Just Sex
22 Vinte e um – Especial Gale: Carmesim.
Notas iniciais
Levy
Eram quatro da tarde quando cansei do meu estado deprimente e resolvi sair para correr.
Já estamos no meio da semana, mas desde que vim para a casa da Lucy, apenas mandei mensagens de texto à minha mãe dizendo que estava tudo bem. Ela não é como a tia Layla, que sabe quando estamos mal, porém finge que não apenas por respeito ao nosso estado de espírito evidente. Tenho evitado minha mãe justamente por que ela não é nenhum pouco compreensiva com silêncios, mentiras e desculpas esparrafadas. Sempre que tentava contorná-la de algum modo, ela me colocava contra a parede e me fazia contar toda a verdade. E então chorava e me perdoava, pedindo para que aquilo nunca mais se repetisse. Mesmo com as mais bobas das mentiras.
Desde que meu pai morreu quando eu tinha sete anos, minha mãe se tornou obcecada com a verdade. Eu era muito nova para me lembrar de tudo o que aconteceu, porém flashs de memórias fortes ainda estão frescas em minha cabeça. Quando minha mãe descobriu que meu pai tinha uma vida dupla, o casamento deles se tornou um ciclo vicioso de brigas e desconfianças. Talvez meu pai tenha tido outra família, ou apenas uma amante. Entretanto, me recordo como ela passou a me olhar enquanto eu assistia a tudo escondida, ou apenas brincava de boneca. Era um olhar de pena, medo e algo mais. Como se me pedisse perdão por alguma coisa, e parte de mim sempre soube que não era por que eles claramente estavam se separando.
As brigas foram ficando cada vez piores, até que meu pai morreu antes mesmo de assinarem o divórcio. O dia do velório é o único que me lembro claramente. Minha mãe chorando sobre o caixão, pedindo perdão incansavelmente até o sepultamento. Talvez a Tia Layla soubesse o motivo de tanto arrependimento. O rosto dela ao consolá-la tinha a mesma expressão penosa que a minha exibia ao me encarar. Infelizmente, ninguém nunca me esclareceu nada.
Hoje, olho para seu rosto procurando algum resquício daquele sentimento aparente, mas tudo que vejo é um sorriso gentil num rosto cansado, que esconde muito mais do que podemos ver.
— Ah, Levy? Vai correr? Faz muito bem, querida.
Forcei um sorriso para ela, que estava sentada na cadeira de balanço da varanda, com um livro em mãos.
— É, cansei de não fazer nada ultimamente. – Disse, me alongando de leve.
— Não vai levar água?
— Eu compro no caminho. Até depois.
Depois que dobrei a esquina, o rosto de Layla ainda continuava claro à frente dos meus olhos. Por alguma razão, depois do que houve nesses últimos dias, minhas incertezas do passado vieram à tona com toda a força. Por que nunca perguntei o que realmente meu pai escondia? Isso teria a ver com a obsessão da minha mãe com verdades? Ou eu estaria louca demais e somente agora minha mente perturbada arranjou uma razão para a insanidade?
Com o passar do tempo, eu possivelmente saberei as respostas para todas essas perguntas. Mas o que eu não quero, é esperar parada no lugar. Provavelmente, minha vontade repentina de correr tenha a ver com esse impulso. De continuar em movimento, não apenas fisicamente falando. Entretanto, à medida que minhas pernas se movem, outras lembranças, lembranças mais recentes, afloram em meus pensamentos.
As panturrilhas queimando com o esforço. Os pés descalços machucados de tanto andar. O frio da noite chuvosa que me fazia ranger os dentes. E aquele tremor profundo, que vinha de dentro, proveniente do terror que ainda se repetia em minha cabeça. Nesses últimos dias, quando isso acontece, outra parte de mim se agarra com toda a força às lembranças boas, na vã tentativa de negação. Mas o que aconteceu foi real. Eu vi, vivi e senti tudo aquilo que eu achava ser e o que realmente era Gajeel Redfox.
Primeiramente, fui enganada pelo reflexo do meu rosto em seu olhar. Nunca havia visto olhos tão expressivos e intensos, olhos carmesim que me encaravam fixamente.
Lucy o tinha visto antes de mim quando estávamos sentadas junto à janela da sorveteria. Lembro exatamente de como ela havia colocado os fios loiros casualmente atrás da orelha para tomar seu milk shake, porém algo mais interessante lhe chamou atenção do lado de fora. Seu rosto duro e desdenhoso me fez perguntar o que era, mas ela apenas negou com a cabeça e estalou a língua. Curiosa, segui seu olhar pela vidraça enorme, encontrando alguém bastante peculiar que nunca havia visto antes.
Ele havia acabado de fechar a porta de seu carro preto, e me encarava com as chaves em mãos. Geralmente você percebe quando alguém te devolve o olhar, mas esse não era o caso. Quando virei a cabeça, ele já estava olhando para mim. O que significa, que eu quem estava olhando de volta. Então ele sorriu e desapareceu da janela.
Me virei para Lucy e gesticulei num mudo “o quê?”, mas ela apenas deu de ombros e disse.
— Otário.
Quando o sino da entrada soou e eu ouvi os passos atrás de mim, soube que era ele que tinha entrado. Olhando suas costas, pude observá-lo melhor enquanto ele ia até o balcão. Era alto, muito alto, e também musculoso. Vestia calça jeans, camiseta e coturno. Seu cabelo logo e negro parecia ser mais bem cuidado que o meu. E a pele morena de seu braço exibia parte de uma tatuagem em tribal. Típico estereótipo de garoto roqueiro e delinquente: tudo o que a Lucy mais odeia.
— Você o conhece? – Perguntei, finalmente tomando o sorvete derretido da colher que estava congelada no ar.
— Eu? Com quem você acha que eu ando?
— Então qual é o problema?
— Esse babaca estava olhando pra gente antes mesmo de estacionar aqui. – Lucy falou alto demais, o que fez eu me encolher um pouco no sofá. – E tenho quase certeza de que já vi a cara dele antes por aí.
Revirei os olhos.
— E o que que tem isso? Você é tão paranoica. Talvez ele só tenha gostado da gente.
Reprimi a vontade avassaladora de olhar para trás quando vi as sobrancelhas de Lucy se comprimirem de raiva, pois sabia que ele estava passando por trás de mim e olhando para nossa mesa.
— Me inclui fora dessa. O cara já desceu te comendo com os olhos, e ainda não para de olhar. – Sugou o líquido restante com rispidez, fazendo um barulho constrangedor. – Não gosto dele.
— Novidade, você não vai com a cara de ninguém. – Ri quando ela me mostrou o dedo do meio. E num ato ansioso, ajeitei um pouco o cabelo. – Okay, onde que ele tá?
— Sentado perto da entrada do banheiro. – Dei uma olhada discreta, não resistindo a dar um risinho quando vi que ele me olhava e sorria. Motivo suficiente para Lucy surtar. – Espera, você não vai ficar flertando com esse cara, vai?!
— E se eu for? – Perguntei e depois sussurrei de modo conspiratório: – Ele é gato.
— Levy, esse cara significa problemas! – Lucy estava significativamente alterada, gesticulando com as mãos enquanto eu apenas desdenhava. – É só olhar pra cara dele. E além do mais, já viu a altura dele? O cara é praticamente dois de mim!
— Pelo que vejo, você tem problema com altura, eu não.
Ela bufou e se recostou na cadeira. A camiseta preta com estampa de gato psicodélico a fazia parecer tão delinquente quanto ele, só faltava os piercings no rosto também. Lucy tem uma cara emburrada, às vezes é mau educada e se senta como um homem. Não que eu ache ruim, mas quem é ela para falar e julgar por aparências? Só experimenta confrontar a fera.
— Tá, então o que você vai fazer? Passar por ele, derramar sorvete sem querer e a conversa vai acabar com a língua dele na sua garganta? Boa sorte. Vai fundo.
— Eu não vou fazer nada disso, não tenho coragem. – Admiti e olhei-o de relance mais uma vez. Pediu uma banana split, interessante. – Não com ele. Ele me intimida, mas não de uma forma ruim.
— Então eu vou ficar no meio dessa troca de olhares e risinhos patéticos? Por Himeros¹, eu não aguento isso. Já terminou seu sorvete? Tchau.
— Cara, você é tão chata. Já terminei, mas vou no banheiro antes, posso?
Quando ela arqueou a sobrancelha para mim, entendi a indireta.
— Eu só vou no banheiro, cacete!
— Se for jogar alguma coisa, derrama na camisa. Quem sabe ele tira e mostra os músculos pra você?
Dessa vez, eu quem mostrei o dedo do meio. A Lucy desperta isso nas pessoas.
Tentei andar normalmente, pois assim que me levantei, ele me encarou na cara de pau. Quando me aproximei, ele sorriu com um riso, e eu o perdi de vista ao atravessar a entrada para o corredor. Depois de usar o sanitário, fiquei me perguntando o porquê de tantos risos. Técnica de sedução? Acho difícil, mesmo que seu sorriso seja lindo. Afinal, sou pequena, “pareço uma boneca” como costumam dizer, e para variar logo hoje coloquei meu look mais broxante: Uma jardineira jeans com uma camiseta verde e mocassim marrons. O completo oposto dele. Talvez ele só esteja rindo de mim e a babaca aqui se achando. Definitivamente, esse tipo de cara não é pro meu bico. Provavelmente ele se irritaria com a minha histeria e animação intensa.
Suspirei e lavei as mãos com desânimo. Quando sai, o lugar onde ele estava sentado se encontrava vazio e Lucy simplesmente me olhava com uma expressão vencedora. Como assim? Juro que senti um clima, mas que merda!
— Seu garanhão foi embora do mesmo jeito que entrou.
— De que jeito? – Perguntei irritada. Já não basta ver a minha cara desiludida, tem que pisar nela também?
— Sorrindo. Ele saiu sorrindo.
Respirei fundo com essa revelação. Talvez o cara só seja doido. Achava eu que com essa suposição eu o esqueceria, mas quando saímos da sorveteria, fiquei procurando seu sorriso por todo o caminho até em casa. Mas eu só o encontrava quando fechava os olhos.
Uma semana chata de aulas se passou e já era sábado outra vez. Queria tomar sorvete, mas não com Lucy por perto. Eu não podia me enganar, nem queria. Eu precisava voltar para aquela sorveteria outra vez, por que uma parte de mim dizia que era isso que eu tinha que fazer se eu quisesse vê-lo de novo.
Me sentindo uma idiota, vesti roupas menos infantis e fui praticamente saltando com minha cigarrete² e regata branca até a sorveteria. Para dar mais confiança, coloquei um sutiã preto aparente e saltos de um coturno de cano baixo. Não muito casual para esse tipo de estabelecimento, mas eu precisava causar.
Virando a esquina, respirei fundo e levantei os óculos e sol até a cabeça. O carro dele não estava estacionado ao meu fio, muito menos ele esteva sentando em um dos assentos lá dentro. Entrei, pedi o de sempre e esperei. Os minutos se passaram, o sorvete de brigadeiro acabou e nada dele. Tirei o celular da bolsa para olhar as horas, vendo já ia fazer quase uma hora que eu estava ali. Assim que levantei a cabeça, soltei um “porra” espontâneo . Não só pelo susto, mas também pela grande influência da convivência com uma certa loira boca suja. O cara estava em pé na minha frente, e só quando tive que olhar para cima para encará-lo que me dei conta de sua imensa altura, apesar de eu estar sentada.
— Posso me sentar?
Olhei para o resto dos lugares vazios no local.
— Muito cheio, não?
Quase me estapeei. Qual é, Levy. Você veio até aqui e agora quer bancar a durona?
— Isso é um sim?
Gesticulei com as mãos para que sentasse. Ele sorriu para mim, e colocou sua banana split sobre a mesa. Dessa vez, ele usava regata, bermudas e sandálias, mas isso não tirava dele o ar meio barra pesada. Bem que ele podia ter vindo assim na semana passada, eu não me sentiria tão ridícula quanto me senti antes e nem agora.
— Você que estava aqui antes, não é? Com uma loira emburrada?
— Stalker?
Ele riu. Sinceramente, o que eu estou fazendo?
— Quase não te reconheci. Você está… diferente.
Fiquei calada, balançado a colher dentro do pote que sobrou do meu sorvete derretido. Então ele se recostou na parede e riu, de novo. Foi aí que me irritei.
— Está bem, o que você quer? Naquele dia você não parava de me olhar com um ar de riso, e agora está fazendo exatamente a mesma coisa. Tenho cara de palhaça?
O cara pareceu surpreso e soltou a colher sobre o doce, levantando as mãos em rendição. Quase ia surtar achando que era mais um motivo de riso, até que ele começou a falar antes de mim.
— O motivo dos risos da semana passada são completamente diferentes dos de hoje. Não são suas roupas agora que me fazem rir, e sim o fato de que, aparentemente, você está tentando ser uma mistura da sua amiga Lucy, só que com mais estilo.
Fiquei completamente paralisada.
— Como você sabe o nome dela?
— Eu estudo no colégio da zona leste, ela ficou bem famosa por lá depois de arrumar confusão em um amistoso de preparação para as olimpíadas.
— Ah, o colégio dos deliquentes. – Assim que pronunciei as palavras, me arrependi. – Quer dizer, não, desculpa. Tá, eu não consigo fazer isso.
Retirei os óculos da cabeça e peguei os meus de grau dentro da bolsa.
— Tudo bem, é a fama que conseguimos. Agora parece com a garota que eu vi na quadra de tênis. Não que não esteja bonita.
— O quê? – Perguntei, encarando aquele sorriso. As palavras que saiam da sua boca e seu jeito de falar não condiziam com sua aparência, de maneira nenhuma. Isso é que é julgar um livro pela capa.
— Sei o nome da sua amiga barraqueira, mas não o seu. Você também estava nos amistosos, é do time oficial?
Quase sorri. Então ele estava me olhando? Por isso sorriu quando me viu?
— Na verdade, não. Eu não tenho uma forma muito boa, estava mais como um tapa buracos naquele dia.
— Sério? Eu acho que você tem potencial, mesmo não tendo muito fôlego.
Não fique corada, não fique corada, droga!
— Quer dizer que você estava me observando? Por quê?
Posso ser otária, histérica e meio maluca, mas se tem uma coisa que eu não faço, é ficar sem respostas quando tenho oportunidade.
— Bom, eu poderia dizer tantas coisas. “Você é diferente das outras”, “Me apaixonei à primeira vista”, “Tenho fetiche por baixinhas”, mas a verdade é que eu não sei explicar. Eu simplesmente me interessei por você desde que te vi.
A declaração me pareceu tão sincera, que meu coração se acelerou no mesmo instante.
— Então acho que é recíproco.
Merda, eu disse!
— Exceto pelo fato de eu ter visto primeiro. – Piscou para mim. – Olha, tá bastante calor hoje, eu poderia te convidar para tomar um sorvete, mas então… – Prendi um riso, e acabamos rindo os dois. – Quer dar uma volta por aí? Tem um parque aqui perto. Eu sou o Gajeel.
Estendi a mão para cumprimentá-lo de volta.
— Eu adoraria. E sou a Levy.
Nós não ficamos na primeira vez. Nem na segunda, nem na terceira. Eu e Gajeel realmente nos conhecemos antes de começarmos a namorar. Era como se cada um quisesse ter certeza de que a vontade inesperada de se conhecer ia dar em algum sentimento mais profundo, e realmente deu. Descobri mais dele do que o cara legal que se mostrou ser no início. Ele é o tipo de pessoa que é séria quando precisa ser, e só. O que não torna sua personalidade tão pesada quanto aparenta.
Gajeel era um perfeito equilíbrio para mim. Convivia com pessoas erradas, mas isso não fazia dele uma também. Entretanto, tive que esconder nosso relacionamento da Lucy, o que era bastante difícil. Era complicado chegar para minha amiga e simplesmente não falar do quão bom foi nosso último encontro. E eu sabia disso por que já tinha insinuado uma possibilidade, e ela literalmente pirou.
Até o dia em que não consegui esconder da Erza.
Estava saindo da escola, e aproveitei que Lucy continuava lá dentro para escapar de carona com Gajeel que me esperava de moto na entrada. Estava com o capacete em mãos quando Erza gritou meu nome.
— Merda!
— Quem é? – Gajeel me perguntou.
— Minha amiga.
— Levy? – Ela se aproximou e eu me virei. – Onde vai? Quem é esse?
Respirei fundo.
— Erza, esse é o Gajeel, meu namorado.
— Oi. – Ele acenou para ela, que retribuiu o gesto apaticamente antes de me puxar para um canto.
— Esse é o cara que a Lucy não queria que você namorasse?
— Lucy é minha mãe por acaso? – Me irritei. – Eu sei que o que parece, mas ele é um cara legal. Só não conta pra ela, por favor.
— A Lucy me falou umas coisas nada legais da turminha de amigos dele. – Erza cruzou os braços, me olhando de cima. – E por que eu não faria isso?
— Talvez por que ela também não deve saber que você voltou com o Jellal?
Ela arregalou os olhos.
— Como você sabe?
— Pelo amor de Deus, Erza. Eu ouvi umas ligações suas e além disso você é muito óbvia, a Lucy que é burra demais para perceber.
— Tá, já entendi. – Suspirou. – Não vou contar, mas não por uma troca, e sim por que isso realmente não diz respeito a mais ninguém. A vida é sua, mesmo eu achando perigoso.
— Olha, o Gajeel não é assim, está bem? – Olhei de relance para ele. – Mesmo que não pareça.
— Se você diz… Mas estarei de olho.
— Obrigada.
As coisa continuaram bem, mesmo com Lucy me infernizando às vezes, até o dia em que percebi que havia algo escondido que eu não podia ver. Como se Gajeel só mostrasse o que quisesse mostrar, como se ele não se abrisse verdadeiramente comigo. Estávamos namorando há cinco meses, mas ele me evitava. Evitava intimidade, em todos os sentidos. Não era nada gritante, mas eu percebi e senti isso pesar. Ele nem sequer queria que eu o apresentasse à minha mãe, mesmo eu concordando pelo fato de que ela iria querer saber de tudo sobre ele, e talvez tomasse conclusões precipitadas com isso. Uma vez, ele havia dito que não queria me machucar. Como me machucaria?, perguntei, mas ele não respondeu. Às vezes, suas atitudes eram estranhas, como se quisesse fazer algo diferente do normal. Mas nada passava disso.
Foi no dia do trabalho de física que eu decidi mudar isso. Não conversamos nada diretamente, mas quando pedi que ele fosse me buscar na casa de campo da Erza, estava claro que minha intensão era que passássemos a noite juntos. Eu finalmente ultrapassaria a berreira que ele impôs, de uma forma ou de outra. Só não achei que eu não iria gostar nada, nada do que iria ver.
— Já está tarde, acho que terminamos. – Erza declarou no meio da sala. Os papeis estavam espalhados no chão e o telescópio cintilava ao luar na varanda. Trabalho comcluído.
— Onde está o Jellal? – Perguntei.
— No meu quarto.
Um buzina ecoou lá de baixo antes que o constrangimento de segurar vela viesse me agarrar. Enfiei rapidamente minhas coisas na bolsa e calcei os sapatos depressa.
— Gajeel chegou?
— Na hora certa.
— Me liga qualquer coisa. Está tarde.
— Pode deixar. – Fiz um joinha antes de descer as escadas. Passei o dia inteiro eufórica só esperando isso. Era a oportunidade perfeita de não mentir pra minha mãe mentindo. Por que tecnicamente falando, eu passei a noite na casa da Erza, mas não a noite toda.
— Que rápido. – Ele disse quando abri a porta.
Peguei o capacete de suas mãos e o beijei antes de subir na moto.
— Digo o mesmo. O que houve com seu carro?
— Por incrível que pareça, quebrou. – Virou a cabeça para trás. – Então, onde quer ir?
MOTEL, era o que eu queria gritar. Nessas horas, queria ter a sinceridade grosseira da Lucy.
— Eu realmente não sei.
Gajeel riu e deu partida na moto.
— Olha, não há muitos lugares descentes que podemos ir a essa hora. Se me deixar escolher, eu posso maltratar você...
Meu coração quase saiu pela boca. Será que ele realmente está tentando ao me ver tentar?
— Ah, sério? Pago ver.
— Foi você que pediu.
Mais tarde eu saberia a realidade dessas palavras.
Foi quando começou a chover no meio da interestadual que tudo passou a ficar ruim. Mesmo com capas, a chuva só piorava cada vez mais, o que se tornava perigoso pilotar. Tivemos que parar num local de beira de estrada. Por ironia do destino era um motel, mas nada do que eu esperava para aquela noite.
O cara da recepção estava fumando maconha quando entramos. Me escondi atrás do Gajeel, à procura de proteção. De mãos dadas pelo corredor depois de pegarmos as chaves de um quarto qualquer, ouvimos gemidos e ruídos obscenos atrás das portas. Felizmente, a nossa era uma das últimas.
Eu tremia quando entrei. O quarto estava escuro por que a chuva havia comprometido a energia, por isso recebemos velas para acender no local. Fiquei parada no meio do quarto enquanto ele as acendia. Não era tão mal. Havia uma cama relativamente grande, uma mesa com duas cadeiras à frente e um banheiro do lado esquerdo, sem hidromassagem. Infelizmente, não podíamos desfrutar nem da TV nem do ar condicionado, mas estávamos tão encharcados que na verdade precisávamos de um aquecedor.
Bom, eu pelo menos tremia de frio incontrolavelmente.
— Você está bem? – Gajeel veio até mim, notando meu estado. – Você está tremendo de frio, vem cá.
Ele me abraçou com seu corpo enorme e automaticamente me senti mais quente.
— Parece que a água quente funciona, por que é a gás. – Ele se virou para ir até lá verificar, mas o segurei com firmeza. – O quê? Não quer tomar um banho?
Apenas balancei a cabeça e o olhei nos olhos.
— Quero que você me esquente.
— Levy…
Na penumbra, seus olhos vermelhos eram negros, o que os fazia parecer mais profundos. Ele não recuou quando coloquei minhas duas mãos em seu abdômen rígido e o guiei até a cama, onde tive a coragem de me sentar em seu colo. Porém antes que eu o beijasse, ele segurou meu queixo com uma das mãos.
— Você não tem medo?
— Do que eu teria medo?
— De mim.
Sorri.
— Gajeel, eu sei que você nunca poderia me machucar. – O beijei. – Nunca.
Demos um passo adiante. Já tínhamos tido um evento assim antes, mas nunca nada tão intenso. Quando o beijei de novo, soube disso. A forma como ele me tocou com mais força foi mais sincera. A maneira como segurava minha cintura demonstrava que me desejava, e que estava disposto a se liberar diante de mim.
O beijo foi cada vez mais desesperado e nem eu conseguia me conter. Ele pôs as mãos por dentro do meu short, puxando para baixo minha calcinha pela laterais, e quase gemi com o toque de sua mãos em minha pele nua. Nunca havia ido tão longe com outro homem, e era com ele que eu estava disposta a me entregar.
Mas parecia que ele não sentia o mesmo.
— O que foi?
— É melhor pararmos por aqui.
Olhei para sua mão segurando meu punho e notei que ela tremia.
— Por que?
— Por que é errado. Eu achei que podia fazer isso dar certo, mas não dá. – Me tirou de cima dele, se levantou e me olhou como se pedisse desculpas. – É errado.
Transtornado, foi paro o banheiro e fechou a porta.
Sentada na cama, no meio do escuro, eu chorei. Não pela rejeição, não pelas palavras, mas sim pelo olhar. O mesmo olhar que recebi quando era criança. E como antes, hoje eu também não consigo entender o porquê. O que as pessoas ao meu redor fazem de tão errado que precisem se desculpar? O problema está em mim, ou nelas?
Entretanto, eu simplesmente não podia apenas ficar me lamentando sem procurar saber de alguma coisa. Se eu tenho a oportunidade, o farei. Preciso de respostas. E se eu não pude lutar contra isso antes, agora não desistirei do Gajeel assim tão facilmente.
Engoli o choro, enxuguei as lágrimas e fui até a porta. Estava entreaberta, de onde saia o vapor de um banho quente. Calmamente, entrei a passos finos. Eu estava disposta a ficar nua e entrar naquele banho, lutar contra esse segredo e essa barreira imposta. Não me importava com o que ele escondia, não queria saber. Mas quando se cutuca uma ferida tão aparente, até pelo mais singelo toque, ela sangra.
E como sangra.
Sangrou como meu braço atingido pelos estilhaços do vidro destruído do box do banheiro. Sangrou como meu coração por dentro.
Gajeel se virou ao notar minha presença, encarando seu corpo nu debaixo do chuveiro. Ainda estava paralisada pelo dragão negro em suas costas, porém mesmo que minha mente dissesse “corra”, minhas pernas não se moviam. Logo que vi aquela imagem sombria, meu instinto de sobrevivência gritou comigo, mas meu lado sentimental queria uma explicação dele. De tudo. Só que eu tive bem mais que isso.
— Gajeel, eu…
— Eu te falei, Levy. – Ele desligou o chuveiro. A chuva ecoava lá fora e dentro só se ouvia a minha respiração e os respingos que caiam no chão. Clack. – Mas você quis pagar para ver.
Sua voz estava completamente diferente. Não por que parecia irritada, mais grave e mais profunda. E sim por que parecia pertencer a uma outra pessoa. Uma pessoa que eu não conhecia.
Seu corpo parecia grande demais para aquele box minúsculo. Quando ele se mexeu, foi como se o vidro se espatifasse em milhões de pedaços com o simples toque de suas mãos. Tudo aconteceu tão rápido, que eu só gritei por impulso depois de alguns segundos.
— E agora que você já viu, está na hora de pagar o preço.
O que estava acontecendo? Eu não sabia. Mas aquela vozinha na minha cabeça parecia mais forte, como se todas as células do meu corpo gritassem ao mesmo tempo. Ainda em choque, retrocedi os passado para fora do banheiro, sem conseguir correr de fato. Parecia que precisava de algo mais concreto para ter certeza de que correr era minha melhor saída.
Grande erro.
— Gajeel… – Sussurrei, com medo. – O que está acontecendo?
Sua resposta foi tão rápida que só senti minha cabeça sendo jogada contra a parede. Meu grito saiu abafado, minha cabeça latejava como uma bomba relógio e meus ouvidos apitavam como se prestes a explodir. Não pude fazer nada a não ser escorregar até o chão, completamente vulnerável e quase inconsciente.
Enquanto ele continuava a me jogar pelos cantos do aposento, eu escutava minha voz distante. Eu chorava, pedia, clamava para que parasse e conversasse comigo. Entretanto, parecia que eu assistia de longe a mim mesma ser espancada pelo homem que eu confiei o suficiente para me entregar. Sem poder fazer absolutamente nada.
Eu nunca conheci Gajeel, era só isso que eu pensava. Mas será mesmo que aquele que me batia era o verdadeiro? Eu me recusava a acreditar, porém a cada pancada em meu estômago por ter sido atingida pela quina de algum móvel, a cada grito de dor, essa ideia ia ficando cada vez mais distante. Eu estava apagando e eu sabia que se isso acontecesse, seria meu fim. Não saberia se poderia abrir os olhos para ver o dia outra vez, ou onde estaria caso isso acontecesse. Eu precisava sair dali, e rápido.
Mancando pela dor abdominal, corri até a janela ao lado da cama. Estava disposta a pular no meio do mato e correr sem rumo pela chuva para salvar minha vida. Todavia, a humilhação doeu mais em mim do que a dor física quando ele puxou meu cabelo, me jogando no colchão.
— Por quê?! – Gritei, em desespero. Eu não podia medir forças com ele, então conversar seria minha única opção. – Por que você está fazendo isso comigo?
Em pé na minha frente, ele parecia muito mais alto do que eu estava acostumada.
— Você viu coisas que não deveria ter visto, Levy McGarden. Você realmente não lembra de nada?
— Eu não sei do que você está falando...
— Ah, não? Que pena, será que toda essa baboseira foi em vão?
Odiei-me por ainda me sentir magoada naquela situação.
— Então nada do que tivemos foi real?
— Ah, foi, com certeza foi. Para você. – Segurou minhas pernas e com medo, eu me debati para me soltar. De costas, tentando fugir, eu continuava a chorar enquanto ele dizia as piores coisas que eu poderia ouvir. – Eu nem precisei fazer muito. Alguns sorrisos e uma deixa triunfal. Eu sabia que você voltaria àquele lugar de novo, por isso nem me dei ao trabalho. Coitadinha... – Gritei quando ele me puxou de vez para perto, mais por que não queria mais ouvir nada daquilo. E com uma expressão debochada de falsa pena, ele cuspiu as palavras em minha face. – Tão desesperada para se apaixonar.
— Não!
— Fique quieta e aceite, Levy. – Ele me puxou pelo pescoço e me jogou contra a parede. E com uma expressão insana, disse: – Você fez isso a si mesma.
Com suas mãos grandes, as mesmas mãos que um dia me tocaram tão carinhosamente, ele me ergueu do chão. Debater-me só me cansava mais e nada disso adiantaria. Ele apertava cada vez mais meu pescoço, me sufocando, me matando. E eu só podia aceitar.
Nunca odiei tanto alguém quanto odiei a mim mesma naquele momento. Eu deveria ter desconfiado, estava tudo perfeito demais. Mas ainda assim...
— Eu te amo. – Foi a única coisa que eu consegui falar. Seria a primeira vez e a última. De toda a minha vida.
Asfixiando, minha visão desfocada estava escurecendo. Meu último suspiro foi misericordioso, e quando tudo finalmente ficou negro, eu caí.
O baque do meu corpo no chão foi forte o suficiente para que eu voltasse a mim. O ar voltou para os pulmões queimando como brasa, mas o alívio de respirar veio logo em seguida. Ainda não estava entendendo o que tinha acontecido, até olhar para cima.
Gajeel parecia em choque, confuso e perturbado. Curvado sobre o próprio corpo, ele parecia um homem das cavernas arrependido. Abatido, nu e vulnerável. Por quê? Por quê me soltou?, não consegui fazer tais perguntais.
— Vai embora...
— Gaj...
— Sai logo daqui! – Ele gritou, socando a parede com toda sua força.
Contraí-me em susto, mas agi rápido. Agarrei minha mochila e pulei a janela que já havia aberto, porém não antes de dar uma última olhada para trás. Deixei-o lá, encarando o buraco na parede, parecendo sem rumo pela primeira vez na vida.
No meio da chuva, correndo e chorando, eu só conseguia pensar em como o vi pela última vez. Andei no meio da floresta, às margens da estrada. Meus pés sangravam e eu ainda tremia quando amanheceu e me dei conta de que eu continuava andando. Pra longe.
Quando finalmente cheguei em casa, apenas pulei minha janela e me tranquei no quarto. Ainda não sei como consegui chegar a salvo, por que o são do ditado não se encaixava a mim naquele momento.
Eu estava quebrada, destruída, acabada. Em todos os aspectos. Os minutos mais aterrorizantes da minha vida se repetiam sem parar, e eu revivia meu próprio inferno particular de novo e de novo dentro da minha cabeça. Por incrível que pareça, consegui fingir bem na frente da minha mãe no dia seguinte. Parecia que algo dentro de mim havia mudado, e realmente mudou. Agora tenho a mais absoluta certeza de que eu não sou a mesma pessoa. Gajeel me mudou, aquilo me mudou.
E nesse momento, partes escondidas da minha mente estão se abrindo com novos horizontes para mim.
Me surpreendi ao perceber que não estava chorando com tais lembranças. Ao invés disso, meus pés me levaram para casa, por alguma razão. Parei na esquina para recuperar o fôlego, observando a casa onde nasci e cresci. A essa hora, já anoitecendo, minha mãe estaria lá dentro tomando chá e assistindo TV. Seria agora a hora de confrontá-la sobre meu pai?
Estava dando o primeiro passar para conseguir respostas quando um som ao longe me chamou atenção. Meu coração congelou quando vi a motocicleta negra se aproximar devagar. Entretanto, ao invés de correr, eu me escondi em meio os arbustos para ter certeza. Agachada no meio do mato, eu observei o homem parado do outro lado da rua, com o motor ainda ligado. Olhando para minha casa.
Notei então que minha mãe estava claramente na janela da cozinha, andando enquanto fazia seu chá. Olhei de novo para o homem, que ainda continuava encarando não minha casa, mas sim minha mãe. Foi só quando ele saiu do lugar que eu tive certeza. O modo como pilotava, aquele cabelo comprido e negro... Era ele.
Tapei a boca, reprimindo qualquer tipo de som. Não conseguindo me manter racional, eu chorei em silêncio até que ele passasse direto e sumisse. Será que tinha se arrependido de ter me deixado sair, e agora queria terminar o que começou? Sai dos arbustos cambaleando, andando de costas, em pânico não só por mim, mas agora por minha mãe. Lucy tinha razão. Ele é perigoso.
Senti alguém atrás de mim, e isso foi o suficiente para que eu gritasse e me debatesse. Ele me viu, ele está aqui. Então ele só me deixou fugir para me caçar?
— Moça, moça!
— Não!
— Calma! – Apenas quando o homem falou de novo, que eu percebi que a voz era diferente. Parei de tentar correr e quando o olhei, notei que não o conhecia. – Está tudo bem.
Meu coração pulava tanto dentro do peito que achei que ele fosse explodir. Enxuguei os olhos antes que lágrimas viessem e parei para observar melhor o estranho a minha frente.
Muito pálido, cabelo negro na altura dos ombros, preso num rabo de cavalo. Seu rosto muito bem desenhado estava sem graça e quando ele me olhou nos meus olhos, percebi que eram iguais aos do Gajeel. Carmesim.
— Desculpa, eu não queria te assustar. – Ele disse. Parecia um pouco mais velho e era alto, mas nada exagerado. Seu corpo esguio estava vestido com roupas casuais. – Só queria uma informação.
Olhos vermelhos, por que me perseguem? Diante dessa conclusão, percebi que aquela não era a segunda vez que eu estava sendo atraída por olhos daquela cor. As imagens começaram a se encaixar na minha cabeça, e eu voltei anos no tempo.
Eu tinha seis anos e aproveitava para brincar de lama no quintal por que minha mãe não estava em casa. Lembro de entrar correndo para mostrar o bolo que fiz, mas ouvi outra voz além da do meu pai dentro lá dentro. Fui até o seu escritório e espiei pela porta entreaberta. Meu pai parecia zangado, conversando com um homem que estava sentado de costas para ele, enquanto cuidava de seus ferimentos. A imagem de seu rosto não é nítida e a única coisa que me lembro são de olhos carmesim me encarando fixamente.
— Sua filha? – Ele perguntou, denunciando minha presença.
Meu pai veio até mim como um furacão quando entrei.
— Levy, o que está fazendo aqui?
— Olha o meu bolo de lama, papai. – Estendi minhas mãos.
— Lindinha. – O homem tornou a falar.
— Tire seus olhos dela! – Meu pai gritou com ele, que apenas riu. – Levy, vai brincar no seu quarto.
— Mas papai...
— Agora!
Nunca tinha visto meu pai tão irritado e nervoso antes. E foi quando ele me expulsava dali que eu dei a última olhada para trás e vi o homem misterioso finalmente se levantar, ficando de costas.
A mesma imagem do dragão negro agora está tão óbvia em minha mente que me pergunto como pude me esquecer disso. Aquele dragão assombrou meus sonhos por algum tempo, até que eu finalmente o esqueci completamente. A pele onde estava estampada quando o vi pela primeira vez era pálida.
Pálida como a do homem à minha frente.
— Moça? Você está bem?
Pisquei um par de vezes.
— Ah, sim. Desculpe, em que posso te ajudar?
Não pode ser a mesma pessoa. Ele estaria bem mais velho agora, mesmo que parecesse um adolescente na época.
— Sabe onde fica esse lugar? – Ele me mostrou o mapa. – Sou novo na cidade e estou completamente perdido.
— Ah, fica a apenas alguns quarteirões daqui. – Gesticulei com as mãos. – É só você seguir reto que vai ver logo de esquina.
— Nossa, muito obrigado pela ajuda. Você mora por aqui?
— Na verdade, não. – Menti. O cara tem seu charme, mas é um completo estranho. E ele desperta em mim memórias dolorosas demais para que eu confie nele logo de cara.
— Desculpe, estou sendo inconveniente. – Ele coçou a cabeça com vergonha, mas logo estendeu sua mão para mim. – Eu sou o Rogue.
— E eu sou a Levy.
Assim que apertei a sua mão e me apresentei, senti que essa cena não era para ter se repetido novamente.
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