Just Sex
9 Oito – Desafiada.
Notas iniciais
Acordo com a sensação de que falta um pedaço de mim.
Como um buraco oco em meu peito, que dói e me deixa sem ar. Abro os olhos, enxergando o teto do meu quarto, e respiro fundo antes de me sentar. Minha cabeça gira por alguns segundos, mas logo passa. Está de manhã, ainda que a temperatura esteja um pouco quente.
Porque meu ar condicionado não está ligado?
Sinto meu corpo inteiro dolorido, meus olhos lacrimejam de tão pesados, mas o que mais dói é meu peito. O que aconteceu?
Quando me forço a levantar, uma pontada em minhas nádegas me refresca um pouco a memória. E vejo que estou apenas de roupa íntima.
Mas o que...
– Poderia dormir mais um pouco.
Levanto a cabeça e vejo Laxus sentado numa das poltronas do meu quarto, ao lado da estante de livros. Seu rosto parece bastante abatido, como se tivesse passado a noite em claro.
– O que houve comigo?
– Você não se lembra? – Ele parece medir as palavras ao me perguntar.
– Me lembro de ter ido à farmácia no meio do jantar. Tomei uma injeção na bunda, vim andando para casa e... – Minha cabeça dói quando tento lembrar. Massageio as têmporas. – Depois disso, nada. Só um grande vazio.
– Entendo. – Diz apenas, desviando o olhar.
Estranho.
– Por que você está aqui? E porque me sinto tão dolorida? Também estou com fome.
– Você vomitou. Mais de uma vez.
Olho para a porta do banheiro aberta.
– Você passou a noite comigo?
– Sim.
– Então me responda.
Ele suspira, se levantando para se sentar ao meu lado na cama. Não tenho vergonha da minha nudez com meus familiares.
– Você estava passando muito mal quando chegou, estava... tendo algumas alucinações. Então cuidei de você, te dei banho e fiquei te observando, caso algo mais acontecesse.
– Desculpe. – disse, sentindo uma imensa necessidade de me desculpar. O que é raro, por que normalmente não faço isso. Mas não estou me sentindo eu mesma, ainda estou voltando aos poucos da noite infernal de ontem. – Você parece muito cansado. Eu estou bem, vou me arrumar.
– Já são nove da manhã. – diz quando me levanto. Tenho um pouco de dificuldade de chegar até o guarda-roupas, mas aos poucos está passando. – Por que não dorme mais?
– Não. Eu não ia para aula mesmo, ainda dá tempo de ir à consulta.
– Com a doutora Mavis?
– Sim. – Respondo, já com a toalha em mãos para tomar uma ducha. De preferência bem fria. – Já havia marcado alguns dias atrás.
– Que bom que fez isso. – Ele parece realmente aliviado ao dizer. Laxus está tão estranho.
Eu também estou estranha. De alguma forma, quero muito me lembrar de ontem, mas uma parte de mim não quer isso. Como se eu me negasse a acreditar em algo.
Mas em quê, exatamente?
– Bem, vou te deixar sozinha agora. Tem certeza de que está bem mesmo?
Balanço a cabeça.
– Laxus? – o chamo e ele se vira da porta. – Obrigada... Por cuidar de mim.
– Não precisa me agradecer. Estarei sempre aqui quando precisar.
Pisca um olho e vai embora.
Devagar, vou até o banheiro. Acendo as luzes e tomo um susto ao ver minha imagem refletida no espelho. Meu rosto está bastante inchado, especialmente lábios e olhos, estes últimos doendo de modo incômodo. Eles também estão vermelhos. Que bizarro.
Deve ser efeito colateral da injeção, penso eu.
Entro em baixo da ducha. E enquanto penso com a água gelada batendo em meu rosto, lembro-me de algo em especial de ontem à noite.
Estava chovendo.
Mas era uma chuva morna.
***
Não vou para escola, mas ainda assim coloco meu habitual visual calça-jens-básica-e-camiseta+all-star. Afinal, é apenas uma consulta com uma médica tão íntima, que até do meu período menstrual ela sabe, muitas vezes melhor que eu mesma.
Como acordei bastante tarde, tomo café sozinha na cozinha. Mamãe parece que saiu para algum lugar, enquanto Laxus está no quarto e papai na sala. Os dois estão de folga.
Mas meu pai parece estar livre mais do que trabalhando. Algo com relação à burocracia de empresas, contabilidade e etc. Ou seja, uma coisa chata pra caralho. Mas para ele, calmo do jeito que é, deve ser o melhor trabalho do mundo, já que fica mais em casa conosco.
– Vou pegar minhas coisas para sair. – digo, passando pela sala e subindo as escadas com pressa.
– Está se sentindo melhor? – Me pergunta.
– Sim.
De relance, o vi sentado no sofá. Antes de perder de vista, avistei sua nuca cabeluda, mas o que mais me encabulou foram suas orelhas deformadas. Pisquei algumas vezes, bastante confusa. Quem estava na sala era o Laxus ou meu pai? Acho que essa maldita injeção ainda está fazendo efeito...
Quando estou arrumando algumas coisas para pôr na mochila, ouço meu celular tocar. Pego ele no criado mudo, e nem olho a tela para ver de quem se trata.
– Alô?
– Bom dia, Loirinha.
Automaticamente largo tudo em cima da cama, passando alguns segundos em choque, incrédula demais para responder.
– Ficou sem fala, baby?
Meu sangue ferve ao ouvir a risada sacana do outro lado da linha.
– Como conseguiu meu número, seu filho da puta?
– Tenho minhas fontes.
– Espero que você se afogue nelas¹. Adeus.
Estou prestes a desligar, quando ele diz:
– Se desligar, vou relatar ao professor que você não está cooperando com seu colega de trabalho. Seria uma pena, não é? – Aperto o telefone com força, trincando os dentes. – Mas o diretor iria amar saber disso.
– Fala logo. O que você quer?
– Quanta hostilidade. – sua voz passa a ficar cada vez mais rouca. – É realmente sobre o trabalho, baby.
– Não me chame de baby, seu escroto. – Ele ri da minha irritação. – O que é, então?
– Faremos o trabalho na minha casa.
No segundo seguinte, explodo em gargalhadas.
– E por que acha que eu aceitaria isso, seu idiota? Podemos muito bem fazer num parque aberto, e depois cada um segue seu rumo.
Ir para casa dele é pedir para... Bem, se fuder.
Balanço a cabeça.
– Ah, mas você vai. Por três motivos. Primeiro: Se a espertinha não leu a ementa do trabalho, ele consiste em uma observação até as duas da manhã. Não seria nada legal ficar numa praça pública até a essa hora, cheio de marginais por aí. Mesmo que você seja uma mini demoniozinha², tenho certeza de que não é a prova de balas.
– Ora, seu...
– Segundo. Temos que estar num ambiente mais amplo e limpo o possível, além de termos uma luneta. Você tem uma luneta, loirinha?
Respiro fundo.
– Não...
– Mas olha só que coincidência! Eu tenho. – Reviro os olhos. – Só pode ser o destino.
– Tá, ta, você tem razão. Continua morando no mesmo lugar?
Ele solta uma risada fraca, e apenas por ouvir sua respiração do outro lado da linha, me sinto arrepiar.
– Não na minha residência normal. E sim na minha casa de campo.
Começo a gritar.
– Você ficou maluco?! É claro que não, é muito longe! Eu não poderia voltar no mesmo dia! O que você tem na cabeça? Por que diabos acha que eu aceitaria isso?
– É por causa da terceira coisa: Você quer isso.
Travo e minha voz morre de vez.
– Nos encontramos no final da aula.
Quando ele desliga, rapidamente acrescento algumas coisas em minha mochila. Não estou raciocinando direito, só posso estar maluca. Estou seguindo o fluxo dos meus movimentos, por alguma razão meu corpo parece estar se mexendo sozinho.
Ainda meio aérea, desço as escadas e atravesso a sala.
– Vai sair agora? – Laxus pergunta, sentado no sofá.
Lembro-me de antes, passando a odiar ainda mais essa injeção do inferno. Vou enlouquecer! Quem estava sentado no sofá era Laxus. Mas eu jurei ter visto os cabelos longos de meu pai. Só que ele não tem as orelhas deformadas. Papai nunca lutou na vida.
Solto um suspiro.
– Sim, vou indo. Mas não volto para casa hoje. Pode avisar a mãe e o pai?
– Para onde você vai? – ele parece bastante interessado em saber.
– Vou dormir na casa da Erza.
Laxus fica me olhando por alguns instantes, até dizer:
– Tudo bem, se cuida.
– Irei.
Saio apressadamente de casa, me dirigindo até o ponto de ônibus. Disco os números em meu celular rapidamente.
– Oi, Lucy. Você está na escola?
– Não, não irei hoje.
– Eu também não. – Ouço um espirro. – Estou com uma crise alérgica.
Pelo menos alguém tem crises alérgicas verdadeiras.
– Preciso de um favor seu. Alguém vai estar na sua casa de campo?
– Sim. Eu e a Levy estaremos fazendo o trabalho de física lá, já que na floresta não existe a poluição da cidade que nos impede de ver as estrelas.
É, aquele filho da puta tem razão.
– Por quê?
– Por que estarei por perto. À noite te dou mais detalhes. Ligo antes. Até.
Desligo antes que ela me faça mais perguntas. Por Zeus, salva por um triz. Ainda bem que pelo menos tenho uma saída.
Está tudo sob controle.
Andando pela rua, sinto meu celular vibrar. Olho para tela que exibe "Levy" e de repente a ligação cai.
Antes que eu possa ligar, uma chamada aparece no visor.
Levy mais uma vez. Nunca falei tanto no telefone num período tão curto de tempo.
– Oi, Levy.
– LUCY! – Afasto o celular uns trinta centímetros da orelha, e ainda assim consigo ouvir os gritos. – ATÉ QUE EM ENFIM!
– Não grita, garota. – Faço uma careta. – O que aconteceu? Quem morreu?
Ouço seu ofego do outro lado da linha, como se ela tivesse corrido uma maratona.
– Ninguém morreu... ainda.
Qualquer resquício de humor em minha voz some de vez.
– Levy, o que houve?
– Você não vai acreditar se eu contar. Você tem que ver com seus próprios olhos.
– Tem a ver comigo? – Pergunto ao atravessar a rua, passando a correr para pegar o ônibus que está de saída.
– Tem.
– Chego aí em dez minutos. – Desligo o celular e subo no ônibus, sentindo meu sangue se agitar numa velocidade ameaçadora.
Agora entendi porque Levy disse que ainda ninguém tinha morrido. Isso porque não estou lá, mas graças aos deuses o motorista está correndo numa velocidade extraordinária.
Infelizmente, não poderei ir à consulta hoje. Mas pelo visto, tenho coisas mais importantes para resolver.
Meus lábios se curvam num sorriso amargo. Talvez seja hoje que eu cometa meu segundo assassinato.
***
Chego na porcaria da escola, sentindo-me absolutamente inquieta. Antes que o porteiro insuportável comece a ladainha sobre chegar atrasada e que ninguém pode entrar depois de ultrapassar a tolerância, quase esfrego em sua face o parecer médico que diz que posso entrar na hora em que chegar se eu tiver tido consultas naquele dia. Claro que não fui à consulta hoje, mas ele não pareceu notar que o papel é de meses atrás. De mau gosto, ele torce a boca e abre o portão pra mim.
Essa porra parece mesmo uma entrada de cemitério! Agora faz até um pouco de sentido, porque muito provavelmente daqui a alguns minutos terá um morto aqui dentro. Rio da minha própria piada.
Está no horário de almoço e os alunos estão aqui e ali comendo alguma coisa ou conversando besteira. Percebo que realmente houve algo grave quando os vejo desviar o olhar de mim para apenas rir e cochichar. Respiro fundo, procurando calma. Tenho que saber o que houve primeiro.
Entro nos corredores já a procura de Levy, mas algo muito mais importante me chama a atenção. Observo incrédula as paredes dos corredores, totalmente repleta de fotos.
Fotos minhas. Absolutamente constrangedoras.
Ainda boquiaberta, deixo a mochila cair do meu ombro ao arrancar um delas da parede. Estou com o rosto completamente vermelho, de boca aberta e quase babando. As pessoas que passam por mim apontam, riem e caçoam, mas continuo me concentrando nas imagens.
São fotos tiradas ontem, no jantar. E não para por aí. Ainda tem várias outras com poses diferentes, cada uma mais ridícula que a outra. E estampado em meu armário, há uma legenda com a seguinte frase:
"Eu também te desafio."
Automaticamente ligo isso ao Dragneel, mas paro para raciocinar melhor e chego a conclusão óbvia. Lissana foi a responsável por isso. E a filha da puta nem ao menos veio me peitar frente a frente!
Sabia que tinha algo errado ontem, sabia!
Com o corpo tremendo, arranco o aviso, me virando para o corredor.
– Eu não tenho que me preocupar em levantar minha moral para vocês, pois não preciso que me amem nem me odeiem. – Todos ficam mudos e paralisados com minha voz altiva. – Mas não gosto de ser desafiada. E além do mais, quando eu pegar o responsável por isso – amasso o papel com força. – será mais que o suficiente para vocês verem do que sou capaz. Então terão uma razão para temer.
– Lucy! – Levy aparece magicamente ao meu lado, segurando meu punho fechado fortemente, com o intuito de que eu solte o aperto. – Por favor, fique calma.
Respiro fundo, observando as pessoas saírem de cabeça baixa, enquanto outras fingem que nada aconteceu.
– Ficar calma? – Ironizo, rangendo os dentes – Estou incrivelmente calma. Tão calma que...
Minha atenção é desviada ao ouvir umas risadas debochadas no fundo do corredor. O grupinho das seguidoras da Lisvadia fofocam animadamente, como se estivessem cantando vitória. Meu raciocínio é tão rápido, que quando percebo já estou em frente a elas, meus pés se moveram que nem notei. Ouço Levy gritar ao alguma coisa, mas já estou com as mãos no pescoço de Angel, imprensado-a na parede com força.
Ela é a líder quando Lissana não está.
– Você também vai pagar o pato. – Digo, sentindo uma nanica azulada tentar inutilmente me afastar dali ao puxar meus braços tensos.
– Não sei do que está falando. – a falsa albina fala de modo aterrorizado. – Me solte!
– O caralho, sua puta de meia tigela! – berro em sua face. As outras garotas, de tão amigas, já fugiram dali faz tempo. – Você foi mandada para armar este circo e quero te matar só por sua audácia.
– Lucy, solta ela! – Levy fica pulando sem parar vendo que estou apertando os dedos cada vez mais. – Pelo amor de Deus, se te verem fazendo isso, você estará mais que fudida.
Aperto os olhos ao ouvir a última palavra.
– Não consigo... respirar... – Angel está quase sufocando quando a solto de vez.
Levy suspira aliviada, como se ela que estivesse sendo sufocada.
– Escute bem. – Interrompo o desespero por ar de Angel, que arregala os olhos quando a empurro de volta na parede, dessa vez com apenas um dedo em sua testa. – Você vai se arrepender de verdade se eu te ver metida comigo de novo, entendeu?
Ela balança a cabeça com desespero. Afasto-me, Levy já me puxando com força.
– E diga a sua mestra que pelo menos tenha a decência de fazer as coisas por si mesma. Não desperdice sua vida por alguém que nem ao menos se importa com você. Trouxa.
Deixo-me ser arrastada por Levy pelo corredor, pegando minha mochila do chão pelo caminho. Não sei quais expressões as pessoas estão, pois não quero olhar para elas. Preciso de um tempo para pensar.
De repente o diretor sai de sua sala, dando ordem aos faxineiros para limpar a bagunça do corredor.
O velho suspira ao me ver.
– Não precisa assistir as últimas aulas. Está dispensada.
Não digo nada, apenas balanço a cabeça e saio dali. Quando chegamos lá fora, Levy me abraça.
Abraço de volta, num modo automático e sem emoção.
– Pensei que fosse estrangular a garota! Juro que pensei. – Levy levanta as mãos pro alto de modo dramático. – Maldito dia para a Erza faltar, ela consegue te acalmar nessas horas. Juvia também não veio, mas não sei por quê.
Mal estou ouvindo o que ela diz.
– Levy, pode voltar para lá. Eu preciso ficar um pouco sozinha, pensar.
Ela parece ponderar um pouco, até que respira fundo.
– Tudo bem. A gente se fala depois.
Sozinha, fico refletindo em nada em especial, até que um lampejo passa por minha cabeça. Coloco as mochilas corretamente nas costas e sigo pela parte posterior do colégio, até quadra poliesportiva. Ainda não posso ir pra casa. Tenho coisas a resolver.
– Tomara que você viva o inferno antes de morrer, seu desgraçado de merda!
Fico chocada ao ver Gray marchar firmemente para fora da quadra, de peito nu e com um olho inchado, parecendo prestes a matar alguém. Pelo jeito, não é apenas eu.
– Gray?
Estava tão transtornado que passou por mim batido, se virando se repente quando o chamei. Ele fica mais branco que uma folha de papel.
– Lucy?
– O que houve? Com quem você estava brigando? – Reparo seu olho roxo. Mas pela minha experiência, é um machucado antigo. No máximo do dia de ontem. Estranho.
Ele parece agitado ao olhar para trás, mas respira fundo e ajeita a mochila nos ombros. Percebo agora que ela está com o fardamento do time, exceto pela camisa, ao qual parece querer rasgar em pedaços.
– Saí do time de basquete.
De repente o que aconteceu a pouco parece muito distante.
– Como assim? – Não consigo esconder minha incredulidade. – Você ama esse time, o que aconteceu para ter tomado essa decisão?
– Coisas que você não precisa saber. – Por alguma razão, me sinto magoada com sua grosseria. Tanto que nem rebati de modo igualmente grosseiro, ou até pior. Mas Gray não costuma ser assim. Percebendo o que fez, fala com mais calma: – Desculpe, Lucy. Mas agora não estou muito bem para conversar.
– Para falar a verdade, nem eu.
– Aconteceu algo? – Parece nervoso em querer saber.
– Você já entrou no prédio da escola hoje?
– Não, estou aqui desde manhã.
– Então logo, logo ficará sabendo. – Digo sem emoção. – Bem, até mais.
– Para onde você vai? – pergunta ele, me vendo caminhar em direção a quadra.
– Infelizmente, esperar alguém.
– Tenha cuidado.
Antes que eu possa perguntar o porquê do aviso, ele se vira e vai embora.
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