Sofia

Encontrei a Diana em casa. Não trocamos muitas palavras — havia coisas que já vinham prontas no ar quando a noite exigia silêncio. Vesti algo prático, genérico demais para chamar atenção e específico o suficiente para desaparecer na multidão: moletom oversized, gorro puxado até quase a sobrancelha, óculos de armação simples. Juntos, pareciam uma fantasia mal pensada. Separados, eram só peças comuns demais para serem lembradas.

— Acho que está na hora de testar essa geringonça — Diana disse, puxando da mochila um equipamento pequeno, pesado demais para o tamanho. — Teoricamente, isso aqui derruba o sistema de câmeras por alguns minutos.

Teoricamente é a palavra que menos gosto — respondi.

— Confia. Ou finge que confia. Dá no mesmo.

Ela conectou o aparelho, checou duas vezes os cabos e o guardou de novo, como quem fecha um acordo informal com a própria consciência.

— Conseguiu alguma coisa útil sobre ele? — perguntou enquanto calçava as luvas. — Datas, padrões, alguma mania previsível?

— Ele ainda gosta da ex — respondi. — Não superou. Apostaria que qualquer senha envolve isso.

— Nome?

— Pamela Andrade. Trinta e nove anos.

Diana abriu o notebook antes mesmo de eu terminar a frase.

— Já puxei tudo. — Ela virou a tela pra mim por um segundo. — Datas de aniversário, casamento, separação… A gente improvisa se precisar.

Saímos poucos minutos depois.

A clínica parecia ainda mais estéril à noite. Iluminada só o suficiente para não parecer abandonada, limpa demais para transmitir segurança. O tipo de lugar que fingia neutralidade enquanto escondia decisões irreversíveis atrás de paredes brancas.

Estacionamos a duas quadras. Caminhamos o resto do trajeto em silêncio, cada uma presa ao próprio ritmo de respiração.

A porta lateral cedeu sem resistência demais. Cartão passado. Um bip seco. Nada de alarme.

— Uma chance — murmurou Diana.

Entramos.

O corredor principal cheirava a desinfetante barato e coisa antiga. A clínica dormia mal. Dava para sentir.

Chegamos à sala de arquivos digitais. Um teclado numérico protegia o acesso.

— Primeira tentativa — Diana disse, digitando uma data.

Erro.

— Segunda.

Outro erro. Um bip mais impaciente.

— Última — ela avisou, sem olhar pra mim.

Digitou devagar dessa vez. Nome e data combinados. Pamela. Separação.

O painel piscou em verde.

— Claro — murmurou. — Sempre é.

Entramos.

Os arquivos estavam organizados demais. Pastas digitais alinhadas por data, categoria, risco. Nenhum descuido aparente. Nenhuma bagunça emocional. Era tudo clínico. Cirúrgico.

— Aqui — falei, apontando para a tela.

Os nomes surgiam em sequência. Um após o outro. Pacientes que nós conhecíamos. Que estávamos investigando. Que, oficialmente, não tinham nenhuma ligação entre si.

— Todos passaram por aqui — Diana disse, a voz baixa. — Antes.

Cliquei em um dos prontuários. Depois em outro. Depois em mais um.

— Encaminhamento externo — murmurei. — Sempre o mesmo lugar.

Abri o campo do pedido médico.

A assinatura se repetia em todos.

O mesmo nome. A mesma caligrafia digitalizada.

E abaixo, no campo de observações, uma anotação curta, quase preguiçosa, escrita como quem não esperava que alguém lesse:

“Solução final.”

O silêncio pesou.

— Isso não é termo médico — Diana disse.

— Não — concordei. — É sentença.

Copiamos tudo o que pudemos. Arquivos. Logs. Datas. Encaminhamentos. O sistema não reclamou. Estava acostumado a obedecer.

Quando saímos, o corredor parecia mais estreito do que antes. Como se o prédio tivesse entendido que agora sabíamos demais.

Do lado de fora, o ar frio bateu forte no rosto. Respirei fundo só então, percebendo que tinha passado tempo demais sem fazê-lo direito.

— Não é só negligência — Diana disse enquanto caminhávamos. — É método.

— E não começa aqui — completei.

Entramos no carro. O motor ligou sem hesitar.

O cartão de acesso ainda estava na minha bolsa. Um peso pequeno, insistente. Lembrete físico de que nada daquilo tinha sido autorizado.

Diana arrancou devagar.

— Eles chamam de solução — ela disse. — A gente chama de crime.

Olhei pela janela enquanto a clínica ficava para trás, limpa, intacta, silenciosa.

Agora sabíamos onde o fim começava.