A hora passava devagar naquela tarde de sábado; incomum para a Primavera, o tempo fechado indicava uma chuva que estava prestes a desaguar em cima da cidade. Daehyun estava com o coração mais tranquilo, retomando as atividades na Prefeitura aos poucos e com muito apoio. Passava menos tempo com Youngjae — encontravam-se no almoço e no jantar —, contudo sentia os próprios olhos brilharem quando começava a discorrer sobre o que havia feito de importante no dia. O outro, sempre tão interessado e carinhoso, ouvia-o com um sorriso gigante nos lábios.

Jung e Junhong tiveram uma semana bem cheia tentando colocar as duas Secretarias em ordem. Na segunda-feira bem cedo aconteceria uma reunião com o Prefeito e os que sobraram. Até para a sua própria surpresa, Daehyun sentia-se animado; queria apresentar a todos o que haviam feito nos últimos nove dias. Estava se sentindo útil de verdade.

— Comprei pipoca. Você quer? — Youngjae indagou da cozinha e o outro concordou com um murmúrio, ajeitando-se melhor no sofá. Estava quase se rendendo ao sono quando a reportagem sobre Orisim começou a passar na televisão.

Com uma música de fundo parecendo ter saído de um filme de ação, cheia de tambores e violinos, a sequência de imagens não surpreendia demais: era uma cópia da Terra. O planeta, na verdade, era cinco vezes menor do que a Terra e sua população atual contava com 3.649 pessoas — quase uma cidadezinha de algum interior bucólico. Tinha o céu esverdeado e mares amarelos, pouco agradáveis aos olhos. Haviam prédios enormes, casas gigantes, lojas de grife e shoppings modernos como em qualquer outro lugar. Além dos ricos, os outros habitantes eram os robôs que faziam um importante trabalho de atender, preparar e cuidar de todo o resto. Quem seria doido de pagar milhões para ir até Orisim e trabalhar? Seria degradante.

Na filmagem, as famílias orgulhosas começaram a aparecer uma por uma discursando palavras vazias. Vendo-os abraçar uns aos outros e esbanjar sorrisos, Jung sentiu que poderia vomitar a qualquer instante. O sono sumiu de seu corpo, dando lugar à raiva. Não demorou muito para os seus pais aparecerem sentados em duas poltronas vermelhas, segurando suas taças de vinho. Os avós e as tias estavam ao lado deles com o rosto congelado em uma expressão esnobe de felicidade.

— Trabalhem duro e venham para cá. — Seu pai incentivou com um sorriso falsificado na boca, o tipo de sorriso que o filho o viu dar em várias campanhas políticas pela cidade. Daehyun percebeu como eles eram bons mentirosos, era óbvio que não queriam que mais ninguém fosse para Orisim. As pessoas mais influentes e ricas já estavam lá, o resto não tinha “genes bons o suficiente” para merecer uma passagem só de ida.

Ele praguejou, sentindo os olhos transbordarem com as lágrimas quentes. Não conhecia a própria família. Como pôde ser tão cego? Por que demorou para acordar?

Não sentia que fazia parte dos Jung e, muito menos, daquele tipo de gente. Seus pais, avós e tias estavam em Orisim, cultivando um pensamento imbecil sobre como eram uma raça superior, alimentando uma ilusão preconceituosa e infundada. Ele estava ali — enfrentando problemas de verdade — na vida real.

Deixou um gemido um tanto alto escapar, seguido de um fungar. Não demorou dez segundos para que Youngjae surgisse na sala com a feição preocupada; o homem parecia ter um radar e sentia quando Jung estava mal.

— Começaram com esse lixo de novo? — Indagou de modo retórico, alcançando o controle e desligando a televisão. Não gostava nem de lembrar que aquele tipo de propaganda existia. Olhou a figura minguada de Daehyun encolhido no sofá e suspirou fundo. — O que está rodando por sua cabeça agora?

— Eu poderia discursar sobre Jongup ter mentido e me deixado para trás... — começou a despejar suas dúvidas. Não se importava mais em ponderar as palavras na frente do amigo, sabia que não seria julgado. — Sobre os meus pais não ligarem para mim e não se comoverem com a minha ausência.

Fungou mais uma vez e continuou:

— Mas isso tudo já doeu tanto que o motivo para doer agora é outro.

— E qual seria? — Incentivou, ajoelhando-se no chão e ficando ao lado das pernas inquietas de Daehyun. Apoiou um dos cotovelos nele para que parasse de balançá-las. Estava próximo o suficiente do Jung para que sentisse o calor do corpo dele arrepiar seus próprios pelos do braço; nos últimos dias, acabou percebendo como estava gostando da presença do outro e sentia-se feliz só de pensar que o encontraria durante as refeições.

Daehyun era lindo e estava se mostrando um ser humano cada dia melhor, valorizando o que era certo e deixando toda a mesquinhez em seu âmbito murchar. Ele nem mesmo percebia como estava diferente, mas Yoo percebia bem.

Youngjae levantou o olhar para observar melhor o perfil do homem: lábios grossos e rosados, cabelo bagunçado de um jeito adorável e os olhos... Bom, os olhos escuros um tanto perdidos e vermelhos pelo choro. Daehyun era como uma escultura moderna de mármore, mas com um coração de ouro.

Oras, Yoo estava tão rendido e interessado no homem que não era capaz de disfarçar. Parecia natural que se apaixonasse; começaram a passar mais tempo juntos e descobriu um lado amável daquele que considerava um gigante de gelo. Nutria uma verdadeira paixão por elementos que floresciam frente as adversidades, era por isso que gostava tanto de cultivar o jardim naquela mansão. Como uma Mugunghwa que brota no meio da pedra, Daehyun conseguiu renascer como um homem bom no meio do caos de sua vida.

— Eu não tenho uma resposta coerente pra isso, só tenho a certeza de que vivi uma mentira por muitos anos.

— É bom que você saiba reconhecer isso. Jongup te acusou de desviar dinheiro, sendo que ele o tinha feito. Ele só precisava de um bode expiatório para não ser preso. Ou quase isso. — Justificou, olhando outras lágrimas escorrerem dos olhos de Daehyun. — A sua família têm prioridades diferentes, talvez nunca saibamos se eles agiram em conjunto ou não. Você provou a sua inocência com facilidade e os envolvidos pagarão o que devem, mesmo estando em outro planeta. Você está fazendo mais pela cidade do que eles já fizeram. Está trabalhando com honestidade, pelo bem de Incheon e seus cidadãos.

— Mas por que estar certo, nesse caso, não me deixa feliz?

— Você não precisa ficar feliz agora, apenas sinta-se grato. Por estar aqui e ter a chance de ser diferente.

Youngjae segurou seu rosto com delicadeza, compadecido com o momento. Enxugou mais duas lágrimas que percorriam as bochechas do outro, e pegou-se fazendo carinho na região. Os polegares resvalavam na pele com delicadeza e Daehyun aninhou-se ali com um suspiro sôfrego — como se estivesse passando sede há anos e as mãos de Youngjae fossem como água cristalina que lhe trouxesse alívio.

Seus olhares se cruzaram pela primeira vez e os corações bombearam o sangue mais rápido nas veias.

A experiência no amor do Jung não era extensa ou memorável, já que a sua visão de vida podia ser considerada ligeiramente deturpada até algumas semanas atrás. O Yoo namorou duas vezes na vida e foram casos que não duraram muito, sua vida sempre esteve focada no trabalho e em ajudar a família.

Mas o que estavam sentindo naquele momento parecia certo, apenas certo.

Genuíno.

Sincero.

Agradável.

Quente.

E foi por isso que Daehyun tomou iniciativa e aproximou o rosto um pouco mais, atento a qualquer movimento de fuga ou rejeição. Não encontrou nada do tipo; Youngjae permaneceu imóvel com as mãos em seu rosto e os olhos amendoados semicerrados, esperando o desenrolar daquilo.

Mais confiante, Jung juntou seus lábios nos dele.

O beijo começou com um selinho inseguro, tentando não apressar demais o momento. Depois de alguns segundos, a vontade por um contato maior se fez presentes e as duas bocas se abriram, encaixando-se melhor. As mãos que seguravam o rosto subiram até os cabelos despenteados, enrolando-se ali. As pernas inquietas pararam de se remexer, separando-se por um momento para que o corpo do outro repousasse em seu meio.

Porém, quando os corpos se tocaram melhor e o ambiente ficou mais abafado do que já estava, o beijo parou.

Daehyun se afastou por um momento, ofegante. Rolou os olhos para o teto, falhando em conter um sorriso gigante — que seria impossível disfarçar mesmo se fizesse muito esforço.

— Eu sou muito grato — confidenciou baixo quando olhou para Youngjae, que compartilhava a mesma alegria. Encontraram-se no meio do caminho novamente e aproveitaram os lábios calorosos um do outro pelo resto da tarde.

Algo estava diferente, e não era apenas a chuva repentina na Primavera molhando o jardim.