Just Sex
25 Vinte e quatro – Avaliação psicológica.
Notas iniciais
— Eu não te deixei por último à toa.
Esclareceu Mavis, como se já soubesse muito bem do meu chilique. Me sentei na cadeira, apática.
— Por quê está aqui?
— Fui contratada para avaliar vocês durante os eventos escolares. – Respondeu, mexendo em alguns papéis. – Quando você não veio à nossa última consulta, eu liguei para sua casa e perguntei de você para sua mãe. Ela me disse que você estava bastante ocupada com o início dos treinos, então não quis te pressionar. E já que eu estaria aqui hoje, uni o útil ao agradável.
O rosto jovem de Mavis era uma das últimas coisas que eu esperava ver hoje, mas também foi uma das melhores. De olhos verdes, mais loira e mais baixa que eu, minha terapeuta podia ser facilmente confundida com uma adolescente. Durante minhas épocas difíceis, eu havia passado por milhares de profissionais que não conseguiram nada de mim, fora os que eu expulsava ou me recusava a voltar a ver. Mavis foi a luz no fim do túnel. Era ainda mais nova na época, o que ajudou a me identificar, já que estava cansada daqueles velhos caducos que se achavam donos da verdade. Ao longo do tempo, posso dizer que ela sabe mais sobre o que eu sinto do que eu mesma.
— Eu nunca achei que diria essa frase hoje, mas… – Expirei com força, sentindo um peso sair das minhas costas. – Puta que pariu, como estou feliz.
Mavis riu.
— Vejo que continua a mesma. Posso ver seu relatório?
— Claro. – Entreguei a ela, que o analisou rapidamente.
— Bem organizado, mesmo que tenha lacunas em brancos.
— Isso por que alguém foi irresponsável. – Esclareci. – Mas será resolvido em breve.
— Você separou horários para avaliações pessoais?
Fiz que sim com a cabeça.
— Muitos calouros do primeiro ano estão participando, e como são muito despreparados, eu preciso de um tempo para dar uma atenção maior aos que mostrarem muitas dificuldades. Tem até um prévia de quem vai precisar de auxílio extra. – Apontei com o queixo. – Mas isso é só temporário.
— Entendo. Muito organizado. – Pôs a pasta sobre a mesa, em seguida pegando outra. – Soube que você não se deu bem com o avaliador do ano passado.
— Eita povo fofoqueiro. – Resmunguei.
— Está aqui na sua ficha, Lucy. O diretor de vocês anota tudo. – Revirei os olhos quando ela abriu a pasta azul. – Pelo o que vi, você discutiu com ele por ter invadido seu... espaço pessoal?
— Evidentemente! – Exclamei. – Ele só tinha que me fazer algumas perguntas e avaliar minha capacidade de liderança, mas o cara acabou passando dos limites fazendo uma análise da minha personalidade de forma íntima. E ainda mais, disse coisas que não são verdade.
— E você acha que a sua vida pessoal não influencia sua capacidade de ser líder? – Ela perguntou e eu fiquei calada. Geralmente quando respondo esse tipo de coisa da Mavis, acabo descobrindo estar errada. – Pode parecer estranho, mas afeta sim, e muito. Tem gente que não consegue separar as duas coisas e às vezes acaba descontando em seus seguidores.
— Seguidores?
— Sim, seguidores. – Repetiu. – Um líder não é um chefe, que tem subordinados. Um líder tem seguidores. Que o seguem por vontade própria e respeito.
Ri, amarga.
— Então eu não sou líder. Muito menos tenho seguidores.
— Tem certeza?
— Claro, a maioria das pessoas ou tem medo de mim ou me detesta. Muitas vezes os dois.
— Se é assim, por que eles estão deixando você ensiná-los?
— Por quê eu sou a única com capacidade? – Chutei.
— Exatamente! – Me espantei quando ela concordou. – De certo você faz algumas coisas erradas com seus amigos, você mesma adquiriu a fama para que tivessem medo ou raiva de você. Mas, ainda assim, eles estão aí. Por que como você mesma disse, você é a única capaz. Eles confiam em você para liderá-los!
— Não sei o que pensar sobre isso. – Confessei, surpresa com a revelação. – Na verdade, nunca achei que fosse possível eles pensarem em mim dessa forma.
— Você precisa abrir sua mente, Lucy. – Sugeriu Mavis, se recostando na cadeira com uma prancheta e uma caneta. – Vamos agora a algumas perguntas.
— Okay.
— Você se sente pressionada de alguma forma?
— Com os Jogos? Não, nem um pouco.
— Até que ponto deixa sua vida pessoal afetar suas atividades?
— Quando eu começo a treinar, esqueço de todos os problemas e me foco no que estou fazendo.
Ela balançou a cabeça e continuou anotando minhas respostas.
— Mas e quando há uma rivalidade sua com alguma outra pessoa? – Fiz cara de quem não entendeu. – Por exemplo, se alguém com quem você tem problemas pessoais for do time adversário. Como você reagiria?
Respirei fundo, pensando bem antes de falar. Optei pela sinceridade.
— Olha, não vou ser hipócrita e dizer que isso não me afetaria. Eu ficaria puta de raiva, soltaríamos faíscas, mas eu nunca faria nada que prejudicasse o meu grupo. Sou uma integrante importante, se eu fosse expulsa seria bastante problemático. Eu nunca faria a covardia de tentar trapacear, mesmo que eu odiasse profundamente a pessoa.
— Entendo. – Mais anotações. – Nem se a pessoa em questão fosse seu seguidor?
— A trataria igualmente, mesmo com as diferenças. – Respondi sem pestanejar. – Mas quando eu digo tratar, falo no âmbito profissional. Em assuntos fora do nosso bem comum, eu não seria neutra. Não sou de ferro.
— E o que você pensa sobre perder?
— Ninguém gosta de perder, eu não seria diferente. – Dei de ombros. – Por isso quero dar tudo de mim para ganhar. Entretanto, se não conseguirmos, eu ficarei bem depois de um tempo. Mas só se, é claro, a vitória sobre mim for justa.
Mavis tirou os olhos da ficha e me encarou.
— E a quem você culparia pela derrota?
— A mim. Eu iria me remoer por alguns dias, pensando que eu poderia ter tentado mais, ver onde errei.
— Hm… – Ela passou a anotar freneticamente em meu relatório.
— Eu vou ser reprovada? – Perguntei, em pânico.
Depois de assinar e carimbar a pasta, ela se voltou para mim, rindo.
— Claro que não, Lucy. Você é uma líder nata! Mesmo que faça coisas erradas, como eu disse. Entretanto, tirando essa máscara que você impõe às pessoas, de que você é perigosa e tudo mais, você se importa com elas. É capaz de se meter em confusão, assumir a culpa, ajudar. São as principais características de um líder.
Desabei na cadeira.
— Não acho que eu seja isso tudo, mas é realmente um alívio saber que fui aprovada.
— Sim, mas saiba que vocês terão sessões semanais comigo e estarão sendo constantemente vigiados de longe. Afinal, as pessoas erram.
— Você vai ficar aqui no colégio?
— Farei parte do corpo do docente, pelo menos durante essas atividades interescolares em que os alunos ficam com os nervos à flor da pele. Portanto, sinta-se à vontade para vir falar comigo na hora que quiser, estarei disponível durante a tarde.
— Você é corajosa, vai enlouquecer com esse povo indecente. – Joguei a real.
— É o meu trabalho. – Sorriu. – Vamos falar um pouco de você agora? Como está se sentindo?
Suspirei.
— Para falar a verdade, não muito bem.
Ela apoiou o queixo nas mãos cruzadas sobre a mesa, demonstrando prestar atenção em mim.
— Pode falar, Lucy.
— Estou me sentindo sufocada!
— Com o que está se sentindo pressionada?
— Não, não pressionada. Sufocada!— A corrigi. – Nesse caso, as duas coisas são diferentes para mim.
— E o que está te sufocando? – Perguntou.
— As coisas que me rondam. – Ela fez uma careta confusa, mostrando que eu não estava sendo muito clara. Pigarreei. – Não sei, eu me sinto como se tivesse alguma coisa me rondando, algo que todo mundo parece saber, menos eu. E cada vez mais eu me sinto sufocada por essa coisa, como se ela estivesse me levando ao limite de propósito.
Ouvindo minhas próprias palavras, percebi o quanto era difícil falar de uma coisa sem revelar nada. Não que eu não confiasse em Mavis, mas eu não queria falar sobre minhas suspeitas ainda infundadas. Eu poderia estar louca, afinal.
— Essa coisa seria seu passado? – Questionou. – Ele ainda te sufoca, por isso tem pesadelos.
— Não, não tem nada a ver com pesadelos. – Neguei com a cabeça. – E em falar nisso, nunca mais os tive.
— Que ótimo, Lucy! – Mavis se alegrou. – Isso é realmente ótimo! Você finalmente conseguiu superar.
— Bom, na verdade, o crédito não vai todo para mim. Eu tive auxílio de uma pessoa, de alguma forma. – Balancei a cabela para espantar um Dragneel pelado dos meus pensamentos. – Por que achou que fosse meu trauma?
— Por que você disse que era algo que todos parecem saber, menos você.
— E desde quando todos sabem do meu trauma? – Peguntei, confusa.
— Nem todos sabem dele, Lucy. Só os mais próximos. Mas o que eu estou querendo dizer, é que você não se lembra. Por isso externiza suas memórias esquecidas em forma de pesadelos, eles te assombram por que você não se lembra claramente de tudo. E possa ser que esse sufoco que sinta seja por isso: você acha que todos sabem, só por que você não sabe.
Pensei sobre o assunto em silêncio. Mavis acabou de tocar numa ferida profunda, que tento esquecer. Me obrigo a esquecer que esqueci boa parte do que me aconteceu. A maioria das lembranças são como borrões, onde só sinto as coisas ruins pelo o que passei. Por um tempo, encarei isso como uma benção. Não lembrar nitidamente era melhor, pensei. Mas não. Não quando não conseguia dormir, ficar completamente no escuro ou ser tocada de modo mais íntimo por algum homem. Percebi o quanto era difícil saber o que sofri sem me lembrar de todos os fatos. De toda a transição, do tratamento. E até hoje tento desbloquear o que tranquei dentro de mim.
Mavis e eu viemos tentando por anos, em vão. Então a coisa não parece tão difícil quando é com ela que falo sobre isso. Por fim, falei:
— Resumindo, eu estou paranoica? Talvez seja mesmo.
— Eu não disse isso. Só estou te ajudando a encontrar uma resposta.
— Eu sei, desculpe. Eu só não sei mais o que pensar.
— Vamos mudar de plano. Como está se sentindo agora sobre traição? Ainda consegue confiar nas pessoas?
Assim que ela falou, soube sobre quem falava.
— Confio em quem ainda não fudeu comigo. Mas não sou otária para perdoar e não ficar com o pé atrás. Apesar de cair em mim que eu gosto de brincar com fogo…
— Está falando dos sentimentos complexos que você nutre por Natsu Dragneel?
— Não existe esse negócio de sentimentos. – Revirei os olhos. – É raiva mesmo. Ódio, nojo e…
— Atração?— Completou Mavis, me fazendo perder as palavras. Eu sei que é verdade, mas sempre que ouço isso de uma voz que não seja a da minha própria cabeça, a primeira coisa que faço é negar. Percebendo minha cara, ela continuou. – Olha, é mais normal do que parece sentirmos atrações por coisas que odiamos. É como filmes de terror, muita gente tem pavor, mas acaba assistindo, mesmo que se arrependa depois.
— Nós temos uma relação. – Olhei para ela. – Eu e o Natsu.
— Que tipo de relação?
— Íntima. – Confessei, à contra gosto.
— Então você o perdoou?
— Claro que não! Mas essa foi a única maneira que eu encontrei para me livrar de certas coisas. E os efeitos disso acabaram me surpreendendo. Desde que começamos isso, eu não tive mais pesadelos.
— Entendo. Então ele é a pessoa que você disse ter ajudado?
— Sim, de certa forma. – Disse, apenas. Não queria e nem podia entrar em detalhes sobre o contrato, é vergonhoso demais para falar.
— E o que você espera desse relacionamento?
— Sinceramente? – Encarei o teto, desolada. – Eu não faço a mínima ideia.
****
Saí da sala e Mavis me sentindo melhor, mais leve e com a mente mais devagar. Passei o dia inteiro pensando em uma coisa e outra, uma levando a outra ideia, e nada acabava nunca. Não achei que estava tão cansada psicologicamente até me abrir pela primeira vez em dias.
Voltando à vida real, caminhei pelos corredores até um local que fui pouquíssimas vezes: A sala dos professores. Ainda tinha que entregar o maldito trabalho, já que o filho da puta do Dragneel não quis ir de propósito. Mas no final das contas, admito que ele fez uma parte maior que a minha.
— Com licença. – Bati na porta e entrei, impressionando os poucos professores que estavam ali. Vi um nerd de meia idade, usando óculos de grau enquanto digitava algo no computador. Claramente o professor Wakaba. Fui até ele. – O trabalho de física.
Ele olhou para a pasta na mesa, em seguida me olhando por cima das lentes. Me digam, para quê uma pessoa usa óculos se não olham através deles?
— Só vou abrir uma exceção pelo atraso por que sei que teve outros compromissos. Mas saiba que o prazo acabou com o horário de aulas.
— Obrigada por ser tão gentil. – Forcei uma voz fina, revirando os olhos.
Ele estreitou os olhos para mim.
— Sabe que sua voz era assim quando era criança e me chamava de tio? Só que menos irritante.
Era impressão minha ou ele estava tirando uma com a minha cara?
— Eu cresci e muita coisa mudou, acho que é normal isso acontecer. – Dei de ombros. – Exceto pelo seu filho, ele só fez crescer no sentido literal. Continua o mesmo de sempre.
— Vocês andam se vendo ultimamente? – Ele perguntou, surpreso. – Não sabia.
— É. Ele e sua mulher.
— Você quis dizer ex-mulher. – Me corrigiu, me fazendo recuar.
— O quê?
— Nós nos separamos. – Disse. – Já faz algum tempo.
— Nossa. – Foi o que soube dizer. – Se bem que eu não acho tão estranho, eu quase nunca a via mesmo. Parecia que você era pai solteiro.
Ele me olhou com desconfiança.
— É verdade que ela vivia trabalhando, mas vocês se viram muitas vezes, sim.
— Não sei disso não. – Ri, o achando maluco. – De onde tirou isso?
— Você não se lembra? Ela que cuidou de você no hospital.
***
Andei atordoada pelos corredores. Na verdade, eu estava mesmo era passando mal. Minha cabeça girava e eu estava sem ar, cambaleando como uma bêbada de quinta. As palavras do Wakaba não teriam causado tanto efeito além da descoberta se isso não tivesse afetado algo mais profundo dentro de mim.
Agora tudo estava claro como água. Com os cabelos mais curtos, lembro-me da imagem de Evergreen me acolhendo na delegacia e no hospital, depois daquele dia insano. Me dando banho, conversando comigo mesmo que eu não pronunciasse uma única palavra. Insistindo quando não queria ver ninguém, não comia ou tinha meus acessos de raiva. As imagens estão vindo aos poucos, se desdobrando por vez à medida que me forço a isso.
Mas isso não impede que eu me sinta mal.
— Ei! – Aquarius apareceu, correndo até mim quando me viu resfolegando pelas paredes. – O que você tem?
— Não tenho nada. – A empurrei para longe, respirando fundo e me erguendo. A tontura está passando. – Eu estou bem.
— Não está nada! – Insistiu, histérica. – Está pálida, você almoçou direito hoje? Droga! Todo mundo largou cedo, por isso o refeitório está fechado. Mas eu posso comprar alguma coisa para você.
Explodi, estapeando sua mão.
— Qual o seu problema?! Por que acha que tudo se resolve com comida?
Ela parecia surpresa com algo que eu disse pela primeira vez na vida.
— Eu…
— Me deixa! – Saí andando na frente. – Que saco.
Ela não veio atrás de mim, e nem olhei para trás para verificar.
Enquanto andava, meu estado voltava ao normal aos poucos. Sabia que não estava totalmente bem e que deveria ir para casa, mas antes precisava tirar essa história a limpo. Cheguei à farmácia antes do anoitecer e adentrei sem cerimônias. Loke não estava por perto. em seu lugar havia uma garota que eu nunca tinha visto antes.
— Onde está a Evergreen? – Perguntei.
— Lá dentro… – Apontou para a porta que levava ao escritório. Conhecendo o caminho, fui até lá. – Ei, você não pode entrar assim!
Ignorei a garota e continuei andando até encontrar a porta certa. Abrindo-a abruptamente, encontrei a dita cuja sentada olhando papéis.
— Lucy?!
— Desculpa, Ever. – A garota estava atrás de mim, desesperada. – Ela entrou de repente e…
—Tudo bem, não tem problema. – Ela se levantou, vindo até a porta. – Nos deixe a sós.
Evergreen me levou até a cadeira e me deu um copo d’água, que eu tomei de uma vez.
— Então, o que houve? – Quis saber. Parecia calma, apesar do meu rebuliço. – Você não parece bem.
— Por que não me contou?
— Do que está falando…
— Por que não me contou de onde nos conhecíamos?
Ela respirou fundo e balançou a cabeça.
— Então você se lembrou. – Disse. – Não contei por que, se você esqueceu, é por que foi doloroso para você. Saber que…
— Que eu fui internada num hospital psiquiátrico na ala dos pacientes perigosos?— Completei de uma vez. – Que você cuidou de mim?
Me olhou com tristeza.
— É. Exatamente isso.
— Por favor, não faça essa cara. – Pedi, com raiva. – Eu só estou cansada de as pessoas tentarem me proteger do meu próprio passado! Se eu esqueci, não foi por que eu quis! Não conscientemente. Eu só queria que me contassem as coisas, mas não, vocês amam me ver perdida e confusa.
— Como você se lembrou?
— Conversei com seu ex-marido e o assunto surgiu.
— Entendo… – Ela não parecia feliz em saber disso.
Aproveitei o momento para sondar mais alguma coisa.
— Por que se separaram?
— É complicado. – Disse a típica frase que todos os adultos falam para despistar adolescentes enxeridos como eu. – Não concordávamos com a decisão um do outro e acabamos nos separando. Mas e você? – Desviou do assunto. – Como vai o romance?
Arqueei a sobrancelha.
— Que romance? Tá doida?
— Ué, você não vem tomando anticoncepcional por nada, né?
— Não existe romance, nem nada do tipo.
— Entendi. Então é daquelas relações jovens… Como que chama? Ah! Amizade colorida!
Espalmei as mãos na mesa com força, fazendo-a se sobressaltar. Cansei por hoje!
— Eu vou embora!
— Mas já?
— É, já! – Abri a porta para sair, mas me virando quando lembrei de uma coisa. – Onde está o Loke? Mandei uma mensagem para ele ontem, só que não tive resposta.
Ela sorriu.
— Fico feliz que estejam trocando mensagens. – Revirei os olhos. – Ele anda bastante ocupado com alguma coisa da escola, jogos ou sei lá. Mas tenho certeza de que ele vai te responder o quanto antes.
— Hm.
Saí dali sem me despedir, por que não estava com a mínima vontade de cortesia depois do intrometimento da Ever. Também me lembrei que Loke era de um colégio adversário, o que significava que logo mais nos enfrentaríamos em campo. Só não lembrava qual era a categoria dele.
Fui andando para casa, olhando para os meus próprios pés no intuito de não pensar em mais nada que o ato de caminhar. Era uma forma de manter a mente fechada para as coisas à minha voltei. Quando cheguei, deitei na cama e dormi como uma pedra.
***
Fui acordada às quatro da manhã, com meu celular tocando como louco. Tateei o aparelho em cima do criado mudo, o puxando para dentro dos cobertores. A luz quase me cegou, mas nem fudendo que eu sairia do quentinho ou aumentaria a intensidade do abajur. Mas quando vi a quantidade de notificações, espertei na hora.
Havia várias ligações, mensagens de texto, e-mail e até nas poucas redes sociais que tinha. Todas de Juvia. Estava prestes a ligar de volta quando o celular voltou a vibrar e eu quase morri de susto. Pigarrei para espantar a voz esquisita de sono e atendi rapidamente.
—Juvia? O que está acontecendo? Você está bem?
O barulho era tanto onde ela estava que quase não ouvi sua voz.
— Lucy, finalmente! – O som saia abafado. – Eu estou na festa.
— Ainda? – Perguntei, chocada. – Espera, não acredito que você está bêbada e me ligou para falar alguma baboseira?
— Não, claro que não. Estou muito sóbria. Se eu tivesse bebido alguma coisa, acharia que o que eu vi tinha sido alucinação!
— O que você viu?
Ouvi uns ruídos e aos poucos o som foi ficando mais baixo. Parecia que ela estava andando até um lugar mais calmo.
— Eu estava quase desistindo, por que ninguém sabia de nada sobre o Gray e muito menos ele havia aparecido. Até que ele chegou!
— Sério? – Fiquei surpresa. – Não achei que ele fosse, já que anda tão antissocial ultimamente.
— Eu também me surpreendi. E me surpreendi mais ainda por que ele não estava sozinho.
— E com quem ele tava? Alguma nova isca?
— Gajeel Redfox.
— O quê?! – Dei um pulo da cama, ficando sentada e aumentando a temperatura do ar-condicionado. – Tá de brincadeira comigo!
— Exatamente. Eles estavam conversando no bar, eu quis me esconder, mas o que eu devo? Daí acabei escutando uma conversa estranha. – Agucei meus ouvidos, já que ela passou a falar mais baixo. – Parecia que o cara estava repreendendo o Gray. Dizendo que ele tinha que parar com essa história de se isolar, que só ia dar na telha. “Você tem que ser amigo de todo mundo”, ele disse.
— Filho da puta! Mas isso foi muito arriscado. Eles não te viram?
— Aí é que vem a parte esquisita. – Confessou. – Como o Gray estava de costas para mim, ele não viu nada. Mas o cara… O Gajeel, ele me viu e fingiu que não, e continuou o papo como se nada tivesse acontecendo. Tenho medo de imaginar o que isso quer dizer.
Eu também, mas não falei em voz alta. Minha cabeça vai explodir, eu não estou entendendo mais nada! E o que faz sentido, é muito bizarro para acreditar. Por que significaria que estamos sendo feitas de otárias: Estamos descobrindo exatamente as coisas que eles querem que descubramos.
Depois de conversar mais um pouco, desliguei o telefone. Tentei voltar a dormir, mas havia perdido o sono. Pelos sons e o horário, a festa devia estar boa, boa no sentido de muita bebida, putaria e possivelmente drogas. E eu me odiei em pensar em Natsu e no que ele estaria fazendo. Mas eu não podia simplesmente perguntar isso a Juvia.
E nem precisei.
Minutos depois, recebi uma mensagem de um número desconhecido. Em alerta devido ao acontecimentos bizarros por que venho passando, abri com receio o único anexo da mensagem: Uma foto.
Saltei da cama com um grito, o coração acelerado e a respiração ofegante. Que ódio! Eu realmente não acredito que esse filho da puta fez isso!
Respirei fundo e tentei me acalmar, analisando melhor a imagem ao dar zoom. O nojento do Dragneel estava feliz da vida sentado no sofá, com um copo na mão enquanto outra garota puxava seu queixo para um beijo, e mais duas o rodeavam como galinhas atrás de milho. Eu sabia que isso ia acontecer! Ele quebrou o contrato, e foi mais rápido do que eu esperava. Só bastou a primeira oportunidade. Mas quem me enviou isso sabe exatamente o impacto que causaria, o que só me leva acreditar que foi a Cana! Por isso ela tanto queria que eu fosse, talvez por conhecer bem o desgraçado do amigo, sabia que ele iria aprontar todas. Ou, provavelmente ela não é tão boazinha quanto aparenta e que terminar de fuder comigo.
Troquei de roupa às pressas, praguejando em voz baixa. Era muito cedo para ir até lá tirar algumas satisfações, por isso desci até o porão para suar e socar algumas coisas. Só que mais tarde, eu não deixarei isso barato. Com tesoura e barbeador a postos, Natsu Dragneel vai descobrir que escolheu a pessoa errada para quebrar as regras.
Próximo capítulo: Quebra de contrato!
— Cláusula dezessete. Ambas as partes estão terminantemente proibidas de manter qualquer tipo de contanto íntimo como beijos, afagos ou qualquer tipo de ação que tenha conteúdo sexual ou erótico, sob pena de quebra de contrato pelo não seguimento desta e outras cláusulas do presente contrato de relacionamento. – Arqueei as sobrancelhas em deboche, fazendo com que ele engolisse em seco. – A pena por quebra é ter a cabeça completamente raspada, procedimento realizado pela parte prejudicada. – Joguei o papel pra qualquer lado e me aproximei de seu rosto. – No caso, euzinha aqui.
— Mas eu não fiz nada! – Gritou, se remexendo inquieto em baixo de mim.
Estalei a língua e fiz que não com a cabeça. Peguei o celular e mostrei a imagem, fazendo com ele prontamente arregalasse os olhos.
— Que coisa feia, Natsu. Mentindo assim.
— Puta que pariu! – Tentou desprender os braços, mas as algemas estavam muito bem presas à cabeceira da cama. – Eu estava bêbado, não lembro de nada disso.
— Azar o seu, Dragneel.– Sorri e peguei a máquina no criado mudo. Ele ficou branco assim que avistou o objeto. – Estou pensando se passo a zero de vez, ou faço aos poucos.
— Você não vai fazer isso.
Olhei para ele com superioridade e desdém, mas quando liguei o aparelho, minha expressão era a mais diabólica possível. Dragneel só olhava a máquina barulhenta em minhas mãos, como se fosse a coisa mais apavorante que tinha visto em toda a sua vida. Sentimentos de poder, vingança e justiça me inebriaram de uma forma maravilhosa. Então eu sorri, e me aproximei.
— Por que não começamos com o lado esquerdo?
Continua...
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