Justiça por assinatura
9 Capítulo 8
Diana
O café perto do Museu de História era silencioso demais para aquele horário. Turistas ainda não tinham tomado as mesas externas, e os funcionários se moviam com a lentidão calculada de quem sabe que o pico viria depois. Escolhi uma mesa no fundo, de costas para a vitrine, mais por hábito do que por necessidade.
Foi quando ouvi meu nome.
— Diana.
Levantei os olhos devagar. Paolo estava parado ao lado da mesa, café já em mãos, expressão tranquila demais para alguém que não me via há anos.
— Paolo — respondi, surpresa genuína na voz. — Que coincidência.
Ele sorriu, aquele sorriso treinado para parecer casual, mas que nunca enganou ninguém que o conhecesse de verdade.
— Posso?
Assenti. Ele se sentou sem esperar resposta, ajustando a cadeira com cuidado excessivo. Roupa cara, corte impecável, postura de quem nunca precisou disputar espaço. Tudo nele gritava sucesso estatístico.
— Nível A agora, né? — comentei, cruzando os braços. — Parabéns pelos noventa e cinco por cento.
— Noventa e quatro vírgula oito — corrigiu, com falsa modéstia. — Mas quem está contando?
— Sempre tem alguém contando — respondi. — Principalmente quando o número precisa parecer bonito.
Ele soltou uma risada curta, medida.
— Você continua afiada.
— E você continua aparecendo onde não devia.
Paolo tomou um gole do café antes de falar de novo.
— Soube que você pegou um caso recente.
Não perguntei como ele sabia. Perguntas assim só servem para confirmar o óbvio.
— José da Silva — continuei, observando seu rosto com atenção. — Engraçado como esse nome circula rápido entre pessoas importantes.
O sorriso dele não caiu. Mas endureceu.
— Diana… — começou, com aquele tom que ele usava quando queria parecer preocupado. — Esse caso já foi encerrado.
— Oficialmente — corrigi.
— Oficialmente é o que importa.
Inclinei a cabeça de lado.
— Desde quando você se importa com o que é oficial?
Ele apoiou os cotovelos na mesa, diminuindo a distância entre nós.
— Desde que aprendi que certos casos não valem o desgaste.
Ali estava. Não era coincidência. Nunca foi.
— Então você não está aqui por acaso — falei, finalmente.
— Não — admitiu. — Estou aqui como alguém que ainda tem algum respeito por você.
— Engraçado — retruquei. — Eu lembrava do Paolo que odiava esse tipo de discurso.
— Pessoas evoluem.
— Ou se adaptam — corrigi. — O sistema gosta mais da segunda opção.
Ele suspirou, como se estivesse lidando com uma criança teimosa.
— José da Silva era… irrelevante para o macro — disse, escolhendo as palavras com cuidado cirúrgico. — Insistir nisso vai te colocar em rotas que você não consegue bancar sozinha.
— Engraçado você falar em macro — respondi. — Porque, no micro, tem gente morrendo com laudo bonito demais.
O olhar dele escureceu por um instante.
— Larga esse caso, Diana.
Silêncio.
Observei as mãos dele. Limpas. Sem tremor. Mãos que nunca precisaram tocar o erro para resolvê-lo.
— Isso é um aviso? — perguntei.
— É um favor.
Sorri.
— Favores sempre vêm com juros. E eu nunca gostei de dívida.
Paolo se levantou, ajeitando o paletó.
— Pense bem. Algumas batalhas só existem para distrair.
— E algumas distrações são exatamente onde a verdade se esconde.
Ele me encarou por mais um segundo, avaliando se ainda me reconhecia.
— Você não mudou — disse, por fim.
— Você mudou demais — respondi.
Paolo se afastou sem olhar para trás, deixando o café intocado sobre a mesa.
Fiquei ali, observando o líquido esfriar.
Não era José da Silva que incomodava o sistema.
Era o fato de alguém ter decidido lembrar que ele existiu.
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