Notas iniciais
Bom saber que vocês ainda estão aqui ♥ Amo vocês :)

GABRIEL

Abracei Pedro. Nós dois estávamos molhados de suor do primeiro fio de cabelo até o último dedo do pé. Eu nem acreditava que aquilo tinha realmente acontecido. Pedro e eu. Juntos como jamais estivemos antes. Na cama. Transando.

Eu me sentia flutuando em um terceiro céu muito longe da terra. Talvez aquilo fosse o significado de felicidade real. Na minha cabeça eu conseguia imaginar mil coisas sobre nós dois. Casamento na praia, filhos, uma casa para vivermos durante o resto da nossa vida. Meu coração escapava do peito para fora. Depois de Pedro, eu não precisava de mais nenhum outro cara na minha vida. Há quanto tempo não desenhava cada detalhe de nós dois dessa maneira? Há quanto tempo, meu Deus?

Mas ele se virou de lado, escondendo o rosto, e de repente todas as minhas fantasias se quebraram. Qual era o problema?

— Pedro?

— Oi, carniça, oi. — ele demorou a responder.

Acariciei seu ombro.

— Foi muito bom.

Eu desejava que ele retornasse, não que subisse outra vez a parede entre nós. Ela estava se tornando tão baixa... Pedro tomou um longo suspiro e se virou. Entretanto, não cheguei a ver seus olhos. Ouvi o som de passos. Ergui a cabeça automaticamente.

Não.

Não.

Não.

Tudo menos aquilo.

Pedro também olhou. Foi preciso apenas um segundo para que pulasse para longe. Sentei devagar sem ter reação e encarei o olhar do pai de Pedro. Senhor Sérgio Gutenberg Bozza. Dizem que quanto mais alto você está, mais violenta é a queda. Nunca dei crédito ao ditado. Até aquele exato segundo. Me empurravam de um sonho colorido para um abismo escuro cheio de pedras pontiagudas.

— Que porra tá acontecendo aqui?

De repente eu não sentia minhas pernas, eu não sentia meus braços, eu não podia me mexer. O que aquele homem estava fazendo ali? A mãe de Pedro não me falou a respeito de uma visita. Muito menos a minha. Meus pensamentos giravam acelerados. Ninguém me contou que eu fazia parte de uma peça que continha somente a parte dramática. Não me preparei para esse ato.

— Nada, pai. — Pedro guinchou no canto do cômodo.

— Não me chame de pai, seu viado dos infernos. — Sérgio se adiantou na direção de Pedro. Eu via seu rosto vermelho. — Que vergonha!

Viado. Eu ouvia a palavra direcionada ao loiro, mas ela não me parecia real. Nada me parecia real agora. Sérgio lançou o punho gordo no rosto de Pedro. Eu não consegui me mexer. Pedro tentou se defender com os braços.

— Eu... Eu s... Eu não sou viado! — Pedro chorava.

— Viado! Uma cadela dessa que fica dando o cu.

Sangue corria do lábio de Pedro.

— Uma vergonha dessa! — Sérgio bateu novamente no filho, continuando.

Sim, estava acontecendo. Pisquei horrorizado com a realidade da qual fugi se escancarando na minha frente. Pedro. Saltei de uma vez, nu do jeito que estava, para proteger Pedro. Coloquei-o atrás de mim. Sérgio aparentou estar notando minha presença pela primeira vez, como se subitamente se tocasse de que havia uma terceira pessoa naquele quarto.

— Deixa o Pedro em paz!

— O filho da empregada.

As mesmas quatro palavras que Pedro adorava usar. Houve dois segundos de silêncio. Sérgio pousou os olhos, castanhos como os de Pedro, sobre mim. Eram dois pares de olhos terrivelmente similares. Era como se eu enxergasse Pedro dali 25 anos, como se eu enxergasse um Pedro que subitamente aparentava ter muitas maiores chances de existir. Casado com uma mulher? Obeso? Novo dono de fazendas? Não, não!

— Olha como as pessoas surpreendem, né? Até que gostava de você.

— Eu nunca gostei de você.

Definitiva verdade. Jamais gostei daquele homem. Um carrasco com a mulher, um carrasco com o único filho. O que de melhor era capaz de fazer era estar meses fora de casa.

— Sai da frente. — ele ordenou.

— Deixa o Pedro!

Uma consciência bateu. Uma consciência que sempre esteve adormecida, mas que todo o tempo esteve comigo. Eu apenas quis ignorar, o que se mostrava agora em vão. Aquilo poderia custar o emprego da minha mãe. Aquilo poderia custar minha vida na universidade. Pedro era caro demais.

— Dá o cu e fica atrás do macho, Pedro? — Sérgio gargalhou. — Grandes merdas de homem. Sai daí, seu viadinho. Eu queria saber no que isso aqui ia acabar se eu não aparecesse aqui. Em tu grávido? Moleque! Não serve pra nada! Há quanto tempo dá o cu pro filho da empregada?

— Eu... — Pedro reagiu. — Eu nunca dei o cu pra ele.

— Ah, e o que era isso aqui?

— Ele me estuprou.

Recuei até ver a expressão de Pedro, descrendo do que disse. Meus ouvidos subitamente desejavam o máximo não funcionarem. Pedro baixou o rosto para o chão e retornou à cama. Pegou a cueca e rápido a vestiu. O sangue continuava pingando de sua boca. Sérgio cruzou os braços.

— O que fez com meu filho?

— Não fiz nada com seu FILHO que ele não estivesse de acordo.

Não encarei Pedro.

— Que acha, moleque? — Sérgio voltou para Pedro.

— Ele me obrigou. — Pedro falou baixo.

Fechei os olhos. Eu não acreditava que Pedro estava realmente fazendo aquilo. Eu havia pensado que palavras suas mais anteriores me feriram. Mas aquelas... Nada tinha sido como aquelas. Cerrei os punhos. Sim, Pedro era caro demais.

Talvez aquele era o prazo de validade de nós dois.

Sérgio me olhou como que esperando minha atitude. Depois daquilo, eu só precisei de um único instante para tê-la. Peguei minhas roupas e me vesti. Localizei em seguida meu celular com a tela rachada. Eu precisava sair daquele lugar.

E saí. Disparei para a sala. Mexi no telefone com os dedos trêmulos. Tinha dois números em mente. Um de Iara, outro de minha mãe. Dessa vez, era definitivo, Pedro tinha acabado de morrer para mim. Cliquei primeiro no número de minha mãe enquanto entrava no elevador.

Ela não custou a atender como se já sentisse a centenas de quilômetros o que estava acontecendo.

— Gabriel?

— Mãe... — minha voz vacilou.

— Gabriel, o que tá acontecendo?

— Mãe...

O vento noturno soprava suave, zombando da turbulência. Eu nunca quis dizer para minha mãe que eu era gay. Eu tinha tanto medo da rejeição. Todavia, ou eu dizia com minha própria boca ou ela logo saberia por outra. Melhor que eu contasse. Contasse rápido.

— Gabriel, pelo amor de Deus, fala. Eu já tenho 44 anos e cabelo branco.

— Mãe, eu sou gay.

Ela se calou. Como não respondeu, segui. Eu tinha que desembuchar.

— Eu transei com o Pedro.

— Eu gosto do Pedro.

— Só que o pai dele acabou de aparecer aqui.

Repeti todas as palavras ditas no quarto, de Sérgio, de Pedro, as minhas. Ela ainda estava calada. As lágrimas arrebentaram a represa dos meus olhos e eu chorei de uma vez. Ela estava me abandonando. Ela não queria um filho que “aderisse a moda de ser gay”. Eu ficaria sem minha mãe. Minha mãe.

— Mãe, não me deixa. — pedi.

— Gabriel...

— Fala, mãe.

— Olha, Gabriel...

Ela parou de falar e eu percebi que também estava chorando. Agarrei o poste que estava próximo. Eu necessitava de apoio. Ao menos um apoio físico. Senão cairia no chão. Eu não era tão forte. Na verdade, nem forte eu era.

— Por quê, Gabriel?

— Eu não queria ser gay, mãe. Eu juro que não queria.

— Não.

Ela suspirou.

— Eu já sabia, Gabriel. Já sabia que tu gostava de macho. Sempre percebi. Eu só não queria que fosse verdade. Mas por que inventar logo isso com o filho do patrão? Onde anda tua cabeça?

Era um problema. Era um problemaço. Onde andava minha cabeça naquele tempo todo? Eu não sabia. De repente eu notava o quão irracional fui durante as últimas semanas. O que eu iria fazer? Como seria nossas vidas daquele instante em diante?

— Meu menino... — ela fungou.

— Eu vou consertar isso, mãe.

Desliguei porque não aguentava mais. Chega! Demasiadamente pesado. Eu não esperava por aquilo. Corri os dedos para o número de Iara. Um plano se formava na minha cabeça, desenhado pelo lápis do desespero. Mas primeiro... Iara.

Notas finais
Segura essa pedra, senhora. Senhora, não se exalte. Senhora, a autora dessa história mora muito longe. Calma, senhora.