Junto com o resto
8 Nos dias 99 e 114
O último mês havia praticamente voado. A prefeitura voltava a ganhar vida, os protestos diminuíam a cada dia e as demandas urgentes haviam sido resolvidas através do trabalho árduo de todos. A nova eleição para Presidente e Deputados aconteceria tão logo novembro começasse, apresentando candidatos renovados e aparentemente com os pés no chão. A sociedade não era perfeita, mas estava melhor do que antes. Tudo começava a encontrar o seu devido lugar, incluindo Jung Daehyun.
Os armários da cozinha eram abertos entre suspiros e murmúrios enquanto ele tentava localizar as ferramentas que precisava para finalizar sua obra. Estava trabalhando contra o relógio, já que Youngjae voltaria do centro da cidade logo.
Não eram namorados oficializados, ainda estava muito cedo para sequer pensarem em colocar um nome no que tinham, no entanto, passavam mais tempo beijando-se e compartilhando seus pensamentos entre sussurros do que fazendo qualquer outra coisa. Daehyun gostava de ver o sorriso bonito e brilhante do outro, então esforçava-se ao máximo para manter aqueles lábios sempre curvados para cima, por tal, começou a se arriscar com a comida, de vez em quando tentando ajudar com o jantar.
Quando terminou de limpar a calda que havia escorrido para fora do prato, escutou a porta da frente bater. Jogou o pano de prato em cima do ombro e ficou esperando como uma estátua no meio da cozinha.
— Esse cheiro bom... — O outro veio elogiando, desacreditado demais nos próprios sentidos. Quando chegou em seu destino, engasgou levemente com o que viu. A bagunça era um caso à parte, mas o que fez seu coração amolecer mesmo foi o homem lhe esperando com um doce nas mãos. — Você cozinhou isso? — Indagou com um sorriso largo e o olhar brilhante, expondo através da face toda a surpresa com a situação.
— Eu tentei — Daehyun respondeu sem jeito, empurrando o que havia feito para as mãos do Yoo. Era um bolo pequeno de baunilha um pouco torto em cima do prato, a cobertura de morango escorria de uma forma convidativa em cima do mesmo. A colher de prata logo fez o caminho até a boca, deixando-se deliciar pelo gosto doce e agradável. Youngjae sentiu como se estivesse sendo abraçado com aquele bolo ainda quente, era como se tivesse acalmado o coração a pequena dose de açúcar feita com tanto carinho.
Os olhos cheios de expectativa de Daehyun esperavam o veredito, torcendo — agora — o pano de prato nas mãos ansiosas.
— Isso está muito bom. — Conseguiu responder após comer quase tudo. Estava bom, mas havia muito mais por trás. O gesto bonito com que o Jung havia feito o bolo deixava-o comovido pela situação, tornando o doce ainda mais gostoso. Começou a sorrir com a boca fechada, no entanto, sua felicidade era tanta que logo os olhos castanhos se fecharam e o sorriso alargou. Daehyun suspirou alto, sentindo-se feliz também.
Passou um tempo mais observando a figura bonita do outro absorta na sobremesa. Ele era tão lindo e exalava tanta bondade sem nem mesmo se esforçar para isso; o coração do Jung chegava a doer com a velocidade que estava disparando.
— Isso é ótimo! Gastei, exatos, mil e quatrocentos won* para fazer esse bolo.
Youngjae riu, achando a informação aleatória, mas interessante. Lembrava-se de como, algum tempo atrás, o outro não conseguia nem mesmo pisar dentro de um supermercado sem sentir um grande desconforto. Ele estava mudado.
— Você sabia que é possível fazer muita coisa gastando pouco? — Daehyun continuou, deixando mostrar que havia segundas intenções no bolo, na conversa e na sua pergunta. Mal conseguia disfarçar a agitação que sentia pelas próximas palavras que estava prestes a dizer.
— Como assim?
— Eu andei fazendo umas pesquisas interessantes pela cidade, discutindo valores e possibilidades. Não me imagino trabalhando o resto da vida na prefeitura, a política não é pra mim. Comecei a passar mais tempo com você e descobri um outro lado das coisas simples, você me mostrou bondade em gestos pequenos que eu nem sabia que podiam significar tanto. Posso dizer que a sua bondade me deu essa ideia... — O homem aproximou-se mais do outro, pegando o prato vazio e deixando em cima da bancada. Permaneceu em silêncio por poucos segundos, esquadrinhando cada canto do rosto confuso e bonito à sua frente. — Eu acredito em você e quero te ajudar.
— O que você está dizendo?
— Eu não tenho muito a oferecer além do meu apoio e ajuda financeira, então... Então, você me aceita como o seu sócio?
— Meu sócio? Em quê? — Youngjae segurou os ombros do outro com força, tanto pela surpresa, quanto pela agitação que começava a sentir. Não fazia ideia do que estava acontecendo, mas dentro de si sentia que seria algo incrível; a expressão animada e esperançosa de Daehyun garantia isso.
— Vamos abrir um restaurante. Não um do tipo comum, vamos oferecer pratos deliciosos com um custo extremamente baixo. — Apontou para o doce, enfático no que dizia.
Nas últimas semanas, Jung Daehyun passou horas e horas avaliando aquela possibilidade. Desde o dia em que Youngjae deu o próprio pretzel para a criança com fome, o choque de realidade vinha socando o seu mundinho perfeito. As coisas eram difíceis para a maioria das pessoas; só de pensar que muitos passavam fome por não ter a condição mínima de vida decente, um desespero sombrio tomava conta do seu ser. Não era mais sobre a sua família, ser deixado para trás, assumir responsabilidades ou sua riqueza. Agora, era sobre fazer o melhor com o que tinha e poder ajudar os outros.
E juntando com o desejo de vida da família Yoo de ter um restaurante, aquela ideia surgiu e moldou-se aos poucos em sua cabeça com cada vez mais confiança e certeza.
Percebendo os olhos emocionados e prestes a expulsar grossas lágrimas de Youngjae, prendeu-o em um abraço carinhoso, murmurando em seu ouvido:
— Convide a sua família para um jantar. Vamos comemorar.
Algum tempo depois e o jantar aconteceu na mansão Jung. Os pais de Youngjae eram pessoas simples, mas amáveis. O irmão não pôde comparecer por estar em horário de serviço, contudo — assim que o restaurante fosse inaugurado — não via a hora de poder realizar o seu sonho também.
Cada detalhe era discutido e avaliado com cuidado, todos se envolviam da forma que mais se sentiam confortáveis e Daehyun levava em conta todos os conselhos dados pelos mais velhos. Sentiu-se confortável e verdadeiramente em casa.
Após o jantar, ainda comentando sobre o sucesso da noite e o que o futuro os reservava, os dois homens conversavam sentados na cama. Pela primeira vez, Youngjae dormiria na cama do outro na mansão.
— Eu cuido tanto de você que meus pais têm certeza de que somos um casal.
— Mas não somos um? — O Jung perguntou, percebendo a intenção por trás do comentário. Eles não definiam o que era, talvez fosse um bom momento para finalmente se assumirem. Não era segredo para ninguém o que sentiam.
— Implicitamente.
— Você espera um pedido formal? Flores, velas, doces e banheira quente? — Brincou e Youngjae sorriu. — Eu tenho grande interesse em você. Será que poderia dar essa chance para mim?
— Você quer mesmo namorar comigo? — Yoo indagou enquanto rodeava o pescoço do homem com os braços, deixando suas bocas na mesma altura.
Daehyun não precisou responder com palavras, elas apenas estragariam o momento; juntou seus lábios nos dele.
Cinquenta e um dias depois do primeiro beijo, amaram-se de corpo e alma.
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