João de Barro
3 Veredicto...
Notas iniciais
— O juri chegou à uma conclusão. – uma moça de cabelos loiros e pele pálida levantou-se, com um papel na mão. Provavelmente a irmã menor de Madalena.
— E qual é a decisão? – perguntou o juiz.
— Nós julgamos o réu culpado.
— Pois bem... O que o réu tem a dizer sobre isso?
— Culpado. – eu disse, dando de ombros.
Os espectadores emitiram um leve arquejo, supresos.
— Senhor Barbosa, tem noção do que acabou de dizer?
— Sim, tenho. Dispensei o advogado de defesa oferecido pois já tinha consciência do resultado de tudo isso antes do veredicto sair... Não queria que alguém gastasse seu precioso tempo numa defesa que não trará resultados positivos. Tempo é dinheiro, e como hoje em dia temos uma raça parasita de advogados, que ao invés de sugarem sangue, sugam dinheiro, achei totalmente desnecessário.
Abismados com a situação, todos ficaram em silêncio para ouvir a palavra final.
— Eu, Luís de Cardoso Silva, juiz desta audiência, declaro o réu, Roberto Barbosa Cavalcantti, culpado pela morte de Madalena Martinez e o sentencio a vinte e cinco anos de prisão, sem direito de redução penal.
— Só isso?! – uma mulher com cintilantes olhos verdes se levantou, protestando. – Esse monstro matou a minha filha!!
— Sinto muito, senhora Martinez, mas a decisão já foi tomada. O réu deve ser encaminhado para a prisão estadual imediatamente.
Eu estava algemado desde o princípio, e enquanto me levantava as correntes tilintaram. O macacão laranja da penintenciária aqui do Rio não me agradava, mas eu também não o odiava.
Quando cheguei ao meio do salão, a mulher se levantou novamente, gritando:
— Minha filha era inocente! Você matou uma boa pessoa!!
Dois homens fortes estavam ao meu lado, mas eu parei assim que ouvi aquilo e me virei lentamente, perguntando:
— A senhora já foi florista também, não é?
Ela me encarou, furiosa, como se isso fosse um insulto. Mas ela engoliu esse sentimento e disse, com orgulho:
— Sim, a loja era minha antes de ser de Madalena. Algum problema?
— Ótimo. Então acho que vai compreender minhas palavras...
E então, olhando nos olhos cinzentos daquela senhora, eu disse minhas últimas palavras dirigidas à família Martinez:
— Para fazer o buquê perfeito, precisamos colher as mais lindas flores.
Não dei chance de resposta – se é que poderia haver uma. Virei-me e continuei caminhando rumo à minha sentença.
Só fui preso realmente alguns meses depois. A justiça brasileira realmente é lamentável... Mas eu não queria viver. Não tinha motivos para isso.
Assim que entrei na prisão, me rebelei, comportando-me o pior possível. A pena de morte não é comum por este país, mas muitas coisas acontecem “por baixo dos panos”.
Dois anos mais tarde, me sentenciaram à cadeira elétrica. Admito que uma injeção seria melhor, mas aceitei mesmo assim. Eles provavelmente diriam que eu morri de causas naturais na prisão e tudo se encerraria.
Sabe, voltei a pensar naquele rapaz loiro ultimamente. Acho que eu compreendo o motivo superficial para ela ter me trocado por ele... A luxúria está inteiramente ligada com a vaidade, e na sociedade em que vivemos, beleza é tudo, assim como o dinheiro. Esse cara provavelmente tinha os dois.
Ah, bem, não importa. Já passou. Eu espero que ele seja feliz enquanto pode, porque nunca se sabe quando a vida se voltará contra você.
O mundo dá voltas, e agora aqui estou eu, sentado nesta fria e mórbida cadeira, onde meus pulsos e pernas estão amarrados... Quantos será que já passaram por aqui, com o mesmo destino?
É. Inúmeros, com certeza. Mesmo assim não deixo de sorrir, pensando em como Madalena se sentiu em seus últimos momentos. Eu sempre fui um joão-de-barro. Agi como um e agora finalmente poderei alçar vôo, como sempre quis. Em minha mente, apenas uma frase ronda, e eu a canto em meu sonho mais íntimo e deliberado:
“Oh, meu Deus, me traz de volta essa menina.. Porque tudo que tenho é o seu amor...”
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