Justiça por assinatura
16 Capítulo 15
Sofia
Encontrei a Diana em casa. Não trocamos muitas palavras — havia coisas que já vinham prontas no ar quando a noite exigia silêncio. Vesti algo prático, genérico demais para chamar atenção e específico o suficiente para desaparecer na multidão: moletom oversized, gorro puxado até quase a sobrancelha, óculos de armação simples. Juntos, pareciam uma fantasia mal pensada. Separados, eram só peças comuns demais para serem lembradas.
— Acho que está na hora de testar essa geringonça — Diana disse, puxando da mochila um equipamento pequeno, pesado demais para o tamanho. — Teoricamente, isso aqui derruba o sistema de câmeras por alguns minutos.
— Teoricamente é a palavra que menos gosto — respondi.
— Confia. Ou finge que confia. Dá no mesmo.
Ela conectou o aparelho, checou duas vezes os cabos e o guardou de novo, como quem fecha um acordo informal com a própria consciência.
— Conseguiu alguma coisa útil sobre ele? — perguntou enquanto calçava as luvas. — Datas, padrões, alguma mania previsível?
— Ele ainda gosta da ex — respondi. — Não superou. Apostaria que qualquer senha envolve isso.
— Nome?
— Pamela Andrade. Trinta e nove anos.
Diana abriu o notebook antes mesmo de eu terminar a frase.
— Já puxei tudo. — Ela virou a tela pra mim por um segundo. — Datas de aniversário, casamento, separação… A gente improvisa se precisar.
Saímos poucos minutos depois.
A clínica parecia ainda mais estéril à noite. Iluminada só o suficiente para não parecer abandonada, limpa demais para transmitir segurança. O tipo de lugar que fingia neutralidade enquanto escondia decisões irreversíveis atrás de paredes brancas.
Estacionamos a duas quadras. Caminhamos o resto do trajeto em silêncio, cada uma presa ao próprio ritmo de respiração.
A porta lateral cedeu sem resistência demais. Cartão passado. Um bip seco. Nada de alarme.
— Uma chance — murmurou Diana.
Entramos.
O corredor principal cheirava a desinfetante barato e coisa antiga. A clínica dormia mal. Dava para sentir.
Chegamos à sala de arquivos digitais. Um teclado numérico protegia o acesso.
— Primeira tentativa — Diana disse, digitando uma data.
Erro.
— Segunda.
Outro erro. Um bip mais impaciente.
— Última — ela avisou, sem olhar pra mim.
Digitou devagar dessa vez. Nome e data combinados. Pamela. Separação.
O painel piscou em verde.
— Claro — murmurou. — Sempre é.
Entramos.
Os arquivos estavam organizados demais. Pastas digitais alinhadas por data, categoria, risco. Nenhum descuido aparente. Nenhuma bagunça emocional. Era tudo clínico. Cirúrgico.
— Aqui — falei, apontando para a tela.
Os nomes surgiam em sequência. Um após o outro. Pacientes que nós conhecíamos. Que estávamos investigando. Que, oficialmente, não tinham nenhuma ligação entre si.
— Todos passaram por aqui — Diana disse, a voz baixa. — Antes.
Cliquei em um dos prontuários. Depois em outro. Depois em mais um.
— Encaminhamento externo — murmurei. — Sempre o mesmo lugar.
Abri o campo do pedido médico.
A assinatura se repetia em todos.
O mesmo nome. A mesma caligrafia digitalizada.
E abaixo, no campo de observações, uma anotação curta, quase preguiçosa, escrita como quem não esperava que alguém lesse:
“Solução final.”
O silêncio pesou.
— Isso não é termo médico — Diana disse.
— Não — concordei. — É sentença.
Copiamos tudo o que pudemos. Arquivos. Logs. Datas. Encaminhamentos. O sistema não reclamou. Estava acostumado a obedecer.
Quando saímos, o corredor parecia mais estreito do que antes. Como se o prédio tivesse entendido que agora sabíamos demais.
Do lado de fora, o ar frio bateu forte no rosto. Respirei fundo só então, percebendo que tinha passado tempo demais sem fazê-lo direito.
— Não é só negligência — Diana disse enquanto caminhávamos. — É método.
— E não começa aqui — completei.
Entramos no carro. O motor ligou sem hesitar.
O cartão de acesso ainda estava na minha bolsa. Um peso pequeno, insistente. Lembrete físico de que nada daquilo tinha sido autorizado.
Diana arrancou devagar.
— Eles chamam de solução — ela disse. — A gente chama de crime.
Olhei pela janela enquanto a clínica ficava para trás, limpa, intacta, silenciosa.
Agora sabíamos onde o fim começava.
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