Júpiter e Vênus
13 Infame
Notas iniciais
PEDRO
Segurei a garrafa de 51, ainda lembrando do maldito pau duro de Gabriel. E do meu, por consequência. Porque estranhamente fiquei excitado ao notar que eu fui a causa de sua ereção. Balancei a cabeça. Como é que eu mesmo me defendo? Debrucei os braços sobre a mesa e neles, encostei a testa. Definitivamente, não sabia mais o que fazer.
— Você tá bem? — uma voz masculina questionou.
Levantei os olhos para saber quem foi a criatura que decidiu me incomodar. Era uma homem negro. Não consegui captar outros detalhes, meus olhos estavam seriamente embaçados por um estado caótico de bebedeira.
— Tou ÓTIMO. — respondi mal humorado. — Só ando fazendo merda demais.
Ele puxou a outra cadeira vazia de minha mesa e sentou-se. Claro, além do Gabriel... Notei que possuía uma tatuagem de uma árvore no antebraço esquerdo. Ou direito, sei lá. Mas talvez fosse miragem. Afinal, qual ser humano em sã consciência tatuaria uma árvore? Qual o sentido disso?
— E o que você anda fazendo? — o estranho indagou com o cenho franzido.
— Não é porque tou bebo que vou contar minha vida. — resmunguei.
— Você tem cara de quem faz exatamente isso. — replicou.
— Se engana.
Desabotoei um botão de minha camisa. Estava fazendo um calor do caralho. O preparo de chuva que apareceu pela manhã sumiu pela manhã mesmo. Aquela porra de cidade possuía as quatro estações num dia só.
— Eu ando beijando pessoas indevidas quando tou bebo. — continuei. — Mas é uma droga, porque beijo quando tô lúcido também. E para piorar... — cerrei os punhos, desejando me encher de socos. — Eu pego no pau dele. Lúcido.
Ele sorriu.
— Pau né.
— Pau! — exclamei. — E ele é pobre! Nem consigo acreditar que me meti com essa mistura, homem e pobre! Ele me tira do sério. Ele é... Eu odeio ele.
Pera... Pera... Eu tou exatamente contando minha vida! Desci-me uns tapas, desejando me enfiar num buraco. O desconhecido enlaçou as mãos no pescoço, ao que parecia, divertindo-se com minha situação.
— Ignora o que eu disse. — murmurei.
Afastei a garrafa para longe. Pelo visto, álcool não era uma boa coisa para pessoas como eu. Arrumei os cabelos, que deviam estar uma bagunça sem igual. O estranho ficou me encarando.
— Nunca beijou outro homem além dele?
— Claro que não! — falei indignado. — Não sou essa nojeza de viado!
— Por que tanto preconceito? — ele inclinou a fronte. — É só um cara. Uma pessoa. Uma nova experiência. — pausa. — Por que tanto preconceito?
Exaltado, levantei-me num pulo.
— Vou pra casa. Você deve fazer parte da corja. Além de preto, tô vendo.
Girei o corpo na direção da saída. Olhei para a lua nascendo, no horizonte. Ela aparentou estar duplicada. Esfreguei os olhos e dei o primeiro passo. Alguém lá trás gritou algo sobre a conta. Meti a mão no bolso e joguei uma nota de R$ 100,00 no ar.
— Você é igualzinho a ele. — ainda pude ouvir o homem dizer. Mas não dei importância.
[...]
Abri a porta da sala com certa dificuldade. Meus olhos não estavam funcionando direito. Mal entrei em casa e inclinei-me, enjoado. Sem o mínimo de educação (desde quando bêbado tem educação?), vomitei. No mesmo instante, o rosto bronzeado de Gabriel surgiu diante de minhas vistas. Comecei a resmungar uns xingamentos aleatórios, lembrando-me do beijo, das ereções, de tudo. Ele aproximou-se. Eu recuei.
— Não chega perto de mim. — vociferei. — Não chega.
— Acha que eu vou fazer o quê? — o gato borralheiro pôs as duas mãos na cintura. — Te agarrar? Já percebeu que é tu quem sempre faz isso?
Puxei um tufo de cabelos, desejando estar morto. Porque Gabriel tinha toda a razão. Eu me jogava em cima dele como se fosse uma putinha! Contudo, eu me chamava Pedro e não dava o braço a torcer. O gato borralheiro seria o culpado das merdas que andei fazendo, ponto.
— Não importa! — bufei, dando um primeiro passo na direção do meu quarto. Porém, assim que o fiz, escorreguei no meu próprio vômito e caí de bunda no chão. Doeu.
Gabriel me estendeu a mão. Levantei-me, com sua ajuda. A minha vontade de xingá-lo era enorme. Mas estava claro que eu precisava dele. E isso machucou muito mais do que a queda. Para piorar tudo, demorei vários segundos para perceber que ainda segurava seu pulso. Sem largar. Vermelho, soltei-o.
— Como... — ele suspirou. — Como conseguiu chegar em casa?
— Dirigindo. — resmunguei.
— Não sei como é que não morre...
— Me deixa! — exclamei. — Vou pro meu quarto. Não fala comigo.
— Tu não dá conta de chegar lá nem em 1000 anos.
— Não chega perto!
Ele me ignorou e passou os braços na minha cintura. Fui obrigado a caminhar, sob sua proteção. Senti sua respiração morna no meu pescoço. Meus pelinhos se arrepiaram, os filhos da puta traiçoeiros. Devagar, desviamos juntos de obstáculos perigosos para um bêbado, tais como paredes e mobília.
O moreno deixou-me livre ao chegarmos no outro cômodo. Joguei-me na cama e abracei o travesseiro. Ele continuou na minha frente, me observando, de braços cruzados. Fechei os olhos para não encará-lo. Eu não podia encará-lo. Um breve silêncio se fez presente. Minhas pálpebras aproveitaram isso para ficarem pesadas como chumbo. Todavia, antes que eu caísse no sono, o gato borralheiro disse:
— Não acredito que encheu a cara só porque me beijou.
— Eu enchi a cara. — respondi, abrindo os olhos. — Porque gostei. Porque foi bom. Porque não quero gostar de homens. Ainda mais considerando que você é o homem.
O garoto ajoelhou-se no chão, debruçando-se sobre a cama. Inclinou, então, o rosto para perto do meu. Senti medo de que ele fosse me beijar. Eu não resistiria. Entretanto, Gabriel apenas acariciou meus cabelos fétidos.
— Você devia parar de beber, super hétero. — provocou. — Fala demais sob efeito de álcool.
Bufei, um tanto zangado. Comigo e com ele. Comigo porque eu realmente falava demais quando bebia. Com Gabriel porque... Caramba, ele era um filho da puta! Precisa de outra explicação? Ele continuou com a mão nos meus cabelos. Acabei esquecendo por um instante da minha dignidade e deixei como estava.
— Sabe? — Gabriel continuou. — Acha que eu queria gostar de homens? Acha que eu queria que tu mexesse tanto comigo?
Mexo com ele? Meu coração coisou-se dentro do peito. Segurei seu braço desnudo, subitamente interessado, e inclinei o pescoço, disposto a fisgar aqueles malditos lábios. Ele percebeu minha intenção óbvia. E balançou a cabeça, abrindo um sorriso. Espremi as sobrancelhas, sem entender. Ele me deu um fora? Ele tá doido?
— Você tá bem sujinho e com um bafo horrível. — disse, levantando-se. — Vai dormir, amanhã não é domingo.
[...]
A luz forte do sol invadia a sala sem nenhum pudor, pela janela de vidro. O dia, afinal, estava bonito. Pena que não combinava nem um pingo comigo. Minha cabeça e meu corpo doíam pra caralho. Meus pensamentos zumbiam, mostrando a imagem de Gabriel de dois em dois segundos. Nenhuma outra pessoa, jamais, havia ocupado tanto espaço em minha mente. E como não ocupar? Eu o beijei, caramba! Melhor, ataquei. Céus, meu nome era Pedro Bozza. Puxei um tufo de cabelos, sentindo que iria perder a sanidade em breve.
Tentando desvincilhar-me do filho da puta, repousei o olhar sobre o punhado de alunos que entravam juntos. Eu conhecia alguns de vista, os mais interessantes. Outros, tão estranhos quanto os nerds de filmes hollywoodianos não chamavam a mínima atenção. Já Caio estranhamente não chegava logo. Considerando que ele costumava “abrir” a faculdade... Cerrei os dentes. Sua mensagem continuava no vácuo. Responderia o quê? “Sim, eu peguei o Gabriel, não uma, mas duas vezes. E tô ficando doido com isso”.
— Ei, Bozza, vai pra bola hoje? — alguém gritou.
Levantei os olhos, procurando o remetente da pergunta. Era o Vicente, do outro lado da sala, um carinha tão filho de papai quanto eu. Tinha uma carinha macia de bebê e um corpo magro, ainda que bem desenhado. Nós não nos falávamos muito no campus ou na aula, apenas na hora da zueira.
— Que hora? — indaguei.
— Umas nove da noite. Lá no campus III.
Eu não sabia jogar, mas tudo bem. Ergui o polegar positivamente. No mesmo instante, a professora deu o ar de sua graça. Eu não lembrava o nome dela, pra falar a verdade. Suspirei com preguiça. Só estava na faculdade porque matei praticamente todas as aulas de Cálculo desde o início do ano. Na única que quis assistir, cheguei tarde (culpa da Gabriel) e não pude entrar.
Não demorou muito para que Caio aparecesse na porta aberta. Seu rosto estava vermelho e bastante suado. Fechei os punhos, sentindo-me nervoso. O jovem, como se já soubesse disso, mirou diretamente meus olhos. Caio não era alguém intimidador, ao contrário. Seu jeito de menino tranquilo deixava qualquer pessoa à vontade. A questão era que ele provavelmente tinha conhecimento de minhas merdas.
— Posso entrar, Tânia? — ele indagou, voltando o olhar para a professora.
Ela encolheu os ombros estreitos, sem soltar uma única palavra, concentrada nas equações. Vaca! Filha da puta! Eu também tava atrasado na semana passada! Caio sorriu agradecido e dirigiu-se ao seu lugar de sempre, atrás de mim. Praguejei em pensamento. Era injusto. Não que eu estivesse desejando que meu amigo fosse expulso. Mas era injusto.
— Ei. — ele deu um tapinha no meu braço.
Tentei estampar meu sorriso habitual e retribuí o gesto.
[...]
Dormi durante toda a aula, sem o mínimo de escrúpulos. O importante era a minha presença, oras. Acordei somente no instante que a professora liberou a turma. Caio e eu, então, saímos juntos, conversando banalidades sobre mulheres e futebol. Eu quem puxava mais assunto. Queria, a qualquer custo, impedir que ele falasse de sua mensagem não respondida. No momento, me parecia melhor ignorar a história. Afinal, considerando minha personalidade, sabia muito bem que poderia soltar um monte de merdas pela boca. Mas... Ainda estávamos alcançando as escadas, no fim do corredor, quando Jéssica encorpou-se na nossa frente, vinda do nada. E...
— Caio. — ela começou, empurrando nós dois para o canto da parede. — Diga a esse jovem que eu estou muito nova para morrer de preocupação. Diga também que ele não pode me largar numa lanchonete falando que vai matar não sei quem por causa de uma mensagem de não sei quem!
Caio virou-se para mim com um sorriso esperto. Se antes, havia alguma dúvida de que realmente fiquei com o gato borralheiro, agora estava bastante óbvio. Meti as mãos nos bolsos, reprimindo minha vontade de dar um tiro em Jéssica.
— Pedro, a Jéssica disse que tá muito gost... Ops, muito nova pra morrer e o resto tu já ouviu. — ele disse num tom travesso. — Largou ela só por causa do Gabriel?
Fechei os punhos. O filho da puta ousado estava me colocando contra a parede! Amigo da onça, parido em bordel! A morena deu um passo atrás e olhou para mim, com o cenho franzido. Sorri amarelo, tentando contornar a situação do melhor jeito possível. Ou impossível se fosse possível.
— É. — técnica velha e antiga, misturar verdade com mentira. — O... Gabriel fez uma conta no meu nome e não pagou. — não tô falando isso. — E estavam mandando mensagens para meu celular, cobrando. E... Eu fiquei muito puto porque meu nome ficou sujo! SPC!
O garoto cobriu a boca, segurando uma gargalhada óbvia. Eu vou matar o Caio depois, ah se vou. Jéssica espremeu as sobrancelhas negras, exibindo uma expressão pensativa. O silêncio me trouxe nervosismo.
— É mermo? — Jéssica falou por fim.
— Unrum. — confirmei, balançando a cabeça positivamente.
— Aaaaan. — ela ajeitou o longo cabelo. — Tá... Eu... Eu vou ali. — e correu na direção dos degraus.
Observei-a até que sumisse de minhas vistas, coração na mão. Jéssica com certeza não havia acreditado na história, mas era melhor do que nada. Quando ela finalmente desapareceu, respirei fundo e falei irritado:
— Eu não peguei porra de Gabriel! Eu não pego macho! Tu é doido? Como é que tu... Tu não pode sair dizendo isso. Eu... Aonde tu ouviu essa história absurda?
Caio encolheu os ombros, entrelaçando as pernas firmes, mostrando uma expressão tranquila.
— Tava te sacaneando. — sorriu. — Mas... Já que ficou tão nervoso com a mensagem... Bem, foi suspeito.
Infame! Levantei o pé, disposto a me livrar daquela criatura por alguns minutos. Caso contrário, meteria um soco no seu rosto amarelo. Eu paguei cerveja dezenas de vezes para o dito cujo! E aí ele fazia isso comigo. Infame! Todavia, antes do meu primeiro passo, ele soltou uma afirmação:
— Eu pego. Homem.
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