Just Sex
18 Dezessete – Mistérios e Encaixes.
Notas iniciais
– Natsu? – O chamo com a voz fraca, engolindo em seco.
Ele abaixa a cabeça e dá um sorriso de canto, o que não ajudou em absolutamente nada para o meu nervosismo crescente. Esse não é o Natsu, nem o Dragneel que conheço.
Ainda estou paralisada quando ele segura meus cabelos pela nuca, fazendo com que doa um pouco. E se levanta da mesa comigo nos braços.
– Natsu, o que houve? – Ele não responde nada, com um semblante indecifrável que na penumbra apenas fica mais obscuro. Me solta no chão, para logo em seguida me jogar bruscamente contra a parede, levantando minhas pernas e me fazendo ficar na ponta dos pés. – O que está fazendo?
Apertando meu pescoço por trás, ele tira os fios de cabelo do meu rosto, sussurrando em meu ouvido:
– Calada. O único som que quero ouvir sair da sua boca, são seus gemidos.
Ele me penetra de vez, profunda e agressivamente. Um gemido escapa de mim como um grito. Minhas mãos agarram a parede, enquanto ele continua a me prender pela nuca, como se me impedisse de fugir.
Poderia gritar por socorro, mas não sou do tipo gazela indefesa. Poderia me debater para fugir, ou até mesmo machucá-lo para me defender. Porém, mesmo que eu não conheça esse cara, meu corpo não reage em defesa assim como os outros. Não porque é o corpo de Natsu, e sim porque me sinto atraída por essa agressividade sombria.
Sua respiração pesada esquenta meu pescoço, o esforço lhe fazendo tencionar os músculos. Por algum motivo, sinto seu autocontrole em não me machucar, e eu não se isso representa um vislumbre de sua sanidade ou de sua loucura. Porém, tudo isso parece ser muito vago em comparação às minhas reações.
Tudo em mim parece concentrado em um único ponto: Onde seu corpo se encontra com o meu. Suas estocadas são agressivas e profundas, com um intervalo de tempo entre uma e outra, me fazendo gemer quando entra completamente mais uma vez.
O ritmo se repete até meu segundo orgasmo chegar. E o terceiro. Chega ao ponto de eu não conseguir manter meu próprio corpo ereto, e se antes eu me sustentava na ponta dos pés, agora ele que me segura para que eu não caia.
Tento virar a cabeça em sua direção quando ouço murmúrios contidos, mas como se me repreendesse, vira bruscamente meu rosto de volta para a parede, rosnando quando finalmente, goza dentro de mim.
Minha mente está enevoada depois disso. Todo meu corpo está quente, sensível, tremendo. E eu continuo gozando, dolorosamente, do tipo que você se contorce, mas gosta. E então ele me solta no chão, seu peito ainda de encontro com minhas costas, parecendo sofrer o mesmo que eu. Daí eu me viro, olho para ele e, no segundo seguinte, um brilho passa por seus olhos e ele me empurra pra longe, como se eu fosse algum tipo de material tóxico.
Desperto no mesmo instante.
– O que houve com você! – Meu tom é urgente. Não estou irritada, nem com raiva. O sentimento está mais perto de receio. Ou medo. Ele voltou a si. Mas quem era antes?
– Vai embora. – É tudo o que ele diz. Sua voz está trêmula, seu corpo parece frágil. Sua expressão, de pavor. Ele se vira de costas e se apóia na mesa.
– Isso é tudo o que você diz? – Agora sinto a irritação começar a me invadir. – Você, do nada, parece outra pessoa, agora age como se a culpa fosse minha?
– Por favor... – Ele suplica, com a voz baixa. Mas isso não é o suficiente para que eu me contenha.
Ando em sua direção, prestes a fazer com que ele se vire para mim. Entretanto, ele agarra minha mão antes que eu o toque. Minhas entranhas¹ se contorcem num espasmo de congelar os ossos, enquanto ele aperta meu punho com força e me olha com aqueles olhos de fera selvagem.
– Vá. Embora.
O toque machuca, mas não é disso que tenho medo. O medo que sinto, é de me ver refletida nele. Por que é isso que está acontecendo.
Puxo o braço com força e ele finalmente me libera. Dragneel passa a mão pelo rosto e cabelos enquanto eu cato minhas roupas e as visto rapidamente. Saindo dali, paro um instante para olhá-lo antes de ir sem dizer mais nada. E a última coisa que vejo é seu corpo nu escorregar até o chão, onde ele se encolhe abraçando os joelhos, como se quisesse entrar dentro de si mesmo.
***
– Senhorita Heartfilia?
Estanco na porta da biblioteca, diante do diretor que me encara com curiosidade. Tudo estaria normal se eu não estivesse completamente descabelada, com as roupas amassadas, respiração ofegante e com o rosto vermelho.
Minha cabeça demora alguns segundos para raciocinar algo a dizer. Meu corpo ainda treme pelo esforço e meus pensamentos ainda estão confusos, tentando chegar a uma conclusão coerente. Estou no mínimo intrigada. O que diabos realmente aconteceu lá dentro?
– Nós acabamos de terminar. – Digo finalmente. Pelo menos conseguirei algum tempo para que Dragneel se recomponha lá dentro.
– Eu ouvi ruídos estranhos. – O velho baixinho estreita os olhos, tentando olhar para dentro da biblioteca, mas logo fecho a porta atrás de mim. – Você também parece cansada.
– É. – Coço a cabeça. – Arrumamos muita coisa e subir e descer escadas com peso é cansativo. Não sei como a Hilda-san conseguiu fazer tudo sozinha até agora.
Rapidamente seu rosto se suaviza, e ele respira fundo.
– Fico feliz em saber que vocês estão dispostos a ajudar. E onde está o senhor Dragneel?
– Ainda está lá dentro. Ele, hum, se ofereceu para terminar por hoje depois do horário.
– Entendo. Realmente, já são quase sete horas.
Ótimo, ele não perece estar mais tão desconfiado como antes.
– Acompanho a senhorita até lá fora.
– Tudo bem.
Estou tensa. É meio estranho andar assim lado a lado com o diretor, mas o velhote não é tão ruim assim. Mesmo com todas as merdas, ele é justo. No final das contas acho que gosto dele.
Quando me preparo para me despedir, avisto Erza e Jellal conversando alguma coisa no pé da escada. Recordo-me de Levy e acabo correndo até eles, deixando o diretor sozinho perto da entrada.
– Erza!
– Lucy! – Ela se vira para mim, seu cabelo molhado indica que tomou banho agora há pouco. Jellal pisca um olho e eu reviro os olhos, não me esquecendo da promessa que fiz a mim mesma de socar sua cara quando o visse. Mas seria estranho fazer isso de repente, a Erza perguntaria o porquê e isso daria uma baita confusão. – Conseguiu falar com a Levy?
– Não. Liguei o dia todo e nada.
Merda, estou começando a ficar realmente preocupada com essa baixinha maldita.
– Acho que não é tão tarde para irmos até a casa dela. Tudo bem, amor? – Erza pergunta a Jellal.
Reviro os olhos.
– Tudo bem, estou de carro hoje. Levo vocês até lá, é perigoso a essa hora.
– Sei me defender muito bem, obrigada. – Digo de modo azedo. – E acho que a Erza também.
– Ah, Lucy. De carro é mais rápido que de ônibus, não seja ranzinza. – Erza me dá um tapinha no braço e eu a olho de cara feia. – O problema é se ela não estiver em casa e a mãe dela não souber de nada.
– Aí vamos ter que ir atrás do filho da puta do namorado dela. – Aperto os punhos, minha vontade é de bater nele também. – Erza, eu juro que se aquele desgraçado do Gajeel Redfox tiver feito algo de ruim para a Levy, ele é um cara morto.
– O que você disse? – Jellal fala de repente.
– Que eu mesma irei matar Gajeel Redfox com minhas próprias mãos. – Faço questão de repetir, estranhando sua pergunta. Mas quando olho para o azulado, ele parece perdido em seus próprios pensamentos.
É Erza quem percebe primeiro:
– Amor, está tudo bem? – Ela pergunta a ele, segurando sua mão. – Meu Deus, você está gelado! E pálido também! Está passando mal?
Não resisto a soltar uma gracinha.
– Jellynho está dodói. – Zombo. Mas quando o cara começa a tremer, eu percebo que o negócio é serio mesmo. – Oe, não desmaia não, criatura! Eu não sei socorrer as pessoas não!
– O que está havendo? – O diretor chega rapidamente até nós, e eu percebo que ele esteve ali em cima o tempo todo.
Erza já está ficando desesperada.
– Meu namorado, diretor. Ele está passando mal.
O velho logo checa o pulso do azulado, que parece estar com dificuldades para respirar. E eu? Eu simplesmente não sei o que fazer, só olhar horrorizada.
– O pulso dele está muito acelerado. – Informa o diretor. – Não entendo, ele está pálido e gelado, parece ser uma queda de pressão, mas sua pulsação não condiz com isso.
Minha cabeça dá uma estalo. Cara... Agora também me vejo refletida em Jellal. Parece comigo quando estou em crise. Isso é... Ridículo, não é? Não pode ser a mesma coisa, não pode. E foi de repente, quando eu falei o nome do...
– Redfox... – É a última coisa que Jellal diz, antes de desabar no chão.
Ele desmaiou!
– Jellal! – Erza se joga no chão, rapidamente ouvindo seu ritmo cardíaco.
– Não me diga que ele morreu!
– Lucy, não piora as coisas! – Erza grita para mim, já praticamente chorando. – Ele está vivo, temos que levá-lo ao hospital!
– Vou buscar meu carro! – O diretor informa antes de correr para o estacionamento.
Penso em chamar Natsu lá dentro para ajudar a socorrer o primo, mas logo descarto essa ideia. Algo me diz que ele ainda não se recuperou.
– Erza, mantenha a calma! – Grito para ela, que para de tentar acordar o namorado e me olha assustada. Logo o diretor chega até nós e abre a porta do carro. – Eu aguento mais peso, você segura as pernas.
Com um pouco de dificuldade, colocamos Jellal dentro do carro no banco de trás. Nossa, o cara é pesado.
– Você vem? – Pergunta ela, sentando ao lado dele.
Olho para o velho na frente.
– O diretor está com você. Eu preciso ir atrás da Levy, depois te ligo.
– Tem razão. Eu ligo para a família dele. Toma. – Ela enxuga as lágrimas e me entrega as chaves do carro de Jellal. – Você sabe dirigir, então vá até a Levy rápido, amanhã você devolve. Dê-me notícias.
– Você também. – Fecho a porta e seguro sua mão pela janela. – Vai dar tudo certo.
Logo depois eles saem cantando pneus no estacionamento. Espero que não seja nada grave mesmo, a Erza não aguentaria. Mas que foi estranho e bizarro, foi.
Parece que o normal na minha vida não é o que seria para a maioria das pessoas. Suspiro.
Lembro que esqueci minha bolsa no vestiário, e ligo para Levy mais uma vez enquanto vou até lá. E quase tenho um treco quando ela atende no primeiro toque.
– Levy! Finalmente consegui falar com você, criatura. O que houve, por que não veio para aula?
– Lu-chan... – Levy pronuncia meu nome num murmúrio abafado, como se me suplicasse algo.
Sinto meu estômago se contorcer.
– Levy, você está chorando? – Pergunto apreensiva e fico ainda mais nervosa quando ela passa a chorar ainda mais, respondendo minha pergunta.
– O que aconteceu?!
– O Gajeel, Lu-chan. – Sua voz está tão embargada que custo a entender. Aos soluços, repete de novo: – Foi o Gajeel que...
Filho da puta desgraçado! Ela nem está conseguindo falar direito de tanto que chora. Minha amiga...
– Estou indo aí agora mesmo.
***
Não me importei com a minha falta de prática na direção, não hesitando em correr a toda velocidade no carro de Jellal até a casa de Levy, no bairro vizinho ao da escola. No final das contas até fiz uma baliza perfeita rente ao meio fio, mas quase bati no carro detrás por ter confundindo o pedal do freio com o do acelerador. Fechei a porta do carro às pressas, corri até o jardim da frente e me esgueirei pelo canteiro de flores em baixo da janela da sala, único cômodo da casa com as luzes acesas. Tia Lívia assistia televisão enquanto tomava uma xícara de café. E considerando seu comportamento tranquilo, constatei que ela não sabia o que havia acontecido com a filha. Respirei fundo e segui para a porta, apertando a campainha e tentando suprimir qualquer resquício da minha aflição. Não posso levantar suspeitas e causar um problema ainda maior.
– Um momento. – Ouço a tia Lívia dizer. Alguns segundos depois, ela abre a porta e se surpreende com minha presença. – Lucy! O que faz aqui a essa hora? Veio falar com a Levy? É raro te ver por aqui. Como vai a Layla?
Ela foi falando de uma vez uma coisa atrás da outra que não me deu oportunidade de falar, nesse aspecto sei a quem a Levy puxou.
– Oi, tia. Sim, vim falar com a Levy. – Engoli em seco, olhando para a escada atrás dela. – Ela está?
– Oh, querida. Sim, mas ela está...
– Lu!
Meu coração desce para o estômago quando vejo um borrão azul descendo do primeiro andar. Minha primeira reação foi o alívio em ver que ela está aparentemente inteira, mas depois me recordo da nossa conversa no telefone há poucos minutos e percebo o quão abatido seu rosto está, mesmo que ela tente disfarçar isso com um sorriso ao vir em minha direção.
– Ainda bem que chegou. – Ela se dirige a mim como se tivéssemos combinado alguma coisa. Não sou a única a ficar sem entender, pois a mãe dela faz a mesma expressão que eu. – Vou indo, mãe. Volto amanhã. Te amo.
Com isso ela me arrasta pela mão para fora da varanda, e só então percebo que ela carrega uma pequena bolsa de mão.
– Levy...
– Uau, Lucy! – Diz ela com uma animação exagerada ao ver o carro estacionado. – Não sabia que tinha ganhado um carro. Não era apenas no seu aniversário de 18 anos? Nada mal, ein.
Apenas observo o teatro de Levy, ela parece tão frágil que fico com um nó na garganta. Essa alegria aparentemente tão espontânea chega a ser tão falsa, que sinto que com apenas um toque ela pode desabar em choro.
– Esse carro não é meu. – Digo de modo apático. Ponho a mão em seu ombro e a sinto tremer com isso. – Levy, o que houve? Não tente esconder, por favor.
Ela se afasta sutilmente do meu toque, ainda de costas para mim. Mesmo com o silêncio, seu desespero é tão palpável, que quase consigo ouvir os gritos que ecoam em sua mente. Depois de breves momentos, ela finalmente se pronuncia, com uma voz fraca de quem está prestes a desmoronar.
– Por favor, Lucy. Posso dormir na sua casa hoje?
Aperto os olhos com força. Como posso negar esse pedido?
Destravo o carro e abro a porta do passageiro para ela, que me olha com uma expressão desolada. Eu quem deveria estar fazendo essa cara, mas nesse momento, sei que devo ser firme e lhe passar segurança. É o que ela mais precisa no momento.
Entramos no carro sem dizermos mais nenhuma palavra. Levy apenas observava a paisagem da noite pela janela com um semblante distante, enquanto eu dirigia com calma. Mesmo sem saber o que aconteceu, tenho certeza de que foi algo grave. Nunca havia visto minha amiga baixinha e espevitada parecer tão... Vazia.
Assim que estaciono na garagem aberta de casa, papai fica chocado ao me ver da janela. Mal entramos em casa e ele pergunta:
– Onde conseguiu esse carro?
– Eu não roubei o carro, se o senhor quer saber. – Falo na defensiva. – Posso ser tudo, menos delinquente.
– Na verdade – Vejo Laxus aparecer da cozinha. –, delinquente você é. Mentirosa é que eu tenho minhas dúvidas.
– Vai se ferrar. – Digo e ele pisca um olho.
– Mas é verdade. Você não tem carta, Lucy. – Papai me recrimina. – E se você fosse presa?
– Quem vai ser presa aqui?! – Mamãe aparece do nada quase gritando, descendo as escadas como um furacão. Reviro os olhos.
– A mana roubou um carro.
– Lucy!
– Mentira dele, mãe. – Olho de cara feia. Mas, ignorando o que eu disse, a Sra. Layla vai até a janela e solta um gritinho quando vê o carro azul lá fora.
– Você ainda não respondeu minha pergunta.
– Pai, já disse que não roubei. Qual o problema de vocês? – Bufo. – Esse carro é do namorado da Erza, o Jellal. Vocês não o conhecem.
Decidi não contar a parte que ele passou mal, pois ainda não avisei e Levy e isso causaria explicações desnecessárias. Mas o que eu disse foi o suficiente para que os três se olhassem de modo estranho. Tem algo que não estou sabendo aqui?
– De qualquer forma. – Papai suspira e volta a se sentar no sofá. – Seu irmão vai dirigir nele e entregá-lo amanhã. Você não tem permissão para dirigir.
– Saco. Que seja. – Jogo as chaves para Laxus. Realmente, se me pegassem, eu iria para delegacia e... Digamos que eu não tenho uma ficha muito limpa.
Quando saio do lugar para subir as escadas, só então me recordo de Levy, e percebo que ela esteve parada no tempo, olhando para lugar nenhum, desde que entramos.
– Oh, Levy! – Mamãe fala antes de mim. – Faz tempo que não te vejo, querida. Como vai sua mãe?
Todos a olham, inclusive eu, quando ela não responde e continua do mesmo jeito. Ela parece em transe, como se estivesse drogada. E devo admitir que isso me perturbou bastante. Pigarreio e a cutuco de leve para chamar sua atenção.
Levy pisca um par de vezes, e seu rosto aos poucos volta a ter alguma expressão. Ela sorri sem graça e finalmente fala, quebrando o constrangimento de todos:
– Ela está bem... – Sua primeira fala ainda parece distante, porém logo sua voz passa a ter um tom mais firme. – Desculpem, só estou um pouco cansada. Boa noite a todos. Estava com saudades, tia Layla, tio Jude.
– Ué, mas e eu? – Laxus faz um bico ridículo.
Todos riem.
– Você também, Laxus.
– Mas você parece tão abatida, querida. O que houve? – Mamãe pergunta, o que faz com que Levy me olhe em desespero.
– Brigou com o namorado. – Trato de falar rapidamente, o que não deixa de ser verdade. Se eu não desse uma resposta plausível a minha mãe, ela nos encheria o saco a noite inteira. – Então ela veio dormir aqui hoje. Sabe como é, noite das meninas.
– Ah, meu amor! – Mamãe corre para segurar as mãos de Levy, o que assusta a coitada. – Faça como eu em tempos de escola. Seduza o filho da mãe e bem na hora “h” você arranca as bolas dele e...
– Querida! – Papai praticamente grita em constrangimento. – Não dê esse tipo de conselho a pobre menina. Falando assim, parece até que fez isso comigo quando nos conhecemos.
– Eu não duvido nada. – Diz meu irmão e papai arqueia uma sobrancelha para ele, que rapidamente some para a cozinha. Provavelmente para comer alguma coisa, esse ogro vive comendo. – Boa sorte aí, Levy!
– Com você eu não fiz, mas bem que deveria ter feito. – Mamãe sorri para ele. Apenas fico chocada com esses passados reveladores. O quanto eu não devo saber sobre minha família? De repente, fico encucada.
– Tá, vão namorar no sofá, vão. – Ela sorri ao sentar no colo do marido. – Vamos, Levy?
– Mais tarde levo um lanche para vocês.
– Obrigada, tia Layla.
Subimos para o meu quarto com rapidez e puxo uma cadeira para minha amiga sentar assim que entramos. Ela me olha sem entender.
– Senta.
Ela obedece. Sento de frente para ela na cama.
– O que houve, Levy? Você está muito estranha. Não gosto disso.
– Eu... – Desvia o olhar. – Não sei se eu vou conseguir te falar, Lucy.
A olho descrente. Acabo perdendo a paciência, o que não é novidade para mim.
– Ah, Levy. Vai se ferrar! Você some a porra do final de semana inteiro, atende o telefone daquele jeito e, para completar, parece estar sob um efeito de algum tipo de droga. Você anda se drogando, Levy McGarden? Por que se estiver...
– Não! – Ela me interrompe às pressas. Abaixa a cabeça, falando em voz baixa: – Claro que não.
– Então o quê?
– É muito difícil pra mim, Lu. – Diz entre soluços ao enxugar algumas lágrimas. – Tenho medo.
– Medo de quê? Do filho da puta do Gajeel? Eu te falei Levy, te falei que ele não prestava. Vou matar aquele desgraçado.
– Não! É disso que eu tenho medo. Que você vá atrás dele tirar satisfação! Ele realmente não presta, você tinha toda razão e eu fui uma idiota por não ouvir. Mas eu não quero você metida com ele. Você tem que me prometer que não vai procurá-lo, entendeu?
– Por que disso agora? O que diabos ele te fez? – Pergunto com raiva.
– Prometa! – Ela insiste.
Acabo me dando por vencida, pelo menos para acalmá-la nesse momento. Caso contrário, será mais difícil saber o que houve.
– Tudo bem. – Suspiro. – Pode me dizer o que aconteceu, pelo menos? Sabia que deixou todo mundo pirado com seu sumiço? Aliás, que desculpa você deu a sua mãe?
– Não precisei dar nenhuma desculpa. Eu estava em casa desde sábado.
– O quê? – Arqueio as sobrancelhas. – Como assim? Então por não atendeu nossas ligações?
– Por que... – Seus olhos ficam desnorteados de repente. – Eu não estava em mim, está bem? Você não sabe o que eu passei.
Mesmo ela tendo razão, algo dentro de mim diz que eu sei sim, e muito bem.
– Saberia se você me contasse. – Fiquei séria e cruzei os braços. – Chega de enrolação, Levy. Quero saber de tudo. O que o Gajeel te fez?
– Não sei por onde começar. – Ela está prestes a chorar de novo.
– Que tal pelo começo? – Fui irônica. Estou quase perdendo a paciência de novo.
Levy aperta os olhos e respira fundo pode ser longos segundos. Quando olha pra mim de novo, parece ser outra pessoa.
– Preciso de um computador.
Eu retrucaria que ela está fugindo do assunto, mas no momento estou mais preocupada com seu comportamento bipolar que, antes tinha uma mudança de personalidade em alta instabilidade, agora parece ter se instalado de vez. Como se minha ironia tivesse acendido algo ruim dentro dela, mas sei que não foi por isso.
Passo a língua pelos lábios e balanço a cabeça de leve, decidindo fazer o que ela pede. Pego meu notebook e o deixo em suas mãos, ao passo que ela se vira rapidamente para escrivaninha ligando o aparelho.
– O que você vai fazer?
– Pesquisar sobre um assunto em questão, que me diz respeito e que não tive coragem de fazê-lo desde consegui me desprender do psicopata.
Psicopata? Será que ela fala do Gajeel? Inclino-me para perto da tela ao lado, onde ela abre o navegador e vai até a barra de pesquisas do Google. Desvio meu olhar para seu rosto, que agora parece sério e determinado. Até seu jeito de falar mudou.
Levy, o que aconteceu com você?
– O que você vai pesquisar?
– Tatuagens. – Responde de imediato. Ela percebe minha incredulidade, então complementa antes que eu a questione: – Por favor, sem perguntas, Lucy.
Apenas respiro fundo e volto a olhar para o computador onde ela digita com rapidez duas palavras: “Tatuagem assassino”.
Rapidamente o Google lista uma série de sites com assuntos relacionados a isso. O primeiro deles tem o título “10 tatuagens que nenhum homem deve fazer”. Mas Levy desce mais um pouco e clica em um que explica os significados das tatuagens no mundo do crime. Não sei onde ela quer chegar com isso. Estou prestes a perguntar quando ela fala:
– Na internet, pode-se encontrar quase tudo usando as palavras-chave corretas. Inclusive, as entidades governamentais tem um super software que faz esse trabalho, que serve saber quais as pesquisas que as pessoas estão fazendo através da internet, como uma forma de espionagem geral². Mas, certas coisas não se encontram na rede comum.
Levy estala a língua, parecendo estar irritada com a limitação que lhe foi imposta. Inabalável, ela se levanta, vai até o modem e puxa o cabo da rede para conectar diretamente no notebook.
– Uma rede direta é mais estável do que a Wireless. – Alega, como se soubesse que estou querendo saber.
– Levy... Por que isso? – Finalmente pergunto.
A imagem na tela ainda é do site que ela entrou há pouco, que lista os diversos significados das tatuagens de presidiários.
Ela se vira pra mim na cadeira, sua expressão parece sem vida.
– Você já vai entender. – E então se levanta até a mala, pega um pen drive e o injeta na entrada USB.
Fico confusa quando ela fecha o navegador.
– Não encontrou o que queria? Achei que ia salvar.
– Não. Aquele site esdrúxulo é muito banal. Não quero saber que tipo de tatuagem convencional os idiotas que vão presos por tráfico de drogas, por exemplo, fazem em seus corpos como sinal de que eles são perigosos. No final das contas, não passa de uma modinha provinda da real e maligna realidade.
Okay, confesso que estou começando a ficar assustada.
– Levy, não estou entendendo aonde você quer chegar.
– É muito simples, Lucy. Vou descer da ponta do Iceberg, como muitos por aí gostam de comparar. Preciso entrar na Deep Web.
Qualquer pessoa comum que já tenha ouvido essa denominação e saiba um pouco do que há nela, tem receio em pesquisar até mesmo sobre o assunto. Dizem que é a parte negra da internet, mas não é nada a se temer, desde que você não procure certas coisas que não se devem procurar. Quem procura, acha, já dizia o ditado.
– Preciso descer algumas camadas, acho que você já deve ter ouvido falar. – Continua ela, enquanto abre o conteúdo de seu pen drive. Uma pasta chamada Proxy.³
Balanço a cabeça que sim, mesmo não tendo certeza se ela viu.
– Mas, só pra você saber, na verdade essas camadas apenas têm a função de "classificar" cada assunto procurado, ou seja, o quão "especial" ele é no mundo da Deep Web. No fim das contas, esse esquema de camadas não existe, o que existe são redes privadas diferentes.
Disso eu não sabia, mas optei por fica calada.
– Seguindo por esse esquema de camadas, para que você possa entender melhor, qualquer um, sem precisar de absolutamente nada em especial, pode entrar até na terceira camada, que é o limite que o Google consegue indexar no seu buscador. Mas para o que eu quero, isso não é o suficiente.
Levy mostra total habilidade em digitar sem olhar, abrir programas e conversar comigo ao mesmo tempo. Tudo o que posso fazer é ouvir calada.
– Preciso entrar na quinta camada, a verdadeira Deep Web, como chamam. É o máximo que consigo com os recursos que temos. Muita gente acha que, se atendo por essas camadas, é preciso seguir uma cronologia pra descer. Ou seja, da 0 vou para a 1, da um para a 2 e assim sucessivamente. Pura idiotice.
– Okay. – Decidi me intrometer. – Não entendo muito disso, mas acho que meu computador não tem recursos o suficientes para estabelecer uma navegação segura na Deep.
Levy deu algo parecido com uma risada baixa.
– Tem razão. Seu computador é uma porcaria, assim como todos convencionais por aí. Mas por enquanto ele vai servir. Vou usar o Proxy do servidor para mudar meu IP em alta variância, isso vai proteger nossa identidade, dificultando uma possível localização.
Engulo em seco. O que diabos ela vai pesquisar que precisa de uma segurança tão extrema? Por Zeus, quem procura acha, por isso nunca quis procurar, mas aqui estou eu me metendo em não sei lá o quê. Levy que está pesquisando, mas o computador é meu.
– Preciso usar o TOR para acessar a rede. É um navegador que se utiliza desse mesmo esquema de camadas, então a intenção é deixar o conteúdo supercriptografado acessável pra quem navega.
– Eu sempre soube que você gostava de computadores e tals... – Ela me olha quando começo a falar. – Mas, desde que quando você virou uma super hacker?
– Desde sábado. – Responde como se fosse algo super normal, se voltando para o computador em seguida.
Então ela finalmente entra no tal navegador TOR e começa a pesquisar a mesma coisa que havia tentado antes no Google, o que parece ser um processo bem lento.
– Por que tanta demora? – Pergunto, achando estranho.
– Devido aos caminhos encriptografados, a navegação através da rede TOR é bem mais lenta do que usando os navegadores comuns pela rede Internet. Além disso, para aumentar a segurança durante a navegação, o navegador TOR não salva cookies ou histórico da navegação, o que gera um atraso ainda maior.
– Entendi, eu acho.
– E além disso, o TOR é parecido com o Torrent. Quanto mais pessoas estiverem baixando aquele arquivo, mais rápido será pra todo mundo. Um bom horário pra isso é depois da meia-noite, horário em que o pessoal utiliza mais o TOR para acessar a Deep. Nem queira saber porque.
Olho para o relógio. São quase dez horas. Mesmo que ela não diga, já imagino. Desde o início da humanidade, as pessoas têm a noite como algo maligno, por que são quando coisas ruins acontecem. Não é a toa que pessoas queiram entrar na calada da noite para ver seus conteúdos proibidos preferidos. Até na Internet normal é assim.
Depois de um tempo, é listado na tela vários sites sobre o assunto, assim como o Google havia feito. A interface do navegador é simples, mas os sites indexados têm um quê meio sombrio. Não sei se é devido ao assunto, ou pela camada em si.
– .onion? – Pergunto, vendo o URL na caixa. – Nunca vi uma extensão dessas.
– Isso por que as extensões da Deep são diferentes. – Explica Levy. – Cada camada tem suas extensões específicas. Na nossa internet comum, por exemplo, temos a .com, .html, entre poucas outras.
– Então se eu souber o link específico e digitá-lo no meu navegador, posso entrar direto? – Pergunto, começando a me interessar pelo assunto.
– Não. – Responde, como se eu fosse ingênua. – Diria que o link está corrompido, ou que não existe. Mas se, por algum milagre divino, você conseguisse, pode crer que você ia precisar de outro computador.
– Por quê?
– Vírus. Pra isso que serve o TOR, também. Estabelece uma conexão mais segura em todos os aspectos. E se, por um milagre maior ainda, você conseguisse ir mais fundo, mesmo com a utilização do TOR, você iria entrar num campo minado.
– Como assim, campo minado? – Não me parece muito bom.
– Batalha de Hackers. Eles brigam entre si para ir cada vez mais fundo, e literalmente destroçam os novatos. O negócio é serio e, pode crer, é o último lugar do mundo que você iria querer estar.
– Nossa. – Não deixar de expressar minha surpresa. – Falando assim, parece até um lugar real, não virtual.
– Abriu. – Ela fala de repente.
Presto atenção na tela e me deparo com um site esquisito de nome esquisito, tanto que nem sei pronunciar.
– O que mais achamos pela Deep, além das porcarias desumanas que as pessoas fazem, são teorias de conspiração. E acredite, não são simplesmente teorias.
Ela clica no scroll, descendo a barra de rolagem do browser. Vemos uma imagem assustadora seguida de um título:
O Programa.
A imagem exibe um homem de costas, com músculos rígidos à mostra, desnudo da cintura pra cima. O assustador é a tatuagem nas costas dele. Um ceifeiro da morte gigante, que parece manipular com cordas alguns cadáveres abaixo dele, num cemitério cheio de túmulos. Recordo de um dos CDs do Iron Maiden, que mostra Eddie manipulando Satanás na capa de The Number Of The Beast. Levy desce mais um pouco e eu perco a imagem de vista. Um texto enorme segue abaixo e, passando os olhos rapidamente, um trecho em questão me chama a atenção.
“Sabe-se lá quantas experiências insanas esse filhos da puta do Governo já não fizeram. Tirando o direito à da vida de crianças inocentes que nem nasceram. Por que, se transformá-las em máquinas de matar não for isso, então o que é?”
Por Hades! Que merda é essa?
– Puta que pariu... – Deixo escapar.
– É. – Levy, por alguma razão, não me parece nem um pouco impressionada. – Aqui tem algumas coisas interessantes, mas ainda preciso de mais informações. Informações concretas, não de um cara aparentemente lunático. A Deep Web tem muita coisa boa. Você pode baixar livros difíceis de encontrar, dentre várias outras coisas. Mas o que tem de insano por aqui também não é pouco.
Ela tem razão, pois pelo texto que se segue, o cara xinga mais que fala alguma coisa.
Levy parte para outros sites, e eu acabo vendo de tudo, até o inimaginável. Casos de assassinato que chegam a nós pela mídia que na verdade foram obra deles, os Assassinos de Aluguel. Inclusive casos famosíssimos, o que me deixou embasbacada demais para falar. “O Programa” é o grupo mais falado nos sites que entramos, mas... Tem algo errado, percebo. Como o cara do primeiro site, esse Programa, aparentemente é formado por cientistas. Ainda não entendi a correlação disso com Assassinos de aluguel. Fico tão impressionada com o assunto que até me esqueço do que venho me indagando desde que Levy pediu meu computador: Para que diabos ela precisa saber dessas coisas?
É nessa hora que algo estranho acontece. Tudo na tela do navegador fica branco e, em seguida, aparece o seguinte aviso: Conexão perdida. O TOR se reinicia sozinho e Levy solta um palavrão. Ela faz todo o procedimento de novo, que parece ser mais rápido dessa vez. Ela digita palavras-chave mais específicas de acordo com o que vimos, limitando mais o conteúdo a algo mais concreto. Mas não demora muito e o mesmo acontece de novo. Conexão perdida.
– Droga. O firewall* está me dando block. O intrigante é que são para todos os sites pesquisados com relação a esse assunto. – De repente ela para. Sua expressão muda e do nada ela passa a digitar freneticamente milhares de comandos. – Impossível...
Demoro alguns segundos pra racionar, até que chego a mesma conclusão que ela.
– Espera aí, quer dizer que alguém está nos bloqueando?
– Sim. E em breve vamos ser hackeados.
A olho boquiaberta. Ela continua a digitar como se não houvesse um amanhã.
– Não é nessa hora que deveríamos parar?
– Não. Estou quase lá. Fique calada.
Estou prestes a retrucar, mas percebo que Levy parece meio pirada. Ela abre diversas abas do navegador, cada qual com um site diferente, e como num passe de mágica, sai copiando o conteúdo das páginas numa caixa de texto do bloco de notas. É uma batalha de velocidade. Estão bloqueando a navegação, mas ela tenta pesquisar e salvar antes que isso aconteça. As imagens e textos na tela entram e saem cada vez mais rápido.
Consigo captar algumas coisas. Algo sobre gêmeos de dois pais, capacidade cerebral, níveis de resultado das experiências, imagens de crianças submersas em um líquido aquoso estranho, esta em preto e branco; mais tatuagens, extremamente parecidas com a que vimos. Até que uma coisa, que me choca, me faz segurar no ombro de minha amiga pedindo que pare.
– Levy, por favor...
Mas ela não para. Cada vez mais rápido, cada vez mais insana. Percebo que sua respiração está cansada, como se ela estivesse correndo ou tendo um ataque cardíaco. Seus olhos acompanham os movimentos na tela, e ela abandonou totalmente o touchpad, utilizando apenas comandos através do teclado.
Quero que ela pare imediatamente, mas não consigo me conter ao analisar seu comportamento. Algo me parece muito familiar, assustadoramente familiar. Como Jellal mais cedo. Como Natsu antes disso. Como eu em crise.
Não posso simplesmente olhar.
– Levy! – Grito e giro sua cadeira com toda a força que tenho para o meu lado.
E é nesse momento que todas as luzes se apagam.
No próximo capítulo:
"– Não acha estranho seu pai ter corrido para cá logo depois do apagão? Aliás, não foi um simples apagão. Você sabe.
Me viro de lado e me encosto à porta do banheiro, enquanto Levy escova os dentes. Ela tem razão, eu sei. Parece paranóia, mas não é. Tem algo de muito errado acontecendo. E a única coisa que posso fazer no momento, é falar com Gajeel Redfox.
Só que isso, lógico, eu não disse a Levy.”
Continua...
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