Journey
30 Treinta
Notas iniciais
– Deixa eu ver como ficou, Dean.
Gabriel ameaçava abrir a cortina da cabine onde Dean se trocava.
– Eu não tô pronto ainda.
– Dean, você disse isso há meia hora quando eu perguntei. Sai daí, por favor. Nem a Lady Gaga demora esse tempo todo.
– Desculpa, mas é que essa bota não é exatamente o meu número.
– Bota? — Gabriel fechou os olhos e respirou fundo. Abriu a cortina e encontrou Dean com uma fantasia completa de cowboy — Você tá tentando testar a minha paciência? Essa não foi a fantasia que a gente combinou.
– Eu disse que eu não vou usar aquela fantasia! — Dean levantou-se, confrontando-o — E além do mais, eu nem sei por que eu concordei em usar uma fantasia.
– Por que elas são necessárias! Grr! Olha, você não é exatamente a Céline Dion, as pessoas vão perceber, então vai ser mais simpático e aceitável se você estiver fantasiado. A gente já discutiu isso mil vezes!
– Tá, tá, tudo bem. — passou a mão pelo rosto — Mas não pode ser a de cowboy pelo menos? Cowboys são muito mais legais.
– Menino, olha pra você. É verão, praia, sol, festival e você vai tá lá vestindo um cobertor.
– Ei, não é um cobertor. É um poncho. — os argumentos de Dean se esgotaram — Eu vou... eu vou experimentar a outra, então. Só pra ver como fica.
– Acho bom. — apertou os olhos
Dean voltou para dentro da cabine, emburrado, e Gabriel voltou a olhar roupa por roupa nas araras do enorme camarim. Além dele, só Balthazar tinha a chave daquela sala, e foi por isso que Gabriel deu um pulo quando alguém lhe cutucou as costas.
– Castiel! — a respiração de Gabriel estava acelerada — Menino, você me deu um susto! Eu pensei que fosse o Balthazar.
– Desculpa, a porta tava aberta. — falou sem jeito — Eu só vim porque vocês tavam demorando. Algum problema com o Balthazar?
– Não, mas eu tô tão nervoso com tudo que eu sinto que ele vai aparecer e dar um chilique a qualquer momento. — tirou um pacote de jujuba do bolso de trás da calça e despejou na boca — Eu nem acho que eu vou conseguir dormir essa noite.
– O açúcar certamente não vai ajudar. — Castiel falou — Você deveria tomar um... — foi nessa hora que Dean saiu da cabine, usando um enorme cocar na cabeça, um short marrom com franjas laterais e nenhuma camisa.
Castiel e Gabriel ficaram boquiabertos. O primeiro cobriu os olhos do irmão mais velho.
– Dean, por que você...? — ele estava realmente sem palavras
– Porque seu irmão me odeia. — olhou para os shorts que estava usando — Isso tá muito apertado. Pra onde foi a minha dignidade?
– Nossa, eu acho que eu consigo ver a sua dignidade. — Gabriel disse, olhando por entre os dedos de Cas
– Muito engraçado. — deu um sorrisinho sarcástico — Tá, já chega, eu sei que eu tô ridículo. Parabéns pela sua piada, eu vou me trocar.
– Não! — Castiel gritou, de repente. Dean arqueou uma sobrancelha, mas Gabriel tinha captado exatamente o que se passava naquele ambiente.
– Quer saber? Boa ideia, Castiel. Eu vou lá embaixo tomar um whisky.
– Eu ia dizer chá. — falou, sem tirar os olhos de Dean, o que já estava ficando meio assustador.
– É, whisky, chá, tanto faz. — saiu fechando a porta por trás de si e murmurando para si mesmo — Madonna do céu.
Não deu nem dois segundos que Gabriel saiu da sala, Castiel puxou Dean pelo elástico do short e deu-lhe um beijo, sem nenhum aviso prévio.
– Opa, espera, — Dean interrompeu, ainda bastante confuso — a fantasia... te deixou animadinho?
– Talvez. — Cas levantou as sobrancelhas, como se pedisse desculpas
– Ok. — Dean deu de ombros — Prossiga.
E então, Castiel continuou com o beijo e Dean foi correspondendo, pegando as mãos do moreno e colocando em suas costas. Cas segurou Dean com mais firmeza e o colocou contra a parede, fazendo o cocar cair no chão. O barulho fez com que os dois abrissem os olhos, mas em vez de olharem para o objeto no chão, ficaram olhando um para o outro, ofegantes.
Cas começou a beijar o pescoço de Dean e foi aos poucos descendo pelo seu corpo, deixando o loiro arrepiado.
– Cas, o Gabriel vai voltar a qualquer momento... — Dean disse, assim que Castiel chegou nas partes quentes, mas ele não lhe deu ouvidos. — Ai, Cas... — Dean então fechou os olhos e acariciou os cabelos escuros do outro, desistindo de reprimir qualquer sensação.
***
Sam, Ruby e Lucy desceram do palco em silêncio. Aquele tinha sido o último ensaio antes do festival e graças a falta de ensaios, eles sabiam que não estava nada bom. Dean acabou usando uma roupa normal até que Gabriel pensasse em outra coisa melhor, já que a fantasia de índio tinha "acidentalmente rasgado". Cas quase teve um treco quando Dean começou a tocar Stairway to Heaven no ensaio, mas logo eles se acertaram com o setlist.
O ponto é que ninguém estava muito feliz naquela última noite antes do festival, mais precisamente durante o luau. A praia estava decorada com bandeirinhas bonitas e havia uma fogueira acesa. Havia ainda várias almofadas e toalhas espalhadas, com pessoas conversando e tocando violão. Todos usavam roupas brancas e alguns, flores na cabeça.
– Cara, essa festa tá uma droga. — Ruby suspirou
– Eu odeio concordar com você, Ruby, mas olha, — Lúcifer apoiou o queixo na mão — não tem nem bebida.
– Ai, tá chegando, gente. — Gabriel apareceu com duas garrafas de champanhe na mão, que Lucy e Ruby logo tomaram para si e levaram para longe. Sam ficou olhando para Dean, Cas e Gabriel, pensando se seria muito rude levantar também, mas Dean fez um sinal com a mão, dizendo que ele podia ir.
– Dean, você não presta. — Gabriel suspirou alto — Sério, o que você tem contra mim?
– Ele tem dezesseis anos, Gabriel. — falou bem sério — Ele nem terminou o ensino médio ainda. E você aí com trinta anos na cara.
– Vinte e seis. — olhou para Sam ao longe, caminhando com os outros dois e suspirou outra vez — Dez anos não é tanto assim. E eu posso esperar o quanto ele quiser. Vamos lá, Castiel, traz um pouco da sua sabedoria hippie pra nossa conversa.
– Bem... — Castiel coçou a cabeça — Eu acho que é a idade do espírito que conta, sabe, o que importa é o encontro das almas.
– É, eu vou considerar isso como uma mensagem de apoio. — Gabriel respirou fundo e Dean deu uma risadinha — Quer saber? Eu vou dar uma olhada na mesa de doces. Volto já.
Dean distraiu-se com a música que o cara do violão tocava e Cas ficou desenhando coisas na areia.
– Então, você quer dançar? — Dean propôs.
– Você dança, é? — Castiel o encarou e riu — Eu não sei, eu tô cansado.
Mas não era bem cansaço. Aquela era a última noite que passariam juntos e nenhum deles queria falar sobre isso. Nenhum outro assunto parecia tão relevante quanto, deixando os dois em completo silêncio e sem ânimo nenhum.
– Dean? — Cas quebrou o silêncio — Eu acho que aquela moça tá olhando pra você.
– Que moça? — Dean virou a cabeça e a angústia lhe corroeu por dentro. Era Anna.
– Aquela de cabelo vermelho. Vocês se conhecem?
– Ela não tá olhando pra cá. — Dean fugiu da pergunta.
– Só tem a gente aqui desse lado, ela tá olhando pra você sim.
– Por que ela estaria olhando pra mim? Você é o mais bonito daqui.
Anna levantou-se e veio andando na direção dos dois. Era o fim. Dean não queria que tudo acabasse daquele jeito, mas no momento que ela acenou, já estava tudo perdido.
– Oi, você. — ela puxou Dean pela gola — Você quer dançar?
– Eu... — ele olhou para Cas, como se tentasse justificar alguma coisa, mas por alguma ironia do destino, ninguém nunca conseguia interpretar seus sinais direito.
– Ele quer sim. — Cas respondeu, recebendo um olhar de reprovação de Dean — O que foi? Eu não quero te prender aqui. Eu vi que você estava gostando da música, vai dançar.
– Mas Cas... — Dean lançava olhares de socorro, mas Anna já havia o puxado para perto da fogueira e do violão.
Não era nada disso que Dean queria. Só queria poder aproveitar o resto daquele dia ao lado de Cas, mesmo que fazendo nada.
Eles não dançaram por muito tempo. Dean tentava se afastar todas as vezes que Anna chegava perto. Volta e meia, olhava para Castiel, procurando uma face de reprovação, mas nada. Dean então engoliu em seco e aceitou o seu destino.
– Menino, você tá cego? Tem uma ruivona dando em cima do teu bofe. — Gabriel voltou da mesa de doces, com um palitinho com frutas cobertas de chocolate.
– Eles só estão dançando. — Castiel deu de ombros — Você sabe que eu nunca fui ciumento.
– Rá. — deu uma mordida no doce — Fica olhando por dez segundos e me diz que você não sente nem uma fagulhinha de ódio.
Castiel olhou e viu Dean encarando a moça nos olhos.
– Eu não chamaria isso de ódio. É só... um desconforto. Não importa.
– Não importa, é? — Gabriel provocou e gargalhou ao ver Cas correndo em disparada.
– Ei — Anna virou o rosto de Dean para si — Para de olhar pro seu amigo. Tá tudo bem, eu vou te devolver pra ele depois. — ela riu, mas Dean não riu junto. Ele precisava dizer alguma coisa para sair dali da maneira mais sutil possível.
– Ele é meu namorado. — acabou entrando em pânico e dizendo tudo de uma vez — Desculpa.
Anna parou de dançar.
– Mas... — ela parecia bastante chateada — Mas você me beijou. Você...
– Gay? Não exatamente. Eu sou...
– Você traiu ele comigo? — ela completou a frase — É isso, Dean?
– O quê? — Cas estava parado, do lado dos dois, com os olhos cheios d'água, que se recusavam a desabar.
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