Júpiter e Vênus

19 Meu gato borralheiro


Notas iniciais
Voltei!

PEDRO

— Jéssica! — bati na porta do apartamento de Jéssica, praticamente desesperado. — Jéssica!

Um alívio inigualável perpassou-me ao ouvir alguém responder do lado de dentro. Saí na maior carreira de casa. Só estava com a roupa do corpo, uma camisa rasgada e uma bermuda velha, as primeiras peças que encontrei no meio do nervosismo. Como havia esquecido o dinheiro do bar, a única opção de canto para fugir era o AP de Jéssica. Não teria coragem de olhar a cara de Gabriel. A maçaneta girou.

— Pedro! — Jéssica apareceu, vestida numa camisola lilás de tecido fino. — Bebeu?

— Não. — fui entrando. — Mas queria muito ter bebido. Tem cerveja aqui?

Sem esperar resposta, meus pés me guiaram à cozinha. Abri a geladeira. Frustei-me completamente. Tinha apenas ovo, banana e água.

— Não, cara. Sou pobre. — a morena disse atrás de mim. — O que aconteceu então?

Ela segurou meu braço e empurrou a porta da geladeira com o quadril. Cerrei os punhos. Ainda podia sentir a mão do gato borralheiro na minha bunda, seus dedos tão perto do meu... Soltei-me de Jéssica, coração batendo como metralhadora. Balancei a cabeça e arranquei dezenas de fios de cabelo. Eu não era passivo, caralho! Pelo amor da Santa Cerveja! Dar praquele pobretão? Nunca! Ele era o Gabriel, meu empregado, meu gato borralheiro!

— Pedro. — ela agarrou minha camisa úmida de suor. — Eu tô ficando preocupada.

Pressionei as unhas contra a palma da mão direita. Nem sabia ao certo de que jeito exatamente acabei pelado debaixo do chuveiro, junto de Gabriel. Somente lembrava que planejei aquilo, na cozinha. Minha mente funcionava bem demais quando o assunto era putaria. Mas porra!

— Pedro. — Jéssica segurou meu rosto. Respirou fundo. — É o Gabriel?

— QUÊ? — arregalei os olhos, assustado.

— Eu não sou burra, meu filho. — ela colocou as duas mãos na cintura. — Tu só vive surtando agora, tua conversa com o Caio, o jeito do Gabriel em relação a ti... Pelo amor de Deus. Coisa óbvia.

Não, não, não, não. Fechei os olhos. É um pesadelo, vou acordar, Jéssica não... Cacete do inferno! Além de Caio? Okay, demônio caprichou em me atormentar. Enlacei as mãos no pescoço e olhei para o chão, procurando esconder meu rosto da garota. Queria me enterrar no núcleo da Terra. Um monte de água escorreu para as bordas de minhas pálpebras, mas segurei.

— Pedro.

— Pedro.

— Pedro.

— Pedro.

— Pedro, caralho!

Jéssica segurou minhas mãos e levantou meu queixo.

— Pode desabafar, se quiser. Sou sua amiga.

Sentei no chão frio. Parecia que todos os meus muros de proteção tinham caído. Quis puxar os pelos da canela, porém nem cabelo tinha em lugar nenhum. Eu era o homem mais liso do planeta. Engoli saliva por saliva a cada segundo. Percebi que Jéssica também havia sentado e me observava.

— Falar faz bem.

Agarrei meus joelhos e encarando a sombra que meu corpo formava sob a luz da cozinha, falei. As palavras, para minha surpresa, saíram facilmente, como se estivessem esperando que eu as liberasse. Falei do quanto achava Gabriel lindo desde sempre, da noite que me visitou no sofá, falei do nosso primeiro beijo e falei do chuveiro. Enquanto isso, Jéssica acariciou meu cabelo, calada. Quando percebi, a água que reprimi minutos antes já escorria solta.

— Tomar no cu, eu não tô chorando. — praguejei.

— Você não sabe parar de ser idiota nem quando é fofo. — Jéssica riu. — Pedro, gostar do Gabriel não te faz ser pior ou melhor que ninguém. Se tu deixar fluir, ao invés de prender, fica mais fácil.

Enfiei o nariz entre os joelhos.

— Eu. Não. Quero. Isso. Pra. Mim.

— Ninguém quer. — ela replicou. — Mas tá, até parece que tu vai me ouvir assim. Entendi que não quer ver o Gabriel. Dorme aqui.

[...]

Jéssica tinha um espelho enorme no quarto que pegava a parede toda, defronte a cama. Encarei minha imagem bagunçada enquanto levantava. Estava muito feio. E olha que a feiúra precisava ser num nível altíssimo para acabar com minha fabulosidade. Meu cabelo parecia um ninho de passarinho, considerando que eu precisava cortá-lo, o mais rápido possível. Olheiras escuras rodeavam meus olhos. Demorei a dormir na noite anterior. Mas como não demoraria?

— Olha só quem decidiu acordar. — olhei para a porta. Jéssica estava encostada ao batente, uma mão na cintura. Vestia calças jeans justas e uma blusa preta de manga longa. — Coisa lindinha.

— Tá indo pra faculdade?

Ela riu.

— Não, cara. Eu acabei de chegar da faculdade. Já é quase uma hora da tarde, querido.

Ergui a sobrancelha. Outro dia de aula perdido. Assim meu semestre não ia pra frente. Presença era algo realmente importantíssimo quando se estuda numa universidade federal. Enlacei as mãos na nuca e olhei o chão, meio perdido.

— Toma um banho e vem almoçar. — Jéssica suspirou. — Tem roupa tua no lado direito do guarda-roupa.

Então, saiu. Suspirei e abri a porta do guarda-roupa. Havia duas calças, três cuecas e uma camisa. Em dias anteriores, que de repente pareciam distantes, depois de uma maratona de sexo, sempre largava minhas roupas na casa de Jéssica. Catei uma toalha limpa e fui para o banheiro.

Após um banho longo, tentando ao máximo não pensar e nem lembrar nada que se referisse a Gabriel, segui para a cozinha. Jéssica estava colocando um pouco de arroz e feijão em dois pratos, em cima da mesa. Puxei a cadeira e sentei. Ela jogou as panelas para o lado e fez o mesmo.

— Então. — ela começou. — Como se sente hoje?

— Me sinto O Cara. — resmunguei.

Enfiei uma colherada na boca. Não estava ruim.

— Tu sempre fala que tá se sentindo demais. Mas depois que a gente se acostuma contigo, sabe que não é bem assim.

Fiquei em silêncio, mastigando. Não gostava que as pessoas vissem através de minhas máscaras. E Jéssica, no momento, filhadaputamente, já sabia demais da minha vida. Ótimo, empurrei o prato. Tentativa de não pensar em Gabriel falhou. Passei a mão na testa. A morena mirou os olhos claros dentro dos meus.

— Pedro. Você não pode ser assim. Pelo teu próprio bem. — Jéssica falou após um segundo.

— Eu sei. — admiti baixinho sem querer admitir.

— Tem que deixar as pessoas entrarem. O Gabriel entr...

— Tá bom, Jéssica. — interrompi.

Ela comprimiu os lábios vermelhos de batom. Passou o polegar no meu rosto, seu toque era suave.

— Tudo bem, Pedro. — e resignou a mão.

Terminamos de comer, completamente calados. Ela abriu a geladeira e pegou uma jarra de vidro. Colocou água dentro de um copo e bebeu devagar. Debrucei os braços sobre a mesa, observando o céu nublado pela janela aberta. Devia estar fazendo frio lá fora.

— Tu tem que voltar pra casa. — ela comentou. — Não vai poder... — pausa. — Desculpa, vou falar. Não vai poder fugir pra sempre do que sente pelo teu gato borralheiro.

Cruzei os braços, defensivamente. E ela ousava chamar Gabriel de “gato borralheiro”? Só eu chamo!

— Não posso ficar aqui?

— Pedro, para de ser criança. — Jéssica suspirou. — E transa logo com o cara.

Apontei os dedos médios, um pouco puto. Ela sorriu e deu de ombros. De repente, bateram na porta. Jéssica franziu as sobrancelhas perfeitamente bem feitas e desapareceu. Não voltou. A voz ligeiramente familiar de um homem chegou aos meus ouvidos. Coisado, pulei da cadeira e caminhei à sala.

Era meu professor de Física. Lembrei que ele praticamente dava aula para todas as turmas de Engenharia Civil. Segurava os pulsos brancos de Jéssica de forma estranha. Recordei da fofoca que andava por toda a faculdade: “Jéssica fica com professor por nota”. “Jéssica puta”. Fiz uma careta.

Os dois se deram conta da minha presença. E se afastaram.

— Boa tarde. — o cara cumprimentou.

Não respondi. Eu com certeza possuía mais dinheiro que um professorzinho universitário. Professorzinho preto. Mas ele, de qualquer jeito, não se importou. Sumiu rapidamente. Jéssica respirou fundo.

— O que ele queria?

— Ah, o Sanches? Queria saber sobre um trabalho.

Ela fica mesmo com professor. Balancei a cabeça, enojado com a ideia de um velho dormindo com Jéssica. Ela encostou-se ao sofá velho, coberto por um pano xadrez. Pegou um controle e ligou a TV 14 polegadas.

— Eu só tenho a Globo e a Band. Mas quer assistir?

[...]

Dormi no colo de Jéssica na hora da Sessão da Tarde. O filme era horrivelmente chato, uma menina idiota que de repente caía de amores por um vampiro virjão. Eu não era obrigado a ver isso. Quando acordei, uma mão grosseira acariciava meu cabelo. Virei-me de lado, sonolento. Jéssica não podia ter criado calo na mão de uma hora pra outra. Eu acho. Ainda de olhos fechados, apalpei o lugar ao meu redor. Me deparei com um braço peludo. Jéssica era tão lisa quanto eu. Apalpei mais um pouco e encontrei um cinto.

Semicerrei as pálpebras. O rosto de Gabriel criou contornos devagar. Pera, pera, pera, pera. Esfreguei o rosto, mente agindo rápido. O gato borralheiro não podia estar ali. Porque eu fugi exatamente disso. Só queria paz! Sentei. Seus olhos verdes pareceram bem reais. Não, não, não, não, eu tô sonhando.

— Pedro.

Eu não tô sonhando, pensei quase chorando. Saltei do sofá, veias ardendo em nervosismo. Gabriel soltou um suspiro. Reparei que usava uma camisa branca e uma jaqueta por cima. Malditamente bonito, como um demônio pronto para atormentar minha pobre alma humana. Fechei os punhos.

— O que tu tá fazendo aqui? — gritei.

— Nossa, como a relação de vocês é perturbada. — Jéssica surgiu no meu campo de visão. Vestia agora um short curtíssimo e top vermelho. — Eu chamei o Gabriel, Pedro.

Que vadia! Nunca mais confio!

— Conversem. — disse e saiu pela porta da sala, dando um adeuzinho filho da puta.

Desceu uma vontade louca de apontar todos os dedos médios possíveis, mas ela já não iria ver. Tornei a olhar Gabriel, sem querer olhar, ardendo de vontade de olhar. Ele ainda estava sentado, expressão tranquila. Eu odiava aquela expressão. Parecia que nada podia atormentá-lo, enquanto tudo me atormentava.

— Será. Que. Não. Pode. Me. Deixar. Quieto. — soletrei.

Ele suspirou.

— Tem ideia do quanto fiquei preocupado, tu saindo de casa que nem um furacão e não voltando? Eu me importo contigo, seu crianção idiota! — mordeu o lábio. — Me importo demais.

Abri a boca para xingá-lo. Inferno, como eu necessitava xingá-lo. Porém, ao processar suas últimas palavras... Desisti. Não costumava escutar coisas assim, de “me importo contigo”. Somente de minha mãe e fazia um bom tempo já que não a via. Baixei os olhos ao chão.

— Desculpa.

Agarrei um tufo de cabelos ao perceber o que disse tão instantaneamente. Não falei desculpa pra um gato borralheiro de merda. Só porque tô carente. Cacete, preciso de uma cerveja, por favor. O garoto levantou as sobrancelhas. Abriu um meio sorriso.

— Ontem...

— Não quero saber de ontem. — cortei.

Gabriel assentiu silenciosamente.

— Tá, Pedro. Okay. Só... Vai pra casa.

Pôs-se de pé e deu um primeiro passo na direção da porta. Fumacinha saiu pelo meu nariz. Por que raios ele sempre inventava de ir embora depois de me tirar do sério, baixar minha guarda? Vá se fuder! Puxei sua jaqueta, antes que se afastasse demais. Gabriel voltou o rosto bronzeado.

— Eu corto tua cabeça, a debaixo e a de cima se sair. — grunhi.

Cabeça debaixo... Como eu falo merda! Desviei o olhar para meus pés.

— Violência. — sorriu.

— Só... Não sai.

Encostei a testa ao seu ombro. Se tu deixar fluir, ao invés de prender, fica mais fácil, recordei o que Jéssica disse na véspera. E eu o queria próximo, de preferência colado ao meu corpo. Estava cansado de dizer que não. Ele apertou-me, pela primeira vez na vida, respondendo ao meu desejo. Um vento violento soprou na sala, através da janela aberta.

Pus a mão no seu peito. Podia ver as linhas dos músculos sob o pano ligeiramente fino. Ele passou uns dois dedos no meu cabelo. Meu coração estava totalmente descontrolado, igual uma metralhadora. Ergui a cabeça por fim. Mirei seus lábios. Mas ele beijou primeiro.

Começou como um beijo suave, de quando a gente tem 12 anos e tá com medo de ficar com a pessoa. Porém, depois virou um beijo urgente, profundo, violento. Acabamos caindo no sofá, não sei de que jeito. Subi para seu colo. E preferi não visualizar a cena na minha mente. Apenas fechei os olhos.

No entanto, o celular dele tocou. Gabriel pegou do bolso o aparelho. Afastei-me irritado. Ele atendeu.

— Oi. — disse, limpando a garganta. — Quem é?

Aparentemente, a criatura parida de prostituta do outro lado da linha não disse nada. Ele olhou para a tela do telefone. Li: “chamada encerrada”. Meteu o celular no bolso novamente.

— Quem era? — perguntei.

— Não sei.

— Rum.

— O... Apartamento da Jéssica é legalzinho, né? — olhou ao redor.

— Cala a boca, Gabriel.

— Que foi?

Aproximei nossos rostos, sem paciência, e beijei-o. Eu precisava desesperadamente de mais. Proibido parar. Gabriel segurou minha nuca. Deitei e o arrastei para cima de mim. Soltou o beijo, por um momento, e me encarou. Meu peito subiu e desceu. Toquei sua barba costumeiramente mal-feita. Ele sorriu.

— Tu é tão bonito.

Fi, sou fabuloso. Agarrei seus ombros e fisguei sua boca outra vez. Tirei sua jaqueta, que saiu com dificuldade dos braços grossos. Enfiei uma mão por debaixo da sua camisa. Senti cada pedacinho de sua barriga firme, as ondinhas, os pelos ao redor do umbigo que desciam em linha vertical.

Minha ereção pulsou contra a calça. Deslizei o indicador sobre seu cinto. Por que diabos esse inútil veste tanta roupa hoje? Tinha plena consciência que ele também estava duro. Vacilei, lembrando da noite anterior. Ele vai querer o dedo no meu cu de novo, vai querer. Afundei a cabeça numa almofada, distanciando-me. Ele sentou.

— Vamo pra casa? — indagou.

— Tá. — murmurei.

[...]

Notas finais
Tô rindo até agora dos comentários de vocês, Jesus do céu kkkkkkkkkkkkkkkkkk. Acho que não vou demorar pra aparecer de novo. Como já disse, tô de férias, suave, na brisa da paz.