Juntos pelo acaso
6 Conhecendo
Notas iniciais
Fiquei pensando se seria difícil encontrar Sali na praça, no entanto não havia muitas pessoas no lugar quando cheguei no horário combinado. Havia uma menina próxima a mim — que deduzi que fosse Sali — com uma longa trança embutida que lhe descia pelas costas e que segurava um caderno, escrevendo rapidamente nele, encostada a uma árvore. Se escrevia, tinha de ser ela.
Observei-a em silêncio por um tempo. Ela desviava o olhar do caderno algumas vezes, olhando para o movimento dos pássaros ou qualquer coisa parecida, logo voltando a anotar apressadamente alguma coisa. Imaginei que estivesse escrevendo algum outro texto.
Aproximei-me furtivamente da grande sombra projetada pela árvore. Tentei ser silencioso e me estiquei para ler algumas palavras por cima de seu ombro. “Andei mais uma vez pelas ruas de minha cabeça, tentando encontrar um bom lugar para ficar, sentar, descansar e esquecer…”.
— Sabe, não acho que seja muito educado ler sobre o ombro da pessoa — a menina se virou e sorriu para mim.
Ela tinha o sorriso pequeno e, mesmo assim, brilhante. Seus olhos também não eram muito grandes. Castanho chocolate e miúdos, apesar de terem espessos e compridos cílios pretos que o destacavam. Fios enrolados escapavam de sua comprida trança em seu cabelo castanho-claro. Sali. Aquela era Sali.
Corei violentamente e deixei o meu corpo cair ao seu lado. Ela desviou o olhar e corou também, finalmente tendo percebido que tinha falado comigo. Não parecia mais tão segura.
— Você é a Sali? — perguntei finalmente.
— E você é o Guto — era uma afirmação tímida. Ela deixou seus olhos caírem rapidamente para as páginas de seu caderno e me lançou um sorriso nervoso.
Uma vez que estávamos finalmente lado a lado, os assuntos nos escaparam. Ficamos sentados em silêncio, deixando que borboletas e pássaros roubassem toda a atenção que deveríamos dar um para o outro. Sali não era uma boa pessoa para conversar? Não era esse o motivo para eu ter simpatizado com ela? E onde estavam as conversas naquele momento?
— Sobre… — ela me olhou rapidamente, interessada que eu finalmente tivesse quebrado o silêncio incômodo. — Sobre o que escrevia quando cheguei?
— Ah, isso — ela sorriu de modo vacilante. — É meio que um texto sobre o que acontece dentro da minha cabeça. Nada muito íntimo, sabe? Mais no geral.
— Não entendo.
— Ahn, certo. É… eu não quero que você leia o esboço. Ele provavelmente está patético e com erros invisíveis ou discretos demais para serem percebidos — ela balançou a cabeça freneticamente. — Só quando eu terminar de escrever que você vai poder ler.
— E quando você vai terminar?
— Não sei — ela largou o caderno sobre a grama e sorriu ao me olhar através de seus cílios compridos. — Não agora, obviamente. Eu acho que tenho que conversar, sabe? Convidei uma pessoa para me encontrar…
— Isso é um encontro? — e em minha voz havia uma leve pitada de provocação.
— Sim, é um encontro! Não romântico. Encontros não precisam ser necessariamente românticos — ela revirou seus olhos. — Mas isso não deixa de ser um encontro.
— Claro — assenti e me encostei no tronco grosso da árvore. — Tem que cumprir algumas regras da sociedade, é isso?
— Não é, sei lá, falta de educação não conversar com a pessoa do seu lado?
— É, a não ser que essa pessoa esteja disposta a ficar em silêncio.
Ela me encarou com o rabo do olho.
— E você está disposto?
Sorri.
— Bom, eu fiquei tentando imaginar como seria te ver escrevendo. E acho que tenho uma oportunidade agora.
— E o que você vai fazer, enquanto isso?
— Ficar te olhando, óbvio. Não é sobre isso a discussão?
— Ah, claro — ela ironizou. — Você vai ficar me olhando obcecadamente enquanto eu escrevo um texto na primeira vez que a gente se vê pessoalmente. Óbvio. Planejei exatamente desse modo nosso primeiro encontro.
— E como você planejou? Exatamente?
Ela arregalou os olhos e corou, desviando o olhar rapidamente. Sorri satisfeito.
— E-eu não planejei muito.
— O que você planejou, Sali?
Ela focou em um passarinho.
— Não é bonito? — me perguntou, apontando para ele.
— Sali…
— Ah, tá bom — ela bufou. — Eu não planejei que você chegasse espiando o que eu escrevia pelo meu ombro. Imaginei que seria alguma coisa mais formal, polida. Bom, de qualquer jeito, imaginei que teríamos muitos assuntos. A gente conversa tanto! Por que pessoalmente é mais complicado?
— Eu pensava nisso — suspirei. — A gente não encontrou nada de muito produtivo, não?
— Não mesmo.
— O que seria um assunto produtivo? Deveríamos tentar começar alguma conversa, certo?
— Ahn, eu não sei. Que tal começar com alguma coisa mais simples?
— Como?
Ela suspirou, cogitando as opções.
— Como foi sua manhã?
— Normal — franzi meu cenho. — Química, arte e geografia. Entendi a matéria. E a sua?
— Foi… sonolenta.
— Certo, e agora voltamos à estaca zero! — bufei, encarando os galhos das árvores.
Ela riu. Foi agradável ouvir o seu riso curto e inesperado. Gravei o leve balanço de seu corpo, o seu sorriso divertido, os seus olhos ainda mais miúdos. Ela ficou sorrindo me olhando ainda por algum tempo, analisando-me…
— Tive uma ideia — levantei-me. — Que tal subir na árvore?
— Isso… é permitido? — ela parecia aterrorizada com a ideia.
— Ora, o que haveria de errado?
— E se quebrasse um galho? E se viesse algum guarda municipal chamar nossa atenção?
— Deixa disso, Sali — reclamei, pegando em seu pulso e a levantando em um solavanco. — Precisa de ajuda para subir?
Ela hesitou brevemente antes de assentir.
— É só… pro caso de eu cair — ela deu de ombros e começou a escalar o tronco desajeitadamente.
Apesar de um pouco de trabalho e arranhões, Sali finalmente se estabeleceu em um galho no alto. Subi atrás dela de maneira mais ágil e ela estava corada e sorridente quando alcancei o seu galho. Era bonita e mais dada a sorrisos que Laura, que nunca aceitaria a minha ideia; não por medo de ser apanhada no flagra, mas por achá-la demasiadamente idiota.
— Vista legal — ela comentou.
— Sim.
A conversa pareceu fluir mais naturalmente uma vez que não estávamos mais com os pés pregados ao chão. Talvez nós dois precisássemos sempre de um pouco de irrealidade, de flutuação… talvez ficar no chão junto com todos os outros nos afastasse, quando deveríamos ser capazes de ficar juntos.
A normalidade e a realidade nos reprimia; enquanto pudéssemos achar um galho em uma árvore, manteríamos uma conversa. Ou, ao menos no começo de nossa relação, as coisas só funcionavam se estávamos em algum lugar no alto. Principalmente, na nossa árvore.
Unicamente, na nossa árvore.
Quando, às cinco horas, descemos para o chão novamente, Sali me estendeu a mão. Achei um cumprimento demasiadamente formal, mas antes que pudesse provocá-la por sua atitude ela já tinha saído correndo em disparada. Foi quando notei um bilhete em minha mão e o abri rapidamente. Nele estava um número de celular e logo abaixo a frase: “Se quiser me ligar, que seja de preferência entre as sete e as dez da noite. Eu te deixo me encontrar agora”.
.
— Alô? — perguntou timidamente a voz de Sali.
— Sali?
— Oi, Guto — ela pareceu suspirar.
— Oi. Tudo bem?
Ela riu e não me respondeu.
— O que foi?
— Você não é do tipo que não diz “oi, tudo bem”?
— Não pude pensar em nada melhor, desculpa — mas logo eu estava rindo com ela.
— Tudo bem — ela ainda ria. — E o seu irmão? Você não tinha que cuidar dele?
— Já foi dormir — esclareci. — E você? Tinha que fazer alguma coisa?
— Não. Nada.
— Ótimo — suspirei, jogando-me de costas em minha cama e fechando meus olhos. — Viu… que negócio é esse de querer e não querer ser encontrada?
— É uma coisa idiota — e quase pude vê-la revirando seus olhos.
— Você pode me falar, sabe? Eu posso entender.
Ela ficou em silêncio. Escutei sua respiração ritmada e esperei, pacientemente, que ela voltasse a falar.
— Certo — ela soltou o ar demoradamente. — Então. É que… eu não gosto que as pessoas tenham o meu número de celular. É muito fácil me localizar. Muito fácil de me encontrar. E, algumas vezes, eu gosto de desaparecer. Gosto de me deixar ser encontrada somente a hora que quero.
— E o que significa você ter me dado seu número?
— Não é óbvio?
— Você está disposta a deixar que eu te encontre? Aquilo que está escrito no bilhete?
— É…
— O que foi?
— Bom, não estou somente disposta a deixar você me encontrar — ela inspirou profundamente e quando falou de novo as palavras saíram rapidamente de sua boca, como se ela quisesse falá-las o mais rápido possível. — Eu quero que você me encontre, Guto.
Silenciei por alguns longos segundos de aturdimento.
— Você… v-você quer que eu te…?
— O que acha de nos encontrarmos amanhã, na mesma hora e no mesmo lugar? — ela me interrompeu. Sua voz estava agitada e nervosa, subitamente ríspida.
— Ahn… tá.
— Certo, então… Te vejo amanhã, Guto.
— Tudo bem.
E, quando pensei em falar novamente, ela já tinha interrompido a ligação, deixando-me na mão. Ela queria ser encontrada por mim. Ela realmente tinha dito aquelas palavras, certo? E ainda tinha enfatizado. “Eu quero ser encontrada, Guto”. O que aquilo significava? Ela queria ser encontrada por mim? Era tolice acreditar em minha mente. Eu poderia ter entendido errado; sim, certamente era aquilo. Então por que ela tinha ficado nervosa?
A minha mente borbulhava quando resolvi ir dormir. E estava tão preocupado com as palavras de Sali que nem mesmo pensei em Laura ou no que poderia acontecer na manhã seguinte. Naquela noite, meus pensamentos eram dedicados a Sali. Somente a ela.
No fundo de meu coração, estava agradecido por aquilo.
.
Pensei em abordar Sali com o assunto da noite anterior assim que a visse, mas ela estava tão relaxada e sorridente que nem mesmo pensei em interromper a sua alegria e espontaneidade. Antes mesmo de chegar ao ponto onde ela estava, já a vi subindo em nossa árvore. Ela sorria lá de cima quando me aproximei o suficiente.
— Gostou daqui? — perguntei, acomodando-me a um galho próximo.
— Eu nunca fui uma criança de subir muito em árvores — ela deu de ombros. — Eu já subi algumas vezes, é claro, mas eu não me lembrava o quanto era… agradável. Então, sim, eu gostei daqui.
— Se sente em contato com a natureza?
— Bem, sim — ela riu. — Faz algum tempo que eu não tenho contato com a natureza.
— Por quê?
— Eu gosto de ficar em casa lendo e escrevendo.
— E nunca sai de casa?
— Não exatamente. Não além do colégio e da biblioteca.
— Então… você está aqui só para vir me ver?
Ela corou e começou a torcer as mãos. Percebi que Sali era uma pessoa que ficava constantemente nervosa com situações pequenas; mais até do que eu.
— Alguma coisa assim — ela confirmou. — Mas eu realmente não sabia o quanto era bom.
— O que é bom? Sair de casa, subir na árvore ou me ver?
— Acho que todos — ela sorriu um pouco mais confiante. — Sem os três elementos, não fica tão legal. Se eu somente saísse de casa, não seria tão legal. Ou se eu só subisse na árvore sem a sua companhia, também não seria tão legal. Um sem o outro não significa… nada.
— Você gosta da minha companhia, então?
— Você sabe conversar — ela deu de ombros sem abandonar o sorriso. — E tem bons papos. Mas acho que isso se enquadra em saber conversar — seu cenho se franziu. — Enfim, isso conta muitos pontos para você.
— Saldo positivo para mim?
— Saldo positivo para você — ela concordou.
Sorri. Ela também.
— E então? Já terminou o texto de ontem?
— Não.
— Não mesmo?
— Absolutamente não.
Mas ela mentia. Eu via a insegurança em seu olhar.
— Por que não quer me mostrar?
— Porque eu ainda não terminei.
— Sali!
— Chega disso, certo? — ela suspirou. — Algum dia eu te mostro e quero saber a sua opinião. Mas não hoje. Não hoje, tudo bem?
— Nem amanhã?
Ela pareceu cogitar as opções antes de balançar freneticamente sua cabeça.
— Também não. Não insista. Quando eu quiser eu te mostro.
— Por que só quando você quiser?
— Porque o texto é meu!
— Certo — recostei-me ao tronco, derrotado. — É um bom argumento.
— Claro que sim — ela soava presunçosa.
Amei o sorriso vitorioso em seu rosto. Amei a forma como ela empinou seu nariz e pareceu satisfeita por ter ganhado aquela discussão. Ela tinha um sorriso bonito…
— Guto… — ela deixou seus olhos caírem em seu colo depois de um momento de longo silêncio agradável. — E a Laura?
Meus músculos se tensionaram à menção do nome.
— O que tem? — não pude controlar a rispidez de minha voz.
— Eu só… queria saber como você está — ela deu de ombros. — Assunto errado, né?
— Assunto errado — fechei meus olhos. — Assunto totalmente errado. Mas o que adianta evitá-lo?… — suspirei. — Ela surge em momentos inoportunos na minha mente, sabe? Quando eu não quero que ela surja, quando eu me esqueço de sua existência. Então aparece aquele sorriso idiota… e eu me sinto tão destruído. É idiota. E patético. E eu não queria que fosse assim.
— Guto…
Abri meus olhos e fitei as folhas da árvore. Não queria encontrar o olhar penalizado de Sali.
— Às vezes, eu consigo esquecê-la. Quando converso com você, quando cuido do Rafa, quando vou para casa de meu pai nos fins de semana. Quando faço coisas que nunca fiz com ela, quando vou a lugares que ela não frequentava, quando minha cabeça está demasiadamente ocupada. Mas tem tantas coisas que estão lotadas de memórias. E de saudades. E de dor. E então só há ela. Eu me sinto tão incapacitado.
— É normal, Guto, é normal se sentir assim.
— É patético se sentir assim por alguém que te usou. É isso que quero que entenda, Sali! Não é simplesmente a lembrança, o término… é o motivo.
Continuei evitando o olhar de Sali. Não precisava dele.
— Ainda não a perdoou, não é?
— Não é tão fácil.
— Você precisa seguir em frente!
— E o que eu tô fazendo?! Sali, eu tento todos os dias seguir os conselhos daquele texto seu. Mas não dá. É fácil para você que o escreveu sair falando que é preciso seguir em frente. E eu?! Eu não consigo. Não é simples. Não cabe em uma folha. Não cabe em meia dúzia de palavras!
Estava irritado. Por que ela tinha tocado no assunto? Por que simplesmente não o ignorava, assim como eu tinha feito com aquela frase estranha que ela tinha me dito na noite anterior? Por que ela insistia tanto?
Estava tão preso em meus pensamentos que não percebi que o seu silêncio era carregado de pensamentos, suposições e verdade.
— E quem disse que pra mim é fácil seguir os meus próprios conselhos? — ela sussurrou, sem me olhar.
— O que quer dizer?
— Guto… a quem você acha que eu destinei aquele texto? — seus olhos se fecharam.
— Ao primeiro que o encontrasse, é claro. A qualquer um.
— Não, Guto — ela balançou sua cabeça. — Você não entendeu nada. Eu não fiz aquele texto para qualquer um. Eu o fiz para mim — então ela abriu seus olhos, mirando-os diretamente nos meus. Esqueci de qualquer tentativa de desviar o olhar. — Eu estava me aconselhando. Então deixei na biblioteca e esperei que alguém realmente seguisse aqueles conselhos e conseguisse seguir em frente.
Todo o castelo de admiração que tinha construído sobre Sali foi demolido com aquelas palavras. Ela não era do tipo que seguia em frente? Ela não vivia o estilo de vida que tinha escrito naquele texto? Aquelas eram apenas palavras vazias de um coração desesperado?
— Eu precisei do texto — estava aturdido. — E estava admirado com a forma de vida da pessoa que o escreveu… então eu sou um idiota por ter acreditado que você agia como tinha dito no texto? É tudo uma mentira? Estava tão admirado com a possibilidade de viver daquele jeito… e você, que escreveu aquelas palavras, não vive daquela maneira. Eu sou patético por ter acreditado naquelas palavras e por ainda tentar seguir aqueles conselhos vazios.
Ela deu de ombros, parecendo arrependida de suas palavras, mas sem a mínima intenção de recuar.
Sali. A garota que eu mais admirava no mundo, agora derrubava o meu castelo de cartas.
— É importante tentar, sabia? Quase tão importante quanto conseguir. Você não devia parar por uma decepção boba. E não devia se achar… patético.
— São conselhos vazios. Sem fundamento — acusei.
Todo o peso de ter sido traído pela segunda vez caiu sobre mim. Em quem eu deveria confiar?
— Guto, não seja idiota e dramático! — ela reclamou, parecendo tão irritada quanto eu. — Não são vazios. Não são sem fundamento. São conselhos importantes! Conselhos para quem está disposto a colocá-los em prática!
— Assim como você?
— Exatamente como eu. E algum dia eu vou conseguir, sabe? Algumas coisas eu já consegui.
— Tipo?
— Tipo não precisar de ninguém — e aquelas palavras me perfuraram. — Essa ideia de precisar é tão forte para mim. As pessoas não foram feitas para serem oxigênio, sabe? Precisar é pesado. Amar, querer, ficar perto, tudo isso vale. Tudo isso é lindo. Mas precisar? Precisar parece ser tolo. E se a pessoa morrer? E se a pessoa te deixar? Eu não quero ruir; não como está acontecendo com você nesse momento. Pelo amor de Deus, Guto! Era somente um nome! E eu vou falar ele até ele não te afetar mais.
— Não é fácil superar alguém — gritei.
— E eu sei! Caramba, é óbvio que não! E tô aqui pra te ajudar com isso, Guto. Não pra te destruir ainda mais.
— Bom, acho que não deu tão certo os teus planos — comentei friamente, descendo da árvore.
Queria sair daquele lugar. Aquela conversa estava me tirando dos eixos. Como conseguimos brigar na segunda vez que nos vimos pessoalmente quando no dia anterior tivemos tanta dificuldade de estabelecer uma conversa?
— Mas eu vou continuar tentando — ela gritou, tendo dificuldades para descer da árvore.
— Eu não quero que você tente.
— Quem disse que eu me importo com o fato de você não querer? Guto, eu vou insistir. Eu quero te ajudar, quero o teu bem. Por isso que não me importo de continuar insistindo, mesmo que você não queira. Portanto, vou continuar falando o nome da Laura e perguntando sobre ela.
— Então considere que me perdeu — disse. Ela parou por um momento e ficou me olhando com os olhos estreitos. — Ora, você não disse que não precisa de ninguém?
— Não preciso mesmo — ela concluiu, parando finalmente em pé no chão. — Pode ir. Eu só queria ajudar mesmo, mas não tenho problemas em te… perder.
— Era ajuda sem embasamento…
— Guto, me faça um favor? — ela ficou na ponta dos pés, seu rosto a centímetros do meu. Senti um cheiro adocicado vindo dela. — Cale essa boca. E pare de usar esse argumento ridículo.
E então ela saiu marchando, deixando-me parado no lugar pelo segundo dia consecutivo. Ela era tão confusa. E tão… genial. E corajosa. Certo, eu tinha uma lista enorme de elogios para Sali. E ela deveria ter uma lista só de defeitos meus. Ela disse que eu era um dramático e, sim, eu o era. E era mesmo patético, mas por discutir por um motivo tão tolo. E por deixá-la escapar pelo vão entre meus dedos tão facilmente.
Sali estava escrevendo aqueles conselhos para ela mesma, para tentar ser uma pessoa melhor. Aquilo era tão fascinante, um modo que eu nunca pensaria. Primeiro que eu nunca realmente admitiria que seria bom melhorar. Mas era. Realmente era bom. Ela admitia que precisava mudar e tentava fazer isso dia após dia, tendo a iniciativa partido dela. Era mais admirável do que se ela fosse aquela pessoa perfeita descrita no texto.
E aquilo, em vez de me repelir — como quando recebi a informação —, me impeliu a ser mais amigo ainda de Sali. Ela estava disposta a tentar; ela tentaria e toda a diferença residia nisso. E eu queria ser amigo de alguém que tentava e, mais ainda, gostaria de tentar junto com ela.
Portanto, saí em disparada atrás do rastro de perfume adocicado que Sali tinha deixado. Encontrei-a duas quadras adiante.
— Sali… espera… aí — parei ofegante e apoiei as mãos nos joelhos.
— Diga — ela tinha um ar superior invejável. Parecia tão segura de si.
— Desculpa, tá? Eu só disse besteiras. Não era a minha intenção — respirei fundo. — Eu quero tentar. De verdade. Junto com você.
— Você… v-você quer tentar comigo? — pela primeira vez ela parecia realmente desconcertada. Por que ela tinha se desestabilizado? Foi porque eu a procurara? Ou porque queria tentar junto com ela? Eu não saberia dizer o que se passava em sua cabeça.
— Sim.
Não consegui me recordar de nenhum outro sorriso tão iluminado quanto o que ela me deu naquele dia. Senti alguma coisa aquecer dentro de mim e não pude controlar meu próprio sorriso, espelhando o dela. Ela ficava bonita quando sorria. Mais que o habitual.
Fale com o autor