Juntos pelo acaso
3 Encontrando
Notas iniciais
Não foi tão difícil encontrar a “garota misteriosa”. Tendo todos os nomes de meninas — ou mulheres — que emprestaram os livros naquele dia, encontrar a pessoa certa por meio do Facebook não foi complicado. Eu só precisei stalkear*.
Dividi os nomes das pessoas em grupos alternados de acordo com as informações que retirei dos perfis delas. Analisei-os calmamente e tentei encontrar qualquer coisa que indicasse qual tinha sido a garota dona daquelas palavras, mas no final ela era bem óbvia.
Postam muitas fotos: Naomi; Aline.
São mulheres mais velhas: Rita; Manuela.
Escrevem errado: Sofia; Camila.
Não tem Facebook: Mariele; Lara.
A garota misteriosa: Sabrina.
Sabrina Connor. Era esse o seu nome. Seu Facebook não tinha muitas publicações; mas as poucas que tinham eram relacionadas a livros ou a textos seus. Ela era a garota certa. Eu tinha completa certeza daquilo.
E eu queria contatá-la. Queria conversar com ela, explicar que encontrei seu texto, pedir mais textos, pedir mais de suas ideias geniais, perguntar se ela seguia seus próprios conselhos. Queria me tornar seu amigo e tê-la ao meu lado me aconselhando. Queria também perguntar por que ela tinha deixado aquela carta no meio da biblioteca. Tinha tantas dúvidas.
Mas como conversar com ela?
Ela não deveria ser do tipo que respondia qualquer “oi” dito por algum rapaz estranho. Parecia reservada a julgar pela quantidade pacata de publicações e acharia engraçado, no mínimo, um rapaz que nem a conhecia chegar com um “oi” cru. Talvez se chegasse com um “oi, tudo bem?” ela pudesse responder. No entanto, não queria testar.
Enviei-lhe um convite de amizade e abri o chat. Sabia que havia uma forma garantida de chamar sua atenção e de fazê-la aceitar o meu convite. Ela tinha que saber quem eu era e com quem estava lidando.
Gustavo Clegg: Encontrei a sua carta na biblioteca.
Como o previsto, ela não respondeu imediatamente. Talvez tenha surgido duas ou três horas depois; talvez tenha estado muito ocupada ou talvez tenha demorado esse tempo para pensar em uma resposta, sem ter chegado a nenhuma conclusão. Ela poderia ser daquele tipo de garotas que ignoram… Mas ela apareceu. Sem nenhuma desculpa para o motivo da demora — compreensível, visto que eu era um total estranho. Logo depois de ter aceitado o meu convite de amizade chegou a sua mensagem.
Sabrina Connor: Como assim?
E se não fosse ela? E se a garota que tivesse escrito aquilo simplesmente não tenha emprestado nenhum livro na biblioteca naquele dia?
Gustavo Clegg: Aquela carta sobre descomplicar a vida. Foi você que a escreveu?
Dois minutos…
Sabrina Connor: Por que quer saber?
Ela estava na defensiva; isso significava que ela tinha mesmo escrito aquilo e queria saber urgentemente por que eu a procurava. Teria que lhe explicar.
Gustavo Clegg: Eu gostei dela. Gostei da ideia e quero aplicar todos aqueles conselhos na minha vida. Queria saber quem tinha escrito.
Sabrina Connor: Fui eu mesma. Obrigada por ter gostado do texto!
A formalidade da conversa estava me incomodando, apesar de ser compreensível. Ela não deveria ser uma pessoa tão chegada a escrever errado, nem que fosse na internet, assim como eu. Ela era escritora e, provavelmente, não quereria pecar na escrita por descuido.
Gustavo Clegg: Eu gostei mesmo. Tipo, quero aplicar tudo na minha vida, desatar todos os nós e tal.
Sabrina Connor: Isso é bem legal! Nunca imaginei que quem encontrasse fosse me procurar hahahaha. Aliás, como me achou se a carta era anônima?
Gustavo Clegg: Segredo…
Sabrina Connor: Ah, não me venha com essa!
Gustavo Clegg: Algum dia eu te conto, talvez hahahahaha.
Sabrina Connor: ¬¬
Gustavo Clegg: Hahahahaha. Tô brincando! Não tanto… hahahahaha.
Sabrina Connor: *respirando fundo*.
Gustavo Clegg: Hahahahaha.
Sabrina Connor: Você tá com o meu texto, então?
Gustavo Clegg: Aham.
Sabrina Connor: Eu esqueci de passar ele pro computador, argh! ;-; Eu meio que precisava do papel porque eu gostei do texto e tal…
Três minutos…
Gustavo Clegg: Quer que eu te devolva o papel? Quer me ver pessoalmente?
Sabrina Connor: Sim! Não… hahahaha. Mentira, acho que é meio recente te ver (logo depois da nossa primeira conversa). Quero dizer, eu nem te conheço. Vai que você é um pedófilo assassino hahahaha. Enfim, acho que eu só queria que você digitasse o texto pra mim :(
Gustavo Clegg: A gente nem se conhece e já tá me dando serviço? Hahahaha.
Sabrina Connor: Tá bom. Esquece.
Gustavo Clegg: Não! Eu vou digitar e te mandar. Tá?
Sabrina Connor: Se não quiser…
Gustavo Clegg: Eu vou digitar.
Pegar no papel e sentir todas as emoções novamente foi confortador. Percorrer aquelas linhas com os olhos e escrever as mesmas palavras, senti-las em minhas mãos como se saíssem diretamente delas era emocionante. Lembrava-me do filme As Palavras. Não pude deixar de sorrir ironicamente ao me lembrar de todos os acontecimentos da história, quando um escritor se sentiu tão arrebatado por encontrar palavras perdidas que teve que escrevê-las e, por fim, publicou-as como se fossem suas. Mas eu não era um aspirante a escritor. Eu era um leitor fiel, que gostava de assistir filmes e tinha paixões não correspondidas. E não roubaria as palavras de Sabrina.
Gustavo Clegg: Já assistiu As Palavras? Tô me sentindo como o Rory do filme hahahahaha. Vou roubar as suas palavras e publicar como minhas hahahaha.
Sabrina Connor: Nem tente! Hahahaha. Não ia funcionar como no filme. Você não ia ficar famoso de jeito nenhum!
Gustavo Clegg: Quem sabe eu não tenho mais sorte… hahahahaha.
Sabrina Connor: Vá nessa… hahahahaha.
Dois minutos…
Gustavo Clegg: Sabe o que o seu nome me lembra?
Sabrina Connor: Diga.
Gustavo Clegg: Salina hahahahaha. Vou começar a te chamar de Sali, tudo bem? Hahahaha.
Sabrina Connor: Não me chame de Sali! Hahahaha. Tá acabando com o meu nome! Hahahahaha.
Gustavo Clegg: Aprimorando hahahaha. De qualquer jeito, é mais fácil falar Sali do que Sabri hahahaha.
Sabrina Connor: E quando acha que vai falar meu nome? u.u
Gustavo Clegg: Qualquer dia desses que você pare de pensar que eu sou um pedófilo assassino e me dê um voto de confiança para nos vermos pessoalmente u.u
Sabrina Connor: Talvez demore…
Gustavo Clegg: Eu sei esperar ;)
Ela não falou comigo até eu terminar de digitar o seu texto e mandá-lo para ela.
Gustavo Clegg: Vai postar no seu blog?
Sabrina Connor: Você realmente me stalkeou?
Gustavo Clegg: Não se responde uma pergunta com outra hahahaha.
Sabrina Connor: Não vou postar esse… acho ele muito pessoal.
Gustavo Clegg: Ia atingir alguém?
Sabrina Connor: Talvez… hahahahaha. Obrigada por ter digitado o texto :3
Gustavo Clegg: Quando precisar tô aqui ;)
Sabrina Connor: Eu tenho que ir agora.
Gustavo Clegg: Posso falar com você amanhã?
Sabrina Connor: Pode sim :3
Gustavo Clegg: Não quer me passar o seu número? É que é mais fácil de a gente conseguir conversar em horas aleatórias e tal…
Sabrina Connor: Ainda não hahahaha. Não quero ser encontrada, por enquanto.
Não queria ser encontrada? Aquele foi um corte meio cruel.
Gustavo Clegg: Tudo bem então, Sali (hahahaha). Até amanhã :*
Sabrina Connor: Até :3
Depois de falar com ela fui buscar o meu irmão na escola. Eu tinha um irmão chamado Rafael que era dez anos mais novo que eu e ficávamos sozinhos a maior parte do tempo. Meus pais eram separados e eu vivia com a minha mãe, apesar de visitar meu pai aos fins de semana. Algumas vezes Rafael ia sozinho, mas eu gostava de acompanhá-lo.
A minha mãe era enfermeira e trabalhava no turno da tarde e da noite quando não estava de plantão. Ela tentou conseguir um emprego nesses turnos porque eu estudava de manhã e Rafael não poderia ficar sozinho (quando ela estava de plantão, o trancávamos dentro de casa até eu chegar da escola. Ele costumava assistir a desenhos e fazer tarefas, tentando distrair-se ao máximo. A ordem era: não atenda ninguém, não importa o que aconteça, e ignore qualquer chamada de telefone. Funcionava bem). Ele estudava à tarde — o momento livre do meu dia, quando eu podia fazer tarefas e ler meus livros — e durante a noite eu lhe fazia companhia. Era uma rotina que já tinha dois anos e que, sinceramente, não me incomodava. Provavelmente já estava tão acostumado que mal pensava sobre o assunto.
— Oi, Guto! — disse Rafael, parando ao meu lado.
Eu era alto e magro. Com 1,80 de altura mal distribuídos, era engraçado ver-me diante de um bando de crianças pequenas que me olhavam admiradas. Os amigos de Rafael gostavam de mim e me falavam constantemente que queriam ser como eu quando crescessem. Não conseguia entender o por quê.
— E aí, Rafa — baguncei seu cabelo, fazendo-o me lançar uma careta engraçada.
— Cadê a sua namorada? — perguntou um dos amigos do Rafa que eu não conseguia recordar o nome. — Ela não vem mais…
Eles também gostavam de Laura, que às vezes vinha junto comigo. Achavam divertido o seu cabelo colorido e também falavam que queriam arranjar uma namorada como ela quando começassem a gostar de meninas, o que soava muito engraçado para mim. Até os nove anos os meninos só pensam praticamente em acabar com a vida das garotas. Mal sabem eles após essa idade são elas que destroem as nossas vidas…
A menção à Laura fez as minhas pernas bambearem. Eu sabia que com o tempo a sensação de vazio tendia a piorar — provavelmente ainda não tinha percebido direito que ela nunca mais faria parte de minha vida —, mas naquele momento já foi ruim o suficiente. Obrigar as palavras a saírem de minha boca foi um processo doloroso.
— Nós terminamos — respondi como se eu não me importasse. Tentei fingir indiferença, mesmo sabendo que aquelas crianças não entenderiam aquela dor. Eu precisava começar a fingir para praticar porque, desse modo, quando todas aquelas pessoas que sabiam o que eu sentia viessem me procurar eu poderia falar que não fazia diferença. Precisava treinar até que a mentira se tornasse verdade. Até que eu realmente deixasse de me importar.
Houve um coro de tristeza muito bem ensaiado entre todos aqueles meninos. Rafa me olhava de maneira curiosa. Ele sabia que Laura e eu não estávamos mais juntos havia alguns dias — era basicamente o meu melhor amigo e, mesmo que não entendesse alguns sentimentos, eu costumava desabafar com ele — e parecia tentar analisar a minha expressão. Dei de ombros e forcei um sorriso.
— Tô com fome — ele reclamou, por fim.
— Então vamos — disse empurrando os seus ombros e acenando para todos aqueles meninos que me olhavam de maneira admirada. Não conseguia imaginar um motivo plausível para ser admirado por um bando de crianças sete anos, mas sabia que era real. E eu ficava feliz com aquilo.
.
— Eu adoro seu ovo mexido — disse Rafa com a boca cheia de comida.
— Não fale com a boca cheia, seu mal educado — joguei um pano de enxugar louça nele. Seu rosto infantil se retorceu em uma careta. — Só quero te ensinar a ter bons modos — dei de ombros.
— Você não parece muito educado jogando coisas em mim — ele me provocou.
— Ah, é, pestinha?
— É sim.
— Então… não siga o meu exemplo.
Ele riu antes de continuar comendo. Rafa era muito parecido comigo, apesar de ser várias vezes menor do que eu. Ele sempre se inspirava em mim e tentava ter o mesmo gosto, tanto para jogos quanto para gibis ou músicas. Imaginei que eu fosse algum tipo de ícone para ele, visto que nosso pai não vivia com a gente. Tinha que dar o meu melhor para ele ter alguém a quem seguir.
— Guto… — ele me chamou, remexendo na comida em seu prato.
— Sim?
— Hoje, quando você falou da Laura, ficou tão triste. É estranho. Ela não era da família. Por que você ficou tão triste por se separar dela?
A sua lógica infantil fez o meu coração se apertar. Na sua mente, apenas dentro de famílias que haviam sentimentos fortes e reais. Ela ainda não entendia que haviam intrusos em nossas vidas.
Então, como explicar para ele que as pessoas não tinham que ser da família para nos entristecer? Como explicar para ele que os nossos pais não eram da mesma família, apenas tinham construído uma, e por isso o divórcio tinha sido tão doloroso? Como fazê-lo entender que as pessoas entravam nas nossas vidas, roubavam tudo o que tínhamos e depois iam embora sem devolver aquilo? Como explicar que Laura significava muito para mim?
— É complicado, Rafa — resmunguei. — Ela não era da família, mas importava muito, sabe? Mais do que você pode imaginar… E ela partiu. Você não fica triste quando diz tchau pro nosso pai no fim dos nossos finais de semana?
— Sim.
— É a mesma sensação, só que eu nunca mais vou poder ficar com ela.
— Por que não?
Exatamente, por que não?
— Porque chegamos a um ponto que só existem mágoas e ressentimentos e qualquer pequena faísca de alegria se esvai tão rapidamente quanto o vento — achei que fosse uma forma razoável de ele entender. Como lhe explicar que as pessoas eram capazes de trair tão cruelmente?
Rafa ficou em silêncio. Pensei que fosse o silêncio de quem não tem o que dizer depois de alguma frase dolorosa, mas ele me surpreendeu quando finalmente tomou coragem de falar.
— Eu não entendi direito o que você disse — ele pareceu envergonhado ao desviar o olhar. — Desculpe.
Ele não tinha conseguido entender aquela metáfora. Como ele entenderia? Ele não conhecia aquele sentimento esmagador e provavelmente a ordem que a frase foi construída a deixou confusa. E ele parecia tão envergonhado!
— Ei — chamei-o. — Não precisa se desculpar!
— É que eu só queria falar bonito assim…
Levantei-me de minha cadeira e me ajoelhei ao seu lado.
— Escuta, Rafa — murmurei. — Você vai falar mais bonito que isso. Muito mais. É só questão de tempo… e de leitura. E não é vergonha não entender. Sempre pergunte. Tenha isso em mente: qualquer dúvida, pergunte. Sempre. Ninguém nasce sabendo tudo. Sempre tem um jeito de explicar.
— Então me explique o que você disse — ele resmungou, ainda cabisbaixo.
— Sabe quando você se machuca? — ele assentiu fracamente. — É isso. A Laura e eu nos machucamos demais e agora só existem cicatrizes que nos atrapalham. Não dá para voltar atrás, simplesmente.
— E por que vocês não passam um remédio e fazem curativo? Na hora vai arder, mas depois passa. Eu odeio quando a mãe passa remédio nos meus machucados, mas depois eles ficam bem melhores e param de doer.
Na hora vai arder, mas depois passa. Ele não sabia o quanto tinha sido inteligente dizendo aquelas palavras.
— Sempre vai ter a cicatriz para ser lembrada.
— O pai e a mãe têm cicatrizes? É por isso que eles não vão mais ficar juntos?
Sem conseguir aguentar todo o turbilhão de sentimentos que se agitavam dentro de mim, abracei-o bem forte. Algumas lágrimas se alojaram em meus olhos. Rafa, tão pequeno, sendo apresentado às piores dores emocionais. Não sentindo-as especificamente, mas presenciando-as de perto.
— Sim. É por isso. Mas eles são muito felizes, viu? Eles têm a nós…
Ficamos abraçados em silêncio por um longo tempo. Ele não se mexia nos meus braços.
— Eu não lembro direito de ver os dois juntos — ele cochichou. — Eu acho que só me lembro de como eles ficaram depois. Acha que eles vão voltar?
— Eles não vão voltar — esclareci, soltando-o. — E algum dia, provavelmente, encontrarão outras pessoas e se casarão de novo. E o que importa é que eles ficarão satisfeitos, certo?
— Certo.
Ele era um garoto inteligente. Quando eu tinha a sua idade a nossa mãe ainda não era enfermeira e ficava integralmente comigo, sem contar com o fato de que ela ainda era feliz com o nosso pai. Eu não precisava enfrentar nada daquilo e me tornei uma pessoa fraca. Pelo menos Rafa aprenderia a ser forte desde pequeno e saberia que a vida não é nenhum tipo de conto de fadas.
Respirei fundo e forcei o meu melhor sorriso.
— O que acha de lavarmos essa louça e depois ler?
— Eu quero jogar videogame… — ele fez uma careta de tristeza.
— Mas não quer falar bonito? Amanhã a gente joga.
— Guto…
— Rafa… — imitei, segurando em sua camiseta e balançando-o. — Ler?
— Jogar.
— Que bom que nós vamos ler!
Ele revirou os olhos e bufou.
— Ah, qual é! Você ama aqueles gibis — comentei enquanto colocava a louça na pia. — Não quer saber sobre o Chico Bento?
— Você devia trocar as histórias — ele reclamou. — Os meus amigos só leem gibis de super-heróis…
Interrompi-me em um passo.
— Então é por isso — concluí com um sorriso. — A gente pode ler gibis de super-heróis. E então você vai querer ser o Super Homem, ou o Homem Aranha, ou o Capitão América. Mas se você não gostar e quiser voltar a se divertir com o Chico Bento, então não faz mal o que os seus amigos vão pensar, tudo bem?
— Guto… mas como que eu vou aprender a falar certo se o Chico fala errado?
— Fale diferente dele, ué — exclamei. — Eu adorava ler gibis do Chico Bento, eram os únicos que eu conseguia ler. Eu simplesmente… não seguia o exemplo. Mas, se quiser, eu tenho vários livros que tem a escrita certa. Você quer tentar ler eles?
Ele assentiu.
— Eu quero falar bonito. Muito bonito — ele sorriu abertamente. — Você lê aquilo que os teus amigos leem?
Os meus amigos não leem.
— Eu leio aquilo que eu leio. Só o que eu gosto. E a opinião dos outros… continua sendo dos outros. E isso não vai mudar o que eu penso.
Ele sorriu e eu estiquei a minha mão para ele, que bateu nela alegremente.
— Agora vamos terminar isso rápido. Você não vai querer perder o que o Chico aprontou. Se ainda quiser ler sobre ele, é claro…
— A gente pode ler um com a escrita certa e depois um do Chico. Porque eu amo ele!
— Tudo bem…
Admirei-me com a força de vontade do Rafa. Quando eu tinha a sua idade mal cogitava a hipótese de ler algo além de gibis do Chico Bento e o meu objetivo de vida certamente não era falar bonito. Mas eu gostava que esse fosse o objetivo do meu irmão. E gostava desses momentos que eu compartilhava com ele, porque assim não tinha tempo de ficar pensando sobre Laura e o fato de que eu havia a perdido e me magoado nessa brincadeira.
Não ter tempo para pensar. Esse era o segredo.
Mas isso não significava que eu estava livre dos meus tormentos na hora de dormir.
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