Juntos pelo acaso

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Notas iniciais
Heeeey! Mais uma sexta, mais um capítulo, mais um pouquinho de Guto pra vocês! Espero que gostem :*

Segunda-feira. A primeira vez que eu veria Laura depois que terminamos oficialmente na sexta-feira durante a tarde. O final de semana havia afastado os meus pensamentos daquele momento, mas na hora em que eu me encontrei em frente ao portão da escola pareceu insuportável ter que enfrentá-la.

Já não era novidade que não estávamos mais juntos — a última semana tinha sido horrível com diversas pessoas me lançando olhares furtivos e cochichando quando eu passava por perto. Mas, naquele momento, minha preocupação passava bem longe do que os outros alunos pensariam sobre mim; ela se concentrava somente no momento que eu veria Laura, se a visse.

Suspirei e me arrastei para dentro da escola com um murmúrio de lamento. Eu não poderia fugir daquilo. Felipe, meu melhor amigo, correu para me encontrar logo que me viu. Ele tinha um sorriso simpático em seu rosto e agiu como se nada tivesse acontecido. Eu não tinha contado que tinha ido conversar com Laura, então ele não tinha um modo de saber que aquele dia era tão sério e torturante quanto fora na última semana.

— E aí, Guto? Final de semana bom? — ele perguntou ainda sorrindo.

— Sim — forcei o meu melhor sorriso, deixando o meu olhar vagar pela escola flagrando poucos grupos cochichando. — E o seu?

— Foi ótimo — ele se entusiasmou, mas ficou calado logo que percebeu o quanto eu estava distante.

Procurava evitar os lugares que sabia que poderia encontrar Laura. Ela geralmente tinha uma rota definida e eu passei a desviar do caminho sempre que tinha opção. Não precisava vê-la novamente — tudo já tinha sido esclarecido entre nós.

Meu olhar continuou percorrendo os terrenos da escola enquanto andava com Lipe ao meu lado. A maioria das pessoas evitava fazer contato visual comigo por medo de que eu estourasse repentinamente com elas, apesar de eu ser do tipo calmo. Provavelmente ainda tinham lembranças nítidas do quanto eu fiquei raivoso perto de Edgar quando ele me contou, mesmo que eu não tivesse o atacado.

— Escuta, Guto, você não está procurando por ela, né? — Lipe parecia meramente preocupado.

Quando eu estava prestes a dizê-lo que não, esbarrei em alguém. A chama laranja me avisou rapidamente de quem era e senti o meu coração disparar em resposta. Cambaleei um passo para trás como se ácido escorresse da pele de Laura quando ela se agachou para recolher uma pasta que tinha derrubado.

Poderia parecer a cena romântica de um livro ou de um filme, mas era simplesmente patética. Fiquei encarando-a enquanto ela recolhia aquela pasta, sem me disponibilizar para ajudá-la. Não tive certeza que fosse por orgulho; poderia ser apenas porque eu estava amortecido demais para pensar em ajudá-la. Ouvi que os burburinhos ao nosso redor silenciaram rapidamente e senti vários olhares nos queimando. Todos observavam a cena atentamente.

Pensei que Laura fosse me lançar um olhar desesperado ou talvez o mesmo olhar receoso que ela me lançara quando tinha deixado sua casa na sexta-feira, entretanto ela apenas levantou sua cabeça e me olhou friamente, com indiferença, como se eu fosse qualquer pessoa que ela pudesse ter esbarrado ao acaso. Ela se abraçou com mais força à sua pasta e saiu rapidamente seguida de sua amiga, que me encarou com o rabo do olho.

Estava destruído. Eu, que tentara tão bravamente evitá-la, agora tinha ficado frente a frente com ela tendo todos os alunos de plateia. Os murmurinhos aumentaram consideravelmente quando eu forcei as minhas pernas a caminharem e saírem daquele lugar o mais rápido possível. Lipe acompanhou minhas passadas apressadas.

— A propósito, eu não estava procurando por ela — comentei em uma voz desprovida de emoções. — Mas acho que a encontrei.

Lipe ficou em silêncio acompanhando os meus passos até a sala quando uma questão me ocorreu.

— Como eu a olhei, Lipe? — minha voz estava alarmada.

Qual a expressão que tinha ficado em meu rosto? Pena? Medo? Paixão? Desespero? Coragem? Tristeza?

— Como se ela não valesse nada — mas eu o conhecia o suficiente para saber que mentia.

Ótimo, então eu a olhei como se ainda a quisesse depois de tudo e tornei a cena ainda mais patética. Que lindo. Simplesmente adorável…

.

Gustavo Clegg: Eu sou um idiota.

Minhas mãos tremiam. A manhã ainda brilhava nítida em minha mente, todas as situações ridículas a que fui submetido voltando aos meus pensamentos. Aparentemente ninguém da minha sala tinha consciência do ocorrido até a hora do recreio, quando as últimas novidades tomaram conta da escola e os cochichos ganharam uma intensidade extraordinária. A manchete era: Gustavo fica frente a frente com a garota que o traiu e a olha pateticamente, como se quisesse desesperadamente que ela voltasse para sua vida.

Sentia o ódio borbulhando em minha mente. Por que não tinha conseguido me controlar? Por que não a olhei como se ela fosse um inseto? Por que cogitei ajudá-la? Por que… ainda gostava tanto de Laura?

Sabrina Connor: Isso é algum tipo de novidade?

Gustavo Clegg: Não. Só achei legal enfatizar.

Sabrina Connor: O que aconteceu?

Ainda não tinha contado a ela sobre tudo o que tinha acontecido na minha vida. Ela era para ser supostamente alguém que me fizesse esquecer do assunto, não lembrá-lo. Mas eu precisava desabafar. Precisava ouvir algum conselho realmente útil. Respirei fundo e deixei que meus dedos teclassem furiosamente toda a história resumidamente. Ela entenderia. Sali entenderia e me ajudaria.

Sabrina Connor: Certo… Não foi patético, sabe? Mostrou que, pelo menos, um de vocês tem sentimentos.

Gustavo Clegg: Ela me traiu! Eu tinha que odiá-la!

Sabrina Connor: Não tinha, não. Ia só afetar você mesmo, você devia saber disso.

Gustavo Clegg: Tá, que seja. Mas eu não queria amá-la. Não queria me sentir destruído toda vez que a vejo.

Sabrina Connor: Você é apressado demais para seu próprio bem, Guto. Não vai deixar de gostar dela em um passe de mágica. Sabe de uma coisa? Vou te mandar um texto meu.

Gustavo Clegg: Isso. Por favor, eu preciso de alguma luz.

Sabrina Connor: Não é como se ele fosse alguma luz ou algo assim. Isso nem mesmo aconteceu comigo de verdade, eu só me coloquei no lugar de alguém que tivesse vivido essa situação. É só pra te mostrar que alguma hora passa. É meio antigo e eu não o consertei, mesmo assim espero que te ajude.

“Fecho meus olhos e sinto o vento gelado perfurando minha pele exposta. O vento agita meu cabelo e isso o faz pinicar minha nuca, porém não rio. É como se estivesse privada disso; de rir, de sorrir. Minha vida foi levada com esse vento. Abraço meu próprio corpo, com frio. Estou cheia de blusas, entretanto me sinto nua, vazia, despida. Encaro o céu. Um bando de pássaros passa voando rumo a um objetivo que eu queria ter. Cruzo meus braços no meu peito e sigo meu caminho, me dirigindo para o lugar mais próximo, desejando apenas que a dor escapasse.

A dor era do abandono. Era forte. Era um medo, um receio, que se tornava realidade. O tempo nos faz sentir a presença da pessoa até onde ela não está, mas também nos faz esquecer. Lentamente, um processo insuportavelmente lento, mas real. A presença se apaga. E então um dia você olha para o lado, para aquele objeto que a pessoa tinha uma afeição estranha que você chegava a rir, e percebe que nada mais mexe com você. Percebe que aquele objeto é apenas isso; um objeto que ninguém jamais deu vida.

Paro na loja mais próxima, vendo nas roupas a presença dele. Lembro-me de que ele costumava pegar as roupas mais engraçadas e me mostrar, falando que as compraria. Mas essa não era a parte mais engraçada. A parte mais engraçada era o jeitinho que ele puxava o cabide que tinha a roupa; com cuidado, como se fosse de porcelana, entretanto quando ia devolver o cabide ao seu devido lugar sempre derrubava outras peças e fazia uma careta de cachorro culpado. Era seu descuido que me encantava; seu jeito divertido, descontraído, que não ligava para nada, mas que se importava com alguma coisa. Aquilo era único dele.

Reviro as peças de roupa na loja, procurando a magia, o encantamento. Mas ele desapareceu. Não tem mais o brilho, a graça. Ela se esvaiu.”

Gustavo Clegg: É alguém superando e esquecendo?

Sabrina Connor: É alguém sobrevivendo dia após dia até superar. Isso vai passar, Guto. De verdade.

Dois minutos…

Gustavo Clegg: Obrigado, Sali. Isso foi realmente útil.

Sabrina Connor: Fico feliz que você tenha recorrido a mim. Sério.

Gustavo Clegg: Só quero saber como vou suportar hoje à noite para cuidar de meu irmão e também na hora de dormir. Ficarei com medo de me encontrar com ela de novo e não vou conseguir dormir direito.

Sabrina Connor: Você não pode evitar isso. Não há algum jeito de simplesmente se esquivar e sumir quando ela aparece, mas também ficar se preocupando é algo que não vai fazer diferença. Se você se encontrar com ela vai manter a postura ou ignorar a sua presença. E isso é tudo. Vai mostrar para ela que você também é capaz. E quanto ao seu irmão… acho que ele é uma boa distração, não?

Gustavo Clegg: Manter a postura? Ah, ele é sim. Só não tenho tanta certeza com relação a hoje.

Sabrina Connor: Hoje vai ser como qualquer outro dia e você não vai deixar ela te abalar desse jeito. Você não pode se entregar. Sim, você vai manter a postura. Mesmo que ela te abale, não a deixe ver o quanto.

Gustavo Clegg: Essa parece uma atitude meio orgulhosa.

Sabrina Connor: Porque ela realmente é. Mas não faz mal ter um pouco de orgulho, Guto. Não faz mal parecer forte ou ser forte. Você é um lutador, não é?

Gustavo Clegg: Meu pai quer que eu seja um lutador.

Sabrina Connor: E você não quer ser um lutador tão bom quanto o seu pai? Então se levante dessa cadeira e aja normalmente com o teu irmão. E amanhã aja como se nada te afetasse naquele colégio. De qualquer forma eu estarei aqui quando você chegar da escola e você vai poder despejar tudo sobre mim. Eu aguento.

Bem, talvez eu não aguente uma manhã inteira. Talvez… mas eu sou um lutador. Tenho que ser.

Gustavo Clegg: Certo. Manter a postura e agir como se nada me afetasse. Mais algum conselho?

Sabrina Connor: Não tenha medo de me contar tudo, tá bom? Esse é o meu último conselho. Você precisa dividir seus pensamentos com alguém para poder organizá-los. E eu ficaria feliz se essa pessoa fosse eu.

Gustavo Clegg: Eu vou dividir meus pensamentos com você, é uma boa conselheira.

Sabrina Connor: Sabe, algum dia eu quero que você queira dividir seus pensamentos comigo não somente porque sou uma boa conselheira, mas porque confia em mim o bastante para poder compartilhar aquilo que te angustia.

Eu poderia tentar consertar a minha frase e dizer que confiava nela, mas a quem enganaria? Tinha que adquirir a confiança nela. O meu impulso de contá-la sobre a minha vida se dissolvera rapidamente e agora eu apenas a considerava alguém com textos legais, nada além disso. Emoções confusas. Esse era o efeito colateral de gostar de Laura.

Não iludiria Sali falando que nos tornaríamos melhores amigos.

Gustavo Clegg: Olha, não sei se vou contar tudo pra você. É difícil dividir meus pensamentos. Eu posso tentar ou ter algum impulso como hoje. Não se chateie por isso, tudo bem? Agora tenho que ir buscar Rafa, de qualquer forma.

Ela não tinha respondido ainda quando saí de casa para buscar pelo Rafa. E quando cheguei em casa mais tarde e conferi o meu Facebook, havia uma vaga mensagem dela: Tudo bem. Quando precisar.

Ocorreu-me que talvez a tivesse chateado… mas eu já estava suficientemente chateado para me preocupar com aquilo. Rafa se aborreceu rapidamente quando me neguei a jogar Mario com ele e se deitou mais cedo do que o habitual com o semblante sério. E me senti impotente vê-lo desaparecer dentro de seu quarto; não tinha forças para ir lá e explicar que eu estava em um dia ruim.

O próximo dia da escola não foi tão terrível. As fofocas ainda estavam soltas e bem avivadas, mas não chegaram a me afetar. Não vi Laura. E logo que cheguei em casa me apressei a ir até o computador e mandar para Sali: “Me desculpa. Ontem eu não estava em bom dia. Espero que você ainda queira conversar comigo.”, e logo depois recebi a resposta: “Claro que quero continuar conversando com você! Fazia tempo que eu não encontrava alguém tão bom para conversar!”.

As conversas entre mim e Sali não pisavam muito no território chamado Laura. Conversávamos sobre os nossos dias, mas sem jamais mencionar episódios muitos constrangedores. Era melhor daquela forma. A nossa amizade se fortaleceu rapidamente e logo ficar um dia sem conversar com ela era estranho. Mencionava-a deliberadamente em meio a conversas com outros amigos meus ou com Rafa e até mesmo com o meu pai e minha mãe.

Três semanas depois de conversas diárias, ela finalmente me mandou: Amanhã, às duas horas da tarde, na praça em frente a igreja matriz.

Não pude conter a satisfação ao ler aquilo. Tentei obter mais detalhes, mas ela tinha parado de me responder. Somente me restava encontrá-la no próximo dia; e mal podia esperar para fazê-lo.

Notas finais
E entããããão? O que acharam? O que esperam do primeiro encontro da Sali com o Guto? Ansiosos? Espero que tenham gostado ♥ Até sexta :3