Juntos pelo acaso
20 Errando
Notas iniciais
— Ai, Guto, pare de puxar meu cabelo! — Sali reclamou, virando-se para trás.
Estávamos sentados em minha cama, ela sentada entre minhas pernas e eu — sem sucesso — tentando fazer uma trança embutida em seus cabelos.
— Eu sou um aluno em estado de aprendizagem — justifiquei. — E é errando que se aprende.
— Por quê? Você pretende abrir um salão?
— Óbvio! Com penteados feitos somente com tranças em sua homenagem — sorri. — E, já que você é minha professora, o que devo fazer com a mecha que está na lateral?
Pude imaginá-la revirando os olhos.
— Você a coloca no meio.
— Ah, sim, certo — murmurei, concentrado em seu cabelo extraordinariamente volumoso. — Isso é tão difícil de se fazer. Como você consegue?
— Prática — ela respondeu simplesmente, retomando a sua leitura. — Deveríamos estar estudando, Guto — ela murmurou.
— Não devíamos não — retruquei, soltando seu cabelo e virando seu rosto para mim. Ela me olhou seriamente. — Hoje é sexta-feira. Vamos aproveitar — acariciei sua bochecha e sorri, beijando-a suavemente. Adorava beijá-la todos os momentos em que queria.
Minha relação com Sali não mudou tanto, somente o suficiente para me transformar na pessoa mais feliz do universo. Nos víamos com a mesma frequência de antes e tínhamos os mesmos assuntos, só que algumas restrições da amizade foram perdidas. Eu podia abraçá-la, segurar sua mão, mexer no seu cabelo e beijar a sua boca sem inseguranças, sem incertezas.
No dia seguinte ao nosso beijo, Sali realmente estava tímida. Temi que ela tivesse mudado sua opinião durante a noite. Mas então ela suspirou e ergueu sua cabeça, se aproximando de mim e encostando nossos lábios timidamente.
— Você já mudou de ideia? — ela sussurrou na ocasião.
Sorri, pensando que ela tivesse lido meus pensamentos.
— Talvez — retruquei em sussurros, segurando em sua nuca. — Então você vai ter que me convencer todos os dias a te amar mais e mais e nunca mudar de ideia.
Ela brincou com a gola de minha camiseta.
— Eu aceito fazer isso — seus olhos castanhos se derreteram. — Mas só se você também se esforçar.
— Eu sou realmente um menino muito esforçado — murmurei.
— Ah, é? Muito?
— Muitíssimo.
— Ótimo — ela sussurrou e encostou nossas bochechas, sussurrando em meu ouvido. — Porque assim eu sei que nunca mudarei de ideia.
Expandi meu sorriso ao lembrar daquele dia, quando percebi que estávamos realmente juntos e que o beijo não tinha sido um sonho. Não tínhamos oficializado nada, mas eu a sentia como se ela fosse minha namorada. Minha linda namorada, que queria manter por perto pela maior quantidade de tempo que conseguisse.
— Tudo bem, hoje tiramos o dia de folga — ela suspirou por fim, fazendo-me voltar ao presente. Um ótimo presente, em que podia ficar com ela. — Mas semana que vem estudaremos — ela apontou o dedo em meu peito e me encarou desafiadoramente. — Prestaremos vestibular esse ano. Não podemos relaxar.
— Ok, querida professora — segurei em seu pulso e afastei sua mão, colocando-a ao lado de seu corpo. — Semana que vem faremos isso. Mas hoje vamos aproveitar. E talvez…
— Talvez?
— Talvez amanhã também — suspirei. — Sali, meu pai quer nos levar ao Cânion Guartelá. O Lipe e a Bia também estão indo. Vai ser emprestado um carro com mais lugares para que todos possamos ir. Vamos junto, por favor — pedi, juntando as nossas duas mãos.
Ela puxou o ar por entre os dentes e franziu o cenho.
— Não sei, Guto… minha mãe pode desconfiar de eu querer sair dois finais de semana quase seguidos. Eu geralmente fico em casa.
— E nos dias de semana que você sai durante a tarde quase todos os dias? Ela não desconfia para onde você vai?
Sali hesitou um pouco antes de falar.
— Ela não sabe que eu saio. Um tempo depois que nos conhecemos pessoalmente ela começou a trabalhar e… bom, desse jeito ela não sabe que eu saio. Pelo menos não que eu vou na casa de alguém. Só quando eu almoço aqui, que são raras vezes. Ela pensa que eu fico em casa estudando, Guto. E sair no final de semana…
Suspirei e entrelacei nossos dedos.
— A Bia e o Lipe vão junto. Diga para ela ir na rodoviária junto para ver a Bia, assim ela pode confiar em você. Nós vamos em um lugar lindo! Você tem que conhecer. E, além de tudo, não vão ser dois finais de semana seguidos. Teve um final de semana de intervalo entre eles.
Ela respirou fundo e fechou seus olhos. Ficou quieta por um tempo, talvez tentando decidir o que faria a seguir. Torci para que ela decidisse o caminho mais arriscado, para que pudéssemos viver um final de semana incrível, muito melhor que o último. Juntos.
— Gustavo… eu te odeio tanto — e então abriu seus olhos, suspirando. — Por me deixar com vontade de quebrar as regras de novo. Por me fazer querer mentir de novo. Tudo por um maldito romance adolescente de filme — ela revirou seus olhos e deu um leve soco em meu peito.
Sorri amplamente com a perspectiva de ter mais um final de semana com ela e a puxei para mais perto de mim, deixando nossos rostos colados.
— Romance à moda antiga, no estilo que você gosta. Não vive lendo livros assim?
Ela sorriu também e depositou um selinho delicado na minha boca.
— É o meu tipo de romance preferido.
— E você está vivendo ele.
Ela suspirou.
— Quebrando as regras por um garoto qualquer, quem diria — provocou.
— Um garoto qualquer? — exclamei, fingindo-me de ofendido. — Quero terminar tudo o que temos agora. Só por você ter dito que sou um garoto qualquer.
— E o que, exatamente, você quer terminar? — ela sustentou meu olhar profundamente. — O que, exatamente, nós temos, Guto?
Sorri, desfazendo toda a postura falsa. Segurei em sua nuca e puxei seu rosto para o meu novamente. Sua respiração estava pesada. Senti meu coração acelerar e uma corrente elétrica passou pelo meu corpo quando seus dedos tocaram a pele de meu pescoço. Era tão agradável…
— Nós temos um romance à moda antiga. Não basta para você?
— É mais que o suficiente para mim, Gustavo — ela sussurrou. — É muito mais do que eu esperava… É simplesmente incrível.
É mais que incrível. É a melhor coisa que já aconteceu em minha vida.
.
— Por que você tá tão nervoso, Guto? — Rafa me perguntou, encarando a minha perna que não parava de tremer.
Respirei fundo e apertei minhas mãos entrelaçadas.
— É que… eu vou conhecer a mãe da Sali. Mas ela não vai saber quem eu sou ou o que a Sali tem comigo, entende?
Ele franziu o cenho.
— Não, na verdade.
Fechei meus olhos e balancei minha cabeça.
— Esquece — murmurei. — Eu só preciso que você aja como se não conhecesse a Sali quando ela chegar. E que fique sentado. Não cumprimente ela, ok?
— Por que tudo isso, Guto?
— É… complicado — resmunguei. — Olha só, quando a Sali chegar a Bia vai ao encontro dela. Você, Lipe e eu ficaremos sentados aqui e acenaremos se a Bia apontar para nós. Ela e a Sali vão seguir para o ônibus e sentarão lado a lado, enquanto você vai seguir comigo e com o Lipe. Entraremos em seguida delas — respirei fundo. — Eu só preciso que você faça tudo como o combinado.
Rafa assentiu, mesmo sem entender o motivo de tudo aquilo.
— Ficar sentado. Acenar se a Bia apontar. Levantar quando você levantar. Fingir que não conheço a Sali.
— Exatamente — respirei fundo e me encostei no apoio do banco. Bia e Lipe me olhavam atentamente. — O quê? Já se apresentaram como namorados oficialmente para os seus pais? Aposto que ficariam pior que eu.
Lipe revirou seus olhos.
— Você não vai ser apresentado como namorado da Sali para a mãe dela, cara — ele resmungou. — Você não vai nem chegar perto dela, se quer saber.
— Eu sei — murmurei. — Mas e se a mãe dela perceber algo? Algum olhar ou alguma coisa? E se ela proibir a Sali de sair por causa disso?
— Guto…
— Eu tenho motivos para ficar nervoso, ok?
— Tudo bem, Guto, você tem sim — disse Bia, olhando atentamente para algum lugar ao longe. — Mas acho melhor você engolir o nervosismo porque temos um plano para executar — ela se levantou e ajeitou sua roupa, virando para nós com um sorriso simpático no rosto. — Acenem só se eu apontar, lembrem disso. E… Guto, vai dar tudo certo, ok?
Assenti.
Sali e sua mãe estavam em outro canto da rodoviária e pareciam presas em algum assunto importante. De tempos em tempos Sali olhava para mim e sorria discretamente; nada que me desse segurança. Sua mãe realmente parecia rígida. Bia caminhou até elas com firmeza e a mãe de Sali pareceu ter gostado da atitude dela, cumprimentando-a alegremente. Não demorou muito para Bia apontar para o banco onde eu estava sentado entre Lipe e Rafa e tivemos que acenar alegremente — eu, é claro, de forma especialmente nervosa.
Tudo estava acontecendo como Sali e eu tínhamos planejado até o momento. Mas nunca tínhamos sido bons em executar planos.
A mãe de Sali, de repente, estava andando em minha direção. Totalmente fora do planejamento. E se eu falhasse? E se aquilo custasse o melhor relacionamento que já tinha tido em minha vida? Sali e Bia estavam encolhidas atrás dela, olhando-me como se pedissem desculpa. Minhas mãos começaram a suar. Somente a ideia de ter de prosseguir já fazia meu estômago se revirar desconfortavelmente.
— Então, esse é o Felipe, meu namorado — Bia apresentou assim que elas nos alcançaram. Lipe se levantou polidamente e estendeu sua mão, sempre mantendo um sorriso simpático em seu rosto. — Esse é o Rafael, irmão do Gustavo — Bia continuou, olhando-me apreensivamente enquanto Rafa se levantava e imitava os modos de Lipe. — E, por fim, esse é o Gustavo, meu amigo.
Levantei-me, assim como Lipe e Rafa, mas não consegui manter a naturalidade deles. Estendi minha mão e forcei o meu melhor sorriso.
— Você parece um pouco… nervoso, Gustavo — ela comentou, sorrindo de modo desconfiado, apesar de manter a compostura.
Senti como se meu coração pudesse sair pela boca. Com um segundo de hesitação — o qual deve ter me entregado impiedosamente —, respondi:
— Por que — engoli em seco — eu estaria?
Ela soltou minha mão e inclinou um pouco a cabeça para o lado.
— Não teria de ser você a responder essa pergunta?
— Teria… se eu, de fato, estivesse nervoso.
Ela sorriu de modo nada sincero.
— Acho que já está na hora de irem — ela comentou, apontando para o ônibus. Contive um suspiro de alívio. Ela manteve o sorriso em seu rosto enquanto pegávamos as nossas respectivas mochilas. — Façam uma boa viagem, crianças.
— Obrigada — respondeu Bia em nome do grupo. Sali abraçou a mãe antes de finalmente seguirmos para o ônibus.
Para não levantarmos mais suspeitas, Sali se sentou ao lado de Bia e eu ao lado de Lipe. O amigo que Rafa tinha feito semanas antes estava naquele ônibus, portanto os dois dividiram o banco. Meu coração ainda estava acelerado; e permaneceu assim até sairmos da cidade, quando Sali e Lipe finalmente trocaram de lugar.
— Agora você já pode respirar — Lipe murmurou antes que Sali ocupasse seu lugar. Ele tinha ficado o pequeno trajeto em silêncio.
— Não tenho tanta certeza — murmurei, me reconfortando com o familiar perfume doce de Sali assim que ela se sentou ao meu lado. Lipe me lançou um olhar de lamento antes de seguir para o lugar onde Bia estava sentada. Entrelacei minha mão à de Sali. — Quanto tempo nós ainda temos? — sussurrei.
Ela fechou seus olhos e se abraçou a mim, apoiando a cabeça em meu ombro.
— Acho melhor aproveitarmos esse final de semana, Guto — ela balbuciou. — Porque não sei o que ela vai fazer agora. Sabe… a minha mãe só quer o melhor para mim. E ela não vai entender esse sentimento. Ela não vai entender que…
— Como ela não vai entender esse sentimento se quer o melhor para você? — murmurei, erguendo seu rosto pelo queixo. — Hein, Sali? Ela deveria ao menos tentar — meu tom de voz estava frustrado.
— Esse não é exatamente o melhor que ela imagina, Guto — um sorriso forçado tomou conta de seus lábios. — Ela não consegue entender tudo isso — ela apertou nossas mãos e desviou o olhar. — Me desculpa por você ter sido submetido a isso, aliás.
Fechei meus olhos.
— Não, Sali, eu é que te convenci a fazer isso. E ainda fiquei nervoso na hora mais importante e nos entreguei…
Senti sua mão fria em minha bochecha. Ela acariciou meu rosto suavemente, fazendo eu me sentir em casa. Fazendo eu me esquecer da angústia que tomava conta de meu coração lentamente.
— Guto, olhe para mim — sua voz foi apenas um sussurro.
Abri meus olhos. Ela sorria delicadamente.
— Eu quis vir, ok? Não podia perder a oportunidade de mais um final de semana incrível ao seu lado — ela suspirou. — E eu sabia que corríamos o risco de sermos descobertos. Mas, você sabe, nós sempre corremos esse risco. E eu sempre adorei a adrenalina dele — ela estreitou seus olhos, deixando que as lágrimas recentes brilhassem diante da luz. Seus olhos pareciam cristalizados. — E, se quer saber, eu achei lindo você ter ficado nervoso. Significa que você se importa.
Tirei sua mão delicadamente de meu rosto e apoiei minha cabeça na sua, abraçando seu corpo de modo gentil. A angústia se esvaía aos poucos. Eu ainda tinha Sali. Naquele momento, eu a tinha perto de mim, aquecendo meu corpo e meu coração. Colorindo a minha vida. E não podia fazer nada além de aproveitar cada segundo que tinha ao seu lado.
— É claro que me importo — sussurrei.
— Então nós passaremos por isso — ela concluiu. — Com mais dificuldades para encontros, obviamente, mas com a mesma intensidade de sentimentos. Alguma hora ela descobriria de qualquer forma. E, bem… tecnicamente ela não descobriu nada. Apenas desconfiou.
— Mas é o suficiente?
— Infelizmente, é.
Suspirei e inalei o cheiro doce de seus cabelos.
— Então vamos fazer desse final de semana o melhor de nossas vidas — murmurei, entrelaçando nossas mãos novamente.
— Vamos fazer desse final de semana o melhor até que o próximo chegue. Ainda não acabou, Guto — ela se afastou um pouco e me olhou nos olhos. — Vamos esperar até domingo para ver o que vai acontecer.
— Eu sei que não acabou, Sali. E não pretendo que acabe tão cedo — sorri. — Mas, enquanto domingo não chega, nós devemos aproveitar. Com tudo o que temos.
— Nós vamos aproveitar com tudo o que somos. Com tudo o que podemos ser.
— E nós podemos ser invencíveis…
— E nós podemos ter tudo.
E nós vamos ter o mundo.
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