Júpiter e Vênus
12 O que eu fiz?
Notas iniciais
NICK
Tomei um demorado gole de água enquanto observava com o canto do olho Henrique, um carinha do terceiro período. O jovem era o maior gato, convenhamos. Pernas grossas, braços delineados e fortes, olhos negros... Eu não entendia porque raios ele tinha que ser hétero.
Enxuguei os lábios com o polegar e girei meu corpo em direção da escada que me levaria de volta a sala. Não que eu estivesse a fim de assistir aula. Só não havia nada de especial para fazer. Até o intervalo, pensei malicioso.
— Volta aqui, Nick. — a voz de Bianca sentenciou logo atrás de mim.
Volvi-me para a garota. De onde diabos ela havia surgido? Balancei a cabeça, ligeiramente confuso.
— Sim, my lady? — ergui a sobrancelha.
— Eu quero conversar. — a loira cruzou os braços com uma expressão desolada no rosto.
— Okay. — dei de ombros. — Vem cá.
Puxei o braço da menina e a guiei para um dos inúmeros banquinhos do campus, ao ar livre. O céu estava nublado, meio que sinalizando outra chuva mais tarde. Bianca ajeitou o longo cabelo amarelo e suspirou.
— O Gabriel é gay.
Qual droga essa menina tomou?
— Cara, tu tava com ele na semana passada. — repliquei, franzindo o cenho. — E vocês dois tavam num rolo. Tudo bem, a gente sabe, ele é virgem e assim e assim assado.
Bianca rolou os olhos.
— Ele só tava me usando pra disfarçar a coisa. É um baita dum enrustido. Droga, Nick. Nada contra vocês. — choramingou. — Mas por quê? Agora todos os caras do mundo vão ser gays?
— Best...
Um bofe da Geologia passou na nossa frente. Fiz uma pausa para mirar bem seu belo porte físico. No mesmo instante, Bianca me beliscou.
— Para de ser oferecida, bicha.
— Eu? Só tava olhando, mana... Égua que olhar não tira pedaço. — sorri. — Mas tá. Me conta isso direito. Eu tou voando.
Ela retirou a sapatilha do pé e aprumou sua posição no banco. Ergui as mãos, esperando qualquer palavra de sua boca. Após uns segundos, finalmente desembuchou:
— Eu... Droga, cara. Eu fui estudar na casa da Iara ontem, porque eu estudo, ao contrário de ti. — revirei as órbitas. — E o Gabriel me deu o maior fora. Disse que não gostava de mim, que a gente não dava certo e ponto. Tipo... Que absurdo, cara. Mas tudo bem. Engoli o choro. Depois disso, a Iara apareceu e a gente foi estudar. A tarde passou tão rápido e nem olhei pra cara do filho da puta. E então... Eu tive uma ideia. Eu sei que eles dois são íntimos e blá blá blá. Aí falei que ia embora. E fui. Entre aspas. — Bianca riu irônica. — Daí que me encostei perto da janela, do lado de fora, pra escutar o que eles iam dizer. Sei lá, queria entender o que diabos o Gabriel tem na cabeça pra me dispensar assim. E... Porra, nem sei como falar. Sabe aquele cara idiota, um loiro, que brigou com o Gabriel lá no bar? E que mora com ele? Pois é. Se pegaram sexta. Eu não escutei tudo, tudo porque a chuva começou a cair assim que ele disse isso e minha casa é longe. E então... — completou sem fôlego. — Foi isso.
Engasguei-me com a saliva. Caio vez ou outra falava sobre o tal loiro. Chamava-se Pedro. Até me aproximei dele na festa, impulsionado por um estado caótico de bebedeira.
— Mas que porra é essa? — questionei chocado. — Gabriel... Pedro... Véi... Meu gaydar anda ruim assim?
— Acho que sim. — Bianca respondeu. — Bem ruim.
— Ainda quer ele? — indaguei com algumas ideias maldosas nascendo.
— Não. Ele é gay, o que raios posso fazer, criatura? Não gosta de bucetas...
*-*-*-*-*
Conheci Caio numa festa da Sociologia, ainda no comecinho do ano. Não demorou muito para que nos envolvêssemos. Ele quis automaticamente iniciar um relacionamento sério. Contudo, dispensei a proposta. Havia milhões de bofes interessantes no planeta, eu não podia me prender somente a um.
Sentei-me na grama, atrás do prédio de Geologia. Era o nosso lugar secreto de encontros. Pouquíssimas pessoas passavam por ali. Afinal, quem iria se atrever a invadir o espaço dos geoloucos, o povo com fama de maconheiro? Uma mão apertou minha cintura. Virei-me. Finalmente.
— Demorou. — fiz biquinho.
— Besta. — Caio ajeitou o boné, sentando-se ao meu lado. — É difícil me livrar do Pedro. Se ele souber que tem um coleguinha bi, surta totalmente.
Sorri malicioso. Enrustido total. Esses LGBTfóbicos...
— E se ele gostar da coisa também? — ergui a sobrancelha, dando um sorriso sugestivo. — Vai que... Não sei.
O rapaz franziu as sobrancelhas.
— Do que tu tá falando?
— Soube por aí, um passarinho me contou, que ele pegou um tal de Gabriel, conhece?
Notei que o queixo de Caio caiu. Ele coçou a nuca, exibindo uma expressão confusa. Eu o entendia. Quem desconfiaria? Eu mesmo não desconfiei.
— Tá de brincadeira, jovem.
— Então tá. Não acredite. — coloquei uma mão no seu peito. — E a gente não veio aqui pra falar dele mesmo.
GABRIEL
— Gabriel. — Iara disse solenemente. — Ele tá afim. Era isso o que eu ia dizer ontem, antes de tu fugir feito um ratinho.
— Ele não tá afim! — retruquei. — Será que tu não lembra que ele se chama Pedro?
A menina revirou os olhos e meteu um monte de batata fritas duma única vez na boca. Ela nem se deu ao trabalho de mastigar educadamente. Pra quê, né? Suspirei. Pedro, Pedro... A lembrança da véspera ecoava bem viva na minha mente. Ele esteve em meus braços, frágil, sem a máscara do dia-a-dia. Pena que não ouviu a batida forte do meu coração.
— Minha aposta. — minha amiga resmungou com a comida nos dentes. — É que ele lembra que te agarrou e tá fingindo. Só tu, mongo dos mongos, que não percebe isso. Tua lerdeza é absurda, filho.
— Vai se fuder. — soletrei, desejando que o assunto cessasse. Eu não queria me iludir. Pedro era o ser mais preconceituoso de todo o mundo. Machucar a mim mesmo com isso seria horrível. Já estava sendo difícil aceitar minha situação.
Iara levantou-se do chão e foi jogar o pacote de batatas num lixeiro próximo. Sorri quase aliviado com sua ausência. Então, puxei o celular do bolso pelo mero costume de puxar. Assim que desbloqueei o aparelho, notei que havia dezenas de mensagens no WhatsApp. E a grande maioria era de uma única pessoa: PEDRO.
Ele tem meu número? Uau.
Não tive tempo para pensar quaisquer outras coisas. Meu dedo apressou-se em abrir a conversa. Me deparei com uma única frase repetida:
“Vou te matar”
— Mas o que eu fiz? — murmurei.
— Fez o que do quê? — Iara indagou ao retornar para debaixo do cajazeiro.
— Eu não sei. O Pedro endoidou.
— Ele já é doido desde sempre... Mas o que foi?
— Disse que vai me matar. — levantei-me num pulo. — Acho melhor eu ver o que ele quer.
—Deixa de ser otário. — Iara segurou minha mão com uma força inimaginável. — A gente tem aula agora. Sabe que a Helena não tolera atrasos. Depois tu vê o que raios o reizinho deseja. E deve ser bem frescura.
[...]
— Quero esse fichamento na semana que vem. — a professora disse calmamente, enquanto passeava pela sala. — Quem não entregar... Fica sem nota, óbvio.
— Essa filha da puta... — Iara sussurrou ao meu lado. — Deve achar que a gente só tem a disciplina dela. Mereço.
Meneei a cabeça, concordando. Nós estávamos rodeados de trabalhos. E era só o começo do curso. Suspirei entediado e anotei o restante das observações do quadro. Meus pensamentos prendiam-se em Pedro. Qual era a merda do problema? O que raios eu tinha feito? Apertei a caneta, pousando meu olhar no nada.
— Tá pensando nele, né. — ela riu. — Que bonitinho.
— Vai dar a porra desse cu.
— Eu? Vai tu, não é não? — Iara deu um tapinha no meu ombro.
— Vou te descer o tapa. — revirei as órbitas.
Iara apenas sorriu e também anotou o que estava escrito no quadro. Aproveitei sua deixa para espreitar Bianca, sentada numa carteira da frente. Ela parecia bastante concentrada na aula. Internamente, eu me sentia culpado. Talvez a índia tivesse razão. Fui meio grosso. Mas já era. Impossível voltar atrás e falar a coisa com mais delicadeza.
— Por hoje é só. — Helena soletrou num tom longínquo para meus ouvidos.
No mesmo instante, o pessoal se amontou em cima do quadro para tirar fotos. Eles sempre faziam isso. Calmamente, coloquei caderno e canetas na mochila. Sorri ao recordar não haveria aula pela tarde. Ergui os olhos. Iara já estava na porta, de braços cruzados, me esperando.
— Lerdo para tudo. — provocou.
— Vai te fuder.
[...]
Tudo o que eu queria era comer. Pena que não havia muitas opções: carne requentada da semana anterior, miojo e ovo. Eu precisava fazer compras. Pedro claramente não faria isso. Pedro. Mais uma vez recordei de suas mensagens. Qual era a merda do problema? Se bem que Iara podia estar certa. O loiro sempre tinha alguma frescurite.
Passei a mão no trinco da porta da sala e a abri, sem a mínima coragem. Mal o fiz e duas mãos se enlaçaram no meu pescoço. Era Pedro, completa e absolutamente alterado. Seu rosto branco apresentava nuances vermelhas. Bêbado? Com o cenho franzido, agarrei os pulsos brancos do garoto e o afastei para longe.
— Que porra é essa, cara? — perguntei totalmente confuso.
— Cara de pau. — cuspiu.
Espremi as sobrancelhas e fechei a porta com o pé. Só desejava saber o motivo de tamanho rebuliço.
— Pedro, eu não tô entendendo.
— Ah não? — gargalhou cheio da ironia e chutou a pobre parede. — Quem mandou tu sair espalhando por aí que me beijou, gato borralheiro de merda? Quem mandou? Porra!
An? Tive que apoiar a mão no sofá para aguentar o susto. Afinal, contei a história unicamente à Iara. Ela jamais fofocaria. Mas como assim? Ele se recordava?
— Tu lembra?! — gaguejei.
Pedro puxou os próprios cabelos.
— Eu lembro, caralho! Eu lembro da droga do beijo, eu lembro da droga do carro, eu lembro do que tu fez comigo na segunda! — vociferou. — Pára de me coisar, o propósito não esse. Pra quem tu contou essa merda?
Qual foi a droga do meu pecado?, perguntei mentalmente a Deus.
— Uma amiga. Só. — respondi ao mesmo tempo que meu coração pulava dentro do peito.
Ele aproximou-se e colocou o indicador no meu nariz. Senti uma onda de ódio ameaçadora vir de seus olhos castanhos. Respirei fundo, procurando alguma maneira decente de agir. Porque eu realmente não sabia o que fazer! Estive sempre contando com o fator “álcool apagando memórias”.
— Ela tem boca, idiota. Droga! Cacete! Será que tu não conseguia fingir que aquilo não aconteceu? E eu seguiria a droga de minha vida normalmente. Porra!
Suas palavras magoaram profundamente meu ser, mesmo sabendo que Pedro possuía alguma razão. A dor transformou-se em raiva em milésimos de segundos. Desci um tapa no seu dedo transparente e empurrei-o para junto da parede com certa força. Ele tremeu o lábio, parecendo assustado. Não liguei.
— Eu não sei o que houve, mas ela não espalhou. — soletrei cada sílaba. — Eu não podia fingir que aquilo não aconteceu, porque aconteceu! Você me beijou. Não pedi isso.
O loiro movimentou um punho na direção do meu rosto. Antes que atingisse o alvo, segurei-o firmemente, não me importando de machucá-lo ou não.
— Mas você me atacou de noite! — grunhiu. — Me solta!
— Não. — ignorei-o. — Quero saber aonde tu ouviu isso. Não pode chegar me acusando assim.
Pedro ergueu o outro punho. Segurei-o também com facilidade e pressionei minhas pernas contras dele, impedindo-o de escapar.
— Você não vai fugir enquanto não me explicar essa história, princesinha.
Ele revirou as órbitas.
— Foi o Caio. — resmungou. — Ele mandou uma mensagem, perguntando se eu tinha cometido a infâmia de te pegar.
Caio?
— E? — levantei a sobrancelha. — Como ele soube isso?
— Não sei, caralho! — Pedro bufou, virando a cara para o lado. — Tou te procurando desde então. Agora, me solta! Não sou obrigado a ficar me grosando em ti. Já não basta sexta-feira!
Suspirei ainda irritado e soltei o playboy. Ele sacudiu a camisa, como se eu portasse milhares de doenças infecciosas. Pedro sendo Pedro. Recordei-me que ainda estava com a mochila nas costas. Retirei-a e a pus em cima do sofá. Limpei o suor que escorria de minha testa e introduzi uma boa quantidade de ar nos pulmões. Precisava me acalmar.
— Infâmia né. — murmurei, deixando que meus olhos passeassem em qualquer coisa que não fosse Pedro.
— Claro. — ele respondeu. — Gay é que eu não sou.
— Mas engraçado é que se jogou nos meus braços. — repliquei sem pensar duas vezes, apertando o couro do sofá. — E quando eu quis parar, você insistiu em continuar. — acrescentei e finalmente olhei para Pedro.
Ele estava enchendo a si mesmo de tapas. Ah meu Deus, além de tudo, é doido.
— Pára com isso, criatura! — rezinguei, aproximando-me e agarrando seus braços. — Pára!
Pedro me beijou. Foi tão rápido que nem consegui captar o exato momento em que o playboy colou seus lábios nos meus. A raiva pulsou no meu sangue, viva e indignada. E de novo, vai dizer que tá cometendo a infâmia de me pegar. E vai dizer que devo fingir que nada aconteceu. Porém, sua língua frenética invadiu minha boca e um arrepio tomou conta do meu corpo. Meu raciocínio se enuviou. Acabei me entregando. Num movimento inconsciente, o abracei.
Agarrei um tufo de seus cabelos finos, quase prontos para serem cortados. Senti uma mão caminhar pelo meu peito, num ritmo ora rápido, ora devagar. Tremi. Meu coração já nem era coração depois disso. Então, a mesma mão escorreu para o cós de minha calça e alcançou meu membro. E o apertou em cheio. Uma quentura, um formigamento, um negoço ardeu na parte debaixo do meu corpo. Meu rosto queimou tanto que virou cinzas. Ninguém, em momento algum de minha vida, havia me tocado. Hesitante, larguei o beijo.
— Pedro, caralho.
Ele resignou a mão e recuou um ou dois passos, branco como neve. Movimentei as coxas, desejando disfarçar a ereção nascente. Num creio. Cocei a nuca, esfreguei o olho, baguncei os cabelos. Por que Pedro mexia tanto comigo? Não era justo! E pau duro não... O loiro continuou me encarando por mais uns segundos. E por fim, saiu do apartamento, batendo a porta, sem olhar para trás.
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