João de Barro

2 O que ele fez...


Notas iniciais
Boa tarde! Bem, aqui está o capítulo 2, como prometido. Aproveitem (:

— Eu protesto! – um homem alto e jovem, com cabelos pretos e olhos castanhos me interrompeu, levantando-se de seu assento.

— Concedido. – um senhor de meia idade com cabelos levemente grisalhos respondeu.

— Meritíssimo, ele realmente quer que acreditemos nessa historinha? Todos aqui sabem o que aconteceu de verdade. O réu só não quer admitir a culpa!

O senhor olhou na minha direção. Os olhos azuis olhavam para mim com severidade, como se tentassem ver através da minha alma.

— Senhor Barbosa, por favor, diga a verdade. Isso não é brincadeira, é uma audiência.

— Eu disse que tinha duas versões, não é mesmo? – respondi secamente, me remexendo em minha cadeira de madeira. – Deixem-me contar a segunda e depois disso sintam-se livres para escolher.

— Tudo bem, mas não esqueça de que você está sob julgamento. – o juiz lembrou-me. – Toda e qualquer mentira terá peso sob a pena final.

— Voltemos ao começo então...

***

[...]

— Que horrível! – ela se aconchegou em meus braços, protegendo-se.

— Pode até ser, mas é interessante.

— Sim... – sussurrou enquanto verificava o relógio. – Ah, parece que preciso ir... Ao contrário de certas pessoas, eu tenho meia hora a menos no almoço.

— Passou rápido... Como sempre.

— Realmente...

— Quer que eu te leve até lá?

— Não precisa. Minha colega almoça num restaurante que fica na esquina. Ela disse que me daria carona hoje.

— Tudo bem... Mas já estou com saudades...

— Amanhã faremos tudo de novo. – ela sorriu docemente e me beijou. – Eu prometo.

— Estarei esperando... – retruquei enquanto a via se afastar.

Decidi voltar imediatamente ao trabalho. Se eu economizasse esses trinta minutos restantes poderia sair mais cedo e aproveitar mais meu dia.

Assim o fiz. O trânsito não estava caótico como sempre, então cerca de seis e quinze já estava em casa. Atirei minha mochila em cima da cama e joguei-me em seguida. O que eu poderia fazer agora?

Decidi tomar um banho para arejar a cabeça e, depois deste, a ideia veio. Por quê não levar minha noiva para um jantar romântico?

Era uma ideia perfeita. Iria fazer uma surpresa para ela, demonstrando o quanto a amava.

Me troquei rapidamente e saí com o carro. Estava perto da hora do expediente dela acabar, então seria inesperado.

Sabe, eu não sou um cara que surpreende todos os dias, mas sempre que vejo uma oportunidade, o faço. Um relacionamento é fruto do carinho e dedicação de ambas as partes, logo não há nenhum mal em demonstrar ao amor da minha vida que eu a amo.

Parei do outro lado da rua, uns dez metros adiante, e desci do veículo para poder avistá-la, esperando que ela correspondesse o olhar. Estava ansioso para ver sua reação, mas não foi bem isso que aconteceu.

Ela estava parada na frente da floricultura, olhando para os lados. Um homem loiro com olhos azuis, pele branca e óculos se aproximou dela, conversando. Pensei que fosse algum amigo da faculdade – já que ela estava cursando o último ano de belas artes –, mas não demorou até que eu percebesse que ele era... bem... um pouco mais que isso.

Os vi darem as mãos e se beijarem, seguindo rua acima. O sorriso em meu rosto desapareceu imediatamente, transformando-se em pesar.

Não tive reação alguma, apenas ouvi meu coração se quebrar. O som não foi nada bonito, então voltei para casa contendo as lágrimas, esperando que minha mente tivesse me enganado e tudo aquilo não fosse real. Tomei outro banho e fui para a cama, mas não consegui dormir.

Mesmo arrasado, fui trabalhar no dia seguinte.

Durante o almoço, fingi que nada havia acontecido. Ela não havia me notado no dia anterior, mas eu sei o que vi. Se ela podia fingir tão bem, então eu também podia. Nos despedimos, mas desta vez não me ofereci para levá-la ao trabalho.

Repetimos isso mais uma vez no outro dia, mas o que ela não sabia era o que eu realmente planejava.

Nosso final de semana era livre, então decidi convidá-la para dormir em casa. Eu a levaria de volta no domingo, logo depois do jantar, como sempre.

— Eu adoraria! – ela sorriu ao ouvir o convite, me abraçando em seguida.

Abri um sorriso malicioso por trás do abraço.

Ótimo, pensei, agora é só por o plano em ação.

Durante a ida para minha casa, não ousei dar um só pio dentro do carro. Minha expressão era séria, mas ela deveria achar que era por conta do trabalho.

Abri a porta e a guiei até a cozinha, onde havia arrumado uma mesa de jantar com rosas e velas, só para nós dois. A comida era a preferida dela: strogonoff de camarão; e ela logo agradeceu, dizendo que eu não precisava me dar ao trabalho de preparar tudo isso.

— É uma noite especial. – eu disse. – Aproveite a refeição.

Porque será sua última..., completei em meu pensamento.

Tomamos banho separadamente e dormimos na mesma cama, sem fazer nada demais. Ela era religiosa, e para mim não era um grande esforço esperar até o casamento – que eu sabia que não ia acontecer, embora já estivesse marcado.

— Você está feliz comigo? – perguntei.

— Claro que sim! Eu te amo. – ela disse e me beijou.

Virei para o outro lado, esperando o dia amanhecer com uma só certeza no coração: as mentiras acabariam em breve.

Acordei às seis da manhã no sábado. Ela dormia ao meu lado sem maiores preocupações, sonhando.

Vesti um moletom e levei Max para dar uma volta no quarteirão. Retornei e alimentei Tom, que miou de alegria. Fiz algumas tarefas diárias, como lavar a louça e arrumar alguns papéis, e enfim estava livre.

Fui até a cozinha e preparei um café da manhã para minha querida noiva. Torradas, geleia, uma maçã e um copo de suco de laranja.

Entrei no quarto com a bandeja, que acompanhava uma flor. Acordei-a por volta das sete e vinte e lhe ofereci a comida, a qual ela aceitou imediatamente – mal sabia ela que eu havia colocado um medicamento no suco.

Quinze minutos depois, ela apagou. Peguei-a no colo e a levei para um outro cômodo da casa, onde eu havia colocado apenas uma cadeira. Recostei-a ali e amarrei seus pulsos nas costas, passando pela cadeira. Atei seus calcanhares, prendendo-os nas pernas do móvel e coloquei uma mordaça em sua boca.

A sala não era usada por mim há anos, por isso estava vazia. Não havia janelas, apenas uma única porta, a qual eu tranquei pelo lado de fora

Algum tempo depois fui ver como ela estava. Ao me ver, começou a chorar, pensando que eu era seu salvador.

Obviamente ela estava enganada.

Retirei a mordaça e ela logo agradeceu, interrompendo-se para respirar:

— Ainda bem que você chegou! Eu não sei o que aconteceu! Me ajude!

Sentei-me no chão, virado para ela e a encarei friamente, aguardando.

— Amor, o que você está fazendo? Vamos logo, temos que fugir! Me desamarre!

Fiquei em silêncio alguns instantes.

— Quanto tempo faz? – perguntei por fim.

— “Quanto tempo faz” o quê? Acordei faz alguns minutos apenas!

— Não finja que não sabe do que estou falando... Quanto tempo faz que você sai com outro cara?

Ela se surpreendeu, hesitando.

— Heh... – ironizei. – Acho que acabei de colocar o dedo na ferida.

— Como você...?

— Eu vi você saindo com o cara de óculos na quinta-feira, depois do seu trabalho. Eu tinha ido até lá para te buscar e fazer um jantar romântico, como o de ontem, mas digamos que não deu certo, não é mesmo?

Silêncio.

— Não precisa esconder. – disse. – Eu vi com meus próprios olhos.

— T-três meses... – ela admitiu, cabisbaixa.

Por quê?

— E-eu... eu não sei...

— Pra cima de mim, Madalena? Me poupe! Se eu não sou o suficiente, era só me dizer, e não me trair, fazendo tudo às escondidas! Se eu soubesse que seria assim nunca teria proposto um casamento!

— Não diga isso, Roberto!

— Quer saber, não me importo mais. – bufei, tirando minha aliança do dedo e jogando no chão. – Faça o que quiser da sua vida.

— Não! Espere, Roberto! Tire-me daqui! Eu irei me redimir com você, mas não me deixe! Nosso amor mal floresceu!

— O meu amor já murchou.

— Não!! – ela gritou enquanto eu tentava amordaçá-la novamente.

Ela resistiu um pouco mas eu consegui. Me encaminhei para a porta, abrindo-a e fitando minha noiva pela última vez. Seus olhos derramavam incontáveis lágrimas e ela franzia o cenho. Em resposta a isso, eu suavemente cantarolei:

João-de-barro, eu te entendo agora... Por favor me ensine como guardar meu amor...

Ela se remexeu na cadeira, tentando em vão se libertar. Meu coração continha toda a angústia de um homem, mas agora esse homem enfim se sentia realizado.

— Adeus, Madalena...

Deixei-a lá durante todo o final de semana. Sem comer. Sem beber. Sem ir ao banheiro. Sem poder sair. Sem agasalhos. Sem medicamentos. Sem amor.

***

— Ela não compareceu no trabalho e nem voltou para a casa da mãe, o que preocupou a todos. Como eu era o último que a havia visto, fui questionado. A polícia foi até minha casa e a encontrou naquele quarto, morta. O cheiro era ruim, mas somente lá dentro... E, aqui estamos nós, discutindo sobre isso... – eu fiz uma pausa. – Bem, este é meu depoimento.

O juri, assim como os advogados e parentes presentes ficaram surpresos com a minha frieza. O juiz tentou não demonstrar reação, mas seus olhos vacilaram por um instante, o que me fez abrir um sorriso torto.

Notas finais
Deixem seus comentários sobre o que acharam da história até agora. Não esqueçam de favoritar, acompanhar e recomendar para seus amigos. Estou esperando o seu review :3 P.S.: Ah, e daqui quinze dias o último capítulo será postado. Continuem acompanhando!