Juntos pelo acaso
33 Lutando
Notas iniciais
Diante daqueles conflitantes pensamentos, calei-me e fechei meus olhos. Era tolice, eu tinha certeza. Eu não me sentiria aliviado ao fechar os olhos, em vez disso, me trancaria na mesma prisão da qual eu gostaria de me libertar. Talvez o mais adequado fosse libertar as minhas lágrimas a fim de aliviar-me, todavia elas não chegavam até meus olhos. Ficaram presas em meu coração despedaçado.
Mesmo com um milhão de tentativas, não fui capaz de desacelerar meus pensamentos. Eles me corroíam, me consumiam, me esgotavam. Dilaceravam-me lentamente, tortuosamente. Não tinham piedade de mim. Estava quebrado, arranhado, corrompido. E não sabia o que fazer a respeito.
E quando tudo que você acredita na vida se desmonta? Escorrega por entre os vãos de seus dedos e se espatifa em milhões de pedacinhos no chão? Você pode recolher esses pedacinhos e tentar se remontar, no entanto talvez tenha uma parte que nunca se encaixe em lugar algum. Ela sempre ficará de fora e sua ausência lhe incomodará, não importa quão esforçado você seja para ignorá-la. Afinal, aquilo também é seu. Mesmo fora de você, continua sendo uma parte sua.
Talvez em algum outro dia ou em alguma outra hora nós nos reencontremos. Pode ser em uma esquina qualquer. Quem sabe nós tomemos uma decisão certa, se é que existe alguma errada. Talvez seja possível se remendar; quem nunca teve que usar algum pedaço de outra coisa para remendar alguma parte rasgada? Aceite, você também pode ser rasgado. Você pode ser rasgado por suas (in)decisões e ter que aprender a costurar a si mesmo. É a vida, simples assim. Acontece com todo mundo. Comigo também aconteceu. Naquele momento, estava acontecendo comigo.
Minha vida dependia daquilo. De um sorriso ou de um pró. Mas tudo estava contra. Contra mim, contra nós. Você está contra a vida mesmo quando a chuva lava sua alma? Eu, geralmente, sim. Minhas palavras são traduções de sentimentos que eu quero deixar para amanhã ou para nunca mais. E se eu decidir não decidir? Será o crime perfeito? Queria que fosse. Ah, como queria! Porém a realidade é muito mais cruel que isso. Afinal, ela faz parte da vida que ignora a fantasia. Vamos criar uma fantasia onde a decisão é não decidir? Vamos ignorar o mundo e construir um novo lugar para ficar? Não precisa ser perfeito, só precisa ser um lugar para ficar. Vamos chorar pelas perdas e sorrir pelos ganhos, mesmo que esses não sejam tão bons quanto o esperado?
Uma decisão. Uma perda, um ganho. Deixe-me ganhar a vida. Deixe-me vencer a minha própria batalha. Não me importo em perder as batalhas contra o mundo. Decido vencer minhas próprias batalhas. Mesmo chorando. Mesmo não deixando a chuva lavar minha alma. Eu aceito. Com um sorriso na boca e lágrimas nos olhos, eu aceito.
.
A primeira coisa que notei foi a claridade. Não tinha que estar escuro? Então eu ouvi sons de passos. E, por último, senti um peso sobre mim.
Quando abri meus olhos, era Rafa.
— Oi, Guto! — ele disse animado, saindo de cima de mim e sentando em minha cama. Cobri meu rosto com as mãos. — Acorde, preguiçoso — ele tentou me balançar, mas eu era mais pesado do que ele imaginava.
Ouvi um suspiro feminino.
— Ah, Guto! Ainda o mesmo — minha mãe disse. — Você sempre reage dessa forma quando alguém tenta te acordar.
— É a forma como todo mundo reage! — protestei e tirei as mãos de meu rosto, vendo meus pais abraçados ao lado da janela.
Meu pai revirou os olhos.
— Então… vão me contar por que vieram me acordar?
— Porque tem sol — Rafa disse animadamente. Olhei-o com o canto do olho.
Meus pais riram.
— Sabe que dia é hoje, Guto? — minha mãe perguntou.
— Hm… último dia de aula? — arrisquei.
— Exatamente — ela confirmou animada e se sentou na beirada da minha cama. — E sabe o que vai acontecer amanhã?
Não precisei nem pensar sobre o que aconteceria no dia seguinte. Aquilo vinha me torturando havia semanas. Mas por que minha mãe viria me lembrar de minha desgraça?
— A Sali vai embora — murmurei e senti uma pontada dolorida no meu coração. Odiava falar sobre aquilo. As últimas semanas tinham sido insuportáveis.
— E eu posso te perguntar o que você ainda está fazendo aqui? — meu pai perguntou, cruzando os braços.
Balancei a cabeça sem entender.
— Não tem nada que eu possa fazer para impedir isso.
— Talvez para impedir não — ele concordou. — Mas não acha que vocês merecem um último dia juntos?
Entendi onde eles queriam chegar. Queriam que Sali e eu tivéssemos uma despedida real; e era legal de sua parte, no entanto eu sabia ser impossível. Sali tinha deixado claro que não queria mais tentar.
— Não vai dar — franzi meu cenho. — É muito arriscado.
— Como se vocês nunca tivessem se arriscado…
— Sim! Mas é um pouco… cansativo.
Minha mãe suspirou.
— Eu sei que vocês estão esgotados e que não aguentam mais fazer as coisas escondidos. Acredite, eu entendo vocês e concordo que deva ser exaustivo. Mas não estou falando para vocês se despedirem às escondidas.
Emudeci. O que aquilo significava?
— Sua mãe quer dizer que você tem que lutar, Guto — meu pai explicou. — Enfrentar a mãe da Sabrina e provar o seu amor.
— A Sali não vai gostar disso.
— Acredite, ela está esperando que você faça isso.
Com essa frase, meus pais deixaram o quarto. Deixaram-me pensativo e com o coração apertado; eu desejava aquela despedida com todas as minhas forças. Mas será que deveria lutar por ela?
— O que você acha, Rafa?
Ele sorriu.
— Eu lutaria pela Lisa — deu de ombros.
Lisa era a sua mais nova amiga. Sim, amiga. Afinal, a nossa aposta tinha surtido efeito; Rafa merecia um pacote de balas.
Aposta. Pacote de balas.
Sali.
— Ai, meu Deus! — exclamei e abracei Rafa. — Você acabou de me dar uma ótima ideia, Rafa. Uma ideia perfeita! — dei um beijo estalado em sua bochecha e corri para o guarda-roupa.
Peguei a primeira camiseta e o primeiro calção que vi e corri para a cozinha.
— Mãe, tem um pacote de balas fechado?
Ela me olhou com o cenho franzido.
— Pra que isso, Guto?
— Não tenho tempo pra explicar, mas é por uma boa causa. Tem ou não?
Ela abriu os armários e conseguiu achar um pacote.
— Tem a ver com Sabrina? Você vai lutar por ela?
Estava tão eufórico que nem pensei em agradecer meus pais pela ajuda deles. Suspirei e olhei nos olhos de minha mãe, segurando em seus ombros.
— Sim, mãe, eu vou lutar por ela. Obrigado por ter me dado essa luz.
Ela sorriu.
— A sua Sabrina vai adorar. Boa sorte, filho — então deu um beijo no meu rosto e me entregou o pacote de balas.
Sem esperar por mais nenhuma ordem, peguei minha bicicleta e pedalei rapidamente até a casa de Sali. Era uma sexta-feira ensolarada e quente. Assim que cheguei à esquina de sua rua, já pude ver um caminhão de mudança e várias caixas distribuídas na garagem de sua casa. Respirei fundo e cruzei a pequena distância, descendo de minha bicicleta.
Eu lutaria por Sali.
Sua mãe não demorou a aparecer.
— Ei, o que está fazendo aqui? — ela soltou a caixa que segurava e parou em minha frente. Era tão baixa quanto Sali e teve que levantar a cabeça para conseguir me encarar. — A Sabrina não disse para você não procurá-la mais? Que não tem mais chance entre vocês?
— Bem, ela meio que disse isso sim — confirmei. Minha voz transmitia tranquilidade, mas por dentro eu tinha a impressão que poderia explodir. — Mas acontece que nós temos um compromisso com outras pessoas e que não pode ser evitado.
Ela me encarou por um bom tempo.
— O que você realmente quer, Gustavo?
— Eu quero um último dia com quem eu amo — surpreendi-me com a intensidade de minha voz. Com a intensidade de minha vontade. — Não posso nem ter isso?
— Isso só vai fazê-la sofrer ainda mais…
— Não. Ela vai sofrer ainda mais se pensar que nem mesmo tentei. Ela merece um último dia comigo. E eu mereço um último dia com ela.
— Nenhum de vocês merecem isso. Se comportaram como duas crianças…
— E tínhamos outra opção?
A mulher cruzou os braços e estreitou os olhos. Tive a impressão de que nunca simpatizaria comigo.
— Eu amo a sua filha. Realmente amo. Nunca antes tinha sentido algo tão forte por alguém. E uma prova disso é eu estar aqui; não seria capaz de enfrentar uma leoa raivosa apenas por uma garota tempos atrás. Mas Sali não é apenas uma garota.
— Do que a chamou?
— Como?
— Do que a chamou?
— Sali — fiz um gesto desatento com as mãos. — É uma brincadeira interna porque eu sempre disse que Sabrina me lembrava Salina. E, bom, acabou reduzindo para Sali.
De alguma forma, a sua guarda baixou. Ela franziu o cenho, no entanto me olhou com outros olhos. Com uma expressão impressionada. Quase compreensiva.
E eu senti uma faísca de esperança.
— Guto?! — Sali exclamou e correu até nós dois. Ela parecia assustada, mas havia um traço de felicidade por trás de sua expressão. — O que faz aqui?
— Nós temos um compromisso — encolhi meus ombros e apontei para o pacote de balas na bicicleta. — Uma aposta com algumas crianças.
Seus olhos brilharam de admiração. E, mesmo se eu nada conseguisse naquele dia, só por causa do olhar que ela me lançou já valeria a pena ter tentado.
— Podem ir — a mãe da Sali murmurou tão baixo que pensei que fosse apenas uma ilusão. Ela tinha o olhar distante. — Vão logo. Não vão querer desperdiçar mais nenhum minuto desse último dia, não é?
Sali e eu a olhamos com a expressão incrédula. Ela tinha permitido? Ela tinha realmente permitido?
— Mãe?
— Sali… — ela segurou nos ombros da filha assim que usou o apelido. Seus olhos se encheram de lágrimas. — Apenas vá, minha filha. E, o mais importante, não desperdice nenhum segundo desse dia.
Os olhos de Sali também se encheram de lágrimas enquanto um sorriso surpreso se espalhava em sua face. Ela beijou o rosto da mãe demoradamente.
— Ainda dá tempo — sussurrou. — Corra que você consegue, mãe. Apenas vá.
Elas se abraçaram forte. Foi um abraço cheio de segredos e emoções. O verdadeiro abraço de mãe e filha; e me senti um intruso por presenciar aquele momento. Mas significava que tudo estava bem. Que tudo ficaria bem.
.
— Biblioteca? — Sali sorriu quando viu onde eu a tinha levado.
Assenti.
— Afinal, não foi aqui que tudo começou?
Ela apertou a minha mão e me acompanhou até dentro do local. A mulher da recepção ergueu os olhos e sorriu fracamente, apenas por cortesia. Imediatamente arrastei Sali até a mesa onde tinha achado seu texto. Ela se sentou.
— Foi exatamente aqui que tudo começou, então? — me perguntou, passando os dedos delicadamente pela mesa.
Ajoelhei-me ao seu lado.
— Sim — sussurrei e peguei uma mecha que escapava de sua trança, colocando-a no lugar. — Exatamente aqui, Sali.
Ela franziu o cenho e tentou segurar suas lágrimas. Imaginei o estado de nervos que se encontrava no último dia.
— Me desculpe — ela balançou a cabeça negativamente.
— Ei — ergui seu rosto pelo queixo e a fiz olhar em meus olhos. — Sabe que não precisa se desculpar.
Ela fechou os olhos e colocou uma de suas mãos no bolso, tirando um papel de lá. Ela o analisou por alguns segundos antes de me entregá-lo com as mãos trêmulas.
— Você se lembra do dia em que nos conhecemos? Lembra que eu escrevia um texto? — respirou fundo. — Bom, acho que esse é o lugar mais adequado para você lê-lo.
Olhei para o papel em minhas mãos; suas fibras já estavam gastas de ter sido manuseado com frequência. Quais palavras ele escondia? Lembrei-me que Sali não tinha me deixado lê-lo. Ela evitava me entregá-lo por algum motivo…
— Tem certeza?
— Apenas leia, Guto — ela assentiu quando me sentei. — Apenas leia.
“Desejei que a inconsciência me engolisse por mais alguns segundos. Na consciência existe a dor, o sofrimento e a perda. Por isso a inconsciência é uma dádiva para mentes cheias. Na consciência sempre acabo indo em algum lugar que quero escapar.
Andei mais uma vez pelas ruas de minha cabeça, tentando procurar um bom lugar para ficar, sentar, descansar e esquecer. Algumas ruas que eu passava eram asfaltadas, outras só tinham lama, outras eram feitas de ladrilhos e algumas até diamantes, mas essas eram as mais raras e geralmente eram trancadas por portões grandes de ouro que impediam minha passagem.
Eu gostava de ficar em lugares confortáveis, onde eu pudesse desfrutar da paisagem e das cenas que ali passavam. Tinha até um cinema que eu ia quando queria dormir; um lugar repleto de imagens aleatórias de várias coisas que vivenciei e vários lugares onde algum dia estive. Havia campinas com grama alta e milhares de flores — sempre as minhas preferidas — que faziam-me sentir cócega na perna. Eu gostava de colocar algum vestido e ir nessas campinas para correr e dançar; costumava sentir–me leve e verdadeira… Nesse lugar também tinham pessoas. As pessoas que eu queria ver, que eu queria que fizessem parte de minha vida. As melhores pessoas.
Continuei andando até achar o lugar perfeito, então coloquei uma calça jeans, um moletom e um par de tênis por causa do frio e caminhei por entre as flores daquela linda campina. Um papel voou e eu corri para alcançá-lo e, assim que o fiz, abri-o e nele estava um desenho de um garoto. Ele era lindo. Tinha o cabelo castanho escuro, quase preto, erguido em um topete nada exagerado. As suas sobrancelhas eram grossas e os olhos estreitos. Um sorriso sem mostrar os dentes deixava-o com uma expressão curiosa e indecifrável.
Eu queria decifrá-la.
Olhei então para meu calção curto, para minha regata rosa e para o tênis em meus pés. Em seguida olhei em volta e percebi que estava em uma praça na minha cidade. Percebi que estava viajando dentro de mim mesma e no mundo real uma pessoa estava parada atrás de mim. Virei-me e sorri. O garoto do desenho desejava minha atenção.
Alguém me queria, alguém me chamava, em algum lugar alguém me esperava.”
Fiquei em silêncio por alguns segundos. Era um texto íntimo e lindo; mostrava a sua primeira impressão sobre mim. Ele era lindo. Desde o primeiro momento ela tinha me considerado bonito e digno de sua atenção.
— Por que não me mostrou antes?
Ela deu de ombros.
— Era íntimo demais. A minha primeira impressão sua… E eu não sabia como você poderia reagir ao descobrir que eu realmente estive apaixonada por você desde o primeiro instante — ela esticou o braço e pegou uma de minhas mãos. — Mas, desde que paramos de nos falar, eu carrego esse texto comigo no bolso. Uma última esperança. Sentia que não podia partir antes de te entregar isso. Você precisa saber da intensidade do meu sentimento, Guto, para que nunca duvide desses dias que passamos juntos. Os melhores dias de minha vida.
Levantei-me e a peguei em meus braços. Apoiei sua cabeça em meu peito e fiz carinho com a ponta dos dedos em sua nuca. Eram muitos sentimentos para que meu coração pudesse aguentar; era tudo muito intenso, muito real. Apertei Sali mais forte contra mim e prometi que, mesmo quando ela partisse, eu nunca a deixaria ir definitivamente. Ela sempre estaria em meu coração nos dias mais tristes, assim como nos mais felizes. Ela sempre estaria comigo.
— Eu te amo, Sabrina — sussurrei.
Ela não me respondeu. Não era necessário. Eu não a amava porque desejava que ela me correspondesse; eu a amava simplesmente porque ela era ela. Nunca poderia exigir nada dela. Amava-a do fundo de meu coração, o suficiente para não precisar pedir nada em troca.
Eu simplesmente a amava.
Mesmo assim, eu ouvi seu sussurro:
— Não mais que eu te amo, Guto. Nunca mais que isso.
Não contestei nem discuti. Porque no fundo a perspectiva de que seu amor podia maior que o meu era incrível. Fechei meus olhos e apoiei minha cabeça na sua, embalando-nos suavemente. Juntos. Naquele momento, ainda estávamos juntos. E desejei que ficássemos daquela maneira por mais tempo.
Depois de alguns segundos, Sali me perguntou:
— Onde vamos agora?
Sorri e separei nossos corpos, segurando-a pelos ombros.
— O que acha?
Ela estreitou os olhos.
— Nossa árvore? — quando assenti, ela deu pulinhos de animação. — Então vamos logo! — disse. — Não podemos esperar para fazer esse programa.
Sali segurou em minha mão e me arrastou até minha bicicleta, fazendo-me pedalar mais rapidamente quando julgou que o ritmo estava muito lento. Ela estava radiante e animada com a perspectiva de um último dia juntos, sem medos ou proibições. Apenas como dois namorados que se amavam.
Ela subiu rapidamente na árvore quando chegamos na praça e caçoou de mim quando eu me atrapalhei. Disse que eu, ao ensiná-la, acabei “desaprendendo”.
— Nossa, Sabrina, como você é engraçada — ironizei revirando os olhos.
Ela riu e se ajeitou melhor ao galho onde estava sentada, suspirando e relaxando. Gostaria de deixá-la relaxada como estava, mas uma dúvida me corroía. E eu queria aproveitar o dia por completo; portanto, precisava de algumas explicações.
— Sali? — chamei-a delicadamente.
Ela apenas balançou a cabeça, indicando que eu continuasse.
— Não vai me dizer o que aconteceu? — perguntei baixinho.
Ela respirou fundo e me olhou atentamente, sua expressão ficando subitamente séria. Sabia o que eu perguntava e queria me dar as respostas, no entanto parecia indecisa.
— É meio… íntimo — murmurou.
— Ah — desviei o olhar. — Se não quiser, não precisa…
Ouvi o seu suspiro de desistência mais rápido do que poderia imaginar. Sali estava cansada de segredos e mentiras, percebi. Ela queria que tudo ficasse esclarecido.
— O nome de minha mãe é Catarina. E o meu “pai” é o único que a chama de Ina. Ele costumava dizer que quando um homem se dedica tempo o suficiente para encontrar um apelido para uma garota que ninguém nunca antes tinha usado, é porque ele realmente gosta dessa pessoa. Quando ela descobriu que você me chamava de Sali… aposto que ela se lembrou disso. E acreditou no nosso amor.
— E o que aconteceu para agora eles ficarem com vontade de se separar?
Ela balançou a cabeça.
— Ela ficou tão ocupada em me impedir de namorar que perdeu seu namorado. O tempo a amargurou. Sabe, eles ainda se amam exatamente como na juventude, mas perderam isso quando eu cresci. Acho que agora que minha mãe conseguiu me libertar, eles vão poder continuar de onde pararam.
Assenti e me estiquei para segurar em sua mão. Ela me lançou um sorriso hesitante.
— Não quer me contar o resto? — pedi suavemente.
Ela fechou os olhos e franziu o cenho.
— Sabia que você perceberia…
— Me conte… mas só se você realmente quiser. Essa parte me basta.
Depois de alguns segundos em silêncio, Sali abriu os olhos. Ela me encarou demoradamente.
— Minha mãe se apaixonou antes de conhecer meu pai. Meu padrasto, na verdade. Ela se apaixonou por um garoto que julgava ser perfeito. E ele realmente foi perfeito… até ela engravidar sem querer — Sali fez uma pausa. — Ele não quis assumir. Disse que não era filho dele e todas essas coisas estúpidas que covardes dizem, sabe? Minha mãe ficou desesperada; não sabia como contar para os pais. Estava perdida. Foi aí que meu padrasto apareceu como um bom amigo e ela não se aguentou e contou tudo a ele. O que não sabia era que ele a amava o bastante para assumir o filho dela. Eles se casaram, me tiveram e foram muito felizes… até esse ano. O resto você já sabe.
Apertei seus dedos em um gesto de compaixão. Muitas coisas se explicavam com aquela história: toda a proibição, todo o receio, toda a maldade.
— É por isso que ela não queria que você confiasse em nenhum menino, não é?
Sali assentiu com os olhos cheios de lágrimas.
— Mas você é diferente, Guto. Eu sei que é. Ela apenas não conseguia enxergar…
— Shh — acariciei seus dedos. — Tudo bem. Eu sei, Sali, e nunca faria nada parecido com isso com você. Você sabe que eu te amo e que o receio dela não conta nesse caso. Mas… ela tinha razão em querer proteger você. Ela é sua mãe, Sali.
Ela soluçou e fechou os olhos, deixando as lágrimas escorrerem livremente.
— Ela só estava se preocupando comigo… e eu a transformando em um monstro — choramingou.
— Ei — chamei-a suavemente. — O que acha de descermos daqui?
Sem relutância, Sali desceu da árvore e me deixou envolvê-la carinhosamente. Tantas coisas mal resolvidas, tantas mentiras, tantas respostas. Eram muitos fardos para uma garota de dezessete anos enfrentar.
— Quando soube disso, Sali? — perguntei ainda abraçado a ela.
— Alguns dias depois da nossa última conversa — ela murmurou. — Quando eu entendi tudo senti um alívio tão grande. Foi bom poder entender os motivos de minha mãe. Afinal, ela só estava sendo minha mãe.
Assenti. Era compreensível a atitude de sua mãe, mesmo que eu não concordasse com o fato dela ter escondido tal história da filha por tantos anos. No entanto, aquilo era irrelevante naquele momento. Sua mãe tinha finalmente me aceitado e confiado em mim; e aquele era o maior passo que poderíamos ter dado.
Depois daquilo, subimos na árvore novamente e jogamos conversa fora por algumas horas, até que ficássemos com fome o suficiente para irmos na minha casa almoçar. A reação de Rafa à presença de Sali foi tão empolgante que eu não fui capaz de segurar meu sorriso. Uma família. Eu tinha uma família — e Sali era parte integrante dela.
Eu não podia estar mais feliz.
No nosso último dia, não poderíamos deixar de lado o cemitério. Passeamos por entre os túmulos e imaginamos as histórias de todas aquelas pessoas na companhia de Seu José, que contribuía com algumas informações que ele sabia sobre a história de cada uma delas. Eram tantas vidas interrompidas e outras tantas completas. Tantos amores que tinham sido vividos…
Algum deles tivera a mesma intensidade do que eu sentia por Sali?
— Esse é o túmulo de meu avô — Sali murmurou, apertando mais a minha mão. — Eu lembro do quanto ele amava a minha avó. Era lindo. Quando eu era criança desejava viver um amor semelhante… E acho que o meu pedido foi atendido.
Sorri e beijei o topo de sua cabeça.
— E eu fui bem sortudo por ter sido o selecionado pra atender o seu pedido — brinquei, passando meu braço por seus ombros.
Ela riu.
— Com certeza, Guto. Não tem nenhum menino de mais sorte no mundo que você.
Realmente duvidei que tivesse.
Seu José riu e nos olhou admirado.
— Ah, a juventude! Vocês jovens são tão cheios de vida e de amor pra distribuir. Continuem assim, crianças. Se arrependerão se deixarem de valorizar um coração acelerado — ele avançou alguns passos e me deu alguns tapinhas no ombro. — Não a deixe ir, menino Gustavo. E você, mocinha, não o deixe escapar. Me digam, vocês acreditam em almas gêmeas?
Pensei sobre a questão. Algum tempo antes eu era mais adepto à ideia que escolhemos aqueles que amamos por sua personalidade e aparência. No entanto, quando conheci Sali a conexão foi realmente imediata. Foi incontestável, intenso e real. Nos completávamos como pensei que só acontecesse com casais fictícios.
Sim, eu acreditava em almas gêmeas.
Porque eu tinha encontrado, dentre tantas pessoas, a minha.
— Sim, Seu José — respondi sorrindo.
— É bom que acredite mesmo, menino Gustavo — ele apertou o nosso ponto de contato no meu ombro. — É bom que acredite porque, pelo menos no seu caso, é real. E quando você tiver a minha idade poderá dizer que amou e que foi amado da forma mais sincera e pura que existe — ele fez uma pausa. — Agora, eu vou deixar vocês a sós. Aproveitem o resto do seu dia, crianças.
Quando ele estava quase se afastando, Sali parou ele com suas palavras.
— Obrigada, Seu José — disse com a voz embargada. — No primeiro dia que vim aqui durante a madrugada, pensei que fosse me entregar aos meus pais. Você nunca fez isso. Sempre nos ajudou, nos apoiou e ainda tornou nossas vindas mais divertidas. Muito obrigada… mesmo.
Ele ficou em silêncio por algum tempo, parecendo surpreso. Alguém já tinha dito tantas palavras carinhosas de uma só vez para aquele senhor?
Por fim, um sorriso se espalhou em sua face.
— Vou me certificar que o novo guarda-noturno deixe que vocês entrem aqui sem maiores problemas.
— Novo guarda-noturno?
Ele assentiu.
— Ah, eu já não tenho mais o pique pra isso, crianças. Realmente estou precisando dormir nas horas certas. Mas ainda virei aqui durante a noite quando sentir muita saudade… esse cemitério escuro é a razão de minha vida. Sei que pode parecer estranho, mas é a única coisa que me restou. Espero estar aqui se vocês resolverem ter mais alguma aventura noturna.
— Eu também espero, Seu José — Sali disse suavemente.
— Tchau, crianças — ele acenou e se afastou, finalmente deixando-nos a sós.
Sali respirou fundo e se virou de frente para mim, entrelaçando nossas mãos. Olhou-me e sorriu.
— Isso não é um adeus, você sabe. Esse cemitério ainda vai contar com a nossa presença — disse.
Encostei nossas testas e suspirei.
— Eu espero que sim, Sali.
Ela se esticou o suficiente para depositar um beijo gentil em meus lábios antes de começar a me puxar para fora do cemitério.
— O que acha de chamarmos o Lipe e a Bia? Quero passar o meu último dia com eles também.
Concordei sem resistência. Era uma ótima ideia ter como companhia o nosso casal de amigos. Liguei para eles e pedi que nos encontrassem em um parque que tinha na cidade, o mesmo onde eu tinha me vestido de Homem-Aranha para realizar o sonho de Sali. Sorri com a lembrança.
Tantas lembranças…
.
— Atrasados, como sempre — Bia cruzou os braços e nos olhou com uma expressão zangada.
— Nada de ficar irritadinha — arqueei a sobrancelha e a abracei antes de cumprimentar Lipe com um aperto de mãos. — Esse é o último dia de Sali aqui e a mãe dela deixou que passássemos esse tempo restante juntos. Então, nada de ficar de mau humor, Beatriz. Ok?
Ela revirou seus olhos.
— Ai, como você é mandão, Gustavo! — reclamou, abraçando Lipe. — Mas ok! Não quero estragar com esse último dia também. Por isso nós deveríamos fazer algum programa realmente legal.
— Como? — Sali perguntou.
— Pedalinho — ela sorriu e apontou para o lago do parque, onde os pedalinhos estavam funcionando normalmente. Era uma sexta-feira em um final de ano e a prefeitura tinha decidido liberar os pedalinhos novamente. A única coisa ruim era a fila gigante de crianças com seus pais. — Faz tanto tempo que eu não vou em um pedalinho…
Sali sorriu e deu pulinhos de animação.
— Vamos, Guto? — pediu com a expressão radiante. — Por favor!
Revirei meus olhos e a puxei em direção à fila.
— Ai, meu Deus! — Lipe reclamou rindo. — Nós realmente estamos indo no pedalinho?!
— É bem romântico, se quer saber — Bia disse presunçosa. — Lembra de 10 Coisas que Eu Odeio em Você? Tem a cena que eles vão no pedalinho e então logo depois se beijam brincando no Paintball. É tão romântico — ela suspirou e colocou ambas as mãos no coração.
— Eu amo esse filme! — Sali exclamou. — Ele é tão…
— Romântico? — Lipe perguntou.
— É.
— Foi o que eu acabei de dizer! — Bia reclamou.
— Eu sei, eu sei. Queria ter achado uma palavra melhor, mas não consegui. A verdade é que não tenho palavras pra dizer o quanto eu amo esse filme.
— Caramba — Lipe franziu o cenho. — Que tipo de substância contagiosa tem esse filme que faz as meninas suspirarem tanto?
— O clichê, Lipe! — Bia riu. — É o início dos clichês da menina rebelde e das apostas. Por isso é tão legal! E ainda tem a cena dele cantando no estádio e dela livrando ele da detenção. E por último a cena linda do poema onde ela diz as dez coisas que odeia nele. É um clássico! Um dos meus filmes preferidos.
— I love you, baby… — cantarolei a música da cena clássica do filme, onde o personagem principal armava toda uma situação e cantava para a garota na arquibancada de um estádio enquanto ela fazia educação física. — And if it's quite alright… I need you, baby, to warm the lonely nights. I love you, baby. Trust in me when I say…
Segurei em um dos braços de Sali enquanto cantava e a girei em torno de si mesma, fazendo-a gargalhar animada.
Lipe, sem perder o fio da meada, continuou a música onde eu tinha parado:
— Oh, pretty baby, don't bring me down, I pray. Oh, pretty baby, now that I've found you, stay. Oh, pretty baby. Trust in me when I say…
Ele também fez passos de dança com Bia, como se tentasse conquistá-la. Algumas pessoas voltaram a sua atenção para nós e olharam-nos como se tivéssemos algum problema. Por causa disso, Lipe e eu nos olhamos e abraçamos o ombro um do outro, cantando a uma só voz — bem desafinada, por sinal:
— I need you, baby, when will you come my way? Oh, pretty baby, now that I've found you, stay. And let me love you, baby… Let me love yoooooooooooou…
Bia e Sali fingiram surpresa e colocaram as mãos sobre o peito, logo em seguida avançando para nos abraçar. Sali, rindo, se segurou em meu pescoço e me deixou girá-la no ar, como se estivéssemos em uma cena de filme.
— Oh, Guto! — ela exagerou na expressão.
— Sim, minha amada?
— Me beija?
Sorri e segurei dos dois lados de seu rosto, beijando-a suavemente. Enquanto a beijava, fiz carinho em suas bochechas com o polegar. Um beijo espontâneo, leve e perfeito.
Até ouvirmos Bia e Lipe pigarreando.
Dirigimo-nos em seguida para a fila enorme de crianças e pais e comemos pipoca e sorvete esperando o tempo passar. Tiramos algumas fotos também para que pudéssemos guardar recordações daquele dia inesquecível.
O dia estava ensolarado e quente e, quando Sali me olhou com uma expressão radiante, sua pele estava brilhante e corada, deixando-a com um aspecto saudável e lindo. O lago refletia a luz do sol e deixava toda a cena ainda mais bonita e agradável; cheia de vida. E era exatamente daquilo que eu precisava.
Quando conseguimos finalmente chegar ao pedalinho, eu peguei a condução e Sali riu da minha falta de direção.
— Ai, Guto, você vai ser um péssimo motorista! — ela exclamou gargalhando.
— Claro que n… — mas não pude completar a frase, porque o pedalinho onde estavam Lipe e Bia tinha acabado de bater no meu.
— Boa sorte, Sá — Bia desejou. — Torça pro Guto não causar nenhum acidente aquático.
— Quieta, Beatriz — briguei, mudando de direção e passando a seguir Lipe e Bia. — Eu sei dirigir muito bem, ok? Vocês que não sabem reconhecer o meu talento.
— A culpa é nossa agora? — Sali exclamou indignada.
— Óbvio — revirei meus olhos. — O talento está nos olhos de quem vê.
— Ah, Gustavo! Cale a boca — Lipe riu. — Admita que eu sou um motorista muito melhor que você.
— Nunca — fingi-me de zangado e roubei mais algumas gargalhadas de meus amigos, que se divertiam às minhas custas.
Não me importei; era ótimo. Era ótimo ter amigos ao meu redor e poder fazê-los rir com bobagens simples. Era ótimo viver um dia tranquilo e calmo na companhia de pessoas que eu amava. Era ótimo simplesmente ter pessoas para amar.
.
— Sali já caiu aqui — relembrei do fato com um sorriso no rosto, me deitando exatamente no lugar onde Sali e eu tínhamos deitado no dia da sua queda.
Estávamos na praça perto das casas de Lipe e Bia. A mesma praça onde tinha ficado depois de descobrir que Laura tinha me traído. A mesma praça onde Sali e eu armamos para Lipe e Bia se encontrarem. A mesma praça onde tinha descoberto que estava apaixonado por Sali.
— Como ela caiu? — Bia perguntou, sentando-se em uma das balanças ao lado de Lipe. Sali se deitou do meu lado.
— Esse imprestável aqui teve a ideia de que eu pulasse da balança, como quando éramos crianças — Sali revirou os olhos. — Eu pulei… e caí.
— Ei! — reclamei. — Você fez isso só porque quis. Bem que gostou da minha sugestão.
Ela riu.
— Bem… é, talvez você tenha razão. Mas isso não te livra da culpa, só pra deixar tudo bem claro.
— Ok! — revirei meus olhos. — Eu assumo a culpa que não é minha.
— Melhor assim. Se você não assumisse…
— Sim?
— Ia ter que ganhar um beijo — ela suspirou e me olhou como se sentisse pena de mim.
— Retiro o que disse! — exclamei imediatamente.
Ela gargalhou e se sentou, impossibilitando que eu alcançasse seu rosto.
— Não aceito — ela gritou, esperneando quando consegui segurar em sua cintura e a derrubei deitada ao meu lado novamente.
— Vai ter que aceitar — ameacei, sustentando o seu olhar firmemente.
Ela sorriu e deslizou de baixo de mim, levantando e começando a correr para que eu tentasse pegá-la. A praça era pequena, portanto ela corria em círculos pequenos ao redor das balanças, onde Lipe e Bia presenciavam tudo aos risos.
Quando finalmente a alcancei, segurei-a no colo e ela jogou a cabeça para trás para que eu não conseguisse alcançar sua boca.
— Sabrina…
— Não! Você disse que assumia a culpa!
Ri e soltei suas pernas, mantendo-a perto somente segurando em sua cintura. Ela sorriu e me olhou.
— Somente um beijo vale tanto esforço assim?
— E você não sabe como — sussurrei, passando o dedo suavemente por seus lábios.
— Ai. Meu. Deus — Bia reclamou, se aproximando e separando nossos corpos. — Deixa eu ir embora antes que isso fique meloso demais.
Lipe riu enquanto Bia dava um abraço forte em Sali.
— Olha, nós ainda vamos nos ver, ok? Isso não é um adeus não, Sá. Ainda vamos no parque andar de pedalinho e fingir que estamos no filme 10 Coisas que Eu Odeio em Você — Sali sorriu enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. — Não precisa chorar. Vai ficar tudo bem. Pode me mandar mensagem sempre, tá? Nem que seja só pra dizer oi.
Sali riu e fechou os olhos, balançando a cabeça negativamente.
— Eu nunca digo oi — disse com a voz rouca e me lançou um olhar de esguelha.
— Coisa tua e do Guto? — Bia riu. — Não faz mal. Não precisa ser oi. Pode ser direto: “Beatriz, vamos no cemitério”. Eu juro que vou sem mau humor!
— Não jure algo que não pode cumprir — Lipe comentou abraçando os ombros de Bia. — Você sempre vai acordar de mau humor.
Ela balançou a cabeça.
— Sorte que eu tenho você para me aguentar, né? — Bia deu um soco fraco na barriga de Lipe e em seguida voltou a atenção para Sali. — Nós estaremos aqui, Sá, sempre que você quiser e precisar.
Sali assentiu e desviou o olhar.
— Vocês também vão querer e precisar de mim? — sua voz estava tão frágil e infantil que me aproximei e envolvi seus ombros, trazendo-a para mais perto de mim.
— É óbvio! — Lipe disse. — E vamos te procurar com muita frequência. Você não sabe o quanto vai fazer falta, Sá. Não mesmo.
Ela suspirou e balançou a cabeça, abraçando a minha cintura e ficando daquela forma por um bom tempo. Eram tantas despedidas para um único coração aguentar.
— Nós estamos indo, mas é só por enquanto — Bia puxou Sali para um abraço. — Logo nos vemos de volta, Sá.
— É isso aí — Lipe concordou ao abraçar Sali. — Não fique triste.
— Obrigada, gente. Por terem participado da minha vida. Vocês são muito especiais pra mim.
Eles afagaram os ombros dela e assentiram com sorrisos gentis no rosto, em seguida se afastando de mãos dadas na direção de suas casas. O clima tinha ficado um pouco mais triste depois das primeiras despedidas, mas nós ainda tínhamos o final do dia e a noite para aproveitar.
Suspirei e segurei o rosto de Sali em minhas mãos.
— Eles vão ficar bem. Você vai ficar. Nós vamos ficar bem — prometi. — Mas temos uma missão agora, Sali. E precisamos pagar uma aposta.
Como o esperado, ela sorriu diante das minhas palavras. Não era o seu sorriso habitual e cheio de vida; mas, pelo menos, era uma intenção dele.
— Tenho certeza que as crianças te animarão.
Ela assentiu.
— Eu realmente espero que sim, Guto. Porque é uma dor tão grande…
— Eu sei — sussurrei e acariciei seu rosto. — Eu sei, meu amor — pressionei seu rosto contra meu peito por algum tempo, até decidirmos que estava na hora de fazer uma entrega.
Rafa e os seus amigos saíram da escola conversando animadamente naquele último dia de aula… e para minha extrema surpresa e satisfação, várias meninas participavam de seu grupo. Sorri.
— Guto! Sá! — ele exclamou e correu até nós, nos abraçando fortemente.
— Rafa — Sali sorriu radiante. — Como eu senti sua falta, pequeno! — ela puxou-o só para si e o abraçou bem forte.
— Ai! — ele reclamou. — Assim você vai me esmagar.
— É essa a minha vontade — ela falou enquanto apertava as suas bochechas. — Você é tããããão fofinho — então deu um beijo estalado em sua bochecha.
Ele fez uma careta e limpou o lugar do beijo.
— O que eles vão pensar de mim?! — sussurrou para Sali.
Gargalhei e baguncei seus cabelos.
— Então, crianças, nós temos um trato. Vocês lembram? — perguntei para o grupinho de Rafa.
Apenas um se manifestou.
— A gente teria que virar amigos de meninas e vocês dariam um pacote de balas pra gente.
— Exatamente! — sorri. — E, pelo visto, vocês cumpriram a sua parte.
— Sim! — outro exclamou. — E não é tão ruim ser amigo de menina.
— Óbvio que não — Sali revirou os olhos. Estava abraçada a Rafa. — Ser amigo de menina é a melhor coisa que vocês vão fazer na vida.
— Concordo com a Sali — assenti e sorri para ela. — Continuem cumprindo o nosso trato que não vão se arrepender. Bom… talvez não.
Eles assentiram aos risos e começaram a conversar entre si, até um se lembrar de um detalhe.
— E a sua parte do trato?! — perguntou.
— Pensei que ninguém lembraria — fui até a minha bicicleta e peguei o pacote de balas. Eles comemoraram assim que eu cheguei com a embalagem na mão. — Mas dividam com as meninas. Se não fosse por elas, vocês não ganhariam isso.
Entreguei o pacote a Rafa, que logo se dedicou a dividi-lo com os colegas. Eles pareciam extremamente felizes com aquela quantidade de balas ao seu dispor e eu não pude evitar um riso ao vê-los tão satisfeitos com pouca coisa. Era uma pena que nem todas as pessoas se contentassem com poucas coisas.
Senti a mão de Sali envolver a minha.
— E é a partir daqui que os homens começam a depender das mulheres — ela cochichou.
— Homens não precisam de mulheres — protestei.
Ela sorriu debochada.
— Continue acreditando nessa ideia, Guto. Pode continuar…
Ela tinha recuperado seu humor anterior às primeiras despedidas do dia. Aquelas crianças tinham o poder de fazer qualquer pessoa sorrir, mesmo no seu maior momento de desgraça. Por aquela razão, Rafa era uma injeção de ânimo na minha vida quando tudo dava errado. Sem a sua companhia, o último mês teria sido praticamente insuportável. Ele me fazia esquecer de tudo o que tinha acontecido e, de quebra, me roubava alguns sorrisos espontâneos e verdadeiros.
Está errado quem diz que pessoas não podem fazer mágica. Porque eu tenho certeza que Rafa me curaria sem remédios se assim eu desejasse.
.
— Sá! — minha mãe avançou para abraçar Sali assim que entramos em minha casa. — Que bom que veio jantar conosco. Pensei que nunca mais a veria e que o almoço seria nossa despedida!
— Acho que você não tem tanta sorte assim — Sali fingiu tristeza.
— Vamos dizer, então, que eu tenho um azar muito bom — minha mãe piscou e cumprimentou a mim e a Rafa. — Eu estou fazendo o jantar. Que tal irmos na cozinha comigo?
Meu pai não demorou a chegar e recepcionou Sali com a mesma alegria de minha mãe e Rafa. Pelo jeito, a minha namorada fazia mais parte da minha família do que eu poderia imaginar. Jogamos conversa fora até o jantar ficar pronto e depois eu e Sali lavamos a louça enquanto meus pais procuravam o jogo Perfil para jogarmos o resto da noite.
Para conseguir vencer no jogo, era preciso ter conhecimentos sobre diversas coisas. Sempre um dava dicas e o outro tentava adivinhar o que era, assim avançando nas casas. O vencedor foi o meu pai.
— Você sempre ganha! — Rafa reclamou.
— É óbvio — meu pai revirou seus olhos. — Eu sou o mais inteligente dessa casa.
— Não mesmo — minha mãe protestou. — Isso tudo é sorte.
— Esse jogo não é de sorte…
Enquanto ocorria a discussão o telefone de Sali tocou. Ela suspirou e me olhou, confirmando que era sua mãe que estava ligando. Afastou-se para atender.
— O que aconteceu mais cedo, filho? — minha mãe perguntou assim que Sali estava a uma distância razoável. — Como conseguiu a companhia de Sali para o dia todo?
— Sua mãe deixou — dei de ombros como se não tivesse importância.
— Ela deixou? Fácil assim? — meu pai parecia desconfiado. — Até onde eu me lembro, ela proibiu o namoro de vocês.
— Sim, mas… digamos que ela tenha mudado de ideia na última hora. É um pouco complicada essa história pra eu contar. A única coisa que vocês precisam saber é que ela deixou de verdade.
Meus pais assentiram, acreditando em minhas palavras. No entanto, parecia que meu dia com Sali estava chegando ao fim. Quis saber o que ela conversava tanto com a sua mãe…
Quando ela apareceu na porta, parecia tímida. Ela se encolheu e olhou para meus pais.
— Sali?
Ela respirou fundo.
— Minha mãe disse que… se eu quiser e vocês deixarem, é claro… eu posso dormir aqui. Aproveitar mais um pouco do meu último dia. Mas não tem problema se vocês não quiserem e…
— Calma, Sá — minha mãe levantou e colocou a mão sobre seu ombro. — Pode ficar aqui sim. Você e Guto merecem uma última noite juntos.
Tentei imaginar o que minha mãe tinha querido dizer com aquilo e corei. Por que ela sempre tinha de ser tão direta?
Sali suspirou.
— Obrigada. De verdade — e então sorriu fraquinho.
— Olha, querida, se quiser tomar um banho eu te empresto uma roupa minha.
— Eu adoraria.
— Então vamos — minha mãe empurrou Sali gentilmente pela casa até o seu quarto.
Poderia ter ficado na sala com a expressão perplexa, mas corri para o meu quarto em vez disso. Abri algumas gavetas até finalmente achar a camiseta que queria: preta e com o símbolo das relíquias da morte na frente. Sabia que Sali gostava de Harry Potter.
— Sali… — chamei-a assim que entrei no quarto de minha mãe. Ela me olhou surpresa. — Eu quero te dar uma camiseta… como recordação, você sabe. Se quiser usá-la agora — dei de ombros.
Então estendi a mão e recebi o seu sorriso genuíno como resposta. Ela pegou o conteúdo de minha mão e o analisou carinhosamente, levando-o até seu nariz e inspirando seu cheiro.
— Obrigada, Guto — murmurou. — Eu adorei.
Assenti e saí do quarto rapidamente, não aguentando a expressão desconfiada de minha mãe. Era muita pressão para aguentar. Eu não pretendia tirar a virgindade de Sali só porque era uma despedida; se fosse para acontecer, ela teria que se sentir pronta e realmente me desejar.
Fiquei esperando-a na sala ao lado de meu pai e Rafa. Eles estavam assistindo atentamente a um filme infantil que parecia legal, mas que eu não conseguia prestar atenção. Continuava pensando no ar desconfiado de minha mãe e na Sali. Minha Sali…
— Eu amo esse filme — Sali anunciou sua presença de forma gentil. Quando a olhei, trajava a minha camiseta. Tinha certeza de que ela estava usando um short, no entanto a camiseta chegava até o meio de suas coxas e o escondia. Ela estava linda. Mais que linda, magnífica. Mais que magnífica, ela estava… sexy. Sali estava sexy.
Suspirei e voltei o meu olhar para o filme, tentando desviar os meus pensamentos.
— Eu adoro ele! O Olaf é o meu personagem preferido — Rafa disse sorrindo.
— Eu também gosto do Olaf — ela disse enquanto se sentava ao meu lado. — Ele é muito legal e gosta de abraços.
— Sim! E quer muito o verão — Rafa revirou os olhos e riu. — Mas ele vai derreter!
— Acho que ele realmente não percebe isso — Sali fingiu lamentar e em seguida riu da expressão de Rafa.
— Vocês são impossíveis — fingi indignação e me levantei. — Acho que vou pro banho agora pra vocês poderem conversar em paz sobre o Olaf — fiz um gesto desatento com as mãos.
Ambos riram quando me retirei para o meu quarto. Peguei uma camiseta velha e um calção para usar como pijama e me dirigi até o banheiro, tentando o tempo todo controlar meus pensamentos. Sali era tão linda e sensível; provavelmente desejaria somente dormir abraçada a mim como da última vez. E era agradável e seguro dormir junto com ela, como se estivéssemos treinando para ficar juntos pelo resto da vida.
Dormir juntos. Acordar juntos. Tomar café juntos.
Pelo menos por um dia, eu viveria aquilo com ela.
Quando saí do banho, meus pensamentos estavam bem mais claros. Suspirei aliviado e me dirigi até meu quarto de novo, me espantando ao encontrá-la sentada na minha cama. Ela parecia tímida ao ficar sozinha comigo no meu quarto durante a noite.
— Quis te esperar aqui — ela justificou.
— Tudo bem… — sussurrei e me sentei ao seu lado, segurando sua mão entre as minhas e acariciando-a com a ponta dos dedos. — Você está bem, Sali? Você sabe… com tudo o que está acontecendo, com tudo o que ainda vai acontecer.
Ela respirou fundo e apoiou a cabeça em meu ombro.
— Nesse momento eu estou muito bem. Não quero que esse dia acabe nunca e acho que essa é a felicidade: desejar que o momento seja eterno — ela fez uma pausa. — Mas quanto ao resto eu não sei de nada. E sinceramente não quero saber — ela então ergueu sua cabeça e me olhou no fundo dos olhos. — Nada mais me importa. Eu só quero continuar vivendo esse último dia ao seu lado, Guto.
Assenti e peguei seu rosto entre minhas mãos.
— Eu também quero que esse dia seja eterno — sussurrei aproximando cada vez mais nossos rostos. — Quero que ele dure para sempre… sempre… e sempre — foi ela quem separou a distância entre nossos lábios por fim.
O beijo começou brando e delicado, mas logo se tornou mais intenso e urgente. Segurei firme em sua cintura e senti seus dedos apertando minha nuca, deixando-me arrepiado. Suspirei e ela afastou um pouco nossos rostos, olhando-me no fundo de meus olhos. Parecia ser capaz de ver minha alma.
— A porta — ela murmurou.
Levantei e tranquei a porta, logo voltando para o lugar onde estava antes e começando novamente a onda de beijos de onde eu tinha parado. Sali parecia um pouco mais ousada quando colocou os seus joelhos dos lados de meu quadril e se acomodou no meu colo. Procurei pela bainha de sua camiseta e permiti que minhas mãos adentrassem sua blusa, passando a sentir sua pele fervendo contra minha mão.
Mas Sali me parou quando eu tentei tirar sua camiseta.
— Guto — ela ofegou escondendo seu rosto na curva de meu pescoço. — Desculpa, mas eu não sei se eu posso… Não sei se consigo…
Mesmo que ainda um pouco zonzo, apertei seu corpo contra o meu e acariciei seus cabelos. Conseguia compreender o conflito de seus pensamentos e aceitava a sua confusão. Ao me colocar no lugar dela, pude compreender o quanto tudo aquilo deveria ser complicado.
— Tudo bem — murmurei em seu ouvido. — Está tudo bem. Não precisamos fazer nada hoje.
Ela se afastou um pouco; o suficiente para que eu pudesse ver suas lágrimas.
— É bem difícil, sabia? — ela choramingou.
— Eu imagino, meu amor — sussurrei enquanto limpava suas lágrimas. — Eu consigo entender tudo o que está passando pela sua cabeça… Idade. Mãe. Amor. Desejo… E não te culpo por não conseguir aguentar tanta pressão e por não poder tomar uma decisão imediata. De verdade. Eu vou te esperar quanto tempo for preciso, meu amor…
Ela fechou seus olhos e soltou a respiração lentamente.
— Eu sabia que o menino certo esperaria. Eu sabia que você era o menino certo — ela abraçou meus ombros fortemente. — Obrigada, Guto. Por esse último dia maravilhoso. Por esses últimos meses perfeitos. Por tudo.
— Eu que agradeço por você ter entrado na minha vida e ter descomplicado tudo. É tão simples a arte de descomplicar, sabe? Só é preciso amar.
— Sim. Para descomplicar só é preciso amar.
Depois daquilo deitamos abraçados, bem juntos, para que nada mais pudesse nos separar. De alguma forma eu sentia que éramos inseparáveis, duas partes de uma mesma coisa. Nem o mundo todo seria capaz de destruir um sentimento tão forte e bonito. O meu sentimento pela Sali. O sentimento dela por mim.
Naquela noite, quase não dormi. Preferi ficar olhando o sono de Sali, tão calmo e gentil. Sua expressão se suavizava tanto que ela parecia um anjo e, de alguma forma, ela era. O anjo da minha vida.
Pela primeira vez no dia, deixei que as lágrimas escorressem por meu rosto. Pela despedida. Pela saudade. Pelo amor. Pela menina que dormia em meus braços.
Permiti-me ganhar a vida. Permiti–me vencer a minha própria batalha. Não me importei em perder as batalhas contra o mundo. Decidi vencer minhas próprias batalhas e ficar com Sali. Mesmo chorando. Mesmo não deixando a chuva lavar minha alma. Eu aceitei. Com um sorriso na boca e lágrimas nos olhos, eu aceitei.
Fale com o autor