O homem remexia nos papéis com ansiedade, seus olhos pareciam desesperados em busca de uma única coisa e quando a achou, seu coração parou por um instante, pois dentro daquele pergaminho estava a verdade sobre tudo, e ele precisava que alguém importante o tivesse, ele precisava consertar tudo aquilo. Mas suas ideias foram distorcidas no momento em que sentiu o tempo parar, fazia alguns dias que ele vinha sentido aquela mesma energia que baniu anos atrás, a mesma energia que ele foi obrigado a conter, porque os seus criadores sabiam o que era melhor, eles sempre souberam e aquele homem era cegamente obediente, tão cego ao ponto de banir para dentro de um livro, aquele que ele jurou proteger e cuidar.

As lágrimas caíram pelo seu rosto, enquanto ele caminhava apressado pelo corredor, a culpa lhe corroía e por anos foi capaz de lidar com aquilo, mas ali estava ele, sendo sensível e questionando um passado de obediência.

Seus pés o levaram até aquela sala, ele passou pelas prateleiras até estar em frente a única que lhe interessava no momento, aquela que dizia o quão ferrado estaria dali em diante. Ele pegou os quatro pergaminhos e foi até uma mesa próxima, estendendo sobre ela cada papel aberto, ele sabia que nada haveria ali, mas sabia o modo de descobrir de quem era o pergaminho, por isso ele passou a mão sobre o papel, no mesmo lugar onde deveria existir uma tinta e suspirou, ao ver os destinos cruéis que teriam os novos príncipes e princesas daquela dimensão.

O único ali que ainda lhe parecia certo era o da pequena Jasmine, ele não esperava por aquilo, mas também não se animou tanto, porque tudo ainda poderia dar terrivelmente errado.

Chiang fechou os pergaminhos, colocou de volta na prateleira e foi ao corredor dos quartos, ele precisava que alguém soubesse a verdade, a sua verdade, por isso ele passou o pergaminho por baixo de uma porta qualquer e saiu dali o mais rápido que podia, não sabia de quem era aquele quarto, mas rezava aos Perrault’s que alguém encontrasse antes que fosse tarde demais.

Seu caminho agora foi trilhado em direção a um lugar sagrado, bem, se fosse considerar toda aquela bagunça, não havia nada de sagrado naqueles quatro que habitavam aquela fonte. O lugar era lindo, parecia um jardim, repleto de flores exóticas e ao meio daquela sala redonda, havia uma fonte, não uma qualquer, sua água era dourada, seu material era feito de cristal e ao meio havia a imagem de Phantasus, um grego, o deus da fantasia.

Chiang parou no pedestal, fechou os olhos e invocou seus anciões, havia muitos anos que tinha feito aquilo, e se sentia estranho porque novamente os estava invocando por causa da mesma pessoa.

— Quem ousa atrapalhar o nosso descanso eterno? – pergunta a mulher de mal humor, ela tinha cabelos pretos, olhos azuis claro como os cristais e sua aparência não revelava nem um pouco a idade que realmente tinha.

— Perdoe-me minha senhora Perrault, mas temo que uma força maligna destrua o nosso reino – Chiang fala com a cabeça curvada, não teria coragem de olhá-los até que fosse mandado.

Os quatro saíram de dentro da fonte e se materializaram naquele lindo jardim, os Perrault’s como eram chamados, era formado por quatro irmãos, três mulheres e um homem. A de cabelos negros e olhos azuis era Hilla, a líder deles. A outra ao seu lado de cabelos loiros e olhos verdes, era Jumbo, a responsável pela criação de Poneros. A de cabelos ruivos e olhos também verdes, era Gamela, foi ela quem deu vida aos primeiros padrinhos e madrinhas daquele lugar e por fim, Grimm, foi ele quem criou os contos de fadas.

— Olhe para mim padrinho – Hilla ordena, fazendo o homem lhe olhar, era a segunda vez que fazia isso em sua vida e seu coração batia tão rápido quanto na primeira vez – o que há com Poneros?

— Balthazar está a solta minha senhora, temo que ele use dos últimos padrinhos e madrinhas presentes para destruir tudo que construíram – Chiang explica, sem realmente olhar nos olhos da mulher, não tinha coragem.

— Achei que ele estava aprisionado na floresta dos condenados – Grimm fala incrédulo – aquele lugar tem proteção máxima, como ele conseguiu?

— Bem... – Chiang tinha conhecimento da aventura que os recém padrinhos havia feito, mas até aquele momento, não tinha noção que Balthazar havia arranjado força suficiente para segui-los – temo que algum dos novos padrinhos tenha uma magia descomunal, ao ponto de liberta-lo.

— E porque exatamente esses padrinhos visitaram a floresta? – Gamela pergunta sugestiva, não era preciso ser um gênio para saber que aquela mulher lia mente, ela sabia de tudo, sempre saberia.

— Minha senhora, eles são jovens, fazem coisas imprudentes – Chiang abaixa a cabeça, quase submisso.

— Como você foi ao dizer a Balthazar o nosso segredo? – Jumbo diz sarcástica – por favor Chiang, pare com essa hipocrisia, o que você quer realmente?

— Quero saber como trataremos esse assunto minha senhora.

— Deixe que aconteça – Hilla diz entediada – se Balthazar está se libertando, e os padrinhos sendo corrompidos, não há o que fazer.

Chiang apenas assente, sabia que no fim, os Perrault’s apenas deixariam as coisas seguirem seu destino.

— Eles renunciarão e o destino será cumprido, não podemos intervir – Grimm fala.

— Não acha que isso é cruel demais?

— Não foi cruel quando você renunciou, foi? – Gamela sorri sádica e Chiang engole em seco.

Chiang havia renunciado sua bondade, renunciado ao seu feliz para sempre, para aprisionar Balthazar, mas ele tentou consertar as coisas, se sentia no dever de fazê-lo, mas aqueles novos padrinhos? Eles não tinham isso, eles não ligavam se seriam vilões dali em diante, eles dominariam o mundo, ou fariam qualquer coisa para evitar que Balthazar continuasse a solta.

— Deixarei que o curso se siga – Chiang se curva perante eles e dá as costas para deixar a pequena sala, mas para ao ouvir a voz de Jumbo, que era direcionada a si.

— E nem pense em deixar aquela carta nos culpando Chiang, não temos controle do destino, apenas o escrevemos – a loira fala e Chiang apenas assente, deixando o lugar.

Ele odiava os Perrault’s por brincarem de deuses, odiava o fato deles terem modificado tantos destinos antes e odiava ainda mais saber que sempre usavam a mesma desculpa, que o destino quis daquele jeito, mas não, o destino não queria daquela forma, pois se quisesse, Jumbo não veria o futuro, Gamela não leria mentes, Hilla não poderia voltar no passado e Grimm não poderia se teletransportar, aquele destino era cruel demais, era sádico demais para deixar sobre aqueles quatro seres, a missão de escrever um capítulo.