Notas iniciais
Olá! Como prometi, aqui está um novo capítulo. Espero que se apaixonem cada vez mais pelo nosso Gustavo! Boa leitura :*

— Gustavo?! — exclamou a mãe de Laura ao me ver em frente a casa dela.

— Oi — dei o menor dos meus sorrisos. — Laura está?

Sua mãe aparentava desconforto. Suas mãos se mexiam constantemente e ela tentava descobrir apenas com um olhar o que eu fazia em sua casa. Achava que eu bateria em sua filha ou o quê?

— Eu vou… conferir — ela agitou as mãos nervosamente antes de correr para dentro de casa.

Ela ia conferir se Laura estava? Com certeza ela ia conferir se sua filha ia querer me receber. Na última vez saí tão raivoso que deixei-a apavorada e com medo de que eu arrancasse fora um braço de sua filha. Se fosse para fazer isso, teria feito no dia que tinha descoberto a verdade.

Respirei fundo impacientemente.

— Laura está no banho e provavelmente demorará — a mulher começou a falar antes mesmo de aparecer no portão. — Por que não volta outro dia?

Ela parecia bem mais animada e tranquila tendo uma desculpa para me expulsar de sua casa. No entanto, eu sabia que merecia uma explicação de sua filha e não sairia de lá antes de resolver a minha vida. “Hoje preferencialmente”. A frase ainda martelava incessantemente em minha mente.

— Eu posso esperá-la — tentei esconder meu sorriso presunçoso quando a mulher franziu o cenho.

— Tem certeza? — sua voz estava mais rude e fria.

— Tenho.

Ela abriu o portão e me deu espaço para entrar. Sua cara estava fechada em uma carranca irritada por eu ter enfrentado sua ordem implícita de deixar aquele lugar e nunca mais voltar. Mas eu não era do tipo preso a convenções e não fazia aquilo que não tinha vontade. E a minha vontade maior naquele dia era falar com Laura e esclarecer todas as minhas dúvidas.

— Posso esperá-la no quarto? — perguntei por cima do ombro.

A mulher respirou fundo ruidosamente.

— Vá.

Entrar naquele quarto era atormentador. Costumávamos passar dias inteiros nele assistindo a filmes, jogando conversa fora e nos beijando. Eu costumava gostar daquele lugar, mas ele tinha se tornado apenas destruído em memórias de um tempo que não tornaria a existir.

Esperei-a sentado na cama. Quando ela entrou no quarto estava com uma camiseta branca manchada com várias cores. Ela costumava pintar muito o cabelo e, quando saía com ele pingando do banho, colocava aquela camiseta que já estava manchada. A cor da vez era laranja.

Ela arquejou e deixou a toalha que segurava cair no chão quando me viu. Seus olhos estavam tão esbugalhados que parecia que iam saltar do rosto. A minha presença deveria ser perturbadora.

— Gustavo? — ela disse quando recuperou a voz e se agachou rapidamente para recolher a toalha no chão. Ela odiava que eu a visse sem maquiagem e com roupas desleixadas. Odiava que eu a visse com o cabelo desgrenhado. Odiava que eu a visse como ela era. — O que está fazendo aqui?

Desviei o olhar.

— Vim conversar.

— Não temos o que conversar.

Ela ficava igual sua mãe quando estava nervosa. Seus dedos se retorciam e ela se agitava. Laura não era garota que ficava nervosa ou envergonhada e isso me desestabilizou por alguns segundos; somente alguns segundos, porque logo eu estava firme novamente em minha decisão.

— Nós temos bastante o que conversar, Laura, e você sabe disso.

Ela não me encarava. Encarava o chão, em vez disso, com uma determinação assustadora. Ela não me olhava. Eu queria que olhasse, queria desvendá-la, queria entendê-la. Laura não se deixava ser descoberta.

— O que quer saber? — ela murmurou.

Analisei-a por alguns segundos.

— Por quê? — minha voz não passava de um sussurro.

Ela respirou fundo.

— Eu sempre tinha sido apaixonada por Edgar — ela começou sem parar de retorcer suas mãos. — E quando surgiu a oportunidade…

— Por que ficou comigo então?

Ela levantou seu olhar e me encarou firmemente, dando-me a oportunidade para desvendá-la. Daquela vez, porém, eu não tinha forças para isso. Não tinha forças para tentar descobrir o que ela pensava. Não tinha forças para nada.

— Porque eu queria deixá-lo com ciúmes.

Nunca pensei que a verdade crua daquela forma pudesse machucar tanto. Então ela nunca tinha sentido absolutamente nada por mim e eu era apenas mais uma… peça em seus jogos? Fazer ciúmes. Eu poderia lidar com qualquer coisa, menos com isso.

— Você significava muito para mim — murmurei. — É tão injusto…

— A vida não é justa.

— Isso não é justificativa — protestei. — A vida não ser justa não é desculpa para você magoar quem quiser!

Ela respirou fundo e se aproximou de mim.

— Eu sempre gostei dele, tá legal? E o meu coração não conseguiu se controlar naquele dia. Eu sabia que não era justo, mas o meu coração não sabia de nada. Essa coisa que tem no meu peito é idiota por gostar de alguém que não gosta de mim. E eu sei. Acredite, eu sei. E acha que eu posso fazer alguma coisa em relação a isso?

— Eu sei, também, que não dá para controlar esses sentimentos malditos pelas pessoas erradas — exclamei. — Mas dá pra controlar algumas atitudes e você podia ter controlado a atitude de ficar comigo. E não tem nada a ver com o coração nesse caso.

Ela ficou de costas para mim, dando-me a visão de um pingo de água laranja se infiltrando em sua camiseta branca.

— Você não sabe nada sobre desespero. E não sabe nada sobre estar apaixonado por uma pessoa e querer desesperadamente tê-la ao seu lado. Você está me julgando sem saber.

— Eu sei sobre o desespero — minha voz estava rouca. — E sei sobre o que é se apaixonar pela pessoa errada. Também sei… como é quando você fica com essa pessoa. Mas você não pode magoar alguém completamente aleatório só por causa…

— Não dá para pensar coerentemente — sua voz foi um muxoxo.

Respirei fundo e fechei minhas mãos em punhos.

— Eu já te magoei?

— O quê?

— Eu já te magoei?

Ela olhou-me por sobre os ombros. Algumas acnes se destacavam em sua bochecha desprovida dos quilos de maquiagem que ela sempre usava. Eu gostava de vê-la como ela era; era linda.

— Não. Por quê?

— Porque eu sempre gostei de você — dei de ombros. — Desde… eu nem sei. Faz tanto tempo que eu não consigo nem imaginar. Mas você nunca gostou de mim, então nada que eu fizesse a afetava. Se ele não gostava de você, o fato de você ter ficado comigo não ia atingi-lo. No mínimo ele acharia legal que você tinha desgrudado do pé dele — encarei o chão. — A única pessoa que saiu magoada nessa história fui eu. Porque três meses significam mais do que você pode imaginar.

— Três minutos também — ela murmurou.

— Sério? Foi esse o tempo que ele ficou com você?

Ela deu de ombros.

— Deve ter sido. Ele não é do tipo que fica a festa toda com uma só pessoa.

Encarei-a, mas ela olhava o chão. Ela não gostava que eu desvendasse a sua fraqueza; somente me olhava quando estava firme em sua decisão e sabia que não vacilaria.

— Você deveria encontrar alguém melhor — o meu desejo era sincero, mesmo que meu coração se apertasse ao proferir aquelas palavras. Eu não costumava ser tão altruísta e aquilo estava me destruindo. Ela estava me destruindo. E eu precisava tirá-la de minha vida antes que fizesse um estrago ainda maior.

— Eu já encontrei — ela sussurrou e fechou os olhos. — Mas perdi.

Mais uma pontada dolorida no meu coração. Ela continuava me destruindo. Ela nunca pararia.

— Não ia ser a mesma coisa… — se eu pensava que doía falar que ela deveria encontrar alguém melhor, então eu não conhecia a verdadeira dor. Curvei-me como se tivesse levado uma facada por minhas próprias palavras. Masoquista, além de tudo?

Idiota, além de tudo.

— Eu sei — ela me encarou firmemente. — E não estou pedindo. Já entendi que as coisas nunca voltam a ser as mesmas depois de algum acontecimento importante. E a única coisa que posso pedir para você é… Me esquece, tá legal? Eu já te magoei o suficiente.

Minha garganta se fechou. Deus do céu, como eu a amava! E, mesmo assim, não conseguiria ficar com ela. Não sabendo de seus sentimentos por outro cara, não sabendo que ela me usaria para esquecê-lo. Eu queria, do fundo do meu coração, que ela fosse feliz e que começasse a se valorizar. No entanto, não suportaria fazê-la feliz. O fantasma de Edgar estaria sempre entre nossas conversas, entre nossos beijos, entre nossos abraços. E eu não queria um fantasma atrapalhando a minha vida.

Não era tão autodestrutivo apenas por um amor não correspondido. Eu precisava me recuperar dela.

— Perdão — ela sussurrou. Nunca pensei que eu fosse ver Laura, a forte e orgulhosa Laura, pedindo perdão a alguém. Ela parecia sem forças por alguns instantes. Eu sabia que no minuto seguinte ela já estaria com a postura ereta e com o olhar firme, mas por alguns segundos ela me mostrou a sua vulnerabilidade e me pediu perdão.

Isso deveria contar para alguma coisa. Fazê-la deixar cair suas defesas e pedir perdão era um passo muito maior do que eu poderia ter imaginado dar. O que eu poderia fazer senão tentar?

“Hoje preferencialmente”.

— Vou tentar — sussurrei também. — Vou tentar hoje. E amanhã também. E algum dia eu vou conseguir.

Ela assentiu sem me olhar. Queria abraçá-la, beijá-la, dizer-lhe para esquecer tudo. Queria dizer que tudo daria certo se tentássemos com bastante afinco, mesmo sabendo que não daria. Mesmo sabendo que ela nunca me amaria como eu talvez a amasse. Mesmo sabendo que… não era certo ou sadio.

Eu não podia.

— Espero que… — as palavras se engasgaram em minha garganta. — Tomara que ame um cara que te ache linda sem maquiagem, com cabelo natural e com qualquer roupa. Porque você é linda assim. Acredite em mim.

Eu deveria ser mesmo um idiota por ter dito isso. Mas eu precisava que ela confiasse em si mesma e tentasse conquistar os caras com sua beleza natural, não com quilos de maquiagem. Precisava dizer o que estava preso em minha garganta durante três meses — até tinha tentado dizer de formas discretas, mas aparentemente nada funcionou — e mostrar para ela que eu realmente estava tentando perdoá-la.

Precisava limpar o caminho e não deixar nenhum entulho para me atrapalhar. E aquela era uma das coisas que eu não poderia deixar de dizer, que eu precisava que ela soubesse. Era uma das coisas que precisava falar — não somente guardar em pensamentos.

E então não restava mais nada.

Ela não me olhou quando eu saí do seu quarto em passos arrastados; e enquanto eu estava parado esperando por alguma reação ela não olhava para mim, e sim através de mim. Laura enxergava um horizonte bem mais ao longe e sabia que chegaria lá. Ela sempre ia mais longe do que qualquer ser humano pensava que tinha a capacidade de ir. Sua mãe também não me disse “tchau” quando eu passei do portão para fora. Não houve nenhuma reação. Nada. Nada que me prendesse ao passado. Nada que me dissesse para voltar. Talvez fosse melhor assim; talvez esse fosse o único jeito de seguir em frente.

Mas Deus sabe como eu queria que Laura tivesse corrido atrás de mim e tivesse falado para a gente tentar. Tivesse falado que a gente conseguiria, não importava quais fossem as circunstâncias. Tivesse falado que aprenderia a me amar de alguma forma e a respirar o mesmo ar que eu. Talvez não desse certo, no entanto nós teríamos tentado.

Só que não houve nada.

E é essa a parte que eu deveria chorar e ir correndo para o colo de minha mãe. Sabia que não faria isso; nunca tinha feito, por que agora? A tristeza me consumia e me deteriorava, mas era passageira. “Porque as coisas passam; tanto boas quanto ruins”. Aquilo passaria algum dia. Sempre passava.

E então seria o nosso definitivo fim. A nossa última página de superação. A partir daquele dia, comecei a contar as horas para isso acontecer.

Notas finais
E entããããão? O que acharam? Podem me dizer suas sinceras opiniões sobre essa história. Até sexta :* :*