Sofia

O telefone tocou e eu atendi no automático, antes mesmo de pensar se devia.

— Oi, Luzia?

A voz do outro lado parecia cansada, mas havia algo ali — uma expectativa mal disfarçada, quase infantil. Demorei um segundo a encaixar a identidade. Clínica. Luzia era o nome que eu tinha deixado cair ali, como quem deixa uma moeda no balcão só para ver quem se abaixa para pegar.

— Oi… quem é? — respondi, ajustando o tom.

— Roberto. Conversamos na Clínica São Rafael. Você me passou seu número. Lembra?

Lembrava. Claro que lembrava. Roberto, clínico geral, quarenta e poucos anos, divorciado recente, relógio caro demais para o salário declarado, mãos inquietas. Eu tinha anotado isso tudo.

— Claro que lembro. O que posso fazer por você?

Enquanto falava, tentei identificar rápido se aquilo era interesse genuíno ou se ele estava testando terreno para algo maior. Às vezes, as duas coisas andam juntas.

— Eu estava pensando se a gente podia sair para jantar hoje à noite. O que você acha?

Pronto. Era isso. Nenhuma senha, nenhum código, nenhum cuidado especial. Só cansaço e carência embalados como convite.

— Claro — respondi, sem hesitar. — O que você sugere?

— Conhece o Restaurante Paella?

Conhecia. Ambiente escuro o suficiente para confidências e barulho o bastante para ninguém prestar atenção em conversas alheias.

— Sim, adoro a comida de lá. Que horas?

— Oito. Pode ser?

A voz dele já tinha mudado. Menos exaustão, mais animação. Aquilo sempre acontecia rápido demais.

— Então é um encontro, certo? — perguntei, forçando um entusiasmo leve.

Era infinitamente mais fácil fingir interesse por telefone do que cara a cara. Ao vivo, o corpo cobra coerência demais.

— Um encontro — ele confirmou, satisfeito.

Enquanto mantinha o tom doce, eu folheava mentalmente as anotações que tinha feito sobre ele na clínica. Plantões longos. Acesso liberado fora do horário comercial. Costume de “resolver pendências” depois do expediente.

— Mal posso esperar — menti com eficiência. — Até mais tarde, Roberto.

Desliguei.

O silêncio durou menos de cinco segundos.

— Quem é Roberto? — a voz da Diana surgiu atrás de mim, seca como sempre.

Ela tinha o talento irritante de aparecer exatamente quando não devia.

— Um dos médicos da clínica — respondi. — Eu te falei dele.

— O que ele queria?

— Marcar um encontro com a Luzia.

Ela cruzou os braços, me avaliando.

— E você aceitou.

— Aceitei.

— Sofia…

— Eu sei — interrompi. — Mas não é o que você está pensando. Ou talvez seja. Só que com objetivo.

Diana suspirou, aquele suspiro que sempre vinha quando ela percebia que não tinha como me impedir sem soar hipócrita.

— Jantar, então.

— Jantar — confirmei. — Depois disso, talvez uma bebida. Talvez nada. Talvez um cartão esquecido em cima da mesa.

Ela me encarou por mais alguns segundos.

— Cuidado — disse por fim. — Gente cansada faz merda. Mas também faz confissão.

— Eu sei — respondi. E sabia mesmo.

Às oito em ponto, eu estava sentada no Paella, Luzia bem ensaiada: vestido simples, maquiagem mínima, postura aberta. Nada de sedução agressiva. Só presença.

Roberto chegou atrasado oito minutos. Pediu desculpa três vezes. Falou do trânsito. Falou do hospital. Falou da ex-mulher. Falou demais.

Eu ouvi.

Entre uma taça e outra, ele foi ficando mais solto. Não falou nada comprometedor. Não precisava. Bastava observar como ele tratava o celular, sempre virado para baixo. Como falava da clínica como quem fala de um lugar que já não controla.

Em algum momento, levantou para ir ao banheiro. Deixou o paletó na cadeira.

O cartão caiu quando eu toquei o bolso interno. Um som leve, quase educado. Plástico contra chão.

Meu coração acelerou, não de excitação, mas de culpa. Aquela pontada limpa e incômoda que sempre vinha quando a linha era cruzada de vez.

Quando ele voltou, eu já tinha empurrado o cartão para dentro da bolsa. Roberto nem percebeu. Continuou falando sobre pacientes difíceis e noites mal dormidas.

Nos despedimos pouco depois. Um beijo no rosto. Um “a gente se fala”. Nada que merecesse lembrança.

Do lado de fora, o ar estava frio. Caminhei dois quarteirões antes de ligar para a Diana.

— Consegui — disse, sem rodeios.

— Cartão?

— Cartão.

— Inteiro?

— Inteiro.

Do outro lado da linha, silêncio. Depois:

— Vem pra casa. A gente sai em meia hora.

Olhei para a bolsa no meu ombro. O peso parecia maior do que devia para algo tão pequeno.

— Diana — falei, antes que ela desligasse. — Se der errado…

— Não vai — ela respondeu. — Mas se der, a gente improvisa.

Desligou.

Fiquei parada por um segundo, observando as luzes do restaurante refletirem na calçada molhada. Eu não me sentia poderosa. Nem esperta. Só necessária.

E, estranhamente, ainda esperançosa.

Às vezes, era isso que mantinha tudo em pé. Não a certeza. Mas a teimosia silenciosa de continuar mesmo quando dava medo.