Notas iniciais
Eu ia postar amanhã, mas sou ansiosa demais auhsuahsuhasuahs

GABRIEL

Toquei a campainha da porta de Iara. Ela gritou um “já vou” do lado de dentro, provavelmente estava no banho a julgar pelo som de água caindo. Sentei no chão, não conseguia mais ficar de pé. Eu não era tão forte. Doía demais. Eu só queria o colo da minha mãe, mas ela estava a quilômetros. De qualquer modo, tinha quase certeza de que ela não se daria bem com a palavra “gay”.

— Oi, Gabriel. — ouvi a voz de Iara e a porta se arrastando pesada no piso de cerâmica. — O que aconteceu?

Coloquei o máximo de ar que pude nos pulmões e me virei. Ela estava com o cabelo molhado, vestida numa camiseta do Coldplay e short jeans curto. Movimentei os lábios para falar. No entanto, tão logo lembrei de Pedro, de tudo o que aconteceu, de tudo o que foi dito, desde a noite de domingo até a noite de hoje, as lágrimas correram instantaneamente, uma cachoeira salgada.

— Meu Deus, Gabriel. — Iara se abaixou. — Foi aquele idiota não foi? Eu vou dar só na cara dele.

Assenti em silêncio.

— Okay, okay. Vem cá.

Ela me fez levantar e me levou para o sofá. Tentei limpar toda aquela água do meu rosto, mas o trabalho era inútil. Quanto mais enxugava, mais vinha. Enfiei a cabeça entre os joelhos, desistindo. Senti a mão fina de Iara nas minhas costas. Ela dizia algo sobre matar o Pedro de tortura para depois dar o corpo para os urubus. Ri sem querer rir, no meio do choro. Ela me puxou para suas pernas.

— Ou a gente pode fazer assim, amputar os membros enquanto ele ainda tá vivo, quero ver a cara daquele filho da puta sofrendo. Merda, Gabriel.

Ela acariciou minha nuca, deixando que eu chorasse. Cerrei as pálpebras. As imagens nos pensamentos rasgavam, torturavam cada pedacinho do meu coração. Eu não queria sofrer dessa maneira. Se ao menos a vida me concedesse uma coisa antes de me aceitar gay, pediria para não me apaixonar por Pedro. Porque, como sempre, tanto homem no mundo... Me encolhi.

— Façamos o seguinte. — Iara apertou meu ombro após bons minutos. — A gente come sorvete e finge que certas pessoas nunca existiram.

Sorri.

— Você é a melhor pessoa do mundo. — falei.

— Eu sei, ué. Sou maraviosa.

Ela beijou minha testa e saiu. Retornou rápido com um pote de napolitano e duas colheres. Eu a olhei enquanto ela botava sorvete na minha boca como se eu fosse uma criança. Eu tinha a melhor amiga do mundo, de fato. Ela secou com o polegar todo o caminho das lágrimas. Então, me obrigou a comer todo o conteúdo do pote sozinho, ela nem chegou a tocar na outra colher.

— Obrigado. — eu disse.

— VOCÊ é a melhor pessoa do mundo. — ela deu de ombros. — E você não merece sofrer. Mas, ninguém quer saber de sofrimento aqui. A gente vai assistir sabe o quê? Peppa Pig!

— Peppa Pig?

— Não discute, Peppa Pig.

Iara bateu na minha bochecha com delicadeza e ligou a TV em um canal de desenhos animados. E REALMENTE assistimos Peppa Pig, seis ou sete episódios. Ela me levou a gargalhar com cada cena, não por causa das cenas em si, mas sim por causa dos comentários que fez a respeito. “Peppa é uma delícia, já pensou ela na minha cama”. Quase esqueci o incidente com Pedro.

— Okay. Tá melhor. — ela diminuiu o volume. — Agora fala o que aconteceu.

Respirei fundo e falei. Nada fácil, mas nenhuma lágrima veio novamente. Iara chamou Pedro de todos os nomes feios possíveis, tanto em Português como também na língua da tribo indígena dos seus avós maternos. Eu desviei o olhar para o teto, meio que ainda sorrindo e ao mesmo tempo sentindo uma faca afiada dentro do peito. Ela suspirou e me fitou com as íris castanhas.

— Ele nunca vai querer se assumir, Gabriel.

— Eu sei. — cocei a sobrancelha.

— Não deixa ele te usar assim. — ela tocou minha bochecha. — Sério. Se ele quer ser um viado enrustido, deixa pra lá.

— Não vou deixar.

— Me promete, Gabriel. — Iara mostrou seu melhor olhar de firmeza.

— Prometo. — assenti. — Eu já quero dormir, posso?

— Vai lá no quarto.

— Lado esquerdo da cama?

— Lado direito, o esquerdo é meu, ô infeliz.

[...]

Acordei envolvido nos braços de Iara. Não estava ainda manhã, mas uma luzinha suave já entrava pela fresta do telhado. Tirei as mãos dela devagar de mim, todo o cuidado do mundo para não acordá-la. Ela suspirou e resmungou algo como “quantos dedos?”. Preferi não imaginar o que ela estava sonhando. Pus os pés no chão frio e catei minha camisa junto com meu celular.

O relógio me dizia que era cinco e trinta e cinco da madrugada. Havia três chamadas perdidas de um número completamente desconhecido. Franzi o cenho. Bem, retornaria mais tarde. Nada de Pedro. Fechei os olhos e repeti em pensamento um mantra protetor: Não pense no Pedro agora, não pense no Pedro agora, não pense. Me vesti e caminhei direto para a cozinha.

Abri o armário. Encontrei um pacote de cuscuz de milho e pó de café. Fiz então o café-da-manhã. Ia dividindo a comida para dois pratos, no entanto, no meio do percurso, derrubei um dos pratos. O som do vidro contra o chão ecoou por toda a casa. Corri para a vassoura e a pá no canto atrás do fogão. Comecei a limpar, torcendo para que Iara não houvesse acordado. Porém...

— Comida. — Iara apareceu na porta, cabelos para cima.

— Desculpa. — joguei os cacos no lixo. — Quebrei um prato.

— Quem liga para prato, temos comida pronta.

Sorri.

— Tinha esquecido o quanto você era prendado, olha só, se você fosse hétero e eu fosse hétero também, poderíamos casar, seria legal.

Ela pegou o resto do cuscuz e o colocou num vasilha de plástico. Mostrou uma cara de “olha só, resolvido, garotão”. Sentamos então diante da mesa redonda de vidro. Ela se serviu de uma xícara extra mega super power grande de café.

— Então, a festa na sexta-feira. — ela comentou com uma cara inocente.

— Que tem? — ergui a sobrancelha. — Só uma festa.

— Nós vamos arranjar um novo boy para você.

— Não, Iara. — balancei a cabeça. — Não quero um “boy”.

— Quer ficar sofrendo pelo... Por aquele viado enrustido?

Oxigenei os pulmões em vista da mera menção da pessoa do loiro. Não pense no Pedro agora, não pense, não pense.

— Não quero ficar sofrendo.

— Então vamos arranjar um boy, aquele Marcelo lá é interessante, no sério, ele te olhou de um jeito muito suspeito.

— Cala a boca. — sorri com a mera possibilidade ridícula. Marcelo nem era gay. — Que tal arranjarmos uma girl para você? Ou vai ficar sofrendo pela Bianca?

Ela se encolheu com uma expressão derrotada.

— Odeio você.

— Você me ama.

[...]

Nunca na minha vida achei uma aula tão longa. O intuito de não pensar em Pedro proposto por mim a mim mesmo pela manhã já estava no chão. Mas cuidei de não pensar na parte dele que machucava. Me iludi com as vezes em que ele recostou a cabeça ao meu peito e com as vezes em que ele me agarrou por ter medo de trovão. Só que o problema era exatamente esse, era ilusão. Porque ele não era “viado”. Apertei a testa.

— Gabriel, você está muito distraído. — o professor observou.

— Desculpa. — me ajeitei na cadeira. — Só... A vida.

— Mas você deixa a vida lá fora aqui na universidade, garoto.

Ele mostrou o capítulo que estávamos estudando na minha apostila. Suspirei e procurei encher a mente apenas com a Filosofia de Hegel.

Iara e eu descemos na hora do intervalo. O céu estava parcialmente nublado, o sol se mostrava discreto num cantinho detrás de umas nuvens cinzentas. Caminhamos na direção da biblioteca, Iara precisava devolver um livro que estava no último prazo de vencimento.

— Nem precisava desse livro. — ela falou. — Mas a menina que trabalha lá na biblioteca, puta que pariu, que menina linda.

— Você acha as meninas lindas, até pega, mas nunca fica de fato com nenhuma.

— Pelo menos eu dou uns beijos. — a menina deu de ombros. — O importante é beijar. Ah, arranjei um argumento para nossa mini discussão de mais cedo. Sofro pela Bianca, mas dou beijos por aí. Ao contrário de você. Iara 1, Gabriel 1.

— Idiota.

Não queria dar beijo em outra pessoa que não fosse Pedro. Nem conseguia me imaginar com um cara diferente. Descemos os degraus da escadinha que levavam à parte inferior do campus. Visualizei um pessoal de provavelmente Ciências Sociais ou Geologia fumando na calçada. Outro grupo, de meninos, a julgar pelo modo de se vestir, Engenharia de alguma coisa, vinha no nosso rumo.

— Ih, lá vem hétero padrãozinho. — ela observou com um tom maldoso de ironia. — Eca.

O grupinho nos ultrapassou. Tive uma pesada impressão que dois deles pousaram o olhar em mim, coisa que me deixou meio coisado. Iara exibiu sua melhor expressão de nojo para os jovens. Puxei a manga de seu vestido e continuamos a caminhar. Ela resmungou algo como “odeio hétero”.

Na biblioteca, ela devolveu o livro com uma cantada bem óbvia, até para mim, para a bendita menina. Subimos então a estrada de volta. Mas de repente, enxerguei Caio conversando com um garoto estranho debaixo de uma árvore. Nada, nada, nada de Pedro. Onde anda o Pedro? Ele levantou os olhos e me encarou por bons segundos.

— Égua, puta que pariu, esse intervalo já acabou. — Iara disse, olhando o celular. — Intervalo devia ser meia hora.

— É. — comentei aleatório. — O Pedro não tá com o Caio.

— Gabriel, DEIXA DE SER TROUXA, EU TÔ FALANDO SÉRIO, SE VOCÊ ME APARECER CHORANDO DE NOVO, EU VOU DAR SÓ NA SUA CARA.

Desenhei meu melhor sorriso amarelo nos lábios, sabendo que ela tinha razão. O que eu estava fazendo da minha vida desse jeito? Não posso pensar em Pedro, repeti meu mantra matinal. Iara soltou um humpf comprido e me empurrou de vez para dentro do prédio de Letras.

[...]

O professor liberou a turma quarenta minutos depois do horário normal. Pensei que iria morrer de fome dentro da sala. Mas finalmente deixamos o prédio e começamos a pegar o caminho da saída. Iara chutou as pedras do chão, cara de tédio misturada com sono. Minha expressão devia ser a mesma.

— Eu odeio Filosofia. — ela resmungou. — O Hegel era um velho rabugento que decidiu encrencar com a vida da gente.

Geralmente defendia os velhos rabugentos, só que até eu estava acabado demais para fazer isso. Apenas suspirei. Então, de repente, um monte de gente com camisa de todos os cursos possíveis apareceu, aparentemente indo para a parada também. O ônibus estaria cheio. Não era legal.

— Meu Deus, acelera esse passo, Gabriel. — Iara disse com uma voz mais acordada. — A gente vai ficar de pé, vamo perder os banco.

Ela parou. Ergui a sobrancelha. A pessoa fala para acelerar e de repente vira estátua no meio do tempo.

— Que foi? — perguntei.

— Aquele é o Marcelo.

— Quê?

— Ali.

Ela apontou para o outro lado, onde de fato, Marcelo estava sentado sozinho com um notebook no colo, sombreado pelo telhado do Centro de Registro e Controle Acadêmico. Ele vestia uma camisa cinza e calça bem escura. Balancei a cabeça. Iara realmente queria me arranjar um “boy”.

— E daí. Eu não quero ele, ele nem é gay.

— Claro que esse menino é gay, Gabriel. — Iara replicou.

— Claro que ele não é. Eu convivi com ele um ano inteiro e...

— Gabriel, até umas semanas atrás você também era “hétero”. E eu sinto... Ele é gay. Nunca duvide do meu gaydar.

Revirei as órbitas, mesmo admitindo em silêncio que o gaydar de Iara tinha 100% de eficiência.

— Vamos cuidar que vamos ficar de pé no ônibus. — eu a empurrei para a frente.

— Só porque estou com fome. — ela suspirou. — Senão...

— Cala a boca, eu não quero boy.

Ela deu de ombros, obviamente não se dando por vencida. Segundo o que conhecia de Iara, ela iria arranjar algum meio de me ligar a Marcelo, de botar o menino para nascer novamente para ser gay. Empurrei-a para a frente e fomos direto para o nosso ponto. Como previsto, cheio.

Depois de quase uma hora que consegui pegar o busão. No momento que paguei minha passagem para o cobrador, meu coração gelou subitamente. Eu estava indo para casa. Eu veria Pedro de novo. Apertei meus próprios dedos, desejando apenas ser forte para isso. Ele não vai assumir que gosta de homem, ele só quer meu corpo...

E então, desci assim que chegou meu bairro. Caminhei os poucos metros entre a parada e o familiar prédio onde vivíamos. Entrei. Subi pelas escadas, ao invés do elevador, para colocar o máximo de demora no percurso. Ele não tá em casa, torci. Ele nunca está em casa essa hora. Alcancei nossa porta.

Puxei a chave do bolso e a enfiei dentro da fechadura. Entretanto, assim que girei a maçaneta, olhei para o chão e percebi um corpo largado, com mais cara de morto do que de vivo: Pedro. Me abaixei rápido. Ele estava duro, cabeça entre os joelhos, roupa suja de poeira. O que raios aconteceu? Bati no seu rosto freneticamente. Ele semicerrou as pálpebras em câmara lenta.

— Pedro. O que aconteceu com você?

Ele me encarou estático por bons segundos.

— Gabriel?

— É, sou eu. O que aconteceu, caralho?

— Eu preciso de você. — ele esticou a mão para minha boca. Me afastei de uma vez. — Merda, Gabriel.

— O que aconteceu? — pressionei minha concentração.

— VOCÊ ME LARGOU AQUI SOZINHO, VOCÊ NÃO DORMIU EM CASA. — o loiro tentou se remexer. Não precisei estar na sua pele para saber o quanto doeu. Ele mostrou uma careta bem Pedro. — Culpa sua.

Ele bebeu. Claro que ele ia beber. Suspirei e o levantei rapidamente. Coloquei-o nos meus braços e o levei para sua cama. Ele resmungou uns xingamentos aleatórios, mandou eu tomar no cu, mas disse ao mesmo tempo que precisava de mim. Botei ar nos pulmões. Eu só precisava ser forte.

— O QUE ACONTECEU, PEDRO? Por que não entrou em casa? Você tem chave.

— Eu fui assaltado, porra! — Pedro grunhiu. — Levaram meu carro, meu celular, meu dinheiro, minhas chaves! E você não dormiu em casa.

Assaltado. Pedro sempre bebia, fazia mil peripécias, porém ele nunca tinha arranjado a sorte de ser assaltado. Esfreguei a testa com o polegar e o indicador. A mãe de Pedro iria surtar se recebesse uma notícia dessa. A culpa seria minha. Ela me pediu o máximo que pôde para cuidar do jovem, já tendo que consciência que juízo era uma qualidade que ele não possuía. Encostei-me ao batente e cruzei os braços.

— Onde?

— Perto do bar. — ele resmungou.

— Qual bar? Você só anda em bar.

— Do Laranjeiras.

Respirei fundo.

— Tá, Pedro.

Saí do quarto. Peguei o celular e disquei o número da polícia. Conversei com uma policial, andando de um lado para o outro na sala. Ela disse que era preciso ir à delegacia. Desliguei e desabei no sofá. Estava com fome. Mas poderia comer na rua. Ouvi os passos de Pedro logo atrás. Demorei para me virar. Ele havia tomado banho no tempo da ligação. Estava agora com uma bermuda e uma camisa preta.

— Como era o cara? — perguntei.

— Pobre!

Porque todos os pobres são iguais.

— Descrição física, Pedro. Não quero saber do teu preconceito.

Ele revirou as órbitas.

— Não lembro.

— Tá, Pedro. — apanhei meu telefone e dinheiro para passagem de ônibus. — Vou ver o que posso fazer.

Me pus de pé. Ele agarrou meu braço com força.

— Você... Minha comida?

— Você tem dinheiro em algum lugar por aqui, arranja um restaurante para comer.

Notas finais
Próximo capítulo: Um bosta com o beijo bom. Será postado por volta do dia 1º de outubro. Obrigada ao pessoal que comentou no último capítulo ♥ Amo MUITOOOO vocês! Até mais.