Diana

O trânsito avançava aos solavancos quando liguei o carro. O motor respondeu com um ronco cansado, quase solidário. Saí da vaga sem pressa, como quem ainda não decidiu se está indo para casa ou direto para o inferno — às vezes, a diferença é mínima.

O céu estava baixo, pesado, daquele cinza sujo que parece escorrer pelos prédios. Não prometia chuva. Também não oferecia perdão.

No primeiro cruzamento, um sujeito atravessou fora da faixa, olhos grudados no celular, como se o mundo tivesse sido pausado só para ele.

— Claro. Vai lá. O asfalto espera — murmurei, pisando no freio.

Ele seguiu ileso. Por enquanto. Sempre tem algo de cruel nisso.

Virei à direita e deixei a avenida me engolir. Buzinas, escapamentos, gente demais tentando chegar a lugar nenhum. O rádio ficou desligado. Meus pensamentos já faziam barulho suficiente.

Negligência.

A palavra voltou, seca, automática. Um carimbo. Um enterro administrativo.

Eu lembrava dos nomes. Sempre lembro.

Henrique Mota. Overdose acidental, segundo o laudo. Turnos duplos, estimulantes, cansaço. Disseram que confundiu as cápsulas. A toxicologia mostrava um comprimido que ele não usava havia anos. Caso encerrado.

No semáforo seguinte, uma mulher empurrou um carrinho de bebê entre os carros parados, desviando dos retrovisores como se estivesse atravessando um campo minado.

— Você não é invencível — resmunguei, observando-a sumir do outro lado da rua.

O sinal abriu. O idiota atrás de mim buzinou antes mesmo de o verde se firmar.

— Calma, animal. O inferno não vai fechar sem você — respondi, acelerando.

Marcos Teixeira. Queda doméstica. Escada, madrugada, álcool no sangue. Negligência. O detalhe ignorado: fratura no punho em posição de defesa. Ninguém tropeça tentando se proteger do chão.

Mudei de faixa quando um ônibus avançou sem dar seta.

— Aprende a dirigir, seu projeto de homicida — xinguei, sentindo o coração disparar junto com o motor.

A cidade se estreitava. Prédios antigos, fachadas descascadas, janelas que viam tudo e nunca falavam nada. Um grupo de adolescentes ria alto na calçada, alheio à roleta russa diária que era atravessar aquela rua.

Laura Pacheco. Intoxicação alimentar. Negligência na conservação dos alimentos. Um restaurante, um laudo confortável, um corpo. Só um detalhe inconveniente: todos comeram a mesma coisa. Só ela morreu.

O trânsito travou de novo. Um caminhão descarregava em fila dupla, como se leis fossem sugestões gentis.

— Perfeito. Absolutamente dantesco — murmurei, apoiando a testa no volante por um segundo.

Não sabia se era o calor ou a memória me sufocando. Provavelmente os dois.

Segui quando deu, desviando de motos suicidas, pedestres distraídos, decisões mal tomadas. Cada esquina parecia oferecer uma nova chance de morrer por distração. Ou por alguém que sabia exatamente onde o sistema era frágil.

Todos eles tinham algo em comum. Não o erro. Não o cansaço. Não o azar.

Tinham sido classificados.

E, uma vez classificados, deixaram de ser problema.