Notas iniciais
Olá! Tudo bem com vocês? Mais uma sexta-feira, mais um capítulo! Espero que gostem, meus amores ♥

SALI

Aquele poderia ser um começo de novembro normal, caso eu não tivesse acordado com febre e com uma dor de cabeça excruciante. Uma febre esquisita e sem sentido; apesar de estar quente, eu não tinha feito nada que pudesse me deixar gripada. Com um suspiro desistente, disse a minha mãe que não iria à escola naquele dia e que queria dormir mais um pouco. Ela concordou sem resistência.

Estava quase pegando no sono novamente quando ouvi a porta de meu quarto se abrindo bruscamente. Com um suspiro irritado, abri os olhos e encontrei minha mãe me encarando furiosa. Mesmo com a mente sonolenta, consegui assimilar o óbvio. Meus olhos voaram para as suas mãos imediatamente e lá eu encontrei o motivo de sua fúria: uma carta. Uma carta de Guto.

Empalideci.

— Sabrina Connor, o que significa isso? — ela rosnou.

Sentei e me esqueci da febre imediatamente. Nada era maior que o meu medo. E agora, Guto? E agora?!

— Guto é o nome dele, então — ela falou com a voz trêmula, tentando transmitir calma. Começou a andar pelo meu quarto. — E eu confiei em você. Sabia que tinha algo errado, mas pensei que você fosse me contar. Um garoto, Sabrina. Francamente, um garoto! É sério isso?!

Estava apavorada. Meus olhos se encheram de lágrimas.

— Mãe… — tentei começar, mas a minha voz falhou e ela aproveitou disso um motivo para continuar falando.

— Nunca pensei que você fosse mentir para mim por causa de um menino qualquer.

— Não é qualquer! — exclamei. As lágrimas já escorriam por meu rosto e eu soluçava. — Não é qualquer menino! Eu… amo ele, mãe! Amo!

Ela soltou uma gargalhada sarcástica.

— Ama? — debochou. — Você acha isso, Sabrina. Vocês adolescentes sempre acham que conhecem o amor. Tão ingênuos… — ela suspirou. — Você deveria ter ouvido meu conselho e não se deixado enganar por esse garoto. Você tem tempo para achar o amor. Não coisa de moleque; amor de verdade, amor para casar…

— Chega! — gritei, levantando-me e ficando ao seu nível. Estava esgotada de tudo aquilo. — Por que você acha que os adultos sabem das coisas? Eles só são amargurados pelas desgraças que aconteceram a eles porque não souberam aproveitar o verdadeiro amor…

Ouvi o tapa antes de senti-lo. Cambaleei alguns passos e mal pude me recompor antes de ver o dedo em riste de minha mãe apontando em minha cara.

— Os adultos sabem das coisas porque eles já foram enganados e descobriram depois que esses namoricos adolescentes não valem a pena. Eles sabem das coisas.

Fechei meus olhos e deixei que lágrimas de profunda tristeza escorressem por minha face dolorida.

— Sinceramente? Eu prefiro não virar adulta, se é esse conhecimento que vou ganhar — falei com a voz baixa e me sentei em minha cama novamente.

A irritação de minha mãe, porém, ainda não tinha cedido. Ela desdobrou a carta e começou a lê-la.

— “Eu fui aprovado, Sali. Aprovado! Ano que vem vou poder cursar administração. Vi que você conseguiu passar também. Estudaremos juntos e nos veremos todos os dias, meu amor, isso não é incrível?” — ela interrompeu a leitura e me lançou um sorriso cheio de piedade. — Você realmente acredita nessa balela de cartas como num romance à moda antiga? Você está sendo iludida, Sabrina. Iludida! E eu tentei te alertar sobre isso antes. Esse garoto não gosta realmente de você…

— Por que não? — interrompi-a.

— Como?

— Por que ele não gosta de mim?

Ela franziu o cenho.

— Ora, porque os meninos de hoje em dia não gostam mais de ninguém…

— Não. Por que a senhora acha que ele não gosta de mim?

Percebi que tinha tirado as palavras de sua boca. Aproveitando seu momento de fraqueza, me levantei novamente para não ficar em desvantagem.

— Acha que alguém não pode gostar de mim de verdade? Acha que alguém não pode me amar e querer minha companhia? Eu sou tão detestável assim? — as palavras que saíam de minha boca doíam em meu peito. Acima de tudo porque eu via o olhar de minha mãe confirmando minhas suspeitas. — Eu sei que tem meninos que realmente não se importam. E foi por isso que esperei. Esperei até que aparecesse o menino que eu amasse e que me amasse. E, se quer saber, foi puro e gentil. Ele era apenas meu amigo que me entendia… e então o sentimento se expandiu. Pode suportar isso?

Vi a dúvida em seu olhar. Ela vacilou.

— Por que não consegue entender? Por que se priva tanto do amor verdadeiro?

— Não é verdadeiro! — ela gritou e segurou forte em meus ombros. — Não. É. Verdadeiro. Ele está te enganando e quero te mostrar isso! Você nunca faria coisas proibidas por um menino e ele te obrigou até a namorar escondido. Entende o absurdo de tudo isso, Sabrina? Entende?!

— Ele não me obrigou a nada — estreitei meus olhos. — Ele perguntou, porque é gentil e compreensivo, e eu aceitei. Porque era uma opção. E fui eu que escolhi levar isso adiante. Porque eu o amo — suspirei, sentindo novas lágrimas invadirem meus olhos. — E ele também me ama. Acha que não correu riscos? Ele correu sim. E cuidou de mim. Me abraçou. Me beijou. Prometeu que tudo ficaria bem.

— E ficou? — ela debochou.

— Vai ficar. Acha que pode impedir nosso amor de vencer?

Sua expressão enrijeceu e vi seus dedos se fechando em punho e esmagando a carta.

— Tudo pelo seu bem, Sabrina. Só pelo seu bem. E você passou por cima de mim como se eu não importasse nada…

— Eu não passei por cima de você por causa disso! — gemi de frustração. — Passei por cima de sua autoridade porque sabia que você não concordaria com o que estava acontecendo. Se eu te contasse, você proibiria de vez. E eu não conseguiria suportar isso.

Ela me encarou por um bom tempo antes de segurar em meu braço e me puxar para bem perto.

— Vai ter que suportar agora — disse com a voz baixa.

Em seguida, saiu de meu quarto e bateu a porta com força. Sentindo-me fraca e cansada, deixei-me cair em minha cama e peguei meu celular. Digitei uma mensagem breve para Guto com as mãos trêmulas: “Nada bom. Fomos descobertos. Estamos proibidos de nos ver. Eu te amo”.

Então, me deitei e chorei.

.

Na hora do almoço, minha mãe me chamou para que eu fosse comer. Recusei-me. Não por birra ou rebeldia, simplesmente porque não sentia fome. Parecia que uma eternidade tinha se passado desde a discussão; eu não tinha saído de minha cama desde então. Meu choro era inconstante. Ia embora, voltava.

Eu não queria mais chorar.

Não aguentava mais tudo aquilo.

Alguns minutos depois de ter me chamado para almoçar, minha mãe entrou no quarto. Segurava um telefone na mão.

— Nós vamos embora em um mês — disse com uma voz sem emoção. — Eu e seu pai já estamos desenvolvendo essa ideia faz algum tempo e íamos esperar para te contar quando terminasse o ensino médio, mas não posso mais esperar. Em um mês iremos para Ponta Grossa, onde você cursará Direito — estava sem reação para questionar a sua decisão. Tudo parecia muito distante naquele momento. Ela me estendeu o telefone que segurava. — Fale com seu “namorado” pela última vez. Diga que está indo embora em um mês e que ele não deve te procurar.

Encarei sua mão estendida com lágrimas nos olhos. Ir embora? Eles já planejavam ir embora sem que eu soubesse? E todos os planos que eu tinha feito com Guto, de quando iríamos para a faculdade e poderíamos nos ver todos os dias sem precisar ser escondido? E o que eu pensava?

— Por quê? — perguntei com a voz embargada.

Não estava mais com medo ou com raiva. Apenas triste. Uma tristeza imensa e profunda, que me consumia aos poucos.

Sem esperar que eu pegasse o telefone, ela o deixou sobre a minha cama e saiu do meu quarto em silêncio. Perguntei-me o que se passava em sua cabeça. Ela se importava pelo menos um pouco comigo?

Encarei o telefone por um bom tempo antes de pegá-lo e digitar com dedos trêmulos o número de Guto. Deitei-me em minha cama e fechei os olhos, esperando…

— Alô?

A sua voz estava tão suave que me perguntei se tudo não era apenas uma ilusão. Guto realmente existia?

As lágrimas voltaram a escorrer pelo meu rosto.

— Ah, Guto — solucei.

— Sali?! O que aconteceu, meu amor? — tão preocupado, tão atencioso.

— Não viu minha mensagem?

— Mensagem? Ah, eu não… — o telefone ficou mudo por alguns segundos. Imaginei que ele estivesse lendo as palavras que eu tinha escrito mais cedo. “Nada bom. Fomos descobertos. Estamos proibidos de nos ver. Eu te amo”. Quando voltou a falar, sua voz estava diferente. — O que isso significa, Sali?

Embargada. Sua voz estava embargada. Ele estava chorando?

— Significa exatamente o que você leu — sussurrei. — Guto… o que faremos agora?

— Sali — ele choramingou. — Ai, droga! Deveríamos ter sido mais cuidadosos…

— Não! Seríamos descobertos de qualquer forma. Eu só esperava que não fosse tão cedo.

— Como aconteceu?

Enquanto falássemos em termos práticos, seria mais fácil de lidar com a situação. Mas como seria quando eu contasse que estava partindo?

— Acordei mal. Com febre. Não quis me levantar da cama e… — comecei a soluçar, pensando no quão descuidada eu tinha sido. Era óbvio que minha mãe pegaria a correspondência no meu lugar. Era óbvio que descobriria. — E ela achou a sua carta.

Ouvi o seu suspiro de tristeza do outro lado da linha. Abri meus olhos e fitei o teto.

— Desculpa, Guto. Eu sei que foi tudo minha culpa e…

— Não foi! — ele me interrompeu. — Não foi culpa sua, Sali. Estamos juntos nessa. E você está certa. Seríamos descobertos de qualquer forma.

Apertei o telefone contra a minha orelha.

— Eu te amo tanto, Guto. Tanto que dói. E nós nem podemos mais ficar juntos…

— Claro que podemos! Daremos um jeito, Sali — ele tentou me tranquilizar, mas pude perceber o desespero em sua voz. Desespero de um menino apaixonado. — Nós daremos um jeito.

— Um mês — sussurrei.

— Como?

— Eu só tenho um mês. E acho que minha mãe não aliviará nesse tempo.

Sua respiração estava acelerada. Quase pude ver suas lágrimas escorrendo por seu rosto enquanto ele recebia a notícia.

— O que você quer dizer com “eu só tenho um mês”?!

Preparei-me para falar o que era preciso. O que não podia ser evitado. O que me destruiria em pedaços; não para sempre, mas por um bom tempo. Por tempo o suficiente.

— Meus pais decidiram que iremos embora para Ponta Grossa — falei com a voz baixa. — Eu estou indo embora no próximo mês. E não posso aproveitar nesse último. Eu não…

— Sali? — sua voz estava agoniada. Apertei meus olhos e senti as lágrimas queimando meu rosto. — Você não está falando sério, não é? Ainda temos a faculdade e…

— Não, Guto — solucei. — Eu não vou fazer faculdade aqui.

— Sali — ele estava sem ar. — Você não pode. Não… não pode! — soluçou. — Tem que ficar aqui… comigo. Você não pode, Sabrina! Fique!

— Eu não tenho essa opção — lamentei, sentindo meu coração se partir em pedaços. — A minha única opção é ir.

— E me deixar — ele completou em um sussurro.

— Não chore — pedi, quase sendo capaz de ouvir suas lágrimas.

— Você também está chorando — retrucou com a voz embargada. — O que nós vamos fazer, Sali?

Apenas balancei minha cabeça. Eu já não sabia mais o que falar.

Ficamos algum tempo em silêncio na linha. Eu ouvia Guto soluçando e fungando, no entanto não tinha nenhuma palavra de consolo para oferecer a ele. Estávamos destruídos; juntos e pela metade.

— Guto…

— Só… não desligue, Sali — ele pediu. — Apenas me deixe te escutar. Sentir que você está comigo.

Fechei meus olhos. Como podia negar?

— Tudo bem. Eu estou aqui, ok? Ainda estou aqui — depois de mais alguns segundos silenciosos, sussurrei: — Pense em coisas boas, Guto. Em nossas coisas boas.

— Como posso pensar nas nossas coisas boas se você vai embora? Se não poderemos mais nos ver?

— Apenas… pense em como o sentimento cresceu. Em como chegamos a esse ponto. Em como nunca poderíamos imaginar ir tão longe, mas que mesmo com todas as dificuldades valeu a pena. Valeu, não é? Eu reviveria tudo novamente mesmo sabendo que chegaríamos até aqui dessa forma.

Ele suspirou.

— É claro que valeu, Sali. E é claro que eu reviveria tudo de novo.

— Então reviva. Agora. Comigo.

Conversamos algum tempo sobre nossas lembranças. Guto foi capaz até mesmo de me arrancar alguns risos e — é claro — mais lágrimas. Era tão doloroso pensar em deixar toda aquela vida para trás. Sim, era uma vida de dificuldades, mas eram dificuldades que me faziam bem. Eram dificuldades que me deixavam viva.

Eu tinha finalmente vivido.

Fechei meus olhos.

.

Minha mãe entrou em meu quarto pouco tempo depois e pediu delicadamente para que eu me despedisse. Falou que a conta sairia muito alta se eu continuasse no telefone por mais tempo. Como ela estava mais dócil e compreensiva, assenti e acatei a sua ordem antes dela sair de novo.

— Eu preciso ir, Guto — disse baixinho.

— Não! Você disse que ficaria no telefone comigo…

— Eu tenho que ir. Conta cara. Crise. Sabe como é — brinquei com um fio solto de minha blusa e tentei não pensar no que estava acontecendo.

Não seria eu a dizer adeus primeiro. No entanto, Guto também ficou em silêncio.

— Então… acho que é isso — sussurrei.

— Eu não acho — ele diz com a voz embargada. — Eu sinceramente não acho que é isso.

Tentei engolir o choro, mas ele já estava tomando conta de mim.

— Guto, não faça assim — pedi. — Sabe que eu não posso evitar.

— Sabe que pode sim.

Balancei a cabeça negativamente. Por algum motivo, aquele parecia realmente o fim da linha. Sabia que minha mãe não permitiria que eu saísse de noite, às claras ou às escondidas. Sabia que nada mais seria permitido. Sabia que ela acreditava que eu não precisava mais daquela vida; que podia começar de novo em outro lugar.

— Dessa vez não, Guto — falei com a voz cansada. — Isso está me destruindo, mas não me sinto mais capaz…

— Você disse que ia lutar por nós! — ele exclamou. — Disse que passaríamos até pelo obstáculo mais difícil! Se vencermos isso, vencemos tudo.

Àquela altura, eu já soluçava copiosamente. Como poderia deixar Guto? Como suportaria aquela situação? Eu queria lutar por ele, mas sentia que as minhas forças já estavam se esvaindo.

— Eu sempre disse que não queria precisar de ninguém — murmurei.

— Você não precisa de mim, Sali — ele lamentou. — Acredite, você não precisa. Está comigo porque me quer. Não porque precisa de mim.

— Como vou enfrentar tudo sozinha?

— Com a sua força — a sua explicação parecia muito simples. — Lembra? Foi você que me ensinou a me descomplicar. E precisa ser forte para conseguir isso.

Apertei minha mão livre em um punho.

— Eu não quero descomplicar essa parte — sussurrei com a voz inaudível. — Mas preciso ir.

— Nos veremos novamente? — a fragilidade de sua voz quebrou meu coração.

— Eu não sei, Guto. Não posso prometer isso. Mas eu realmente espero que sim.

Ele ficou algum tempo em silêncio.

— Eu te amo, tá? Vou sempre te amar. Não importa onde você esteja.

— Eu te amo também, Guto. Meu amor. Meu eterno amor. Meu melhor primeiro amor.

Pude imaginar seu sorriso. Sorriso fácil, simples, genuíno.

Ele não me respondeu. Imaginei que estivesse encontrando forças para dizer a tão temida palavra. A palavra que entregaria a sua vida na mão de outra pessoa. Adeus. A Deus.

Falamos ao mesmo tempo. Tomamos coragem ao mesmo tempo. E a conexão sempre estaria presente, percebi. Porque ela era real; tão real que era quase palpável.

— Adeus — sussurrei mais uma vez antes de desligar o telefone.

E então eu chorei.

Por muito, muito tempo.

Notas finais
GENTE ;-; Deixa eu contar pra vocês que eu quase chorei escrevendo esse capítulo e que eu tô MUITO agoniada com ele. Meu coração tá apertado desde que eu comecei a escrever ;-; Tô me sentindo o pior monstro ;-; Mas eu preciso que vocês me digam suas opiniões! Pleeeeeease s2 E, lembrem-se: ainda não acabou. Espero vocês no próximo capítulo ;-;