob o domínio de suas mãos. Todavia, ouvi a vozinha lá no fundo: ele acha que eu sou o quê? As nega dele pra ele fazer isso comigo?
Empurrei-o.
— Sai daqui! Vai beijar o Marcelo, carniça!
— Pedro. — Gabriel esfregou as pálpebras, parado. — Eu não quero beijar o Marcelo.
— MAS BEIJOU. ALIÁS, TRANSOU.
— Vamos ter a mesma discussão que tivemos durante a manhã?
— Acha que eu sou o quê? — resmunguei. — Que pode sair metendo o pau em cu por aí e depois vir querer me agarrar? Vai te fuder, Gabriel!
— Tudo bem. Eu vou embora.
Gabriel se abaixou e estava prestes a pegar a mochila de volta. Não, ele não vai embora porra nenhuma, filho miserável da puta. Me adiantei e puxei sua camisa na altura da manga. Foda-se! Eu não tinha um pingo de dignidade na gaveta mesmo. Ele se virou com um suspiro.
— Não vai embora não.
Descobri em um segundo que meu tom tinha sido suplicante.
— Fica aqui, seu filho da puta. — refiz a frase.
— Pedro. — Gabriel traçou um esboço de sorriso. — Eu não quero brigar.
Ah, eu queria brigar.
Mas se ele ficasse pela primeira vez em um monte de dias...
— Eu sinto tua falta, princesinha.
Meu coração deu um pulo idiota de felicidade. Eu odiei TANTO que ele me chamasse de princesinha e de repente estava me derretendo porque ele tinha me chamado de princesinha. O que raios aconteceu comigo? Eu tinha desistido de entender. Tirei finalmente a mão de sua camisa. Impossível dizer nessa altura que meu nome era Pedro Bozza.
Em um segundo eu estava o abraçando. Não importava a quantidade de cacos que eu era no momento. Parecia que eles se juntaram quando suas mãos subiram pelas minhas costelas e afagaram minhas costas devagar, quando sua respiração soprou na minha nuca e suas unhas arranharam minha pele. Eu preciso desse bosta, admiti num pensamento baixo por pouco inaudível na minha própria mente.
Não vi o instante que lágrimas rebentaram dos meus olhos como uma represa que transborda por guardar além do que aguenta. Apenas tentei enxugar o rosto de todas as maneiras assim que percebi. Ele era meu gato borralheiro, meu empregado, não poderia ver chorando. Era o último pedaço do bolo de orgulho. Mas Gabriel se encostou à parede e me apertou mais contra seu peito.
— Mas é claro que o Sol... — cantou rouco com aquela voz ridícula. — Vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei. Escuridão já vi pior, de endoidecer mente sã. Espera que o Sol já vem...
Eu não acreditava que o Sol estava vindo. Eu não estava na beirada de um amanhecer, e sim, de um anoitecer.
Estava tudo uma puta merda.
— Eu...
— Tu. — Gabriel beijou minha testa.
— Não...
— O quê?
— Eu não consigo. — a frase escapou bêbada da minha boca. — Não consigo.
— O quê?
— A faculdade. Eu não consigo.
Gabriel sentou no chão e me levou consigo. Deixou então que eu chorasse no seu colo até que não houvesse nenhuma lágrima para chorar. A raiva diminuiu e com ela, a dor. Ele acariciou meu cabelo, encarando a janela aberta. Tinha algo em mim com vergonha por estar ali, mas tinha algo também que se sentia protegido.
— Não é minha culpa, Pedro.
E eu confiei nele.
— Desculpa por não conseguir resolver isso.
Ficamos calados por um bom tempo, seus dedos descendo e subindo no meu corpo, retorcendo minha camisa e enxugando o caminho anterior do choro. Quantos dias ele havia passado fora? Como que um indivíduo idiota daquele me tinha nas mãos daquela maneira? Logo eu? Ele puxou meus fios para trás.
— Não comeu, né?
Balancei a cabeça na negativa.
— Vou fazer o almoço.
No fim de um sonho bom, Gabriel me soltou e se dirigiu à cozinha. Demorei três minutos para segui-lo. Ele estava em frente à geladeira aberta, tirando cebola e alho pisado de uma vasilha de plástico. Puxei uma cadeira da mesa e sentei. Ele voltou o olhar um instante, mas continuou com o trabalho. Recheou o alho com a cebola, passou o arroz, colocou água quente e sal, por fim tampando a panela sobre fogo baixo.
Meu estômago roncou a alto som. Estava descobrindo agora que estava muito fraco.
— Calma. — ele disse.
Preparou também feijão num processo parecido com o do arroz, dois bifes e uma salada de tomate com alface, sempre de costas para mim. Observei a forma que seus músculos se comprimiam e relaxavam enquanto ele mexia nas panelas e cortava coisas. O infeliz era bonito demais. Ele pôs no final a comida em dois pratos e sentou na cadeira da minha frente.
Remexi meu prato com o garfo. Ou era a minha fome ou estava com o cheiro interessante.
Gabriel apoiou o queixo na base da mão, me olhando.
— Parece um gatinho manhoso fazendo essa cara pra comida quando tá morrendo de fome.
Revirei os olhos, feliz por após tudo no quarto ser capaz de falar:
— Vai se fuder, Gabriel.
Provei a primeira garfada. Minha boca salivou. Era fome. Minha mãe dizia que pedra se tornava uma torta de chocolate na fome. Gabriel sorriu e começou a comer, me acompanhando. O silêncio nos possuiu até que terminássemos. Cada barulho — o arrastar das cadeiras, os talheres contra o vidro dos pratos, o vento entrando pela janela — se tornava tão grande como o ronco de um avião.
Gabriel encaminhou para a pia nossos pratos vazios.
— Tá bem mesmo?
— TÔ, Gabriel.
Eu bebia frequentemente desde os 13 anos. Não seria uma noite de bebida que iria me levar para o hospital. Estava bem. Levantei e abri a porta da geladeira. Tirei uma garrafa de água. Bebi então direto do gargalo boa parte do conteúdo. Fechei a porta. Gabriel se encostou à pia, me observando de braços cruzados.
— Tua mãe nunca deixava tu beber água assim.
— Exatamente, tu não é minha mãe.
Ele só ensaiou uma risada.
— Vem cá?
Descruzou os braços, deixando um espaço entre eles. Encarei aquilo dois segundos. Ele acha que é só chamar que eu vou. Mas eu fui. Me lancei contra seu corpo quente e ele me beijou outra vez. Sua língua estava com gosto de bife com tomate, não liguei. O importante era que ele estivesse ali, sendo meu, somente meu e de mais ninguém.
Principalmente do intrometido do Marcelo.
Marcelo.
Ele tava com aquela lata de lixo.
Finquei as unhas nos seus ombros, vontade súbita de arranhá-lo por agarrar qualquer viado na rua quando tinha viado em casa. Não, HÉTERO em casa. Porém, não o fiz. Gabriel deslizou os lábios para meu pescoço, me arrancando os já velhos arrepios e trocando ao mesmo tempo nossas posições. Agora, eu estava encostado à pia e ele enfiava a perna esquerda no meio das minhas.
— Filho da puta. — suspirei.
— O que foi?
— Nada.
Só precisava dizer.
— Tu é uma princesinha chata... — Gabriel tocou o lugar onde eu deveria ter barba se a natureza colaborasse. — Né?
— E tu é um gato borralheiro filho da puta.
O moreno apertou minha cintura com aquelas mãos calejadas de pobre, sorrindo. Automaticamente sorri também. Te odeio, Gabriel, seu trem insuportável, filho do demônio, te odeio demais, te odeio tanto que tu nem imagina. Ele parou e me olhou em seguida, sobrancelhas arqueadas. Retornei o olhar.
— Que é?
— Não sei se já te vi sorrindo.
Enfiei as mãos debaixo de sua camisa, disposto a desviar sua atenção pois não iria responder aquilo. Deu certo. Ele voltou a me beijar.
Senti seus pelos ao redor do umbigo e as dobrinhas do abdômen. Decidi rápido que só sentir não era suficiente. Puxei sua camisa para cima (era incrível, o gato borralheiro andava seminu para todo canto, só quando não tinha a mínima necessidade ele inventava de vestir camisa). Ele segurou meus pulsos. Ah não, não inventa cu doce nessa altura do campeonato, não, não, eu vou te dar uns tapa, carniça.
— Gabriel. O. Que. É.
Gabriel escorreu as mãos para a parte superior de minhas coxas.
— É que toda vez que a gente tira a roupa, dá merda.
Pra começar, eu tô só tirando tua camisa, metido a transudo.
Okay, iria tirar a calça depois também.
Mas no final, alguém tem que dar.
O alguém no caso era eu.
Estacionei as mãos e encarei seu pau. Ele estava ficando duro, eu sabia. Fechei os olhos. Mole ou duro não era de um tamanho convidável para se meter em um cu, logo o meu cu, era... não acredito que tô pensando isso em letras tão legíveis de outro homem... era grande. Era grosso. Abri os olhos.
— Cala a boca, Gabriel.
Tirei sua camisa de uma vez.
Se eu quiser que tu fique pelado, tu vai ficar pelado, entendeu?
Não discute.
Gabriel mordeu o beiço, olhos verdes nos meus, e me pegou no colo. Eu não era leve, mas do jeito que me levantou pareceu que eu tinha no máximo cinco quilos. Ele era forte. Passei as pernas ao redor do seu corpo, procurando não pensar no quanto aquilo tinha aparência de feminilidade.
Me carregou para seu quarto e me deitou na cama. Cuidou de tirar minha camisa também. Logo éramos, ao menos da cintura para cima, pele contra pele, o moreno contra o branco.
Sua boca foi direto para meu mamilo. Como fez da primeira vez. Levei-o para mais perto de mim, desistindo de tentar me defender dos gemidos que sua língua ali me provocava. Nenhuma menina no mundo inteiro me fazia sentir daquela maneira, apenas Gabriel. O miserável do Gabriel.
— Tu é tão bonito. — ele disse.
— Já falou isso.
E eu sei que eu sou fabuloso.
— Ah é? — mordeu minha barriga. — Tu é tão gostoso.
Também sou gostoso. Eu sou perfeito, jovem.
— Idiota.
Tomou minha boca, suas mãos descendo centímetro por centímetro — espertas e silenciosas — para a região baixa do meu corpo. Desabotoou minha bermuda e eu ajudei para que nos livrássemos dela. Então, se apoiou em algum ponto ao lado do meu braço esquerdo e tirou sozinho sua calça.
Nossas ereções se encontraram, impedidas somente pela barreira das duas cuecas. Era um encontro execravelmente excitante. Ele acariciou meu cabelo, parando de me beijar e me olhando de um modo estranho, que sinceramente me deixou envergonhado. Contudo, em poucos segundos colou nossos lábios outra vez.
Sua mão escorregou devagar para a minha bunda e a apertou firme. Gritei centenas de xingamentos mentalmente. Eu gostava.
— Tudo bem? — perguntou, afrouxando o aperto.
Já botou a merda da mão aí, deixa a mão.
— Cala a boca, gato borralheiro.
Gabriel riu e me pôs de bruços. Puxou minha cueca, beijando toda a extensão das minhas costas. Fechei os punhos quando as costas terminaram e começou minhas nádegas. Um pensamento me veio repentino: se eu desse, se eu deixasse Gabriel me penetrar, nunca mais eu poderia dizer que era hétero. Héteros não dão. Simples.
Mas eu queria. Eu malditamente queria Gabriel dentro de mim.
Mas eu não poderia ser viado.
Ele parou e subiu a boca para minha nuca como se ouvisse meu dilema interior.
— Tudo bem? — perguntou novamente.
Sentei.
— Unrum.
Puxei o travesseiro e coloquei no colo. Eu era hétero. Eu era hétero. Dar era abrir mão desse status. Gabriel suspirou e se afastou para o lado da cama que tocava a parede. Nós dois trocamos um olhar curto. Ele moveu o canto esquerdo da boca na metade de um meio sorriso e foi para o banheiro.
Retornou alguns minutos depois, vestindo as roupas no meio do caminho.
Ele disse que tirar a roupa daria merda.
Deitou ao meu lado.
— Tá frio lá fora.
Puxei a bermuda e meti no meu corpo de qualquer jeito.
— Vem cá, princesinha.
Me fez deitar ao seu lado, apoiado no seu ombro. Agarrei sua camisa. Tinha deitado naquela cama a semana inteira, imaginando que ele voltaria. Ele brincou com minha orelha em silêncio. Eu sou hétero. Mas eu quero dar pra outro cara. Mas eu sou hétero. Mas. Me encolhi. A faculdade sabia sobre nós. Eles tinham me chamado de viado no banheiro. Eu não era mais hétero para eles. Por que manter um status hétero sozinho?
Eu não tô pensando.
Eu quero esse gato borralheiro de merda, por isso não tô pensando.
Gabriel me abraçou.
— A polícia não sabe de nada do teu celular e do teu carro. Acho melhor a gente ligar para tua mãe.
Respirei fundo. Seria a decepção do ano de minha mãe, principalmente se ela soubesse de que modo fui roubado. E isso não seria pior do que meu pai saber a nova. Não.
— Não.
— Pedro, quanto tu já gastou de táxi nos últimos dias?
Muito.
— Tu pode pegar um carro no seguro.
— Eu não quero falar disso.
Gabriel soltou um suspiro.
— Tá.
Ele mexeu com meu cabelo durante algum tempo, mas subitamente dormiu. Me virei e ele estava roncando em alto e bom som. Revirei os olhos. Quem mandou ele dormir? Eu não mandei. Não lembrava de ter dito: “pode dormir”. Virei o rosto para o teto, abandonado com a minha questão sobre dar.
Dar pra ele.

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