Just A Villain

1 Floresta dos condenados


Poneros, do grego derivado de Ponos, refere-se a algo mal, de malícia, maldoso. Mas o reino de Poneros, assim como fora nomeado pelos seus criadores, os chamados Perrault’s, não possuía maldade alguma no coração de seus habitantes, não aqueles que viviam em harmonia e amorosidade. Aquele pequeno reino, localizado ao leste de Auradon, sobre o penhasco de Magician, não possuía maldade, pelo menos não aquela que podia ser vista, pois toda ela estava aprisionada em algum lugar ali.

Apesar do seu nome, aquele lugar era considerado o lugar mais belo e mais reconhecido de toda dimensão mágica, nem a própria Auradon possuía tanta beleza. Ali, viviam todos aqueles que eram dotados de magia, de poderes especiais, próprios para ajudarem aos destinados dos felizes para sempre. Em Poneros todos aqueles seres de diferentes raças e magias, aprendiam tudo que podiam para serem bons padrinhos e madrinhas. Era esse o destino daqueles que nasceram ali, fossem Mors, Magos, Feiticeiros, Cecaelias ou qualquer outra coisa, eles só aprendiam os seus princípios e deveres, e partiam para Auradon, em busca de cumprir o que quer que seu destino mandasse, ajudar o seu afilhado a conseguir seu eterno final feliz e viver em paz depois de sua missão cumprida. Bem, acho que só a fada madrinha conseguiu tal feito, pois fora a única a sair daquele lugar, antes que tudo, absolutamente tudo mudasse, e Poneros passasse a fazer jus ao seu nome, graças a um único nome, uma única pessoa, que faria com que os últimos quatorze formandos se tornassem os nomes mais conhecidos na história, graças as suas maldades. Afinal, todos cometemos erros, e alguns, podem custar os seus felizes para sempre.

— Pandora – a morena ria, enquanto se esgueirava pelas árvores e gritava pela sua melhor amiga, que caminhava logo à frente e não parecia tão diferente dela, ao se esquivar das arvores seguindo a trilha a sua frente – pare de correr, vai acabar tropeçando e perdendo um dente.

— Deixe-a Bella, com certeza ela será a madrinha mais feia de toda Auradon – o moreno ria, indo logo atrás de Belladona.

Belladona tinha cabelos longos e pretos como a noite, seus belos chifres polidos e pretos fazendo par a suas asas enormes que se arrastavam ao chão por onde passava e as suas presas afiadas aos dentes, indicavam que ela pertencia aos mors, uma espécie de fadas protetoras da natureza. Mas Bella era realmente belíssima, tinha olhos castanhos medianos, ora escuros como seus cabelos, ora da cor dos troncos das árvores. A garota tinha um corpo magro, que poderia ser comparado ao de uma daquelas modelos de Auradon. Ela era tão linda quanto qualquer uma da linhagem real.

Assim como Bella, as outras duas garotas ali também eram lindíssimas. Dandara logo atrás, possuía lindos cabelos loiros na altura dos ombros, olhos verdes oliva, e alguns tentáculos por ser uma cecaelia. Cecaelias são seres marinhos que possuem uma parte do corpo humano e a outra metade de um polvo, esses seres também costumavam ser chamados de “polvo sereias”. Apesar dessa característica, Dandara era tão linda quanto Bella e possuía poderes mágicos de bruxa.

A outra garota ali com seus cabelos castanhos longos, olhos verdes, as vezes beirando o azul e um lindo rosto angelical também, sendo uma bruxa, possuindo totais característica humanas, era sempre a mais travessa, a que arrastava seus amigos em aventuras, ou encrencas, diga-se de passagem.

Ali com elas, tinha dois garotos, outro feiticeiro como Pandora possuinte das mesmas características humanas que ela, com seus olhos azuis cristalinos, cabelos castanhos que estavam sempre bagunçados e dono de um sorriso estonteante, fazia sempre questão de acompanhar a garota para onde ela fosse, eram inseparáveis.

O outro ali presente talvez fosse o mais certo entre os cinco, pois constantemente tentava colocar juízo em seus amigos. Connor tinha a pele mais escura que os outros presentes e tinha olhos castanhos escuros, podendo ser facilmente confundido com um príncipe, afinal, todos eles eram a altura da realeza. Ele era um feiticeiro, tão bom quanto seus amigos bruxos.

— Asafe, controle a sua namorada – Dandara fala, fazendo o rosto do belo feiticeiro avermelhar pela menção a um romance que não existia, mesmo que todos ali soubessem que ele nutria um sentimento especial pela garota. Esta que ignorava todos os comentários, pois não tinha nem foco e nem vontade de se envolver em um romance com seu melhor amigo.

— Seremos condenados se nossos mentores souberem – Belladona sobrepõe em alerta, mesmo que não estivesse se importando tanto, pois continuava caminhando atrás de Pandora que insistia em chegar ao final da trilha antes de anoitecer, não que fizesse muita diferença, já que o lugar estava escuro como sempre fora.

— Seremos condenados de qualquer jeito – Connor dá de ombros – estamos na floresta dos condenados – a menção ao nome fez todos ali rir como se fosse realmente um trocadilho.

A floresta nada mais era que um lugar proibido a todo e qualquer ser da dimensão mágica, mas após um desafio proposto por seus outros amigos que os esperavam no início da trilha, onde dava acesso a parte proibida da floresta, eles estavam ali, caminhando para o final daquela tortuosa subida, mata adentro.

— Vocês são molengas demais – Pandora grita ofegante, para que seus amigos a ouvisse, já que a garota estava muito mais à frente.

— Espero que a Ravenna fique satisfeita em ter que consertar meu vestido, estou desgostosa com esse desafio – Dandara resmunga, enquanto junta a barra do seu vestido acima dos joelhos. Apesar de originalmente ela estar o tempo inteiro em sua forma Cecaelia, dentro da água, ali fora ela podia usufruir de pernas humanas.

— Asafe, venha – Pandora grita para o garoto que estava caminhando por último, o mesmo ainda se sentia temeroso em estar ali, primeiro porque não deviam e segundo pois sofreriam represálias caso qualquer mentor ou o ancião descobrisse.

Mas a caminhada não parou, eles continuaram subindo e adentrando a floresta terminantemente proibida, continuaram indo pela trilha que nem se quer sabiam onde daria, mas aquilo não poderia dar tão errado assim, certo? Eles só precisavam continuar até o fim, achar um objeto único e retornar, sem problema nenhum. Bem, não foi bem assim que aconteceu, pois eles não tinham noção do que poderia encontrar por ali, a floresta não tinha aquele nome por nada, ela era realmente um lugar perigoso. A floresta dos condenados, era um lugar escuro, onde nem mesmo a mais bonita das magias conseguia ilumina-la, fazendo qualquer um que entrasse ali se sentir as cegas. O lugar tinha esse nome por prender todo e qualquer mal que um dia já existira no reino de Poneros, e mesmo que houvesse regras sobre ninguém poder entrar ali, isso não significava que ninguém poderia entrar, afinal, a presença dos cinco ali deixavam isso mais do que claro. E não havia nenhum tipo de proteção ou barreira que os impedisse.

A caminhada deles chegou ao fim quando estavam finalmente dentro da clareira, e foi ali que eles puderam ver nada mais que uma pequena caixa de vidro em frente a enorme parede de pedra, estranhamente no tom de azul ciano, e ela tinha uma brilho que reluzia como ouro. Dentro da caixa de vidro, havia um livro aberto, suas páginas eram azuis como a parede, e a capa do livro aparentemente eram douradas, mas algo nele chamava a atenção dos presentes ali, e talvez fosse o fato das páginas estarem vazias, como se ele nunca tivesse sido tocado ou escrito. Aquilo era o suficiente para tomar a curiosidade deles, o suficiente para eles desejarem abrir a caixa, não que a magia que habitava naquele lugar não influenciasse toda e qualquer decisão que tomassem diante do mistério sobre seus olhos. Em suas mentes pairava um único pensamento, o que um livro vazio poderia estar fazendo no meio de uma floresta feita para prender o mal?

Os cinco se entreolharam confusos, nunca havia ouvido falar sobre aquilo, nem daquela clareira e nem daquele peculiar livro.

— Acho que não devemos tocar nisso – Connor fala ciente de que sim, era o certo, mas a curiosidade para descobrir o que era aquilo parecia ser maior, parecia haver um estranho desejo em si de descobrir o que poderia significar aquele pequeno mistério diante dos seus olhos.

— Deveríamos dar só uma olhada, não faria mal a ninguém, quem poderia saber? – Dandara sorri para ele, estranhamente ela tinha um sorriso inocente, como uma criança que via doce.

— Sou só eu, ou algo parece terrivelmente errado? – Bella pergunta realmente começando a se incomodar com aquele desafio idiota.

— Você decide – Asafe fala encarando Pandora que franze o cenho para ele, ela não tinha poder nenhum de decisão e se aquele livro estava ali, era por um motivo, ela não seria tão estupida de mexer no que não era da sua conta.

— Vamos embora – Pandora decide, começando a retornar o caminho que haviam feito, mas a voz de Connor lhe chamando a fez parar.

— Disseram que precisamos levar algo único daqui, precisamos levar o livro – fala, certo de que aquilo era o que deviam fazer, mas o que o garoto que sempre tentava manter o juízo na cabeça de seus amigos estava fazendo agora?

— Con – Asafe chama pelo amigo, que o encara com um brilho estranho nos olhos – vamos embora cara.

— Vamos levá-lo, talvez tenha sido perdido, ele nem tem palavras escritas – Connor insiste.

Os outros quatro trocam olhares confusos, por que aquela insistência por algo que nem era da conta deles? Porque de repente Connor ficara tão interessado naquilo?

— Vamos embora – Pandora fala semicerrando os olhos, mostrando que sim, ela estava falando sério, era talvez a única ali sem vontade de tocar naquele objeto.

— Você não manda em mim – Connor rosna para ela – talvez mande no Asafe porque é um otário apaixonado pela princesinha que não o valoriza, mas não comigo Pandora.

A garota faz uma careta revestida em desgosto, do que Connor estava falando afinal? Pandora nunca havia mandado ou obrigado Asafe a fazer nada que fosse contra a vontade dele, ou mesmo que fosse ideia dela, até porque a castanha odiava dar ordens, gostava do livre arbítrio e o exercia para com todos.

— Esse livro não é seu, e de nenhum de nós – ela fala racionalmente – se ele está aqui, deve ter um motivo, isso aqui não se chama floresta dos condenados porque são repleta de contos de fadas Connor, foi para cá que todos os segredos dos Perrault’s foram mandados, onde apenas um vilão existiu.

— Ela está certa Con – Dandara fala tocando o ombro dele que se desvencilha na mesma hora, não queria ser tocado ou convencido do contrário, queria aquele livro, queria vencer sua curiosidade e desejo de livrar-se das dúvidas que assolava sua cabeça.

O silêncio pairou ali, eles não podiam usar magia uns contra os outros, mas fariam caso Connor não vencesse aquela estranha vontade.

— Não me faça enfeitiça-lo – Bella resmunga impaciente.

— Vá em frente Belladona, mostre do que você é capaz – Connor a desafia, fazendo o sangue da garota ferver, odiava quando duvidavam da sua capacidade ou quando davam de frente com a sua personalidade, que era sempre calma, mas firme quando necessária.

— É o último aviso – Belladona fala com seus olhos brilhando em tons verdes, fazendo seu cajado surgir em sua frente – esse livro fica onde está.

Connor engole em seco, nunca havia precisado dar de cara com seus amigos, e talvez aquele não fosse um bom momento, com uma última olhada em direção ao livro que agora brilhava, ele dá as costas e começa seu caminho de volta a trilha.

Os quatro se entreolham em dúvida e por fim voltam a caminhar, mas não antes de ouvir uma risada ecoando dali, daquele livro, que se divertia em ver o caos se manifestando por ali, sendo levado em direção a cidade grudado nos recém visitantes, e não demoraria nada, para que todos pudessem pagar por ter feito o maior herói da história virar o vilão mais temido.

*Obs: Perrault’s é em homenagem ao primeiro escritor do gênero de contos de fadas, Charles Perrault.