Junto com o resto
6 Nos dias 52, 53 e 55
Tomou um gole de água antes de sair. Ajeitou os primeiros botões da camisa verde enquanto abria a porta da entrada e forçou um sorriso calmo no rosto; precisava parecer confiante.
Os jornalistas não demoraram a gritar o seu nome, ligando as câmeras em sua direção, afoitos. Deixou a coluna reta e não vacilou os passos até chegar ao seu destino. Fechou o portão atrás de si, ficando completamente cercado de pessoas, mas ao mesmo tempo se sentindo sozinho do lado de fora.
— Boa tarde — cumprimentou ao olhar para todos os presentes, recebendo mais gritos de volta. Remexeu a cabeça, sentindo o pescoço estralar de tão tensionado que estava, e pediu: — Por favor, eu gostaria de dar um comunicado rápido sobre as últimas acusações, então precisamos ter ponderação.
Os microfones e gravadores já estavam posicionados embaixo de seu rosto sendo segurados por diversas mãos firmes, e as vozes diminuíram deixando-o falar.
— Cidadãos de Incheon, peço desculpas pela ausência nestes últimos tempos e a demora pelo meu pronunciamento. Existem muitas perguntas e poucas repostas, portanto mando essa mensagem: eu tive condutas erradas, sim. Infelizmente não cuidei da nossa querida cidade como deveria, mas jamais mexeria em algo tão precioso como o dinheiro que os pertence. Ainda estou aqui, com vocês, diferente daquele que me acusou. Farei de tudo para provar que sou inocente, confiem em mim, por favor.
Era um discurso ensaiado, feito com calma nos quatro dias que ficou recluso dentro da mansão, e agradável. Colocou em prática todo o seu conhecimento de dialética e as aulas de marketing político. Até mesmo relembrou algumas matérias da faculdade de Direito para que passasse confiança ética no que falava. Não eram palavras mentirosas, então soaria natural de qualquer forma.
— Desejo esclarecimento na situação tanto quanto vocês. Tenho acompanhado os noticiários e como a situação está complicada para muitos, peço cautela a todos nesse momento. Vamos lutar por uma Incheon mais justa e melhor.
Olhou o rosto de cada jornalista ali presente e pigarreou desconfortável, sinalizando com um aceno de mãos que não falaria mais nada. Abriu o portão e tentou andar devagar para dentro. Cada passo parecia martelar em um músculo diferente, resultado dos dias tensos que passaram.
— Sente-se melhor? — Youngjae perguntou assim que entrou. Esperava-o com os braços cruzados e a expressão cuidadosa, a casa exalava um odor tão doce de canela que parecia fazer carinho no olfato.
Daehyun suspirou de alívio e assentiu, desmontando o sorriso falso que forçava na boca e deixando-a repousar em um sorriso fechado, mas sincero. Ver o outro assim que abriu a porta foi como um vislumbre de um farol no meio da cruel tempestade.
Sem pensar demais no que fazia, levou uma das mãos até o ombro do homem em sua frente e apertou-o. Puxou o corpo quente em direção ao seu, rodeando o tronco de uma forma desengonçada e torta. Seus braços repousaram nas costas de Yoo, assim como os dele seguraram sua camisa com leveza entre os dedos. O contato não durou mais do que alguns segundos, no entanto, foi o bastante para que inalassem o cheiro um do outro e inebriassem seus sentidos. Daehyun estava banhado em colônia importada, Youngjae cheirava como bolinhos doces recém-saídos do forno. Afastaram-se em silêncio.
A gratidão que sentia não cabia em palavras. Diferente de quando o contratou, não via qualquer malícia ou segundas intenções no outro. Jung não sentia-se confortável o suficiente para dizer “obrigado” em voz alta, contudo, Youngjae entendeu o que o gesto significava quando mirou fundo em seus olhos exaustos.
Seria... amizade?
— Eu fiz um bolo de maçã.
Daehyun concordou e indicou que fosse na frente. Tentando acalmar o coração um pouco mais acelerado do que o normal — zumbindo em seus ouvidos e deixando-o insuportavelmente quente —, respirou fundo mais uma vez e seguiu-o até a cozinha.
Revoltas populares estavam cada dia mais comuns e com durações extensas; a população agora demonstrava a sua insatisfação com a falta de representantes preocupados com os problemas reais que enfrentavam. Protestos, motivos e causas se misturavam nas ruas de Incheon. Os pacíficos e os violentos às vezes juntavam-se, causando uma confusão generalizada. Os políticos que sobraram não conseguiam dar conta de toda a demanda e uma eleição urgente precisava acontecer para que a harmonia voltasse a fluir. E era isso que clamavam.
Cinco dias depois de ter sido acusado de desvio de verba pelo ex-amigo Jongup e de ter conversado com os jornalistas, Jung Daehyun sentiu que precisava agir para limpar a sua honra — ou o que restava dela — e voltar a dormir em paz. Então, quando apareceu na porta da Prefeitura, as vaias, os gritos e os pedidos de ajuda foram maçantes. Ele sentia-se desprotegido e impotente frente aos problemas reais; nunca havia passado por isso em sua vida, muito menos na carreira política. Não sabia como agir, não havia ninguém que pudesse lhe aconselhar.
O seu mundo construído em cima de mentiras e interesses quando a família ainda estava por perto foi depredado. As máscaras caíam e revelavam o pior das pessoas, as crises internas e externas ficaram em evidência e toda a sua incompetência como Secretário estava escancarada. Ele não conhecia a sua própria cidade, não fez nada por ela, e agora via-se de mãos atadas para ajudar.
Caminhou pelos corredores do prédio, quase vazio, com destino certo. Subiu pelo elevador até o penúltimo andar e os pés começaram a formigar por conta do nervosismo que sentia. Não ficou muito espantado quando as portas se abriram e viu uma única luz acesa do lado direito; as outras baias cinzentas estavam bagunçadas de papéis e com alguns computadores ligados, mas vazias de qualquer vida humana.
Só uma pessoa trabalhava no meio da confusão e da solidão. Choi Junhong era um dos seus funcionários, sabia reconhecer que era o mais competente de todos. Durante suas constantes ausências e falta de liderança, era o rapaz que mantinha tudo em ordem. Nunca o tratou com o respeito que deveria.
Depois de tanto tempo fora, estava de volta; ficou todos aqueles dias sem dar satisfação alguma a ninguém. Sentia-se um lixo, de uma forma que nunca havia se sentido antes. Nem mesmo quando descobriu que a família não ligava para a sua existência sentiu-se tão mal como naquele fatídico dia.
Junhong estava longe do elevador, porém levantou a cabeça alarmado quando escutou-o abrir. Relaxou a postura por um instante quando viu quem era, voltando a atenção aos documentos abertos em seu notebook em seguida.
— Boa tarde. — Daehyun falou um pouco mais alto, depois de engolir bastante saliva para forçar a voz incerta para fora. O outro murmurou em resposta. — Está um pouco vazio aqui. Os outros andares estão da mesma forma?
— Provavelmente. Não sobrou muita gente no prédio, tanto por corte de gastos como pelas viagens para Orisim. A Prefeitura deve começar do zero nas próximas semanas.
— Faz sentido.
— O Prefeito procurou por você, eu disse que não sabia do seu paradeiro.
O Jung aproximou-se da mesa solitária, apertando uma mão na outra atrás das costas. Pôde visualizar melhor as olheiras profundas embaixo dos olhos castanhos do funcionário frente a luz forte da tela. Os dedos mexiam-se com rapidez pelas letras, e Daehyun não conseguia mensurar como o psicológico do jovem devia estar com todo o peso em cima de seus ombros de uma hora para a outra.
— Eu vou... conversar com ele. — Não sabia como e nem quando, mas tinha total consciência de que precisava prestar contas. Foi chamado para ser Secretário da Justiça por jogo político do pai, imaginava que Yongguk não sabia que era tão vagabundo e presunçoso. Seria uma longa conversa. — Você... Você deve estar acompanhando a confusão que Moon Jongup me meteu.
— Nós temos como provar sua inocência, se é isso que te preocupa — interrompeu-o, parando de digitar furiosamente no teclado. Apontou para uma pilha de caixas amarelas no canto da parede. — Temos todos os registros e balancetes, nada foi desviado. Mesmo acreditando que não exista algum juiz disposto a julgar alguém no meio dessa confusão ou um policial com tempo livre para bater na sua porta, separei tudo para que possa apresentar... — pensou por um instante, apoiando uma das mãos pálidas embaixo do rosto fino. Os cabelos escuros e alinhados com gel completavam sua figura fantasmagórica no meio do vazio. — Apresentar a qualquer um que tenha interesse em te investigar.
— Bloquearam os meus cartões, achei que haveriam mais pessoas atrás de mim. — Daehyun soou quase infantil, bobo, querendo justificar suas preocupações. — Mas fico sossegado sabendo que você cuidou de tudo.
— Como sempre.
— Sim, como sempre — concordou.
Depois de três longas horas gastas em uma conversa telefônica, Daehyun desceu até a sala de jantar e jogou todo o peso do corpo na cadeira. Sentia-se especialmente impaciente naquela noite, ainda mais depois da lista de cobranças e tarefas que precisaria cumprir nos próximos dias, não fazia ideia de onde poderia começar. Apenas dois dias depois de ter ido até a Prefeitura, o Prefeito foi ligeiro e insistente com as chamadas, e-mails e mensagens de texto, clamando por ajuda. O Jung sentia que poderia explodir.
— Como foi? — Yoo saiu da cozinha com a faceta iluminada de sempre, trazendo consigo dois pratos fumegantes de sopa.
— Como está faltando pessoal, vou começar a cuidar da Secretaria de Segurança e Defesa também, portanto foi péssimo. Quase pedi exoneração.
— Você não faria isso — disse meio incerto, bambeando entre a incredulidade e o espanto. Enrugou a testa olhando o outro enfiar uma colher transbordando na boca e chacoalhar os ombros sem vontade. — Você é Secretário, Daehyun! Você e Bang Yongguk foram um dos poucos que não abandonaram Incheon.
— Mas eu não sei... Eu não sei o que fazer.
— Você é formado em Direito, é óbvio que sabe.
— Eu nunca exerci essa merda de profissão. — Largou a colher de qualquer jeito em cima do prato, reverberando um barulho estridente no ambiente. Por baixo da blusa de algodão do pijama o coração batia rápido. — Existem vidas que dependem de mim e eu não faço ideia de como ajudá-las. É muita pressão!
— O Prefeito aguentou toda essa pressão sozinho, você só está lidando com isso agora — rebateu afoito, também deixando de lado a colher e a sopa. O tom de voz nunca se exaltava, porém. Esticou as mãos até que pudesse cobrir as de Daehyun, apertando-as carinhosamente. Como uma melodia de ninar, a voz do homem era capaz de acalmar qualquer um mesmo sob o mais intenso estresse. — Você está aqui e Yongguk precisará de toda a ajuda possível. Não pode abandoná-lo, precisa ajudá-lo a restabelecer a ordem nessa cidade de novo.
— Ele me odeia.
— E eu imagino o motivo, mas agora os tempos são outros. O seu dever com os cidadãos precisa ser maior do que qualquer outra coisa.
Daehyun mordeu os lábios, demorando-se na feição aflita do homem sentado ao seu lado. Os cabelos castanhos claro caídos um pouco acima dos olhos escuros, as bochechas sempre coradas de modo natural — no entanto, devido ao contato um pouco mais íntimo e sob o olhar atento do Jung, estavam destacas em um tom carmesim mais forte.
Youngjae trazia um pouco de luz aos seus pensamentos todos os dias, talvez àquele fosse o motivo para que o jardim no fundo da mansão estivesse tão exuberante; como se fosse um raio de sol andante na Terra, o homem aquecia e acolhia quem estava por perto.
Seriam seus lábios tão quentes e afáveis como a sua presença?
— Você é capaz. Coloque-se à disposição dele, apenas isso — completou Yoo, sem graça com a avaliação concentrada e o silêncio que recebeu de volta.
Quase como se estivesse enfeitiçado, Daehyun só foi capaz de concordar com a cabeça e esconder as mãos — de repente frias — embaixo da mesa.
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