Just A Villain
4 O livro de Douros

A garota andou lentamente pelos corredores, enquanto mantinha sua atenção no livro sobre suas mãos, não fazia de ideia de para onde estava andando, apenas andava, depois da conversa que tivera com Connor, sua mente estava constantemente em volta daquilo que havia ouvido em seus sonhos, dos sussurros e das peças que havia juntado para chegar até algumas conclusões prontas.
Dentro da sala dourada, na parede marcada haverá a verdade que tanto procura, fora sussurrado, fazendo a garota tirar sua atenção das palavras do livro para o espaço ao seu redor, estranhando ainda o fato de estar ouvindo vozes, o que aquele ser do além queria com ela? Não havia nada que pudesse ser feito, por que ela tinha que permanecer ali? Precisava descobrir de uma vez por toda que verdade era essa para que pudesse deixar de ser assombrada.
Mesmo relutante, Pandora caminha em direção a sala dourada, que não era proibida para nenhum deles, afinal, era uma biblioteca onde tinha muitos livros sobre padrinhos, madrinhas e sobre tudo que poderia envolver os contos de fadas. O objeto mais valioso daquele lugar era chamado de livro de Douros, sendo ele o real motivo da sala ser chamada por aquele nome, mas estranhamente o livro não era dourado, ele tinha sua capa prateada com folhas coloridas de acordo com o conto e o personagem, era realmente mágico e bonito.
A garota andou entre as prateleiras, nem fazendo questão de tocar no objeto bonito que reluzia uma luz lilás, não era naquilo que tinha interesse no momento, por isso ela apenas fez o que a voz lhe disse para fazer. Constatando que atrás daquela parede marcada com um pássaro, havia uma pequena sala onde escondia tantos pergaminhos quanto os que existiam fora dali, parecia algum tipo de segredo revelado.
Ela puxou daquelas prateleiras empoeiradas apenas um pergaminho e o abriu, dando de cara com um papel neutro e de letras douradas. Seu cenho se franziu ao ler o papel, havia algo de errado naquilo.
— “Há muito tempo, exatos 450 d.C. quando o exército dos hunos invadiu a China Imperial, o Imperador ordenou que um homem de cada família fosse convocado para servir ao exército e ajudar na expulsão dos invasores. Movida pelo desejo de ajudar e proteger sua família, a bela princesa prometida ao futuro rei jovem garota de nome Mulan, decidiu assumir à realeza renunciar as suas vontades, Mulan decidiu casar-se mais rápido, ir à guerra no lugar de seu pai, que estava idoso e doente...”
Ela não precisava ler mais para ter certeza do que imaginara, algo estava errado naquele papel e definitivamente aquilo não era um rascunho, pois estava exatamente como acontecera o conto original. Então ali ela teve a certeza de que sim, aquele pergaminho havia sido alterado e provavelmente o livro também. Então a fim de provar a sua teoria, ela saiu da pequena sala e refez seu caminho até o pequeno suporte de vidro que abrigava o livro de Douros. Ela folheou as páginas até o início, Mulan havia sido um dos primeiros contos, e o livro possuía todos os contos de fadas, sem exceções. Ela pausou a página em cima do conto em que mostrava a linda garota de vestes vermelhas, aquela era Mulan, mas não era a beleza da garota que lhe chamava a atenção, e sim o fato do livro não ter nenhum risco, como poderia um pergaminho vir antes do livro e como poderia ser tão diferentes? Aquilo deu mil voltas em sua mente, se a energia do livro criava os pergaminhos, por que aquele era diferente?
Ela guardou o mesmo entre as vestes e depois de conferir que não deixou nada fora do lugar, saiu dali em direção ao seu quarto, com sua cabeça ainda pesada, mil e uma coisa a rondando naquele momento, pois não fazia sentido algum aquele fato, seria possível que a verdade que conhecia fosse outra? Ou ela só estava começando a ficar paranoica após ser rejeitada pelo destino? Não sabia, não tinha como saber, mas algo em si crescia e talvez fosse aquela súbita desconfiança que passara a ter dos Perrault’s.
Pandora estava mais do que confusa e dava pra compreender, afinal, ela não tinha pai ou mãe e os Perrault’s era como a única figura de autoridade que tivera, além dos seus tutores, então era realmente compreensível que a garota se sentisse temerosa a ponto de quebrar toda e qualquer confiança naqueles que a guiou por tantos anos.
Eles mentiram para você, nunca houve um conto de fadas, são todos contos de terror que acabam com um felizes para sempre para tapear os malditos da realeza, falara a voz, trazendo-a a consciência, Pandora estava em seu quarto, mas não se lembrava de como chegara ali.
— O que quer de mim? – Pandora pergunta visivelmente perturbada, a àquela altura, ela nem se importava mais de parecer louca, só queria que aquilo acabasse.
Quero que descubra a verdade e decida se ainda vale a pena lutar por aqueles que destruiu vidas, respondera a voz.
Ela sabia do que ele estava falando, acabara de ler o conto de Mulan, alterado, mas ainda o conto dela, e este que causou a morte de muitas pessoas, mas agora que ela sabia a verdade, o que poderia fazer com ela? Confrontar os Perrault’s ou deserdar, não havia muitas opções afinal.
— Quem é você? – ela pergunta incerta, até aquele momento ela não sabia a quem pertencia a voz e mesmo que sentisse a aura negra pairando sobre si, ela não estava tão assustada assim com aquilo.
Sou aquele que deveria ter sido um herói, aquele que foi punido para que os Perrault’s pudessem manter o seu segredo.
— Você é um padrinho ou um príncipe?
Hoje eu não sou mais nada além de uma sombra, de uma página daquele maldito livro, mas já fui um herói, já fui um mocinho e hoje sou um vilão.
Aquilo estava começando a fazer menos sentido ainda, como poderia convencer Connor se nem ela própria conseguia ser convencida.
O meu conto não existe mais porque fui banido, mas procure entre os pergaminhos proibidos, achará o meu nome.
— Eu ainda não sei o seu nome.
Balthazar.
E os dias se passaram lentamente, enquanto Pandora definhava e seus amigos mal pareciam se importar com aquilo, afinal, eles estavam ocupados demais para prestar atenção. Longe dali, no reino de Auradon, o garoto encarava o pergaminho azul com o cenho franzido e o olhar perdido. Nada ao seu redor chamava mais atenção, nem as batidas insistentes na porta, esta que foi aberta com um pouco de receio.
— Kane – fora chamado, mas ele não podia dar atenção a garota que lhe chamava, seus pensamentos estavam em outro lugar, então ela caminhou até ele e pôs a mão sobre seu ombro, o tirando de seu devaneio com um susto.
— June – ele pôs a mão no peito, em puro desespero – por Perrault, poderia ser mais cuidadosa – ele trata de enrolar o pergaminho com rapidez, não precisava ser questionado por aquilo, nem ao menos queria.
— Desculpe-me, eu te chamei, mas você não me ouviu – ela recua um tanto tímida.
Ele suspira e passa a mão sobre o rosto, estava frustrado e confuso, ela não tinha culpa alguma daquela rara ocasião que havia sido apresentada a ele.
— Está tudo bem? Você me parece transtornado – ela fala se reaproximando e sentando ao seu lado.
— Estou bem – ele sorri gengival e ela se tranquiliza, mas aquilo estava longe de ser um sorriso verdadeiro, afinal, ele não estava feliz com o que havia sido proposto – do que precisa?
— Vim saber o que veio fazer em Auradon, sabe... deveres de fada madrinha, só os padrinhos com afilhados deveriam estar aqui, não me lembro de... ter recebido seu nome – ela fala e ele nega com um sorriso tranquilo.
— Só vim para passear, mas estou retornando a Poneros, tenho coisas a fazer lá.
Ela assente e encara o pergaminho fechado nas mãos dele.
— Um pergaminho colorido – seu cenho se franze, trazendo dúvidas para a garota.
— Ah, isso? É uma carta da Ravenna, ela adora a cor dos pergaminhos coloridos e fica sempre os usando como uma louca – ele inventa fazendo a garota sorrir em confirmação, seria fácil engana-la, June sempre foi muito ingênua, e bem, não era preciso muito para que ela lembrasse da personalidade de Ravenna, que era bem aluada algumas vezes.
— Mande lembranças a ela quando a vir – a garota se levanta com um sorriso – venha mais vezes me visitar, sinto falta de vocês.
— Virei e trarei a Pandora na próxima – ele levanta e abaixa as sobrancelhas com um sorriso sugestivo, e a garota revira os olhos, não era novidade para ninguém que June, a atual fada madrinha, e Pandora, fossem completamente incompatíveis, elas duas viviam brigando na época em que estudavam juntas.
Com um breve acenar June deixa os aposentos do moreno, deixando-o livre para soltar o ar preso em seus pulmões, estes que pareciam pesar uma tonelada de tão difícil que estava aquela atípica situação. Ele torna a abrir o pergaminho só para ter certeza do que havia ali e ao confirmar ele apenas o fecha. Se seu conto estava sendo afetado, o tempo e a memória das pessoas também estava, afinal ele fora escolhido para cuidar da Smurfette, mas por alguma alteração no livro, o tempo também se alterou, ou seja, para o povo de Auradon ou de Poneros, Kane não tinha um afilhado, pois o conto não fora escrito.
Naquele mesmo dia, Kane voltou a Poneros, encontrando primeiramente com Pandora que se distraia nos jardins do castelo, enquanto lia um livro, ele caminhou diretamente a ela, jogando o pergaminho sobre seu colo, não recebendo outra reação a não ser um levantar de olhos do livro para seu rosto.
— Você e seus maus modos – ela revira os olhos entediada, pegando o pergaminho e estendendo para ele, que nem fez questão de toma-lo de volta.
— Foi você, admita – rosnou o moreno, fazendo a garota respirar fundo e reunir toda a paciência que não tinha para aturar Kane, o garoto sempre tivera um gênio forte e sempre a tirava do sério quando estava em sua presença.
— Do que você está me acusando agora Kane? Seja mais claro, por favor.
— Você com a sua maldita inveja daqueles que tinha contos de fadas decidiu brincar de Perrault e mudar o meu pergaminho.
Ela franze o cenho para ele, sem entender realmente do que ele estava falando, afinal, ela não tinha nem motivo e nem o porquê mexer com um objeto mágico e sagrado.
— Kane...
— Abre – ele indica o pergaminho, levando a atenção dela do seu rosto, para o pergaminho que agora adquiria um tom esbranquiçado e envelhecido, deixando o garoto surpreso com aquilo, mas firme na decisão de deixa-la ver o que realmente estava acontecendo ali.
Ela desenrola o pergaminho com cuidado e nota o mesmo que ele quando abriu o pergaminho em Auradon. As palavras “Gargamel criou a Smurfette, sem você não há conto”, brilhavam em dourado, deixando o cenho de Pandora completamente franzido, aquilo não deveria ser uma brincadeira, não podia.
— Kane, não fui eu... eu jamais, jamais mexeria com algo assim – ela fala meio perdida, meio incrédula, na dúvida entre reler e pensar na solução.
— Bem, se você não fez, alguém fez – ele toma o pergaminho da mão dela e dobra – vou leva-lo ao senhor Chi.
— NÃO – fora gritado exasperadamente pela garota que agora tinha os olhos arregalados – eu sei que vai parecer loucura, mas não podemos confiar nele.
Kane semicerra os olhos para ela em dúvida.
— É, você tem razão – ele pronuncia lentamente – é loucura – então lhe dá as costas e segue para dentro do castelo, deixando a garota sentada sozinha, perdida em pensamentos.
Kane era o primeiro a retornar com o conto não escrito, mas o pergaminho realizado, e se ele tivesse sido alterado, porque fora lhe referido como Gargamel, quem era ele?
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