Júpiter e Vênus

35 Que autoestima da porra hein


Notas iniciais
JeV recebeu cinco recomendações e eu não tô nem acreditando (gente, como assim? kkk). Preciso agradecer a Estrela Sol, PamChan, Gray, Venes Suazo e Lys Uchiha. Muitíssimo obrigada!

GABRIEL

Meu pai era do tipo de homem que quando estava em casa passava o dia na frente da televisão. Ele nem assistia de verdade, só mantinha os olhos na tela, a cabeça obviamente em outra coisa. Eu nunca tinha me dado conta do quanto éramos parecidos nesse ponto até me mudar por causa da faculdade e repetir o comportamento.

Brinquei com o botão do controle enquanto Chris brigava com o Drew na tela. Mas era bom para pensar, sabe? Minha mente fluía bem. E era o que eu precisava no momento. Um bom tempo para pensar. Sem ninguém falando comigo. Sem que eu fosse chamado para resolver algum problema. Sem que Pedro estivesse ao meu lado me tentando com aquele corpo branco.

Fiquei com Pedro.

Ficar era boa palavra?

Soava estranha.

Pedro estava muito frágil psicologicamente. Bem, ele não tinha uma das melhores bases psicológicas, mas agora estava mesmo acabado. Seu mundo hétero desabou e eu conseguia vestir sua pele e ver que não era fácil para o loiro. Uma máscara que ele com tanta habilidade construiu durante dezoitos anos havia caído.

Eu não tive forças para colocar a distância que estava até então conseguindo colocar entre nós dois. Pedro precisava de alguém e esse alguém era eu. Além disso, transar com Marcelo serviu como um catalisador para que eu o apertasse nos meus braços. Marcelo me lembrou de que nenhum cara no mundo me daria o sentimento que Pedro dava. Machucava, machucava na espinha, sabe-se lá o dia em que Pedro se aceitaria, não tínhamos nenhuma perspectiva de relacionamento. Ainda assim...

Nome da minha espécie: Gabrielis Trouxelis.

Voltei o olhar para meu quarto, onde ele dormia. Quando acordei quarenta minutos antes, ele ronronava com a mão no meu peito. Quase nem acreditei. Passei trinta segundos gravando a cena na minha memória. Depois dos dias que passamos separados, era tudo o que eu necessitava.

Pedro.

Do meu lado.

O sexo era o de menos apesar de eu desejá-lo do polegar do pé ao último fio amarelo do cabelo.

O que eu estava fazendo com minha vida? Eu não tinha ideia.

Mas eu sabia que logo viria a necessidade de uma decisão definitiva a respeito.

Que esse logo... Não fosse tão logo assim.

De repente a porta se moveu e Pedro saiu. Bochecha amassada, olhos inchados. Parou no meio da sala, me encarando. Tinha a expressão carregada de sono. Claro que meu coração pulou. Mostrei o lugar do sofá perto de mim. Ele revirou as órbitas num costume antigo e sentou.

— Dormiu bem? — perguntei.

Pedro esfregou as pálpebras.

— Unrum.

Ele olhou através da janela aberta. O céu estava uma mistura de azul-noite com vermelho sangue, o sol havia acabado de se pôr. Não tinha lua, muito menos estrelas, mas Júpiter e Vênus se erguiam acima dos prédios da frente como que compensando a escassez de espetáculo noturno na cidade.

— Júpiter e Vênus. — falei.

O menino arqueou as sobrancelhas e volveu os olhos para o controle na minha mão.

— Me dá esse controle. Não quero assistir Todo Mundo Odeia o Chris.

— Cheguei primeiro, desculpa. — sorri.

— Me dá essa merda, engraçadinho.

Pedro esticou o braço para pegar o controle. Deixei-o que tocasse, no entanto, antes que puxasse para si, arrastei-o para meu colo e fisguei sua boca. Ele socou meu peito, resmungando algo como “filho da puta trapaceiro”. Mas no fim se entregou para minhas mãos. Beijei seu ombro e dei o controle.

— Ir se fuder ninguém quer. — murmurou e voltou para o lugar anterior, mudando o canal. — Idiota.

Pulou todos os canais disponíveis, das Branquelas ao Cidade Alerta ao jogo entre São Paulo e Santos no SportTV. Não pareceu interessado em nada. Acabou retornando para o Todo Mundo Odeia o Chris. Não aguentei e ri. Pedro era uma comédia às vezes. Me devolveu o controle.

— O que quer jantar? — indaguei após uns segundos. — Tem arroz sobrando do almoço.

Ele balançou a cabeça.

— Não quero jantar.

— E o que quer?

Pedro não respondeu. Me apoiei nas almofadas, deixando assim. Estava decidido a dar o tempo de Pedro. Contudo, subitamente ele me abraçou, rolando as íris castanhas ao mesmo tempo. Olhei-o enquanto se apoiava no meu peito. Tudo o que pude fazer foi afagar seu cabelo. E sorrir.

[...]

Acabamos dormindo no sofá. Só durante a madrugada que acordei e o levei para seu próprio quarto. Ele acabou acordando também. Quando eu fiz menção que iria sair, agarrou meu braço e me fez ficar. Então, mais uma vez em menos de 24 horas, estávamos juntos na mesma cama.

Deixei-o para ir à faculdade. Tão logo cheguei, encontrei Jéssica e Caio ainda na entrada da faculdade. Eles me chamaram para conversar debaixo de um açaízeiro. Jéssica foi a primeira a se manifestar.

— Como tá o Pedro?

Cruzei os braços.

— Melhor. Ele só não tá querendo vir para a aula.

— Sinceramente... — Caio falou. — Não acho que ele venha tão cedo.

— Mas ele ficou bem mesmo? — Jéssica insistiu.

— Ficou.

— Acho que passo lá no ap de vocês durante a tarde. — ela disse.

— Tudo bem. — dei de ombros. — Tenho que ir para a aula. Bom dia para vocês. E obrigado pela preocupação.

Caminhei para o prédio de Letras. Alguns passaram e me olharam por tempo demasiado, outros simplesmente não se ligaram na minha existência. Eu notava um detalhe agora: na verdade, não foi após a festa que eu via aqueles olhares. Antes eu já via algo, mas só estranhava. Enfim. O leite estava derramado.

— Gabriel. — Iara me alcançou na escada. — Como que tá?

Puxei seu coque mal-feito.

— Bem, na medida do possível.

— Eu descobri que o povo do nosso curso na sua maioria é uma coisa maravilhosa.

— Por quê?

— Vem pra sala.

Entramos na sala. Como éramos calouros, estudávamos nela todos os dias, ao contrário dos veteranos que costumeiramente mudavam de acordo com cada disciplina. Mal fechei a porta e de repente um batalhão me abraçava. Franzi o cenho para Iara. Ela deu de ombros.

— Okay, gente. — tossi. — O que foi?

Uma menina de cabelos curtos, que na minha memória tinha o nome de Vanessa respondeu:

— A gente… Acabou sabendo do que tá rolando com você.

— Ah.

Claro que iriam saber.

— E a gente só queria dizer que adoramos mais um gay no instituto. Ninguém aqui gosta de hétero.

No meu pessimismo, não cheguei a imaginar que houvessem pessoas no mundo que encarariam a homossexualidade desse jeito. Mas de repente eu estava tímido (eu já era tímido) e só falei “obrigado, gente, mas quero sentar”. Peguei, como sempre, um lugar próximo a Iara. Não olhei para trás.

— Pessoas de Humanas são fabulosas. — Iara puxou uma apostila da bolsa.

— Que aula é hoje? — procurei desviar o assunto.

Ela pôs uma mão no meu rosto.

— Tá com febre?

— Não?

— Gabriel, tu sempre sabe os horários. E hoje é quarta. Filosofia.

— Ah.

Era muita coisa acontecendo para que eu lembrasse do horário.

Bianca então chegou, usando um vestido de alças estampado na altura do joelho. A recepção calorosa que me deram não foi a mesma a ela. Todo mundo se calou. Estavam bem por dentro do que estava acontecendo, afinal. Iara nem a encarou.

— Vamos passar o resto semestre com esse ser. — resmungou em tom por pouco inaudível. — Ai, ai.

[...]

— Então o Marcelo terminou contigo? — Iara perguntou no ônibus após eu contar a história do momento que Marcelo me encontrou na parada. — Como que é levar um fora?

Eu preferi ir logo para casa após a última aula, ao invés de enrolar no campus. Iara me acompanhou. Ela sempre estava do meu lado, mesmo não concordando comigo, como agora. Me perguntava como que vivi quase 18 anos sem ela.

— Não acho que eu tenha levado um fora.

— Ah não. Que autoestima da porra hein Gabriel? — ela gargalhou. — Ele só disse que foi apenas sexo e pulou fora. Cara, eu amo o Marcelo. Ele sabia que tu ia dar o fora nele porque tu é um trouxa, mas pra ficar por cima na situação…

Mordi a língua. Eu me sentia culpado por Marcelo e nessa altura não era somente o sexo que fiz com ele sem cogitar que poderia sentir algo. De certa forma eu tinha acabado com o namoro do garoto. Eu estava pedindo desculpas mentalmente ao tal do Eduardo.

— Enfim, Iara. — revirei os olhos.

A menina apertou minha bochecha.

— Bem, como o senhor decidiu seguir o caminho da trouxice e mesmo que eu queira te dar uns tapas porque não posso fazer mais nada pela sua alma… Vou...

— O quê?

Iara puxou minha mochila e colocou um vidro com alguma coisa e mais alguma coisa. Tentei olhar, ela me deu uns tapas e resmungou “só depois”. Quem era eu para discutir com dona Iara? Ela beijou meu rosto em seguida.

— Te amo, Gabes.

— Claro que ama.

De repente, seu celular tocou. Ela me soltou e o pegou.

— Vídeo no WhatsApp…

— E?

— Parece que é algo quente.

Ela clicou em download. Demorou dois minutos para que baixasse. Finalmente, pôs para reproduzir. A primeira imagem que apareceu era de Caio. Arqueei as sobrancelhas automaticamente e me inclinei para ver melhor. Ele estava na sala.

— Vão se fuder, vocês, porra! — falou e pela primeira vez na vida me deparei com Caio estressado. Ele tinha uma vibe tão zen. — Vocês tão tudo doido para dar o cu e ficam com frescura.

Iara largou o telefone para aplaudir. Todo mundo no ônibus olhou para ela, inclusive o cobrador. Comprimi os lábios, querendo ver tudo.

— E querem saber de uma coisa? — Caio completou. — Sou bissexual. Dou o cu, como cu, como mulher, o escambal. E digo mais, sei de todos os envolvidos daqui que são gays ou bissexuais ou lésbicas.

Fim do vídeo. Coloquei a mão na boca. Eu queria abraçar Caio. EU QUERIA ABRAÇAR CAIO. Eu precisava, na verdade. Iara continuou aplaudindo por tempo indefinido até que os braços cansassem. Ela abriu um sorriso.

— Conheço esse menino desde que eu era criança. É da minha cidade. Orgulho.

Sua parada então apareceu.

— Tchau. — ela disse, pulando para o corredor.

— Tchau.

Ela foi para a catraca de trás. Lembrei do que ela colocou na minha bolsa e arrastei o zíper. Fechei os olhos instantaneamente. Era um lubrificante e duas camisinhas. O sobrenome de Iara era Cão. Me virei enquanto ela descia.

— Iara! — gritei. — Como que tu me dá isso?

Ela ergueu as mãos no ar sem culpa antes de desaparecer.

— Tu precisa. De nada.

Notas finais
Gente, se a inspiração e esse PC velho que tá travando toda hora colaborarem, pode rolar capítulo nesse fim de semana. Bora rezar (eu sempre digo isso haha). Desculpem a demora, eu tive umas semanas complicadas. E atualizando o status, tô namorando. Beijos ♥