Just A Villain

15 Obediência cega


A garota corria constantemente de um lado para o outro dentro daquela floresta, se esquivando de pedra e de troncos de árvores, mas de nada adiantava, ela não podia ver a luz, não podia ao menos sentir a magia que habitava seu corpo, porque já não lhe pertencia naquele momento. Nem ela pertencia mais a realidade que conhecia, e só passaria a senti-la, caso Balthazar a permitisse.

— Socorro – gritara em desespero, mas novamente ninguém a ouviu, bem, não iriam mesmo ouvi-la, pois nenhum deles estava ali para lhe buscar.

— Não adianta correr ou gritar, espernear e seja mais lá o que você deseje, esse é o seu lar temporário, aceite como uma amostra para o futuro, porque serão mandados para um pesadelo pior do que ser aprisionado em um livro, ficarão presos em uma ilha.

— Ah, fala sério – Harriet revira os olhos e cruza os braços, procurando pelo homem ali ao redor.

Mas Balthazar não tinha um formato corpóreo, ele era consciência e espírito apenas. Por isso, ela ouvia só a sua voz e para ele era o suficiente, assim, ela não conseguiria vê-lo se aproximar.

— O que você quer? – Harriet pergunta impaciente.

— Apenas um dia, é tudo que eu desejo – ele diz, mas a tomaria de qualquer jeito, ela permitindo ou não, ele tinha total controle sobre aquele plano e com os novos poderes? Poderia fazer milagres.

— No meu corpo?

— Não, na sua casa, claro que é no seu corpo garota, afinal, pra que mais você me serviria?

— Sei lá, quem sabe você quisesse companhia, porque morar nesse livro é um saco, nossa, que lugarzinho sem graça hein.

Balthazar suspirou impaciente, aquela garota era um pé no saco, gostava muito mais da versão má dela, ela era divertida. Aliás, poderia explora-la um pouco antes de manda-la de volta.

— Tudo bem, mas por favor, devolva-o inteiro para mim – ela descruza os braços e se senta no chão, desistindo de correr – e depois que você retornar com meu corpo, eu quero ser livre.

— Será minha criança, você será – Balthazar sorri maléfico. É, ela seria livre, mas não por muito tempo, já que o destino já estava mais do que escrito, estava realizado.

Então com a autorização que tinha, mesmo sem precisar, Balthazar tomou o corpo de Harriet e a levou de volta para a floresta dos condenados, ele tinha total controle e se sentia extremamente bem em sentir novamente a forma corpórea, fazia tanto tempo, que mal conseguia acreditar.

Mas não havia tempo para isso, tinha contas a acertar, e a primeira começaria por ali perto, onde um velho cuidava do quintal grande e das flores que começaram a murchar na medida em que Balthazar no corpo de Harriet foi se aproximando.

— Ora, ora o que temos aqui – Balthazar diz sorrindo e o homem estreita os olhos para ver melhor, ele tinha a vista ruim e já estava velho demais para lidar com adolescentes, por isso morava longe da escola e perto da floresta.

— Desculpe minha jovem, quem é você? – o homem de meia idade pergunta, bem, ele tinha a capacidade de ouvir muito bem ainda – está perdida?

— Claro que você não se lembra de mim, afinal, o meu corpo original foi, queimado? – Balthazar coloca a mão no queixo e o coça, sendo totalmente irônico e debochado, apesar daquele fato o irritar profundamente – é, foi isso que aconteceu, com a maldita desculpa de que não matavam ninguém, mas arrancaram minha consciência e presença, trancafiando naquele maldito livro.

— Balthazar – o velho disse com os olhos tão arregalados que mal podia fechá-los – Oh não, não me diga que Chiang….

— Aquele patético não fez nada, aliás, ele não fez nada uma vida inteira, mas eu – ele se aproxima do homem que agora tinha largado a pá de jardinagem e caminhava para trás – eu me tornei mais forte, eu fiz a minha lenda.

— Balthazar, essa vingança é ridícula – o homem diz, mas havia medo em sua voz e suas mãos tremiam – como conseguiu esse corpo? Cadê a garota?

Balthazar ri debochado, se sentia feliz por estar confrontando o mentor do seu antigo padrinho, o mesmo que convenceu Chiang a tranca-lo no livro.

— Detalhes não lhe interessam Horam – Balthazar agora tinha o corpo de Harriet colado ao homem – eu vim atrás da minha vingança – ele segurou o pescoço do homem e o fez olhar no fundo dos olhos – e eu serei aquele que a terá.

Então ele sugou toda energia do corpo velho de Horam e tomou para si, deixando o corpo desfalecido cair ao chão, o homem estava morto e ninguém o poderia trazer de volta, até porque Balthazar não estava satisfeito com a antiga geração e por isso não fazia questão alguma de devolver a energia vital dele ou os contos de fadas belos.

Ele sorriu, vendo todo o campo antes verde ficar desgastado, marrom, como se um inverso rigoroso acabasse de dar fim a aquela época e só restasse folhas secas e destruídas.

Seu suspiro foi longo, enquanto admirava a paisagem que criara, sabia que seus poderes eram incríveis quando podia criar coisas, mas desde que havia sido trancafiado, sua magia nunca mais fora a mesma e a última coisa que se lembrava relacionado a aquilo, havia sido voltado para a destruição, agora ele não ligava mais, partiria agora para a próxima pessoa, aquela que lhe ludibriou por anos, o mesmo que obedecia cegamente, o mesmo que não pensava nas consequências de atender aos Perrault, mas que agora ele descobriria o peso daquilo, e da pior forma, saberia como é cega a obediência.

A garota caminhou pelo mesmo corredor que estava acostumada a tempos, mas daquela vez sentiu algo se abater sobre ela, a fazendo se escorar na parede e fechar os olhos com força, enquanto sua mente projetava imagens que não lhe fazia sentido algum, mas que logo lhe trouxe compreensão ao ver o rosto da garota sorrindo, enquanto caminhava com nada mais que ódio bruto brilhando nas íris.

Estava acontecendo, e logo chegaria o momento em que teria que se despedir da sua parte boa, a parte que cuidara tão bem para ser melhor a cada dia, bem, nada daquilo resultaria, afinal, no fim ela sempre foi má, e não importava os seus desejos, o destino sempre faria o que bem quisesse e entendesse.