Jovens e Gigantes
3 Um telefonema a Kensington
Do relógio na parede, provinha o único som que preenchia a sala. O silêncio era tal que, não fosse o homem sentado à escrivaninha, poderia-se dizer que nenhuma forma de vida se aproximara do lugar por muito tempo.
A decoração era milimetricamente ordenada: o mesmo espaçamento entre uma caneta e outra, uma cadeira e outra. Do lado de fora da janela emoldurada em seda, o crepúsculo contornava o bairro de Kensington. A atividade da alta sociedade de Londres abrandava com o chegar da noite, apenas para retornar com um perfil diferente dali a duas horas.
Na mesa de mármore Carrara, no centro da sala, descansava um reprodução de Jardim de Luxemburgo, embrulhado em papel pardo. Um colecionador de Bournemouth, cliente regular, desprendera bela quantia por ela. O homem à escrivaninha esperava o comprador para entregar-lhe a obra quando o telefone tocara, havia alguns minutos.
Seu nome era Vikram Kabra. Ele não estava habituado a receber ligações de números desconhecidos diretamente em seu celular. Estas eram geralmente atendidas por Esther, no telefone que ficava em sua mesa, dois andares abaixo. Quando o aparelho começara a tocar, ele havia atendido com a resposta rude já formada na língua:
— Sim?
— Sr. Vikram Kabra? — Uma voz séria viera pelo telefone, irritando o o sr. Kabra.
— A quem interessaria?
— Quem fala é o Capitão Barlow, da New Scotland Yard.
À resposta inesperada, a postura do homem havia mudado instantaneamente. Tensão e interesse se misturaram dentro dele e seus músculos enrijeceram.
Não recebendo resposta, o capitão do outro lado da linha continuara:
— Você é casado com Isabel H. Kabra, sim?
— Sim, sou.
— Sr. Kabra, estou ligando para informá-lo de que sua esposa encontra-se, no momento presente, detida na unidade central da Scotland Yard. Inúmeras queixas foram e estão sendo prestadas contra ela e ela será mantida sob custódia das autoridades até recobrar a consciência ou além. Solicitamos que o senhor compareça à Central em breve.
O Sr. Kabra permanecera em silêncio por alguns segundos. A imagem era simplesmente inconcebível em sua mente.
— Capitão Barlow, foi o que disse? Capitão, minha esposa está, no momento, em uma viagem com meus filhos ao norte da Escócia. — Havia respondido.
— Há algumas horas, poderia estar, sr. Kabra, mas ela foi trazida à unidade há cerca de quarenta minutos em um arranjo bastante excêntrico. E nenhum de seus filhos a acompanhava. Então, se me permite, sugiro que não se demore.
A linha tornara a dar sinal.
Vikram Kabra, o homem que sempre dá a última palavra em todas as conversas, ficara ali, com o smartphone na orelha e o maxilar enrijecido.
Seu primeiro pensamento fora ignorar aquele telefonema absurdo. Isabel Kabra, presa? Tal proposição era tão ridícula que exigia ousadia para afirmá-la. Muitos fatores não se encaixavam. Ian ou Natalie certamente comunicariam-no se acontecesse. Ou a própria Isabel. Algum contato haveria de ter sido feito ao menos com a base dos Lucian em Paris. E os infiltrados Lucian teriam sabido de algo. Não, era tudo muito improvável para ser verdade.
Entretanto, viera logo depois uma suspeita temerosa. Ian, segundo Isabel, vinha tendo comportamentos intrigantes. Falhas de submissão e atitudes simplesmente ímpares. E Natalie parecia estar seguindo o irmão. Lembrando disso, Vikram achara sensato discar o número do filho. Caíra na caixa postal. Repetira a mesma coisa coisa duas vezes, e duas outras vezes não recebera resposta. Tentara o telefone da filha, igualmente sem resultado.
A realidade começara a baixar sobre ele. Ao que tudo indicava, era verdade. Vikram suprimira o impulso de atirar sua escrivaninha na parede oposta e apenas permanecera ali, absorvendo as consequências.
Isabel fora, de algum modo, detida. Alguém estava prestando queixa contra ela — de algo mais recente e pontual ou do histórico em si. Ian e Natalie haviam falhado com ele e com o clã. Eles haviam perdido a Busca pelas pistas. Os onipotentes Kabra haviam sido sobrepujados por alguém. E, mais importante do que tudo, os Lucian não tinham vencido, não tinham o prêmio final, não tinham o domínio sobre o mundo. Tudo pelo que gerações haviam guerreado caíra nas mãos de outrem.
E quem sabia quem eram estes? Pois ele achara desde o começo que Grace Cahill tomara uma decisão estapafúrdia quanto aos competidores pelas 39 pistas, visto que os Kabra eram deveras mais poderosos que todos — com exceção, talvez, de Irina, o que já havia sido convenientemente resolvido —, mas algo claramente havia saído do curso, e qualquer um poderia deter o grande prêmio naquela conjuntura.
Vikram Kabra agora ponderava suas possibilidades, traçava novos planos. Sua reputação estava em jogo, sua Liderança estava em jogo e, muito em breve, sua liberdade também estaria. Se a prisão de Isabel virasse — e viraria — notícia, os negócios, pelo menos a frente deles, esfriariam substancialmente, antes mesmo de as autoridades tornarem-se para ele. Sem o apoio do clã, que certamente perderia devido à falha de sua família na Busca, ele não poderia esconder a maior parte dos… atos dos quais poderia ser acusado pela Scotland Yard.
Nenhuma das estratégias que traçava era atraente, e ele descartou uma por uma. Entretanto, não tinha mais tempo. O telefonema do tal Capitão Barlow fora feito havia quase vinte minutos e o relógio na parede continuava a tiquetaquear.
O Sr. Kabra, enfim, decidiu-se. Abriu umas de suas gavetas e retirou dela sua segunda maleta de couro. Quanto tempo demoraria para ele chegar à mansão, dez, doze minutos? Apertando o botão do telefone que o conectava a Esther, falou bruscamente:
— Avise ao Sr. Cunningham que lamento, mas não poderei entregar seu Matisse pessoalmente. E telefone para o capitão Kemp, mande-o à mansão Kabra imediatamente.
— Sim, senhor, sr. Kabra.
Vikram Kabra guardou seu laptop e levantou-se resolutamente da cadeira. Puxou as cortinas, alisou o seu terno Dormeuil e retirou-se com suas maletas, fechando a porta atrás de si.
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