Jovens e Gigantes
2 Croissant e conversa
Notas iniciais
O hospital cheirava a material descartável, álcool em gel e medicina aplicada. A viagem de ScotRail custou-os cerca de quatro horas, mas eles conseguiram chegar antes do pôr do sol ao Glasgow Royal Infirmary. Segundo Dan, este era o nome “mais tremendamente escocês da face da Terra”.
— Com licença — Fiske dirigiu-se à jovem recepcionista de unhas postiças no balcão. — Meus, uhm, sobrinhos estavam a caminho daqui, pode me dizer se chegaram? Seria uma emergência, um ferimento de bala no pé de uma garota.
— Oh! — Os olhos da moça mostraram claro reconhecimento e ela se levantou da cadeira rapidamente — Então o senhor é o responsável por aqueles garotos! Aquele menino é uma coisa, vou te contar… O moreno, eu digo. Tão formal e responsável, com ares importantes! Ele gerou uma pequena comoção aqui…
— É, é o Ian, sim. Eles chegaram. — Dan concluiu.
—… Enfim, a garota foi encaminhada para o bloco cirúrgico. Acredito que já tenha entrado em procedimento. — Ela continuou, olhando para o monitor em sua mesa. Fez uma leve pausa, mas, com cara de quem não consegue se conter, perguntou: — Desculpe, mas se importa em me contar o que aconteceu a ela? Quer dizer, não é todo dia que uma garota chega aqui com roupas de grife e um ferimento de bala…
Ok, Amy não tinha pensado nessa parte.
— Sinto muito, mas é um caso particular. — O Sr. McIntyre interveio — As autoridades já estão a par da situação e não temos permissão de falar sobre o assunto. Onde podemos encontrá-los, por favor?
— Entendo, tudo bem. Ahm, sigam pelo corredor largo à esquerda daquela entrada ali. Há uma placa de “Emergência — Cirurgia”. Não tem como errar.
Todos agradeceram e atravessaram o lobby em direção à entrada apontada pela moça. Amy não conseguia deixar de imaginar, temendo, que coisa à la Kabra Ian tinha feito. Ela só podia esperar que não tivesse chamado tanta atenção assim.
— Ei, onde será que é a lanchonete? — Nellie perguntou a ela. — Aqui deve ter lanchonete, né? Eu tô com uma fome… Quê? Não me olha assim! Eu não vou agora… Mas eu estou com muita fome. Aquele sanduíche do trem não deu pro gasto.
Amy riu.
— Sanduíches, você quer dizer. E é bom você não ir. Ian quer conversar com “os Madrigal”. Acho que isso quer dizer você, Sr… Tio Fiske e Sr. McIntyre.
Eles entraram pela porta dupla sob a referida placa e se viram em uma sala com chão em carpete, iluminada por lâmpadas fluorescentes. Era grande, havia uma janela para o estacionamento tomando toda a parede direita e vários conjuntos de poltronas e sofás no lugar das costumeiras cadeiras desconfortáveis. Um balcão, aparentemente vazio, ocupava a parede direita, separando duas portas.
Havia dois grupos na sala: um casal claramente angustiado, sentado a um canto, de seus trinta-quarenta anos, mãos dadas e olhos inchados, e uma família de cinco pessoas e uma garotinha entediada, que conversavam em tom baixo e olharam-nos ao entrarem. Amy quase pensou que a recepcionista havia errado até perceber Ian levantando o rosto na direção deles, no extremo oposto do ambiente. O reflexo disse para agarrar o irmão e Nellie e saírem correndo, mas então seu cérebro assimilou a situação real. O garoto estava um trapo…
Quando Amy e os outros saíram do helicóptero, também não pareciam nada bem. Todas aquelas explosões e desabamentos deixaram-nos bastante sujos, sem contar que Nellie, Fiske e McIntyre foram amarrados a lápides e seus pulsos estavam machucados. No trem, haviam recebido muitos olhares estranhos antes de pensarem em se lavar. O menino, notavelmente, não havia tido a mesma oportunidade.
Seu cabelo não estava assentado perfeitamente e exibia uma fina camada acinzentada de pó. As roupas de grife estavam amarrotadas e igualmente sujas de terra e sangue, com ambos os joelhos rotos e um cotovelo levemente rasgado. Entretanto, Ian exibia a mesma expressão de autoconfiança de sempre, no momento acompanhada por aquele ar de foco que muitos homens de negócios utilizam.
O grupo caminhou até onde o menino estava e este se levantou para recebê-los. Fiske estendeu-lhe a mão.
— Ian. Espero que não tenhamos demorado muito. Onde estão Ned e Ted?
— Eles saíram para ter uma conversa com os cirurgiões de plantão. — Para a surpresa de Amy, ele apertou a mão estendida — Ao que parece, são reconhecidos entre os médicos por uma monografia que escreveram ou algo do gênero…
— E a sua irmã? — Nellie perguntou.
— Natalie foi conduzida para a sala de procedimentos logo que chegamos. Fui informado de que a cirurgia em si deve levar de quarenta e cinco minutos a duas horas, mas provavelmente será mais curta, pois a bala já foi retirada e não foi em uma região de órgãos vitais. Mas o pé possui muitos ossos, de qualquer maneira…
— Você não pôde entrar com ela na cirurgia? — A jovem continuou.
— Poderia, sim, mas precisei esperá-los. Tivemos um problema com a ficha da minha irmã, sabem… Alguma asneira a respeito de não ter um adulto responsável por ela, e de ser um caso que exige o envolvimento da polícia e tudo o mais… — Ele suspirou — Eu acho que eu poderia responder por ela muito bem. Embora realmente não esteja claro para mim a situação da polícia, e é uma das coisas sobre as quais quero discutir.
A conversa. Amy estava ansiosa para ela. Durante a viagem, não tiveram muito tempo para falar sobre qualquer coisa… Depois de limparem-se, cada um basicamente se aconchegou em sua poltrona e pegou no sono. A adrenalina de Amy, porém, não havia passado completamente, instigada pelas imagens que ela fazia de Isabel no helicóptero com Sinead e Alistair. Como seria a vida para ela e Dan a partir de agora? A conversa com Ian provavelmente clarearia os horizontes.
O Sr. McIntyre prontamente assumiu a postura de advogado e ofereceu-se para resolver as questões legais da cirurgia.
— Eu ligo se precisar de um familiar adulto — avisou a Fiske, e se dirigiu para o balcão vazio, em que tocou uma campainha.
Fiske virou-se para Ian.
— Você gostaria de ter esta conversa agora? Porque talvez seja melhor a termos em outro lugar. — Ele disse, olhando para as famílias no outro lado da sala.
— Sim, prefiro que seja agora, enquanto Natalie está longe… — A um olhar confuso de Amy, ele acrescentou — Acho mais sensato deixá-la sem saber de alguns assuntos, principalmente agora.
— Ótimo. Então acho que poderíamos ir à lanchonete do hospital. — (Dan sussurrou um “Isso!”) — McIntyre nos avisará se a cirurgia acabar.
Eles retiraram-se da sala, recebendo olhares desconfiados das pessoas por causa do estado de Ian.
O Royal Infirmary era um aglomerado de construções de estilos diferentes construído ao longo de períodos diferentes. A ala em que estavam ficava no Bloco Central, inaugurado em 1914, e eles tiveram de praticamente sair do campus para chegar até o The Clock Tower, o bistrô que ficava na rua Castle.
Amy, durante o caminho, teve os olhos constantemente desviados para a postura de Ian. Ele era um Lucian, mas não conseguia esconder os músculos tensos, ombros caídos e os olhos preocupados. Ela notou o quanto a vida dele e de Natalie mudaria a partir de então, muito mais do que a dela e de Dan.
O ambiente do bistrô era prioritariamente decorado em cores quentes, mas não excessivas. O cheiro de chá e assados encheu as narinas de Amy, enquanto as vozes displicentes dos muitos clientes chegavam aos seus ouvidos. Ela sentiu Nellie e Dan inspirarem em deleite. Eles escolheram uma mesa ao canto esquerdo e, depois de pedirem a um gentil garçom suas tortas de carne, crumpets e croissants, Fiske começou:
— Então, Ian. Acredito que, na mensagem, você tenha dito que precisava falar com “os Madrigal”.
— Isso mesmo… — Ele se empertigou — Eu tenho algumas, ahm, dúvidas… Para começar, eu gostaria que você me explicasse que é.
O homem sorriu, como se lembrando de uma piada interna.
— Eu sou, como já disse, irmão de Grace Cahill. Sim, eu sei que nunca me viram ou ouviram falar de mim. Estou em atividade pelo clã dos Madrigal há muitos anos, sou um agente especial, por assim dizer. Eu me mantive nas sombras durante muito tempo. Nem Dan ou Amy sabiam sobre mim…
Ian olhou para Amy como se procurando uma confirmação, e ela assentiu. O homem continuou:
— Eu ajudei Grace na empreitada das 39 pistas desde o começo. Fui dado como desaparecido no ano de ’60, durante uma missão, e depois divulgaram a minha morte — Fiske deu de ombros. — Como funcionava bem para mim e meu papel no clã, levei de bom grado. Achamos, inclusive, engraçado, eu e Grace… Eu vivi perto dela em Attleboro, mas nunca tornei a levar uma vida normal, obviamente. Acho que me acostumei a ser invisível.
Subitamente, uma pergunta passou pela cabeça de Amy. Tão subitamente que escapou de seus lábios antes que pudesse refreá-la:
— Tia Beatrice sabe que o senhor está vivo?
— Honestamente, eu não sei. — Ele franziu o cenho, pesando a pergunta — Acredito que saiba, Amy, mas também acho que não liga o mínimo que seja.
Amy ficou em silêncio, não sabendo o que dizer.
— E onde a babá entra na história? — Ian indicou Nellie com o polegar.
— O nome da babá é Nellie, muito obrigada. — A garota respondeu, estreitando os olhos. — Eu fui contratada por Grace para ser a au-pair de Dan e Amy há algum tempinho, porque ela sabia que o começo da Busca pelas Pistas estava próximo. Minha família guarda o tesouro dos Cahill há gerações, e Fiske e Grace me escolheram e nomearam uma Madrigal.
Ian ficou quieto por uns segundos, a testa franzida.
— O que foi, Cobra? — Dan resmungou, finalmente, enfatizando o apelido.
— Sua avó, Daniel. — Ian imitou-o — Não consigo decidir se ela era um gênio ou uma louca. Essas jogadas que ela costumava fazer… Quero dizer, ela incluiu meus pais na leitura do testamento…
Amy não podia deixar de concordar com Ian nessa parte. Aparentemente, ninguém na mesa podia. Grace deveria ter tido muita fé nos próprios netos para acreditar que venceriam Vikram e Isabel Kabra.
Nesse momento, o garçom trouxe os pedidos e eles esperaram-no sair, após um sorridente “obrigada” de Amy e Nellie, para continuar a conversa.
— O que acontecerá a ela agora? — Ian lançou, e Amy pode ver em seus olhos que era a pergunta que ele mais queria fazer. — Aonde Sinead levou minha mã… Isabel?
— Ian — Fiske suspirou e entrelaçou os dedos das mãos —, no caminho até aqui, eu entrei em contato com Sinead e Alistair e mandei-a levar sua mãe até Londres, à sede da New Scotland Yard.
O rosto de Ian foi endurecendo à medida que ele assimilava a notícia. Afinal, a mulher era a mãe dele. O fato de que ele não estava mais do lado dela era meio bizarro para Amy, mas ela sentiu uma pontada de compaixão pelo garoto.
— Ela vai ser indiciada? — Ele perguntou. Falava agora com menos polidez, tanto nas palavras quanto na postura, usando menos escudos.
— Não ainda. — Fiske respondeu. — Para isso, serão necessários depoimentos e evidências. Inclusive, vocês guardaram a bala?
— Está com Ned Starling.
— Ótimo. Será extremamente útil para uma análise balística. Enfim, entrarei em contato com o capitão da Scotland daqui para o final do dia, mas garanto desde já que precisarão ver seus queridos primos em um futuro próximo.
— E o meu pai? Ele já está sabendo? — O garoto pareceu nervoso à mera ideia de Vikram ter conhecimento do fracasso e prisão da esposa, ainda por cima quando Ian e Natalie atuaram contra ela.
— Cabe ao detetive do caso informar à família do elemento detido.
— Então ela já vai ser presa? — Amy perguntou.
— Conhecendo minha mãe, — Ian balançou a cabeça — eu diria que conseguirá um Habeas Corpus imediatamente… Os Kabra têm os melhores advogados do mundo, sabe.
Amy revirou os olhos. A última frase havia sido dita com uma leve mancha do antigo orgulho do menino.
— Não se preocupe, Ian — Nellie sorriu. — Os Madrigal também têm.
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