Diana

Sou Diana Azevedo, investigadora autônoma licenciada nível C. Se você não faz ideia do que isso significa, ótimo. É assim que o sistema prefere. Em termos práticos, quer dizer que minha reputação é duvidosa, minhas credenciais são suficientes para não ser presa por exercício ilegal da profissão e meus honorários são baixos o bastante para não levantar suspeitas. Cobro barato porque ninguém confia em mim — o que, ironicamente, me deixa livre.

Não trabalho para o Estado, nem contra ele. Trabalho nos espaços que sobram entre uma cláusula contratual e outra. Vivo à margem do sistema, mas o conheço melhor do que quem manda. Quando você passa tempo demais sendo ignorado, acaba aprendendo como tudo realmente funciona.

Sou inteligente o suficiente para entender os relatórios, cínica o bastante para não acreditar neles e cansada demais para fingir surpresa. Não tenho paciência para discursos institucionais, slogans motivacionais ou qualquer frase que comece com “segundo o protocolo”. Protocolos existem para justificar o fracasso com elegância.

Meus clientes costumam chegar com esperança. Saem com explicações. Não resolvo crimes. Explico por que eles não vão ser resolvidos. Às vezes, isso já é mais do que o sistema oferece.

Não tenho escritório chique, equipe de apoio nem acesso prioritário a bancos de dados — pelo menos não oficialmente. O que tenho é tempo, memória e uma lista mental de nomes que aparecem com frequência excessiva nos lugares errados. Sei onde os arquivos somem, quem assina o que não leu e quanto custa transformar um homicídio em falha administrativa.

Sou a investigadora que você procura quando já desistiu das opções respeitáveis. A que aceita casos pequenos demais, baratos demais ou inconvenientes demais para quem ainda se importa com a própria carreira. Não prometo justiça, redenção ou finais felizes. Prometo clareza. E, no mundo em que vivemos, isso é quase um ato revolucionário.

Pela manhã recebi várias chamadas do mesmo número. Insistentes. Sempre evito esses casos, principalmente quando ainda não tomei meu primeiro café do dia. A essa hora, invariavelmente, é cilada. Ignorei o celular, que já devia estar tocando pela sétima vez. Admiro a determinação, mas a noção a pessoa claramente enfiou em algum lugar onde não chega sinal.

— Não vai atender, Diana? Pode ser alguém querendo te contratar? — perguntou Sofia, com aquela calma irritante de quem ainda acredita nas pessoas.

— Exatamente por esse motivo que não vou atender. Quem liga sete vezes às sete da manhã não quer contratar ninguém. Quer atenção. Ou absolvição.

O celular tocou de novo.

— Oitava — murmurei. — Um novo recorde pessoal.

Antes que eu pudesse impedir, Sofia atravessou a cozinha e atendeu.

— Azevedo Consultoria de Investigação, no que posso ajudar?

Meu olhar fuzilou minha irmã mais nova. Ela ignorou com a serenidade de quem sabe que eu não vou matá-la. Hoje.

— Claro — continuou ela, ouvindo com atenção exagerada. — Temos horário vago às quatorze horas. Onde podemos nos encontrar?

Fechei os olhos. Pelo menos ela não sugeriu vir aqui. Regra de ouro: cliente nenhum entra na nossa casa. Nós temos uma empresa. Ela só funciona no mesmo endereço em que dormimos.

— Ótimo. A cafeteria do centro? Perfeito. Até mais tarde.

Ela desligou e me olhou como se tivesse feito um favor à humanidade.

— Por que você sempre faz isso? — perguntei.

— Isso o quê?

— Atender qualquer maluco que decide nos ligar em horário de gente indecente.

— Você não sabe se ela é maluca.

— Sei sim. Que pessoa em sã consciência liga sete vezes às sete da manhã?

Sofia sorriu. Eu não.

Às quatorze horas, a cliente já estava sentada na cafeteria, mãos juntas, olhar cansado e aquela expressão específica de quem foi rejeitada por todos os canais oficiais. Reconheço de longe. É o mesmo olhar de quem tentou fazer a coisa certa e só conseguiu complicação.

Ela não perdeu tempo com apresentações longas. Disse que o marido era funcionário público. Disse que ele havia morrido há três semanas. Disse que o caso tinha sido encerrado em menos de quarenta e oito horas.

— Causa da morte? — perguntei.

— Falha administrativa.

Não pisquei. Aquilo já estava ficando familiar demais.

Falha administrativa era o termo usado quando a vítima não tinha plano ativo, quando o caso dava trabalho ou quando a morte era inconveniente para alguém importante. Uma classificação elegante para evitar palavras feias como homicídio.

Ela disse que o marido vinha tentando denunciar algo. Não sabia exatamente o quê. Disse que ele reclamava de contratos, de números que não fechavam, de ordens estranhas vindas de cima. Disse que ninguém quis ouvir. Disse que, depois da morte, ninguém quis investigar.

Enquanto ela falava, eu já puxava casos antigos da memória. Arquivos encerrados rápido demais. Mesma classificação. Mesmo consórcio privado assinando os relatórios finais. Pessoas diferentes, histórias parecidas e o mesmo desfecho administrativo impecável.

Alguém tinha aprendido a matar dentro das brechas do sistema. Sem gerar crime. Sem gerar culpa. Sem gerar trabalho.

Olhei para a mulher à minha frente e pensei que aquele não era um caso pequeno. Era apenas barato. E isso, ironicamente, era exatamente a minha especialidade.