Júpiter e Vênus

25 Um bosta com o beijo bom


PEDRO

“Arranja um restaurante para comer”, o gato borralheiro disse, “Você tem dinheiro em algum lugar por aqui”. De fato, eu tinha dinheiro. Mas eu não tinha carro. Não havia nenhum restaurante próximo do meu prédio. E o pior, também não tinha celular para pedir que entregassem comida em casa. Assim não dava!

E a culpa era dele, só dele, se ele não tivesse me estressado, eu não teria bebido, se eu não tivesse bebido, não teria sido assaltado e ainda estaria na posse absoluta de meus dois bebês! Precisei pegar um táxi então, andando duro por causa dos músculos rígidos de uma noite inteira no relento. CULPA DE GABRIEL.

Almocei num restaurante italiano do centro e logo voltei para casa, corpo dolorido implorando por cama. Corri para meu quarto, agarrei o travesseiro, simplesmente dormi sem pensar duas vezes. Acordei por volta do final da tarde, com os últimos raios de sol entrando pela janela.

Coloquei os pés no chão. A dor continuava, só um pouquinho do pouquinho aliviada. Choraminguei para o silêncio. Não era justo comigo. Que horas são? Apalpei os lençóis em busca do meu Iphone pelo mero costume. Claramente não encontrei nada. Suspirei zangado e fui para a sala. O relógio do receptor da televisão marcava seis e dez.

No mesmo instante, a porta se abriu e Gabriel apareceu.

— Meu carro, meu celular? — perguntei ansioso.

— Nada. Eles vão mandar notícias, qualquer coisa.

Polícia incompetente, país de merda, PRECISO DO MEU CARRO DE VOLTA!

— Preciso do meu carro!

Gabriel cobriu o rosto com as duas mãos.

— Eu tô fazendo o que posso, Pedro.

Ele foi direto para o próprio quarto e rapidamente sumiu de minhas vistas. Sentei no sofá, imaginando de que maneira seria o resto da semana. Andar de ônibus eu não andaria, nem a pau. Eu não era pobre. E os esquemas da cachaça, que perderia por não estar com meu WhatsApp disponível?

— Oi, Iara. — de repente ouvi Gabriel falando. — É, eu estou em casa. Eu sei, eu sei. Tô tentando.

Levantei e me aproximei de sua porta semiaberta. Ele estava no chão, com o celular nas mãos, conversando com alguém. Iara. Bem, ele era gay. Não agarraria nenhuma Iara. O moreno ergueu as íris verdes e me viu. Baixou o telefone. Agarrei o batente. Precisava ardentemente beijá-lo.

— O que é, Pedro?

Pela primeira vez na vida, distingui um tom impaciente na sua voz. Espera. Ele estava com raiva de mim? Ele? Com raiva de mim? E por quê? Tudo o que disse na noite anterior... Bem, verdades. Ele era homem. Ele era pobre! Fim.

— Se quiser um celular. — Gabriel pulou e puxou a gaveta do guarda-roupa. — Eu tenho um antigo.

Ele apanhou um aparelho minúsculo, botões apagados. Nem era digital.

— Eu uso um IPHONE. — revirei os olhos.

Gabriel suspirou.

— Claro. Esqueci que você é rico, um Bozza, filho de fazendeiro. Deixa pra lá.

O garoto jogou o celular para o canto sem me olhar. Me aproximei rápido e toquei seu abdômen. Ele segurou meus pulsos automaticamente. Então, se afastou para o outro lado, respirando fundo. Fiz uma careta, completamente indignado. Ele se encostou à parede e apertou a testa com os dedos.

— Será que não consegue pensar em nada além de si mesmo?

Não.

— Olha, acabou okay? — Gabriel balançou a cabeça. — Eu não posso continuar com isso.

— Você não pode me dispensar! — crispei.

— Posso.

Desceu uma vontade de picá-lo aos pedaços. Ele chegava, virava minha vida para baixo, me endoidava e no fim me dispensava? Não! Ele era meu gato borralheiro. Eu não aceitava. De modo nenhum. Esmurrei a porta com raiva. Ele voltou para perto de mim. Ele mudou de ideia, sou fabuloso, ninguém dispensa. No entanto, ele apenas conteve meus braços.

— Não endoida, por favor.

— Eu pr... — bati o pé, nervoso. — Eu... VOCÊ NÃO PODE ME DEIXAR!

— Eu ainda estou aqui. — Gabriel me soltou. — Só não para isso. Não temos outro assunto, Pedro. Por favor, sai.

Grunhi, não me dando por vencido.

— Você me quer.

— CHEGA, PEDRO, POR FAVOR! — ele exclamou. — Por favor, é cla...

Ele suspirou novamente e apalpou os bolsos.

— Eu vou na rua.

— Não vai não!

O jovem me ignorou e simplesmente passou direto para a sala. Disparei atrás dele. Gabriel não iria embora segunda vez, não mesmo. Puxei sua camisa com toda a força que consegui colocar. Um pedacinho de pano escapou. Claro, roupa de pobre, né. Ele me empurrou. Acabei no chão. Orgulho tá na baixa da égua.

— Fica com minha chave. — ele me fitou um segundo e saiu.

Filho da puta, pobre idiota. Me pus de pé num pulo e corri para o elevador. Como na noite anterior, havia se fechado. Meti os punhos na parede. Quem Gabriel achava que era? Retornei para a sala, batendo a porta violentamente, indignado. Como ele pôde? Quem ele acha que é?

Me larguei no sofá. Sem celular, sem carro, sem Gabriel. Quem ele acha que é? Quem ele acha que é? Meu nome é Pedro Bozza, não sou as nega de ninguém para ser pegado e depois dispensado porque certas pessoas ficam inventando frescura. Arremessei as almofadas no nada.

— VOCÊ É UM BOSTA, GABRIEL.

— Um bosta com o beijo bom. — admiti para o silêncio. — MAS CONTINUA UM BOSTA E TODO O INFERNO DA MINHA VIDA É CULPA TUA, VAI PRA PUTA QUE PARIU.

[...]

Entrei no prédio de Engenharia, sabendo que já passava de 10 da manhã e que a aula de Cálculo começava às sete. Bem, ainda tinha aula de Geometria Analítica em alguns minutos, a viagem não era de todoo perdida. Não depois de tanta falta. Pisei no primeiro degrau da escada.

Gabriel não havia voltado para casa. Eu queria cortar cada membro do seu corpo, devagar, especialmente aquele p... Enfim. Eu nunca havia levado fora na vida, meu nível de revolta com isso estava a 100%. Passei a mão na cabeça. Doía um pouco, mas eu sabia que não era de ressaca. Apesar de ter ido no bar, não me demorei como costumava demorar, assalto vivo na memória.

— Mas quem é vivo sempre aparece! — Valdecir passou por mim. — Pensei que tinha desistido do curso, Bozza.

— Oi. — murmurei.

Ele sorriu e rapidamente se foi. Subi o resto da escada e puxei uma cadeira aleatória do corredor para me sentar enquanto ainda não começava a bendita Geometria Analítica. Sempre me perguntava por que raios mesmo coloquei Engenharia Civil no Sisu. Eu não suportava nada que envolvesse números. Mas eu estava ali e precisava de um diploma.

— Pedro! — ouvi a voz de Caio após uns minutos. — Bom dia.

Levantei o olhar e o fitei, provavelmente com uma cara não muito bem humorada. Claro que ele não ligou. A tranquilidade eterna de Caio às vezes me irritava pra caralho. Meu orgulho está na privada com Caio também, não tenho orgulho com ninguém mais. Parecia que estava perdendo minha identidade desse jeito.

— Oi. — resmunguei.

— Conseguiu tuas coisas de volta?

— Não. — resmunguei novamente.

Caio suspirou.

— A aula de Geometria vai começar em cinco minutos.

Ergui o polegar positivamente. Ele bateu no meu ombro e desceu para o primeiro andar, para beber água ou talvez ir no banheiro. Ou talvez aproveitar o intervalo para pegar um cara. Fui logo para a sala. A professora de Geometria Analítica estava no pé do quadro, marcando prova. Caio chegou um bom tempo depois da aula iniciada.

Quando a aula terminou, então, Caio saiu junto com Vicente. Eu estava odiando aquilo do fundo do coração. Caio era meu. Ele não tinha o direito de me substituir. Deixei a sala se esvaziar e sentei na janela, sonolento. Varei a noite inteira pensando no filho da puta do Gabriel e no fim, acabei dormindo na sua cama. Sério, cadê meu orgulho?

Subitamente, alguém abriu a porta. Voltei os olhos. Era Jéssica com três livros grossos nas mãos. Nós nos encaramos surpresos. Na manhã anterior, ela tinha me ignorado, passado direto com sua turminha de veteranos. Ela também, além de Gabriel, quem achava que era para me tratar desse modo? EU ERA PEDRO BOZZA.

— Pensei que minha aula de Álgebra Linear seria aqui. — ela disse e desapareceu.

Revirei as órbitas. A culpa de eu a ter chamado de vadia, era dela, se ela quisesse ficar com raiva que ficasse. Além do mais, era verdade. Encostei a cabeça ao batente. Porém, outra vez alguém abriu a porta. Talvez fosse Jéssica, reconhecendo que eu estava certo. Eu pensaria em perdoar. No entanto, era... Como era o nome dele mesmo? Marcelo. Vestia uma calça justa e uma camisa de banda. O cheiro familiar de perfume caro alcançou meu nariz. Mas ele é de Engenharia de Minas, esse prédio é de Civil.

— Bom di... — ele começou a cumprimentar. — Oi, Pedro.

— Você não é daqui. — observei com o mínimo de educação.

— Eu tava procurando a Tânia, professora de Cálculo. Ela tá me ajudando com um artigo. — Marcelo explicou. — Disseram que ela estaria aqui.

Arqueei as sobrancelhas.

— Ela deu aula mais cedo aqui, mas não sei onde ela tá agora.

— Que merda. E o que você tá fazendo aí sozinho?

No momento, ninguém para fazer companhia.

— Nada.

— Quer tomar uma Coca comigo lá embaixo? Eu pago.

— Eu tenho dinheiro.

— A gente racha, ué.

Nós dois descemos para a lanchonete. Pedimos uma garrafa de Coca-Cola de 2,5 l. Enquanto bebia, vi que o cabelo de Marcelo agora estava preso e as linhas do seu rosto se mostravam bem claras. Ele tinha feito a barba. De novo, a sensação de que eu o conhecia surgiu, muito mais forte. Apertei a nuca, forçando outra tentativa de me lembrar do jovem. Todavia, ele não me permitiu raciocinar. Puxou assunto.

— Então, você mora com... — Marcelo colocou o refrigerante em dois copos. — Com o Gabriel?

Cruzei os braços, incomodado com a menção do nome de Gabriel. Justo quando eu queria esquecê-lo. (Mesmo tendo ciência de que não conseguia). Botei ar no pulmão. Marcelo bebericou a Coca-Cola, esperando minha resposta. Movimentei os lábios para falar, no entanto, parei, reparando em um detalhe. Ele tinha falado o nome de Gabriel com um tom íntimo demais. Ele me encarou por um segundo.

— O nome dele é Gabriel, não é?

— É. — respondi. Impressão. — Não é nada pessoal. Culpa da minha mãe.

— Mas a Jéssica falou dele...

— Não importa o que a Jéssica disse. — rezinguei, já irritado com o rumo da conversa.

— Tudo bem.

— De onde conhece a Jéssica?

Marcelo deu de ombros.

— Festa. Ela queria ficar comigo.

Nenhuma surpresa.

— E ficaram?

— Não, impossível. — ele falou com notas travessas em cada sílaba.

Surpresa dessa vez.

— Por quê?

Ele riu.

— Bem, ela não faz meu tipo.

Até onde eu sabia, todo homem da universidade pegaria Jéssica. Bebi o conteúdo do meu copo, cenho franzido. O silêncio tomou lugar. Eu conheço esse cara, mas eu não lembro de onde, caralho. Minha curiosidade me empurrou para a confissão.

— Eu acho que te conheço.

Marcelo desenhou um sorriso nos lábios.

— Sério, Pedro? Por quê?

— Não sei, eu só acho... — eu estava impaciente. — Já morou no interior?

— Quando era moleque.

— Qual cidade?

— Sabe que nem lembro o nome? Você já morou no interior?

— Até o ano passado. Como é teu sobrenome?

Ele hesitou.

— Brandão. Marcelo Brandão.

Marcelo Brandão... Uma luzinha acendeu no fundo de minha memória, finalmente encontrando algo. Entretanto, Marcelo interrompeu meu fluxo de pensamentos. Ele se pôs de pé e apanhou cinco reais no bolso.

— Eu tenho que ir. Acabei de lembrar que a Tânia pode estar na Geologia, ela dá aula lá também... — ele botou o dinheiro na mesa. — A gente se vê. Rachado, né?

Observei o garoto se afastar até sumir. Se Gabriel não houvesse enchido tanto minha cabeça nos últimos dias, eu provavelmente haveria me recordado de quem raios ele era. Ele não negou, nem afirmou nada. Mas eu conheço ele. Brandão. Não é um sobrenome muito comum.

Bebi o restante de Coca. O sol me indicava que era meio-dia e o estômago me indicava que eu estava com fome. Paguei a conta e me levantei. Estava enjoado de comida da universidade da unha do pé ao derradeiro fio de cabelo. Precisava de algo melhor. Tinha um restaurante próximo ao campus, três quarteirões adiante. Desci rua abaixo.

Sofri um pouco para chegar. Eu, pessoa fabulosa, não estava acostumado a andar de pé. Ainda mais naquela hora. Entrei na fila para me servir. Coloquei no meu prato arroz, feijão, macarrão. Estava escolhendo entre o vatapá e o pato no tucupi no instante em que percebi que alguém familiar estava ao meu lado. Volvi o rosto. Caio.

— Oi, Pedro. — ele disse.

— O que você tá fazendo aqui?

— O mesmo que você, ué.

Olhei ao redor. Nada de Vicente, o novo amiguinho. Melhor.

— E cadê o Vicente?

— Não sei. Talvez em casa, almoçando com os pais dele.

Terminei de arrumar meu prato com o vatapá. Então, fui para uma mesa vaga junto à janela. Caio também terminou. Esperava que ele sentasse comigo. Eu estava cansado de estar sozinho. Cutuquei o arroz, olhos fixos no rapaz. Todavia, ele se direcionou para as mesas da parte exterior. Grunhi, irritado. Quem Gabriel, Jéssica e Caio acham que são? Mordi o orgulho que não existia nessa altura e falei:

— Caio.

Ele voltou as íris castanhas e aproximou-se. Puxou a cadeira vazia defronte de mim.

— Ainda sabe que sou bi?

Revirei as órbitas e baixei os olhos para minha comida, arrependimento na goela.

— Você sabe, não gosta, mas está sozinho agora, não é?.

— QUE DIA É... — suspirei. É, eu tô sozinho, não precisa jogar na minha cara. — A prova da Tânia?

Caio me deitou um olhar e sorriu.

— Semana que vem. Como vai colar na prova dela? Ela não tira questões do livro.

— Vou pensar até lá.

— Mestre das colas. — ele ajeitou o boné para trás.

— Como sempre.

Ele cortou um pedaço de carne tranquilamente. Encarei-o, sem saber mais o que falar. Em circunstâncias diferentes, eu teria na ponta da língua assunto sobre mulher, futebol, cerveja, qualquer besteira. Agora, eu estava sem jeito e humilhado. Enrolei o macarrão no garfo, perdido.

— Não é assim que funciona, Pedro. — ele apoiou o cotovelo na mesa. — As coisas não vão deixar de existir porque não se fala nelas.

Afastei o prato.

— E o que você quer que eu faça? — rezinguei não muito baixo. — Que eu engula que você gosta de macho...

— E que você também. — Caio completou.

— VAI SE FUDER!

Ele somente riu.

— Tudo bem, Pedro. Paciência é o que eu tenho de sobra.

Enfiei arroz na garganta. Filho da puta, infame. Desviei os olhos para a rua agitada no horário de pico. Mas é o única pessoa que tenho agora. Findamos o almoço em silêncio. Após uma passada no caixa, saímos para a calçada, não exatamente juntos. Ele pôs as mãos nos bolsos da bermuda que usava.

— Então, tchau, Pedro.

E começou a se afastar na direção da universidade.

— CAIO! — gritei automaticamente, apenas percebendo que GRITEI no momento em que ele se virou.

— O quê?

Cruzei os braços. Eu sinto tua falta pra caralho. É isso.

— Vamos beber uma hora.

Ele abriu um sorriso.

— Vamos.

Notas finais
Não me matem, sou legal, não me matem, sou legal, não me matem, sou legal. Próximo capitulo: Poderes de stalker. Será postado no dia 14 de outubro. Beijos! ♥