Júpiter e Vênus

20 Tô MORRENDO de fome


Notas iniciais
Falei que não ia demorar!

GABRIEL

Apanhei a jaqueta do chão e a vesti. As partes do meu corpo aonde Pedro havia tocado vibravam, queimavam, formigavam. Eu queria beijá-lo outra vez. Mas não devia abusar da hospitalidade de Jéssica. Passei a mão na testa, encarando uma foto antiga da menina emoldurada num porta-retrato sobre uma mesa de madeira clara. Também tinha medo de continuar e tudo dar errado novamente.

“Mas meu filho”, Iara disse mais cedo, “Você tava quase enfiando os dedos no cu do outro. No cu do Pedro, um cara cheio de preconceito. Claro que ele ia sair correndo. Não ia querer admitir tão rápido que gosta de levar na bunda”. Em seguida completou, “Mas olha, estamos tendo um puto avanço. Continua assim que é só séquissu, opa, só sucesso”. E acrescentou algo a respeito de passivos e ativos, mas graças a Deus que a professora chegou no mesmo instante.

Virei para Pedro. Mesmo procurando não ver sua ereção, ela praticamente saltou aos meus olhos. E era tão bom saber que Pedro me queria, apesar da quantidade absurda de preconceito que mantinha dentro de si mesmo. Ele sentou-se e ajeitou a roupa. Peguei seu cabelo liso.

— Precisa cortar isso.

— Corto na hora que eu quiser. — resmungou em resposta.

Apenas sorri e baixei a mão.

— Como faz com a chave da Jéssica? — perguntei.

— Não sei. Deixa com a vizinha dela. — Pedro deu de ombros. — Já fiz isso.

Lembrava do que Jéssica disse no campo, que o lance dos dois era só amizade, mas o pensamento de que Pedro já havia dormido várias vezes com ela me deixou ligeiramente incomodado.

— Tá. — respondi por fim.

Tirei a bunda do sofá. Pedro me acompanhou. Passei a mão na sua cintura. Não sabia o que sentia nessa altura do campeonato. Mas tinha a certeza de que não buscava somente o prazer. Beijei sua testa. Algo lá no fundo dizia que eu iria quebrar a cara. Contudo, como um digno trouxa, só ignorei.

[...]

Abri a porta da sala, sob o olhar de Pedro. Agora que percebi, seu cabelo estava bem despenteado. Mas preferia assim. A beleza dele parecia menos perfeita desse jeito. Mais humana. Ele entrou de uma vez. Andou até o sofá. Jogou as almofadas para o alto. Ao que tudo indicava, procurava...

— Meu celular. Tu viu?

— Tá em cima da geladeira.

Ele havia esquecido o aparelho quando correu de casa. Fechei a porta com o pé. Descobri na noite anterior que o celular de Pedro era uma bomba. Chegava mensagem a todo segundo. E eu nem consegui colocá-lo no silencioso porque não tinha a mínima ideia de qual era o padrão de desbloqueio. Pedro correu à cozinha e voltou rapidamente com o telefone em mãos.

— Geofest... — voltou lendo baixo algo na tela do telefone. — Hoje.

Às vezes, eu me perguntava se o pessoal da faculdade não cansava de tomar cachaça toda santa sexta à noite. Quer dizer, no mínimo na sexta. Pessoas como o Pedro tomavam a semana inteira de qualquer jeito. Tirei a jaqueta e a larguei em cima do sofá. Queria dormir. Era caseiro demais.

Pedro me encarou um segundo. Porém, logo se meteu no quarto. Fechei os olhos e apoiei a cabeça sobre o encosto do sofá. Eu não gostava da ideia de Jéssica sabendo de nós dois, eu mal a conhecia. Mas se Pedro confiava nela, considerando que ele era um problema nesse aspecto, também confiaria. E confesso que quase quis dar um beijo na jovem quando falou que o Pedro estava no seu apartamento. Morri de preocupação durante a véspera.

Passei um dedo no rosto, lembrando da casa de Jéssica. Abri um pequeno sorriso. Mentira, um enorme sorriso, do tamanho do Universo, para qualquer pessoa ver a quilômetros de distância.

Vários minutos se passaram. Minha pálpebras quiseram pesar. Entretanto, a zoada da porta da sala batendo não me permitiu. Olhei para trás rapidamente, a tempo de ver o braço de Pedro sumir. Claro que ele não vai perder a festa da Geologia. Ergui o braço na direção do controle da TV. No entanto, meu celular vibrou dentro do bolso.

Peguei sem muito jeito. Estranhamente, era o mesmíssimo número que me ligou momentos antes. E que não falou nada. Atendi impaciente. Não gostava de brincadeirinhas ou trotes.

— Oi.

— Gabriel? — uma voz masculina perguntou.

— Sim. Quem é você?

Silêncio do outro lado da linha. Revirei as órbitas e desliguei.

[...]

Semicerrei as pálpebras, sonolento. Sabia que era exatamente cinco e vinte da manhã, a hora que eu acordava costumeiramente. Nem colocava despertador. Taquei um pé no chão, já pensando na rotina: tomar banho, fazer café, comer, faculdade. Tirei a roupa em segundos e segui para o banheiro no modo automático. Pera aí. Limpei as remelas dos olhos. Hoje é sábado. Voltei para a cama.

Havia dormido bastante tarde durante os últimos dias. Eu era filho de Deus e merecia ficar deitado mais um pouco no fim de semana. Não me vesti novamente. Apenas fechei os olhos, que já não estavam muito abertos, e puxei o lençol para cima do meu corpo nu. Agarrei o travesseiro. Rapidamente caí no sono.

Acordei com uma mão sacudindo meu ombro.

— Gabriel, seu imprestável, acorda. Eu tô com fome, é onze horas, tu não pode acordar onze horas, tu é o gato borralheiro.

Abri os olhos. Pedro estava sentado ao meu lado. Usava uma camisa cinza e um short preto mole. Meu raciocínio ganhou nitidez aos poucos. Lembrava da hora que ele chegou em casa na véspera, pouco mais de onze e meia. Não chegou morto de bêbado, o que era um grande progresso.

— Cara. Não vai cair a mão se tu tentar fazer comida para ti mesmo. — falei.

Ele revirou as órbitas.

— Vai se fuder.

Apontou-me o dedo médio. Sorri e afastei o lençol. Pedro pulou para fora da cama instantaneamente. Puxou os cabelos. Franzi as sobrancelhas. Pronto, começando a endoidar logo de manhã.

— Que foi agora, Pedro?

— NADA! — gritou. — E faz meu café!

Fiquei de pé. Segurei seu braço. Ele virou o rosto na direção da porta. Tornou a olhar para mim. Virou o rosto na direção da porta. Tornou a olhar para mim. Virou o rosto na direção da porta. Tornou a olhar para mim. Virou o rosto na direção da porta. Tornou a olhar para mim. Senti seus músculos ficarem tensos.

— Cara, não surta tão cedo. — pedi.

— TU TÁ PELADO!

Baixei a cabeça. Não havia um único pedaço de pano cobrindo meu corpo. Mordi o lábio, envergonhado e sem reação. Larguei Pedro. Não dava para explicar que ia tomar banho e não tomei. Fitei a roupa que dormi, largada perto do banheiro. Ele ficou parado. Levantou a mão e tocou minha barriga. Desceu o dedo devagar. Todavia, parou abruptamente.

— Meu cu. — grunhiu e saiu correndo.

[...]

Precisei de uns bons minutos no chuveiro, debaixo de água gelada, para acordar de fato. Vesti uma bermuda qualquer. Saí então do quarto. Pedro estava na sala, sentado no sofá, com uma cara emburrada. Havia ligado a TV, mas era claro que não assistia de fato.

— Mau humor tão cedo.

Girou a cabeça no meu rumo.

— Tô MORRENDO de fome. Quero comer.

— Okay, princesinha. Seu pedido é uma ordem. — ergui as palmas, dando de ombros.

Acho que ouvi um xingamento ligeiramente impublicável. Rindo, segui o caminho da cozinha. Catei seis ovos, óleo e farinha. Não demorou quase nada para sair uma farofa. O cheiro estava bom. Abri o armário, em busca de pratos e colheres. Quando os peguei, dei um passo para trás. E esbarrei em Pedro. Quase que a louça escapou de minhas mãos. Coloquei tudo sobre a mesa.

— Pedro. Não me assusta.

Pedro colou a boca na minha. Pego de surpresa, precisei de uns segundos para acomodar seus lábios. Ele me empurrou para junto da pia. Segurei sua camisa de algodão, na altura da cintura. Percebi que o pano subiu e que sua pele ficou um pouco desnuda.

— Comer? — soltei-o. — Não tava morrendo de fome?

Ele rolou os olhos para cima. Mas arrastou a cadeira e sentou-se. Também sentei.

Pedro limpou o prato rapidamente. Parecia que realmente estava faminto. Demorei uns dois minutos a mais para terminar. Mal pousei a colher e encontrei as íris castanhas do jovem.

— Agora... — reparei que fechou os punhos. Contudo, os relaxou em seguida. — Não tô morrendo de fome.

— E o que tem?

O playboy cobriu o rosto com as mãos.

— Tu é lesado num nível absurdo. — rezingou.

— Uai?

— Deixa pra lá.

Pulou da cadeira. Inconscientemente, agarrei sua mão branca no mesmo segundo. Ele parou. Respirou fundo. E passou para meu lado da mesa. Meu coração bateu forte entre meus pulmões assim que Pedro sentou no meu colo. Caramba, descobri que eu amava esse jeito de tê-lo perto de mim.

Enfiou o rosto no meu pescoço. Roçou os lábios na minha clavícula. Um arrepio louco fez cada pelo do meu corpo se eriçar. Abracei-o. O cheiro que vinha dele era uma mistura de sabonete e perfume caro. Passei a mão nas suas coxas alvas. Elas estavam descobertas pelo short arregaçado.

Pedro mostrou os olhos. Outra vez, me beijou. Pressionou meu ombro com uma força que eu nem sabia que o garoto possuía. Meti os dedos entre os fios macios de seu cabelo. Ele desceu as mãos à minha barriga, como minutos antes no quarto. E continuou descendo até o cós da minha bermuda. Tremi.

Senti seu polegar correr nos limites de meu pênis, por cima do jeans. Deteve-se. No entanto, logo depois, tocou meu membro. Prendi os pés no chão para que a cadeira não caísse para trás. Delineei os dedos por suas costas. Pedro suspirou. Pegou minhas mãos e as levou à barra da camisa.

Vi a peça subir e deixar seu abdômen exposto rapidamente, não sei se pelo meu comando ou pelo dele. Não tive como olhar aonde ela caiu. O garoto abaixou o início do meu zíper. Minha respiração estagnou. Porém, Pedro saiu do meu colo instantaneamente. Arrumei minha roupa.

— Você é insuportável. — disse, encostando-se ao batente da porta.

— Olha quem fala. — repliquei.

Ele meio que esboçou nos lábios um sorriso, mas fechou a cara antes que fosse real. E se retirou. Arranhei meus joelhos, mirando o chão. Ele... Eu... Ouvi o volume da TV aumentar. Esfreguei o indicador contra a testa. A voz de Iara praticamente gritava aos meus ouvidos: “vai atrás dele, seu molengo!”.

Regressei à sala. Encontrei-o novamente no sofá, olhando a TV sem expressão.

— O que tá passando? — indaguei.

— Velozes e Furiosos 7. — Pedro respondeu.

Inspirei o máximo de ar que consegui. Sentei. O contato do seu ombro quente me fez estremecer. Apanhei o controle. Recordava que ele assistiu o filme no cinema, ainda no ano anterior. Encheu o saco da mãe como pôde para poder ir à cidade ver. Desliguei então. Ele me olhou zangado.

— Gato borralheiro de mer...

O interrompi com um beijo. Pedro não resistiu, ao contrário, me fez deitar e ascendeu para meu corpo. Escorreguei as mãos por suas costelas agora nuas. Uma sensação quente me invadiu quando ele praticamente arrebentou meu zíper, sem separar os lábios dos meus. Retirou toda a minha roupa bruscamente.

Ajeitou-se sobre minhas coxas. Fechei os olhos ao ver que me masturbava. Todavia, seus dedos pararam. E uma boca tomou o lugar. O sangue congelou nas veias. Pedr... Não fui capaz de pensar. Agarrei seus cabelos sem o mínimo de jeito. Ele continuou até que eu gozasse.

Abri os olhos. Pedro ainda limpava cada gota de sêmen com a língua. Passou as costas da mão nos lábios. No instinto, inverti as posições. Ele afastou as pernas e me trouxe para junto de si, enlaçando-as ao redor de minhas coxas. Beijei-o como se não houvesse outra coisa para se fazer no mundo.

Desci seu short e cueca até os joelhos. Ele deu um jeito de fazê-los sair de vez. Arranhou minhas costas. Desconfiei que não cortava as unhas há semanas. Mas não me importei. Achei um pênis ereto. Toquei a glande, ele gemeu e mordeu meu lábio.

— Eu te odeio, Gabriel. — resmungou.

Quase ri. Contudo, estava concentrado no sexo de Pedro. Deslizei a mão em cada pedacinho. Ele arfou e soltou minha boca. Mirei seus olhos castanhos. Acheguei-me mais firmemente à sua pele. Senti que a pontinha do meu membro, louco para endurecer novamente, triscou de leve certa região.

O que foi uma merda. Pedro me empurrou. Pôs-se de pé. Porém, tropeçou nas roupas largadas sobre o chão. Segurou-se no braço do sofá, mas acabou de qualquer jeito sentado nas minhas pernas despidas. Essa bunda tá tão perto, um pensamento malicioso me escapou. Ele cerrou os punhos.

— Porra. — xingou.

Respirei fundo e o empurrei. No entanto, Pedro tornou à posição inicial. Por uns segundos. Pulou do meu colo em seguida. Levantou um pé na direção do quarto. Só que parou. Um alívio tomou conta do meu ser. Ele não fugiu. Catou todas as peças de roupa. Jogou as minhas nas minhas mãos. E começou a se vestir. Ardente de desejo, fiz o mesmo.

Notas finais
Deixe seu comentário ;)