Júpiter e Vênus
14 Quase se comendo em público
Notas iniciais
PEDRO
An? Quase chequei uma possível sujeira nos ouvidos. Como assim? Que diabo de porra era essa? Caio não dava o cu. Ou comendo, fazendo os dois, tanto faz. Eu o vi com meninas em momentos anteriores. Não era possível. Eu não andava com esse tipo de gente.
— Quê?
— Eu pego homem. — ele repetiu. — Sou bi.
— Tá de zueira de novo ou... Não, cara. Não tá falando sério.
— Eu tô falando sério. Eu pego homem. Namoraria, mas existem uns detalhes no meio da história. Então... Só pego, por enquanto.
Engoli toda a saliva que tinha na boca. O demônio passou dos limites. A vida estava numa vacalhação eterna comigo! Afastei-me, nervoso. E existia essa treta de “ser bi”? Na minha concepção, ou era macho ou era tchola. Fechei um punho. Caio fitou-me, mostrando a expressão mais tranquila do mundo.
— Eu ainda sou eu, Pedro. — disse calmamente. — Assim como você ainda é você. Não precisa desse preconceito. O Gabriel...
— Cala a boca! — gritei, o interrompendo. — Cala. A. Porra. Da. Tua. Boca. O Gabriel é só um filho da puta. Não fala... Dele. — completei, sem fôlego. — Eu não quero ouvir nada que se refira a ele.
Ele suspirou.
— Se você desistir de se apegar a tanto preconceito, vai ser mais fácil, eu te garanto. Eu... — ajeitou os cachos sob o boné da Coca-Cola. — Vou te deixar sozinho.
GABRIEL
Ainda não havia entendido o que estava fazendo no campus 3, assistindo o jogo do pessoal da Engenharia. Ah sim, pera, foi a senhora Iara que me arrastou até ali e em seguida me largou sozinho. Um dia, pode ter certeza, eu mataria aquela menina. Apoiei os cotovelos nos joelhos. Nunca curti futebol. E jamais iria entender porque um bando de machos corria atrás de uma bola. Bem, até que no momento tinha uns machos interessantes... Eu não pensei, eu nã... Eu pensei isso. Suspirei. Chega de reprimir.
— Gabriel... — Jéssica surgiu da imensidão do nada na minha frente. — O que você faz aqui?
Ergui a sobrancelha enquanto ela sentava-se ao meu lado na arquibancada. Eu não conhecia Jéssica direito. O que eu sabia dela era o que escapava da boca nada discreta do povo da faculdade e de Pedro. Nós dois nunca trocamos palavra alguma que fosse digna de ser chamada “conversa”. Observei que a jovem usava uma blusa decotada e saia de tamanho médio.
— Uma amiga me puxou pra cá e me largou. Fim.
— Trágico.
— Trágico. — repeti, um pouco desanimado.
Lá embaixo, no campo, um cara branco de doer a alma acabava de fazer um gol. Próximo a mim, um montinho de gente protagonizava uma comemoração. Apertei meus próprios dedos. Definitivamente, estava no lugar errado.
— E o que você faz aqui?
Ela sorriu.
— Tô de olho num carinha.
— Qual? — perguntei.
A morena apontou com a cabeça para um carinha do lado esquerdo do campo. Espremi os olhos a fim de poder enxergar melhor. Ele tinha o cabelo preto e jogava sem camisa, exibindo um corpo interessante para todo mundo.
— Quem é?
— Um carinha da Engenharia de Minas. Mas é gay, tô olhando só porque a visão é agradável.
Se ele é gay... Que lógica é essa, carai? Peraí... Ele é gay... Olhei de novo automaticamente. Ele acabava de driblar uns dois caras. Notei que seu cabelo era levemente comprido quando correu e um prendedor escapou dos fios. O rapaz não ligou e continua com a bola nos pés.
— Bonito? — Jéssica indagou, abrindo um sorriso.
— Aaan. — ajeitei minha postura. — Tem seu charme, mas já vi melhores.
— Tipo quem?
— Tipo...
...o Pedro...
— Tipo?
— Ah eu não sei. — virei o rosto, subitamente embaraçado.
De repente, uma cabecinha loira entrou pelo portão. Não era preciso demorar-se encarando para perceber que a criatura era tão somente o todo-poderoso senhor Pedro Bozza. Vestia uma camisa preta e calça jeans azul. Mordi o lábio inferior. Depois de tudo o que aconteceu no dia anterior... Ele gostava de mim. Bem, penso que gostar não é a palavra correta, mas atração... Jéssica cutucou-me, acordando-me do devaneio.
— Tipo o Pedro?
— An? — franzi o cenho.
— Tu já viu melhores tipo o Pedro?
Senti o rosto queimar.
— Vai caçar o que fazer, Jéssica.
— Ele é gostoso.
— Gosta dele? — questionei repentinamente.
A menina fez uma expressão divertida.
— Não, seu doido. Eu e o Pedro é só amizade colorida. Se bem que nessa última semana é só amizade. Ele anda surtando, brochando, enrolando, sabe? Acho que tá apaixonado. Já pensou? O Pedro apaixonado? A pessoa deve ser muito fodástica pra atrair a atenção de verdade a atenção desse enjoado.
Nem preciso dizer que necessitei segurar um sorriso enorme. Nem preciso. Tornei a olhar Pedro, conversando animadamente com duas meninas e um carinha magro. Meu Deus, por que me deu tanta trouxicidade? Jéssica riu.
— Que foi? — indaguei.
— Nada não, só lembrei de uma coisa engraçada. — ela deu de ombros. — Sabe, às vezes penso numa merda que fiz há um milhão de anos atrás e começo a rir. Fim.
— Apresenta azamiga, Gabes. — a voz familiar de Iara cantarolou.
Jéssica e eu nos viramos. A índia estava logo atrás de nós, em pé, de braços cruzados. O cabelo dela estava mais do que bagunçado, indicando altas aventuras. Sentou-se logo entre mim e Jéssica, na maior desinibição, como era de esperar duma criatura daquela.
— Jéssica, essa é minha amiga Iara, colega de turma. — apresentei. — Iara, essa é a Jéssica, veterana do Pedro.
— Muito prazer. — Iara abriu uma linha sorridente nos lábios.
— Prazer é meu. — Jéssica respondeu.
— Me largou aqui sozinho. — reclamei.
— Tinha assuntos importantes para resolver.
Uma guria de cabelos claros passou a alguns metros abaixo, quase que desfilando. Iara suspirou. Assuntos interessantes... Claro.
— Não pode ver uma.... — buceta. — ... boca que já quer sair beijando. — provoquei.
— Menino, vai beijar também e deixe de ser chato. — minha amiga deu um tapinha em minhas costas. — Não é mesmo, Jéssica?
— É claro que é. — a morena balançou a cabeça afirmativamente. — Mais do que claro.
— Gostei dela. — Iara disse.
Apontei o meio de minhas pernas, soletrando silenciosamente “ela é hétero”. Iara revirou os orbes escuros e apontou o dedo de um jeito nada recatado. Lógico. Desde quando um trem daquele me ouviria? Voltei a atenção para Pedro. Para minha mais profunda dor de cotovelo, ele já estava agarrado a uma das meninas com quem estava conversando minutos antes. Altos beijos, nem um pouco decentes. Quase se comendo em público.
— Eu vou pra casa. — falei automaticamente. — Hum tá tarde para pegar ônibus.
A índia também olhou na direção de Pedro.
— É, Jéssica. Foi muito legal te conhecer, mas a gente é pobre, não tem?
— Então tá né... — Jéssica ergueu as mãos no ar. — Até outra oportunidade.
[...]
Ele nem era meu e eu estava com ciúme. Com ciúme de um cara como o Pedro. Arranhei o rosto, enquanto me jogava no sofá da sala. Quando pensava que deixaria de ser otário, de repente, aparecia mais otariedade na minha vida. Precisava me jogar de uma cadeira. Chega de viver essa vida cruel.
Respirei fundo e foquei na minha necessidade mais urgente. Comida. Sim, eu estava quase morto de fome. Havia passado o dia na universidade. Manhã, aula, tarde, trabalho, noite, jogo. Queria comer e queria logo. Tirei a camisa, desviando – ou pelo menos tentando – os pensamentos do loiro. Levantei e fui até a cozinha.
Só que... Dei de cara com um monte de louças sujas. Meu coração partiu-se em onze mil pedaços. Bati a testa contra a parede, a fim de esquecer da fome e parti para o trabalho. Minha mãe me ensinou firmemente o conceito de “dever primeiro, prazer se der tempo”.
Ainda terminava de enxugar a pia, quando ouvi o som da porta da sala se abrindo. Meu coração de trouxa decidiu disparar. Girei o pescoço para trás. Em instantes, o rosto branquelo de Pedro surgiu no meu campo de visão. Mordi o lábio. Ele estava tão suado, absurdamente lindo. Encostou-se junto ao batente, encarando-me apaticamente.
— Boa noite. — cumprimentei, procurando disfarçar as coisas malucas que mexiam com meu corpo no momento. — Como vai?
Ele revirou os olhos castanhos.
— Eu tô muito zangado.
Espremi a flanela e a coloquei estendida sobre a torneira. Virei-me então para o jovem.
— Acho que tu é o tipo de pessoa que vive zangada.
— Eu te vi no campo.
Viu?
— E?
Pedro cruzou os braços brancos e soltou um longo suspiro. Parecia realmente estar meio aflito com algo.
— Eu vou pro meu quarto. — o playboy começou a sair.
— Qual é o problema, Pedro? — questionei, preocupado.
O loiro parou, segurando a porta por um segundo.
— É ironia essa pergunta? — e seguiu em frente antes que eu pudesse responder qualquer coisa.
Pus água num copo de vidro e bebi o líquido em menos de dois segundos. Ele pode até sentir algo por mim. Mordi o lábio. Mas não vai conseguir aceitar isso. Coloquei a jarra de volta na geladeira e a fechei. Catei, então, três miojos no armário. Minha mente estava sonolenta demais para pensar numa comida decente. E miojo era lindo, ainda mais de tomate.
Peguei uma panela fina e joguei água e o macarrão dentro. Fogo, cinco minutos e pam. Prontinho. Fui para meu quarto, tomar um banho. Quase rasguei o resto de roupa que ainda tinha no meu corpo. No momento em que coloquei uma toalha, Pedro entrou. Já estava banhado e limpinho, vestindo uma camisa branca e bermuda.
— O que foi? — perguntei, franzindo o cenho.
Ele me encarou de cima a baixo, praticamente despindo-me. É provável que um tom escandaloso de vermelho tenha tomado conta do meu rosto. E olha que eu nunca fui branco para corar fácil.
— Aquele miojo lá é só pra ti?
— Se quiser, pode comer. Pensei em ti, princesinha, sempre dependendo de mim pra tudo. — pisquei.
O loiro apontou-me o dedo médio.
— Eu sou rico e você é meu gato borralheiro. E claro que quero.
Dei o dedo de volta, abrindo um sorriso. Levantei o pé, a fim de entrar de vez no banheiro. Mas hesitei ao ver que ele ainda me encarava, estático.
— Pedro?
Pedro puxou os próprios cabelos. E saiu.
[...]
Só que Pedro não comeu miojo. Ele enfiou-se no quarto assim que voltei para a sala. E não pôs o pé para fora. Comi sozinho, então, assistindo TV. Perto de uma da manhã, também fui para o quarto. E dormi. O dia fora cheio demais. E era só o começo da semana...
Acordei algum tempo depois, ouvindo o som forte de trovões e chuva violenta. E para minha surpresa, Pedro estava ao meu lado na cama. Quase arregalei os olhos ao ver que os contornos de seu rosto branco eram reais e não sonho.
— Pedro. — toquei em sua bochecha.
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