Just A Villain
9 Para sempre condenados

Depois que Belladona contou sobre o conto de Aurora, excluindo a parte em que ela achou o pergaminho de Balthazar, ela foi embora e Kane ficou a sós com Pandora, eles se mantiveram em silêncio, apenas observando a noite fria do lado de fora, havia virado costume eles se manterem juntos, ou até dormirem no mesmo quarto, aquela situação toda deixava todos com os nervos à flor da pele.
Uma nuvem bonita surgiu no quarto, era pequena, linda, com um azul tão vivo que por um segundo eles esqueceram do que aquilo poderia significar, a atenção estava toda voltada para aquele objeto, em que mantinha a imagem de uma linda garota deitada, dentro de um caixão de vidro, era comum eles verem os contos que estavam sendo abertos no momento, através daquele objeto, não que tenha sido invocado por eles, mas ainda assim lhes foi oferecido e com aquilo, não era muito difícil saber qual o próximo padrinho que ficaria tão confuso quanto eles se sentiam dias atrás, e bem, a cada novo dia, Balthazar ficava mais forte, sugando a magia dos pergaminhos, trazendo à tona o pior de cada um, isso o estava fortalecendo e eles não tinham dúvida que uma hora ou outra, tudo iria pelos ares.
— Acha que a Ravenna está confusa? – Kane pergunta em dúvida e vê Pandora negar.
— Ela queria – Pandora indica a imagem da garota no caixão de vidro – Ravenna a desenhou em um esquife igual a esse, somos a geração do caos, seremos a escória eternamente, porque fomos escolhidos a dedo.
— Você tem passado tempo demais acordada – Kane se levanta e suspira – vou buscar um chá, já volto, não saia daí.
Pandora semicerra os olhos para ele e ele ri com escárnio, logo sumindo das vistas dela.
A noite se passou tranquila, um pouco desconfiante demais para aqueles dois, que aproveitaram o chá que Kane trouxe e logo eles adormeceram. Mas isso não quer dizer que a calma se manteria a partir daquele ponto, ambos suavam sobre a cama, enquanto murmuravam coisas desconexas, enquanto tinham suas mentes nubladas por um sonho doloroso.
“Balthazar estava furioso, enquanto gritava para os quatro ventos que aquilo não deveria ser feito, ele não casaria com outra mulher, ele não deveria casar com ela, e sim com a sua amada, as coisas ao seu redor começaram a se desfazer, muitos objetos que ele tinha criado e outros que já pertenciam a aquele lugar estavam se desfazendo, porque a magia dele estava reversa, porque ele estava tão furioso com seu padrinho, que nem fazia ideia de como aquela pessoa pudera lhe enganar por tantos anos, 7 para ser exato.
— Eu confiei em você, confiei quando me disse que aquela garota era o meu futuro – Balthazar disse, enquanto passava as mãos pelos cabelos, os jogando para trás em um claro sinal de descrédito – o que aconteceu?
— O pergaminho foi mudado Balthazar, eu... eu não tive coragem de quebrar seu coração naquele momento, você era apenas um adolescente – Chiang fala, sentindo em si, o peso daqueles que deveriam levar toda a culpa.
— E nunca pensou que me encorajar fosse quebrar meu coração de qualquer forma? – ele pergunta incrédulo – ela...
Ele não conseguia falar, não conseguia nem lembrar do desespero que lhe abateu quando tentou até beija-la, e nada funcionou, nenhum mago, ou feiticeiro daquela dimensão podia ajudá-lo.
— Me perdoe, nunca foi minha intenção – Chiang fala de cabeça baixa.
— Não era sua intenção? – Balthazar ri desacreditado – ela está em sono profundo Chiang, eu terei que casar com outra mulher, terei que ter um futuro que eu não queria porque a mulher que eu amo está presa em uma cama de pedra, enquanto dorme, por causa da droga de uma roca, foi isso que vocês fizeram – a cada palavra que saia de seus lábios, mais coisas se derretiam por ali, ele poderia causar um caos – eu odeio os seus malditos contos de fadas.
E então Balthazar saiu dali, sem direção alguma, enquanto a sua magia se descontrolava, enquanto tudo parecia ruir ao seu redor, e ele não podia ao menos controlar, pois a dor que sentia era maior do que tudo, ele estava desolado e nada o ajudaria. Foi naquele dia, diante do livro de Douros, onde Balthazar pretendia também o destruir, que ele foi aprisionado por Chiang, foi ali que ele foi condenado a viver dentro daquele livro, e naquele mesmo dia não só Balthazar foi condenado, deixando de ser o mocinho para ser o vilão, mas Chiang também fora condenado, condenado a renunciar a sua bondade, condenado a viver sem um feliz para sempre e mesmo que tentasse se redimir, ele nunca seria um padrinho novamente”.
Os dois acordaram em um sobressalto, enquanto ofegavam, aquele sonho havia sido intenso demais, real demais, agora eles sabiam porque Balthazar ainda queria vingança, porque Chiang ainda estava ali, porque os Perrault’s continuavam fazendo contos de fadas emergirem no livro novo, porque aqueles 14 últimos padrinhos, seria o seu legado, seria os vilões mais temidos da história.
Era difícil de entender que aquilo estava acontecendo, mas precisavam aceitar de uma vez, porque quanto antes fizessem aquilo, mais rápido poderiam criar algum plano que impedisse Balthazar, mas porque era tão difícil de pensar sobre isso, porque era tão difícil de compreender que algo poderia mudar? Bem, a verdade, é porque não podiam.
— Branca de neve, ela... Aurora... – Kane constata meio perdido, aquelas duas haviam sido vítimas do feitiço do sono, assim como a amada de Balthazar – o que faremos?
— Não percebe? – ela ri sem humor – mesmo que tentemos fazer algo, não adiantará de nada, porque somos tão condenados quanto aqueles que erraram no passado.
— Não podemos Pamy, não... não deveríamos pagar pelo pecado deles – Kane diz transtornado.
— Mas seremos Kane, porque eles não se importam de nos dar um destino cruel – Pandora suspira – Malévola, Cruella, Gargamel, Red Queen... já temos alterego, nós somos condenados desde que nascemos.
E ali eles compreenderam, aquele era o seu destino, aquilo aconteceria de uma maneira ou de outra, e sempre seriam com eles, porque o destino já estava traçado. No meio da ilha dos perdidos, uma tocha se acendeu, mostrando sobre a água cristalina da fonte, a face dos futuros vilões.
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