Diana


O café perto do Museu de História era silencioso demais para aquele horário. Turistas ainda não tinham tomado as mesas externas, e os funcionários se moviam com a lentidão calculada de quem sabe que o pico viria depois. Escolhi uma mesa no fundo, de costas para a vitrine, mais por hábito do que por necessidade.

Foi quando ouvi meu nome.

— Diana.

Levantei os olhos devagar. Paolo estava parado ao lado da mesa, café já em mãos, expressão tranquila demais para alguém que não me via há anos.

— Paolo — respondi, surpresa genuína na voz. — Que coincidência.

Ele sorriu, aquele sorriso treinado para parecer casual, mas que nunca enganou ninguém que o conhecesse de verdade.

— Posso?

Assenti. Ele se sentou sem esperar resposta, ajustando a cadeira com cuidado excessivo. Roupa cara, corte impecável, postura de quem nunca precisou disputar espaço. Tudo nele gritava sucesso estatístico.

— Nível A agora, né? — comentei, cruzando os braços. — Parabéns pelos noventa e cinco por cento.

— Noventa e quatro vírgula oito — corrigiu, com falsa modéstia. — Mas quem está contando?

— Sempre tem alguém contando — respondi. — Principalmente quando o número precisa parecer bonito.

Ele soltou uma risada curta, medida.

— Você continua afiada.

— E você continua aparecendo onde não devia.

Paolo tomou um gole do café antes de falar de novo.

— Soube que você pegou um caso recente.

Não perguntei como ele sabia. Perguntas assim só servem para confirmar o óbvio.

— José da Silva — continuei, observando seu rosto com atenção. — Engraçado como esse nome circula rápido entre pessoas importantes.

O sorriso dele não caiu. Mas endureceu.

— Diana… — começou, com aquele tom que ele usava quando queria parecer preocupado. — Esse caso já foi encerrado.

— Oficialmente — corrigi.

— Oficialmente é o que importa.

Inclinei a cabeça de lado.

— Desde quando você se importa com o que é oficial?

Ele apoiou os cotovelos na mesa, diminuindo a distância entre nós.

— Desde que aprendi que certos casos não valem o desgaste.

Ali estava. Não era coincidência. Nunca foi.

— Então você não está aqui por acaso — falei, finalmente.

— Não — admitiu. — Estou aqui como alguém que ainda tem algum respeito por você.

— Engraçado — retruquei. — Eu lembrava do Paolo que odiava esse tipo de discurso.

— Pessoas evoluem.

— Ou se adaptam — corrigi. — O sistema gosta mais da segunda opção.

Ele suspirou, como se estivesse lidando com uma criança teimosa.

— José da Silva era… irrelevante para o macro — disse, escolhendo as palavras com cuidado cirúrgico. — Insistir nisso vai te colocar em rotas que você não consegue bancar sozinha.

— Engraçado você falar em macro — respondi. — Porque, no micro, tem gente morrendo com laudo bonito demais.

O olhar dele escureceu por um instante.

— Larga esse caso, Diana.

Silêncio.

Observei as mãos dele. Limpas. Sem tremor. Mãos que nunca precisaram tocar o erro para resolvê-lo.

— Isso é um aviso? — perguntei.

— É um favor.

Sorri.

— Favores sempre vêm com juros. E eu nunca gostei de dívida.

Paolo se levantou, ajeitando o paletó.

— Pense bem. Algumas batalhas só existem para distrair.

— E algumas distrações são exatamente onde a verdade se esconde.

Ele me encarou por mais um segundo, avaliando se ainda me reconhecia.

— Você não mudou — disse, por fim.

— Você mudou demais — respondi.

Paolo se afastou sem olhar para trás, deixando o café intocado sobre a mesa.

Fiquei ali, observando o líquido esfriar.

Não era José da Silva que incomodava o sistema.

Era o fato de alguém ter decidido lembrar que ele existiu.