Júpiter e Vênus
38 Nunca te diria
Notas iniciais
PEDRO
— E você, sua carniça, vai para casa. — foi o que meu pai disse logo após expulsar Gabriel do quarto, do apartamento, da minha vida. — Agora!
Ele me atirou no banco traseiro da Hilux prateada que estava estacionada diante do prédio. Não me deu tempo para nada, nem de vestir algo além da cueca. Eu estava machucado, no interior e no exterior, e não tive nada para dizer. Eu não conseguia dizer mais nada.
Pela primeira vez na minha existência eu senti que tinha feito algo de errado de verdade. Acusar Gabriel de estupro. Mas eu estava com medo, eu estava aterrorizado. Quando pronunciei todas aquelas palavras, só queria me livrar da mão de Seu Sérgio Gutenberg.
Entretanto, Gabriel iria voltar, não iria? Gabriel sempre voltava. Ele era meu gato borralheiro, eu era incapaz de viver sem ele. Era a certeza que estava viva na minha mente. Ao mesmo tempo, uma dúvida falava alto: o que seria de mim depois daquilo?
O carro sacolejou enquanto meu pai gritava no volante a maneira como fui desde pequeno uma coisa imprestável que ele deu sustento. Pouco a pouco a zona urbana sumia. Eu queria chorar, mas não poderia chorar próximo a ele. Ele pararia somente para me bater outra vez.
Acabei dormindo.
— Homem, o que foi? — ouvi a voz de minha mãe. Ergui o corpo e abri os olhos. O cenário da fazenda me pareceu irreal através da janela. — O que está acontecendo?
— Fui tratar dos negócios como eu disse que ia fazer. Passo pra ver o que TEU filho tá aprontando. E o que encontro? Ele dando o cu pro filho da empregada!
Ele abriu a porta do carro violentamente, o que me fez cair no chão. Minha mãe acudiu no modo automático. Tentei me mexer, mas estava duro. Eu estava um lixo na real. Ela passou a mão no sangue seco no canto da minha boca. Virou para meu pai.
— O que você fez com ele?
— Dei os sopapos que ele merece!
Ele cuspiu no lado e entrou na casa.
— Pedro, meu filho. — minha mãe bateu no meu rosto. — O que aconteceu?
Balancei a cabeça e chorei, chorei já que agora estava livre da presença daquele homem. Ela suspirou e chamou ajuda de dois empregados para me levarem ao meu quarto. Meu velho quarto. Exausto de tanta merda, não demorei a dormir.
— O quê? O Gabriel estuprando o Pedro?
— É claro que não. Teu filho é uma BICHINHA! Mas mandei ir embora assim mesmo, mesmo não acreditando. Não quero que chegue perto.
— Não podia ter mandado o Gabriel ir embora!
— Posso e posso sim, mulher!
Não assimilei nada do que estava sendo discutido, me virando de barriga para cima. Movi as pálpebras. Cadê o Gabriel, cadê o Gabriel? Procurei esquerda e na direita. Ele não estava ali. Até que percebi onde eu me encontrava. Até que me recordei de tudo.
Pulei e joguei os travesseiros na parede. Não! Não! Eu precisava de Gabriel.
— GABRIEL!
Ninguém respondeu. Sentei no chão, sentindo as lágrimas escorrerem. Não, ele não tinha me deixado. Ele iria voltar. A porta se abriu então e minha mãe entrou. Levantei os olhos, no fundo tendo a esperança de que seria ele. Ela sentou ao meu lado.
— O que você andou fazendo, Pedro?
Agarrei minhas pernas. Eu não estava afim de responder. Um vulto surgiu no batente da porta. Era Nadia, a mãe de Gabriel. Tinha os olhos verdes dele, o cabelo preto dele, a pele bronzeada dele. Me apressei na sua direção e agarrei seus braços.
— Cadê ele, cadê ele? Pra onde ele foi? Ele vai voltar?
— Pedro... — minha mãe começou. — Larga a Nadia.
Apertei minhas mãos nela.
— CADÊ ELE?
— Eu nunca te diria se soubesse. — ela enfim falou.
[...]
— Pedro.
Eu ouvi a voz de minha mãe. Ela estava adentrando meu quarto. Fechei os olhos e me virei de lado. Minha mãe era a única pessoa que insistia comigo no momento. Ela abriu as janelas, deixando a luz do sol entrar de maneira violenta no quarto dois segundos antes escuro.
— Você tem que levantar daqui. — sentou na ponta da cama.
Fazia um mês desde o incidente com meu pai e Gabriel no apartamento. Gabriel não deu nenhum sinal de vida. Meu pai sumiu de novo nas longas viagens. Eu continuei na fazenda, custando a aceitar que aquilo estava de fato acontecendo. NÃO FOI ASSIM QUE PLANEJEI. Simplesmente não foi.
— Mãe, me deixa sozinho.
Ela mexeu no meu cabelo. Encolhido, segui sem encará-la. Não demorou para que descobrisse o lance do carro e detalhes da minha jornada na universidade. A única coisa que eu queria desde o princípio era não lhe causar decepção, mas todas as merdas possíveis desceram de uma vez.
— Eu estou preocupada com você. O que aconteceu entre você e o Gabriel? De verdade?
Flashes invadiram minha cabeça. A bendita noite que Gabriel me socou (ele ousava!), o primeiro beijo que trocamos no meio da BR após a festa da Agronomia, os outros malditos beijos, a descoberta das mãos dele no meu corpo, o sexo e enfim a certeza que me nocauteou: eu era viado.
Eu era a bichinha que meu pai abominava.
Não era como se ele não me abominasse antes na verdade.
Acho que ele nunca gostou de mim.
— Você se apaixonou pelo Gabriel?
Apaixonar???? Oras, apaixonar. Eu jamais me apaixonaria... Ah, foda-se. Se esse era o nome que eu buscava para nomear a coisa maldita que eu sentia por Gabriel, okay, era o de menos. Nessa altura, dizer que estava apaixonado por aquele gato borralheiro não era algo que me atingia.
— Se eu tivesse 18 anos, eu também me apaixonaria pelo Gabriel. — Dona Juliana sorriu, me levando para seu colo. — Ele é bonito, né?
Não falei nada.
— Vamos, meu filho. — ela parou de sorrir, tom se tornando sério. — Eu quero te ajudar, mas tu precisa colaborar. Já faz um mês que tu tá aqui. Sabe que teu pai proibiu que voltasse para a universidade.
E não apresentei resistência a essa proibição. Longe de Gabriel nada daquilo adiantava. Eu não tinha forças para lidar com aquela faculdade que ainda falava sobre eu gostar de homens. Eu não aguentaria seus risos e suas piadas. Pelo menos na fazenda estava de certa forma seguro desse inferno.
Eu tinha meu quarto como esconderijo.
— Preciso que fale o que aconteceu. Você chegou aqui só de cueca, machucado, aparentemente tendo acusado o Gabriel de estupro.
— Não quero falar nada, mãe.
Ela ficou calada, ainda mexendo no meu cabelo. Eu não queria falar nada, mas gostava de seu colo, de suas mãos. Eram o único conforto que eu tinha agora. Seus dedos macios apertaram minha orelha e meu nariz, em uma brincadeira antiga que fazia comigo.
— Tá. — falou como se desistisse. — Certo. Não vai falar. Mas eu me preocupo, meu filho. Eu tenho o direito de saber o que aconteceu. Eu sou sua mãe, não aguento te ver assim. Só me responde com sim ou não. Pode ser?
Eu sabia que ela se preocupava. Suspirei e resmunguei um “tá”.
— O Gabriel realmente te estuprou?
Balancei a cabeça na negativa. Do jeito que Gabriel era otário, mais fácil eu estuprar ele. Botava o idiota na cama, amarrava os pulsos, amarrava as pernas e sentava... A imagem quase me fez rir. Não, Gabriel não me estuprou. Dona Juliana relaxou o corpo.
— Eu sabia que ele não faria isso. — acariciou minhas costas. — Então, fez sexo com ele só porque quis?
Assenti.
— Disse que ele te estuprou porque estava com medo de seu pai?
Assenti outra vez.
— Acusar alguém de estupro é algo muito sério, Pedro. Deve imaginar a razão dele ter sumido, não deve? Mesmo que seu pai não tenha te levado a sério... Você deve ter magoado ele muito.
Grunhi. EU IMAGINAVA. Eu estava ciente de que foi errado. Eu sentia. Mas ele tinha que entender! O que eu poderia fazer? Eu estava completamente aterrorizado! Era meu pai! Falando todas as coisas das quais eu morria de medo, me batendo sem querer parar.
— E você é gay? — a terceira pergunta demorou.
Cravei os dentes no beiço. Eu não tinha dito em voz alta. A admissão estava somente no meu pensamento. Me remexi, fugindo de suas pernas e retornando ao travesseiro. Confirmar que sim, eu era gay, que merda, depois de tanto evitar ser um... Parecia... Um fecho. Um golpe final no meu orgulho.
— Sim.
Ergui o olhar e fitei suas íris azuis finalmente. Ela arqueou as sobrancelhas e respirou fundo.
— Isso é uma coisa que eu realmente não imaginava.
[...]
Mais duas semanas se passaram. Nenhuma notícia de Gabriel. Se eu via alguma luz de sol era porque Dona Juliana abria as janelas do quarto que eu queria por tudo manter fechadas. Eu era branco antes, agora eu devia estar um fantasma em pessoa.
— Tem duas pessoas que querem te ver, Pedro. — minha mãe surgiu na porta em uma manhã de sábado.
Quem raios iria querer me ver? Eu estava abandonado naquele fim de mundo. Os colegas de escola estavam todos na universidade, bem longe. Gabriel... Gabriel não estava ali. Eu não tinha ninguém na faculdade. Todos me meteram a faca pelas costas. Quem raios iria querer me ver?
— A gente.
O rosto de Jéssica apareceu, lado a lado com o de Caio. Arqueei um pouco chocado. Os dois... Como assim os dois estavam na minha frente? Minha mãe rápido saiu. Eles logo pularam para minha cama, se apossando do largo espaço livre.
— Como vai? — Jéssica perguntou.
Uma bosta.
— Que tão fazendo aqui?
— Foi fácil de encontrar. — Jéssica deu de ombros. Ela usava um vestido xadrez azulado. Ainda bonita. Claro, eu só andava com gente bonita. Okay, Caio não era grande coisa, mas Caio era um acaso na minha vida, de qualquer jeito. — Todo mundo sabe que tua família é uma das maiores proprietárias de terra do Brasil.
— Metade das fazendas do estado são do Lula e metade são daqueles italianos. — Caio recitou um ditado que eu na verdade era acostumado a ouvir desde pequeno. — Como é ser rico que dói?
— A gente queria ter vindo antes mas era fim de semestre na universidade. — Jéssica estalou os dedos. — Você sumiu.
Cruzei os braços. Não imaginei que sentiriam minha falta. Jéssica se aproximou e me abraçou, apesar de eu não retribuir a princípio. Contudo, algo apertou meu peito dentro e eu me entreguei para seus braços macios. Ela beijou minha bochecha.
— Cadê o Gabriel? — a pergunta me fugiu dos lábios assim que ela se afastou. — Cadê o bosta do Gabriel? — tentei me posicionar um pouco mais em cima. Não adiantou muito. Meu tom denunciava meu desespero.
Jéssica trocou um olhar com Caio.
— Pedro... — ela começou.
— O Gabriel foi embora. — Caio finalizou. — De verdade. Mas a gente não sabe para onde.
Eles continuaram, falando sobre ele ter esperado uma semana, algo a respeito de aviões e eu me perdi. Nem Jéssica e Caio sabiam onde Gabriel estava. Ele tinha ido embora. Ele tinha limpado a odiável marca dele que eu tanto necessitava da minha vida. A mínima esperança que eu tinha sumiu. Fechei os olhos, piscando para não chorar, para não desabar.
— Pedro, acho que vai ter que esquecer o Gabriel dessa vez, no sério. — a voz de Jéssica chegou torta aos meus ouvidos. — Não acho que ele vá voltar.
— CALA A BOCA!
Respirei ofegante. Eu não conseguia esquecer Gabriel. Eu não conseguiria jamais. O choro que prendi até o momento arrebentou a barragem e jorrou livre. Caio puxou Jéssica para junto de si, sussurrando no seu ouvido. Ela assentiu e ele se adiantou para segurar meus ombros.
— Pedro. — Caio suspirou. — Todo mundo tem um limite. Acho que tu atingiu o limite do Gabriel. Tu fez muita merda, mano.
Tentei empurrá-lo, mas não fui capaz. Ele me manteve sob seu domínio.
— Ele... Ele... Não! Ele vai voltar sim! Eu não mandei ele sumir! EU NÃO MANDEI!
— Não pode fazer mais nada agora. Ele não vai te ouvir.
Minha mãe novamente surgiu na porta. Acho que questionou acerca do que estava acontecendo, mas não escutei direito. Eu só pensava em Gabriel a milhares de quilômetros, com outro cara, não mais cuidando de mim, não mais sendo meu gato borralheiro. Não, estava errado, ele era meu. MEU!
— Ele perguntou sobre o Gabriel. — Jéssica explicou.
— Saiam um pouquinho, por favor. — Dona Juliana pediu.
Eles saíram.
— O gato borralheiro não vai voltar. — comecei a andar em círculos no quarto. Não falava com ela na verdade. — Eu não consigo sem ele. Eu não consigo!
Um ardor varreu minhas veias, trazendo uma vontade grande de beber. Qualquer merda inebriando minha mente. Era meu ponto. Eu queria parar o barulho na minha cabeça. Minha mãe tentou me conter, mas me livrei em um instante, segurando a mão que o álcool me lançava.
— Pedro, aonde você vai? Pedro, volta aqui!
Corri para o corredor. As paredes me confundiam. Após um mês e meio trancado no quarto, senti como se já não soubesse andar pela minha própria casa. Todavia, segui meu instinto e uma luz veio, iluminando meu caminho até a Hilux deixada diante da casa.
— Pedro, Pedro, volta aqui! — era Caio.
A chave estava na ignição. Caio por pouco me alcançou, no entanto, antes do último segundo, antes que de fato me impedisse, pus o carro em movimento e já pegava a estrada até a cidade, até o bar. Minha dor acordava da anestesia e a ferida aberta ansiava por um alívio.
— Me dá uma 51.
Indo a 250 km/h, não custei a entrar na cidade. O dono do bar me olhou assustado. Ele me conhecia. As fofocas na cidade deviam estar à solta. Agora eu pouco me fudia. Eu apenas desejava minha garrafa de 51. Ele hesitou, ainda me encarando como se eu fosse uma alma penada.
— Menino, soube que tinha voltado da cidade...
— ME DÁ A PORRA DA 51, SEU CARALHO!
Ele fez sinal de calma e deu a garrafa cheia. Notei que não tinha dinheiro algum.
— Depois eu pago.
Voltei ao carro. De repente, uma L200 preta se revelou no espelho retrovisor. Era um dos outros carros que tínhamos na fazenda. Alguém estava me perseguindo. Abri a garrafa e meti o primeiro gole de cachaça na boca, ao mesmo tempo pisando no acelerador. O cheiro me pareceu delicioso, o gosto mais ainda.
— Idiota, Gabriel, idiota. — resmunguei no caminho de volta. — Pode aparecer aqui agora! Eu tô mandando!
Antes da placa com o nome “bem-vindo à fazenda Liberal”, metade do conteúdo da 51 tinha se ido. Meus pensamentos se misturavam, o nome de Gabriel estava mais alto do que nunca, mas a sensação de dormência para minha mente estava perto. Engoli o resto até deixar somente quatro dedos do líquido destilado.
Porém, um segundo antes de eu estacionar na frente de casa, vomitei.
— Pedro, Pedro, para esse c... — era minha mãe que falava. Girei o volante, tentando dominar o carro e o vômito simultaneamente. E de repente, bati em alguma coisa.
Terminei de jogar tudo para fora e olhei pela janela para ver o que era. Paralisei. Era o corpo de minha mãe, estirado no chão, sangrando. A L200 preta parou e Caio saiu dela, se apressando até mim. Continuei a encarar o sangue. A 51 praticamente vazia escorregou de meus dedos.
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