Journey
1 Uno
Notas iniciais
– Por favor pare de insistir, garoto. Tem mais gente com dinheiro aqui querendo comprar passagem. — O homem da bilheteria argumentava com um menino que não tinha dinheiro para o trem e tentava de todas as formas a gratuidade.
Dean estava na fila, atrás do tal garoto. Não via a hora de pegar logo aquele trem. A cada minuto que passava, um pensamento diferente sobre alguma coisa ruim que poderia estar acontecendo com seu irmão mais novo lhe assombrava a mente.
– Isso tudo é culpa dessa sociedade capitalista em que vivemos! — o garoto começou a gritar — Onde está a humanidade de vocês, onde está...
– Opa, opa, chega. — Dean, impaciente, resolveu interferir — Eu pago a passagem do ativista aqui e vamos logo com isso.
– Tem certeza, garoto? Eu ia chamar a segurança. — O homem da bilheteria disse, tirando um telefone do gancho.
– Pega logo essa droga e me dá duas passagens. — Dean estendeu ainda mais a mão com um dinheiro amassado.
– Você que sabe. — O homem entregou os dois bilhetes a Dean, que os destacou e entregou um deles ao tal garoto. O menino ficou encarando Dean por alguns segundos. Dean olhou para seus enormes olhos azuis e viu que eles estavam úmidos, como se ele fosse chorar a qualquer momento.
– Tá tudo certo, cara — Dean disse, antes que o menino pudesse abrir a boca. Levantou a bolsa com sua guitarra do chão e caminhou para perto dos trilhos, onde o barulho do transporte chegando já se iniciava. Dean colocou os fones no ouvido e foi para perto da porta de embarque.
Aquele era o conhecido "trem da meia-noite". Ponto final e última viagem. O pai de Dean nunca deixou ele andar de trem nesse horário. Provavelmente porque tinha muita gente bêbada e assassinos, Dean pensava. Não que não conseguisse se defender de tais ameaças. Andava sempre com um canivete no bolso e, pelo menos até agora, nunca precisou usá-lo (também esperava nunca precisar, que coisa horrível ter que canivetear uma pessoa). Enfim, só estava a bordo daquele trem naquele momento porque era de extrema necessidade. E principalmente, porque seu pai não sabia. Eventualmente ele ia descobrir, é claro. Dean se achava importante o bastante para darem a falta dele. Mas também, sendo ele praticamente um adulto de 20 anos, era mais provável que seu pai desconfiasse que ele estivesse apenas na cama de alguma vizinha.
– Meu nome é Castiel — os devaneios de Dean foram interrompidos. Era aquele menino de antes, o da passagem. Ele estava estendendo a mão, esperando algum tipo de cumprimento. Dean tirou os fones do ouvido e apertou a mão do garoto.
– Winchester. Dean Winchester.
– Muito obrigado pela passagem, eu juro que vou retribuir algum dia.
– Não esquenta.
Como o assunto parecia ter acabado, Dean colocou os fones de volta. Ficou discretamente passando as músicas no seu celular. Hm, trem da meia-noite. Não era um momento pra ouvir Bon Jovi. Nem Zeppelin, Zeppelin era feliz demais praquilo. Talvez Black Sabbath.
– Você disse que seu nome é Winchester? — Castiel perguntou, inclinando a cabeça — Onde eu já ouvi esse nome?
Dean virou os olhos para um lado e depois para o outro. É, definitivamente não ia conseguir ouvir música naquela viagem.
– Já esteve no Kansas?
– Acho que sim, mas não é isso... — foi interrompido por um barulho de garrafa quebrando.
Naquele momento, dois bêbados começaram a brigar no trem. Castiel colocou os pés no banco e cruzou as duas pernas como se estivesse... meditando? Dean só olhou de rabo de olho e procedeu a enrolar o fone para guardá-lo no bolso. Para sua própria surpresa, aquilo não o assustou. Era como acompanhar seu pai em algum bar, ele sempre acabava brigando e Dean tinha que ligar para seu tio Bobby buscar os dois. Afinal, se o trem da meia-noite, em quesito de frequentação, era equivalente aos passeios que fazia com seu pai, por que ele o alertava tanto quanto ao trem?
– Será que a gente já tá chegando? — Castiel perguntou — Pra onde você está indo, a propósito?
– Eu não sei ao certo. Eu estou, meio que... seguindo uma pessoa. — respondeu com cautela. Não queria começar um desabafo com um completo estranho.
– Então sua mãe sabe que você tá aqui?
– Bem, acho que sim. Ela... morreu quando eu era pequeno. — Em menos de dois segundos aquele garoto esquisito tinha conseguido tocar em dois assuntos delicados.
– E o seu pai, sabe que você tá aqui? — ele prosseguiu, como se não tivesse percebido a nuvem de nostalgia e tristeza que tomou conta da voz de Dean.
– Ahn, não. Onde quer chegar?
– Hollywood. — respondeu sorrindo — Vou achar a solução para meu problema lá.
– Vai tentar o American Idol?
– O quê?
– Sabe, o programa de televisão.
– Ahn?
– Deixa pra lá.
Continuaram a viagem em silêncio. Dean conseguiu até ouvir uma meia hora de música. Eram aproximadamente 03:37 quando o trêm chegou ao seu destino.
Dean pegou sua bolsa de guitarra e saiu do trem.
– E agora, onde você se meteu, Sam?
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